De tempos em tempos me vem a vontade de ver o que anda acontecendo em minha terra natal. Outro dia, navegando pela net me deparei com o site de um jornalista chamado Thiago Gardenali e tive uma surpresa. Na verdade duas. A primeira é que ele apresenta um programa de TV na cidade de Limeira e a segunda foi em relação ao nível do programa. Thiago Gardinali é um grande jornalista e faz jornalismo de primeira. Sempre muito bem vestido e com uma articulação bucal de fazer inveja, ele por duas horas se empenha a informar a cidade das coisas mais importantes, fatos realmente fundamentais para a vida dos cidadãos. Isso porque, repito, Thiago Gardenali é um grande jornalista. Sabe informar, opinar, dizer as horas, falar com o sujeito da câmera e muitas outras coisas.
O programa se chama "Em cima do fato", mas posso garantir que Gardinal não se limita a estar em cima, mas se encontra também na frente, atrás, dos lados e em baixo do fato também. Grande jornalista.
Nos programas que assisti, pude notar que em um grande jornalista como Thiago Gardeneli, cabe também o senso de humor. Inúmeras as vezes que me fez rir de quase rolar pelo chão.
Notei também que entre os seus muitos predicados, um dos maiores é o da inovação. Ele, como grande jornalista que é, introduz nomes de lojas, fábricas, barbeiros e açougueiros no meio do programa e isso se constitui em um grande serviço de utilidade pública. Informação de primeira. Ou seja, ele transforma até publicidade em jornalismo, um mestre.
Pessoa boa e compreensiva, caridoso e fiel aos amigos, nunca deixa de cumprimentar com um aceno um cego que passa, ou ajudar uma velhinha a atravessar a rua. As velhinhas da cidade quando o vêem já correm para a esquina, na esperança de um seu abraço. Porque além de grande jornalista, ele, devo reconhecer, é um homem bonito.
Que mais dizer? É humano com os presos e sabe perdoar os que erraram. Demonstra grande capacidade e cultura, tratando dos mais variados assuntos da atualidade, porém tendo sempre o ser humano como ponto focal. Penso que além de grande jornalista, o indicaria a um cargo no ministério leigo da santa igreja católica.
Digo sem medo de errar que Gardinali figurará na història do jornalismo brasileiro ao lado de nomes como Claudio Abramo, Alberto Dines, Carlos Castello Branco, Mino Carta, Carlos Heitor Cony, Villas-Bôas Corrêa, Fernando Sabino, Elio Gaspari, Paulo Henrique Amorim e Jânio de Freitas. Mas Gardenali não é pouco, leva ainda uma grande vantagem em relação a todos eles: ele tem diploma de jornalista. Grande jornalista.
Sabe quando o cara quer fazer bonito, dar o melhor de si mas como ele é um bosta, o melhor dele estraga tudo?
Na semana passada um fato de crônica policial, chamou a atenção por isso. No tribunal de Rovereto, aqui pertinho, o advogado de defesa de um caso de abuso sexual se levantou para expor seus argumentos. O seu assistido tinha apalpado longamente a bunda da vítima. Era reincidente. Na primeira vez, semanas antes, o alvo eram os seios. Ele lembrou ao senhor juiz que a vítima, uma senhora de 40 anos, era brasileira. Isso posto, continuou, "seja pelo fato de que as senhoras dessa origem tem atributos físicos notáveis e não lhes esconde, seja também que por esse mesmo motivo e por fatores culturais, estejam acostumadas com esse tipo de "aproach" o meu cliente deve ser inocentado. Até porque ele simplesmente reagiu a uma provocação e oferta de cunho sexual. Ela chegou a declarar até o preço".
O juiz ouviu tudo, olhou para a vitima, uma senhora respeitada, que vive e trabalha há anos na região e se veste em modo absolutamente adequado à morfologia local e proferiu a sentença:
Em geral, casos desse tipo não são considerados de grande gravidade e as penas variam de uma reprimenda a trabalhos de cunho comunitário, ou pequenas multas. Porém, a partir da argumentação da defesa, ajunta-se ao fato de agressão o de preconceito racial. Portanto nesse caso a pena é de 2 anos de reclusão mais 8 mil euros de ressarcimento de danos morais.
Imaginei lendo a noticia o que devem ter pensado a vitima e o acusado. Esse, no minimo deve estar planejando o próximo encontro com o advogado daqui a 2 anos.
E então a formiga passeava pela savana africana, quando encontrou o enorme elefante:
-Você seria capaz de usar da força e prepotentemente se valer de seu tamanho avantajado para me esmagar de modo covarde e inútil somente por um capricho de poder?
Quando a frase que ouvi no rádio "o amor está no ar" se encontrou em meu cérebro com a frase estampada no jornal "o ar do centro continua poluído", elas cresceram e se multiplicaram, tiveram muitos filhos, todos deformados.
No começo do ano saiu no jornal local: O novo filme de 007 será todo feito em Riva del Garda o que vai representar uma enorme publicidade grátis para a região. Vai beneficiar o turismo e etc etc. Nas ruas: hmmm, que beleza, bom, e tal e coisa.
Depois de um tempo mudou um pouco a noticia. Não seria todo o filme mas algumas cenas. E não seria somente em Riva, mas pelas estradas do lago, em outras cidades inclusive. Mas tá bom demais, beleza. Publicidade, prestigio, milhões para o turismo. Pelas ruas: é, mas, de qualquer forma, tá bom, beleza.
Mas umas semanas mais tarde, alguns detalhes o jornal estampou: algum dinheiro foi pago à produção e as cenas seriam apenas de uma perseguição pela beira lago. Já se ouvia: beh, pagar?, mas que coisa.
Passa uma semana e o diário revela: o ator principal não chega nem perto de Riva, muito menos o diretor. A que vem é a unidade secundária, encarregada apenas das cenas de ação com dublês e pior, se prevê que um caminhão em chamas termine a perseguição afundando nas águas do lago. Além disso, a estrada vai estar fechada por dez dias. A vizinhança estrila: mas o que?, caminhão em chamas?, estão loucos?, pagar pra poluir o lago?, estrada fechada?, mas que cazzo.
Protestos por todos os lados. Esse ingleses estão nos achando com cara de palhaço. Vem aqui, dizem que vão fazer o filme etc e depois é só caminhão no lago. Porcos desgraçados e tal e coisa.
Mas chega o período das filmagens. Os ingleses chegam. O jornal sai com letras gigantes: "007 está entre nós" tendo por baixo a foto do ator que na verdade não veio mesmo. Nas ruas as pessoas buscam informações: você viu quanta coisa eles trouxeram?, o meu sogro vai fazer figuração, que beleza, maravilha. Além disso vão botar uma rede para que o caminhão não caia dentro do lago. Ahhh, bom.
No sábado passado um dos motoristas da produção, ao levar o famoso Aston Martin de 150 mil euros para o local das filmagens, voou a quase 200 por hora e foi parar onde? dentro do lago. A 53 metros de profundidade. Conseguiu escapar com muita sorte e em duas semanas estará bom de novo. Mas o pessoal se agitou: mas não era caminhão?, mas era o carro do herói que foi pro saco? como seria isso?
O acidente atrasou um pouco a realização, mas foi-se adiante. Porém hoje, outro Aston Martin idêntico, esse já com dois dublês em plena ação também rompeu o sólido muro de pedra e foi parar.... adivinhe... sim, no lago. Putz. Até que metam esse caminhão lá pra baixo vão destruir uns cinco desses carrinhos e todos fora da rede pelo jeito. Um dos dublês está no hospital em graves condições. Agora vou sair pra ouvir a voz das ruas. Mas que cazzo de filme pé frio.
Amanhã é o dia da terra. O planeta. Esse que está bem em baixo de voce. Se puder, faça uma visita aqui e veja o que rola nesse sentido. No final de semana pretendo fazer um balanço de um ano de "idéia 38".
Flavio Prada. Riva del Garda, Trento, Itália. Vamos deixar claro que não obstante a vocação confessional do weblog, nunca tratarei de casos particulares. Outrossim, data venia, de acordo com a lei que regula matéria em questão de privacy que neste momento
recorro, posso deixar vazar alguns indícios de vida pessoal nas entrelinhas e somente para bons entendedores.