Existem coisas que nós fazemos da pior maneira possível e sequer notamos os problemas que estes hábitos acarretam. Ou melhor, na maioria das vezes criamos, mesmo que involuntariamente, estes problemas para os outros e não para nós mesmos (a não ser que você seja um masoquista que goste de criar problemas para aumentar o seu sofrimento).
Fetiches à parte, vou (mais ou menos) direto ao ponto: disseminação conteúdo.
Você, leitor, suponhamos, escreve algo genial e resolve publicar para o mundo. Perfeito. Vai lá, abre o Word escreve tudo bonitinho e manda para os seus colegas, anexa em emails ou coloca em seu site/blog para download. Certo?
Espera-se que o conteúdo seja acessível por todos e justamente por este nobre motivo é que o leitor, em nossa suposição, divulga das formas citadas acima aquilo que acabou de criar. O problema é que eu, ao obter uma cópia deste arquivo, não poderei visualizá-lo a não ser que eu me valha de uma cópia Office e, também, do Windows.
Você me dirá, então, que todo mundo tem esses softwares em seus computadores e isso não é problema.
Bem, eu não tenho. Nenhum dos dois. É justo que, por ter optado ficar longe de programas de baixa qualidade como os que citei, eu não possa acessar o conteúdo?
Eu sei que há uma parcela de exagero (justificável!) em meu discurso e que eu consigo, de fato, visualizar a grande maioria dos documentos veiculados em formatos proprietários por meio de programas livres como o BrOffice ou aplicativos online como o Google Docs. Ainda assim, há recursos específicos ou mesmo padrões internos que não são reproduzíveis por quaisquer outros programas senão o próprio Office. O que, neste ponto, deixa de ser um problema só meu e passa a ser também do próprio autor que terá seu conteúdo visualizado de forma pouco satisfatória ou mesmo errada. E como dizem por aí aqueles ditados sobre a primeira impressão ser a mais importante e a que fica eternamente registrada em nossas retinas, bem, isso passa a ser desagradável para ambas as partes.
E este problema é extensível para quase qualquer mídia. Coloque um vídeo em seu site num formato do Windows (wmv) e garanto que alguns não conseguirão assisti-lo.
Um exemplo perfeito disso é o site Porta Curtas, patrocinado pela Petrobrás e que está lá funcionando, também, por meio da Lei de Incentivo a Cultura, do Ministério da Cultura. Ou seja, dinheiro público patrocinando uma empreitada cultural e importante como essa.
Agora eu pergunto: onde está o propósito em utilizar um dinheiro que é de todos se a forma pela qual o conteúdo é veiculado impede que uma parcela considerável da população possa acessá-lo?
Eu me sinto frustrado por não conseguir ver um vídeo sequer daquele site. E há muita coisa boa por lá.
(Tá, com um certo esforço e conhecimento dá pra acessar. Porcamente, mas dá. A questão é que a maioria das pessoas não tem muita habilidade nesse meio e simplesmente são privadas da informação, que deveria estar disponível para qualquer um)
Eu tenho liberdade para escolher o sistema operacional e os programas que rodam em meu computador. E é justamente por isso que existem formatos padrões que qualquer máquina minimamente utilizável é capaz de entender. Tomemos como exemplo este próprio blog: você está lendo e vendo tudo direitinho, não? Pois é, é por que há um padrão (em verdade, vários) que todos os navegadores precisam entender para te mostrar as páginas que você visita.
Convencidos?
Pois bem, não peço que arranquem brutalmente o Windows e o Office de suas máquinas (embora isto fosse desejável e benéfico para toda a humanidade), mas que apenas tenham consideração pelos outros e consciência de que nem todo mundo terá acesso à formatos proprietários que, apesar de serem extremamente populares e, por isso, alguns até concluem que sejam padrões para documentos, só existem para perpetuar a necessidade de utilização de determinados softwares pagos e o monopólio induzido por estes.
OpenDocument é o padrão para documentos, por exemplo.
No entanto, você pode ainda usar o Word da mesma forma como sempre usou, basta não salvar seu arquivo como doc e optar por outros formatos de documento como o RTF, que apesar de ser da Microsoft é legível por qualquer processador de textos decente, ou mesmo exportá-lo para PDF, o que assegura que ele será visualizado exatamente da mesma maneira por qualquer um.
E outra, formatação de texto é um negócio geralmente desnecessário. Se você quer escrever um pequeno poema ou alguma coisa que não exija letras coloridas e mau gosto, basta simplesmente abrir o Bloco de Notas ou equivalente e salvar como texto plano (txt). Quase qualquer coisa dotada de um monitor é capaz de reproduzir texto puro e simples. Outra vantagem é que se trata de um arquivo mínimo e que contém somente o conteúdo, mais nada, ao contrário de outros formatos que carregam consigo muitas outras informações e são, por isso, bem maiores.
Como, então, divulgar vídeos? Mande para o YouTube e pronto. Senão basta salvar como MPG ou AVI e evitar o famigerado wmv. Isso é um grande favor que se faz para todos nós.
A questão aqui, como eu já disse, é garantir que qualquer pessoa tenha acesso ao conteúdo da forma como ele foi concebido e sem mais complicações. O conteúdo deve ser livre e, para isso, é preciso saber qual é a forma correta para veicula-lo. Não sigam o mau exemplo do Porta Curtas e de tantos outros por aí (aliás, se alguém souber de um bom site de curtas com o conteúdo acessível, eu agradeço).
Mais links sobre o assunto (em inglês):
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Um artigo similar que escrevi: Alzheimer Digital.