Uma coisa que nunca entendi é a obsessão da polícia, dos bombeiros ou mesmo da maioria das pessoas em impedir suicídios.
Até compreendo que o pessoal do corpo de bombeiros esteja habituado a salvar vidas e que talvez não possam controlar o impulso de exercer sua profissão mesmo quando a pessoa quer dar um fim na própria existência. Mas, ora, qual o problema em deixar o sujeito se matar?
Encontrei, cá nas minhas coisas, uma notícia de 12 de março deste ano que eu devo ter guardado justamente para usar num artigo sobre suicídio. Reproduzo-a:
A polícia espanhola evitou pela internet um suicídio na Alemanha ao avisar colegas alemães de que um homem ameaçava, em uma sala de bate-papo, se matar.
Morador de Bremer Haven, o homem apontava uma pistola para a sua cabeça enquanto conversava no chat e disse que o motivo do descontrole emocional era ter sido abandonado pela mulher.
Segundo informações das autoridades, a ameaça foi feita na quinta-feira. Um policial entrou no chat para falar com o potencial suicida, ganhando tempo para que os policiais alemãs chegassem à casa do homem.
Internautas espanhóis que participavam da conversa alertaram serviços de emergência que, por sua vez, avisaram a polícia alemã, que chegou a tempo de evitar o suicídio.
Fonte: Folha Online
Ora, pra que ir "salvar" uma pessoa que quer morrer? Isso não faz sentido algum.
E o ditado do "cão que ladra, não morde" se aplica perfeitamente aqui: se um cara entra numa sala de bate-papo dizendo que vai se matar, esta, provavelmente, vai ser uma das últimas coisas que ele irá fazer. O sujeito quer atenção.
Quem se mata geralmente não faz muito alarde. Às vezes escreve uma carta ou deixa um recadinho e é só. Depois pula, se enforca, toma veneno, atira na própria cabeça. São esses os corajosos, pois não precisam de holofotes.
De qualquer forma, ainda me parece estranho o desejo alheio em impedir que alguém se mate. Mas vamos por partes.
Em (quase?) todos os lugares do mundo, matar uma pessoa é crime. Mas se a pessoa que irá ser morta é justamente a mesma que irá matar, o crime e o castigo já não estarão, ao mesmo tempo, presentes no ato suicida? Ou seja, a dívida pela morte já estaria paga (e bem paga!) Ou seria a preservação da vida um castigo para um acusado de tentativa de homicídio de si mesmo?
Não é conveniente pintar o suicídio como algo abominável para evitar que esta se torne uma escolha comum e até popular entre os desgostosos? Não vale a pena, do ponto de vista do sistema, manter vivos até mesmo os que não o desejam para que usufruam de sua infraestrutura? Não seria, por fim, o suicídio a mais eficaz das armas contra a própria sociedade -- tendendo ao absurdo de fazê-la sucumbir assim que o último homem se jogasse ao abismo?
Ou ainda -- agora serei maldoso --, as autoridades que se julgam na obrigação de manter as pessoas vivas não estariam impedindo o suicídio por serem coniventes com o pensamento possessivo e chantagístico das famílias dos infelizes que, pouco depois de perderem o ente "querido", simplesmente encontram-se solitárias e só fazem repetir para si o seguinte questionamento egoísta: "por que ele fez isso comigo?"
Ignoram que o desgraçado do morto fez o que fez, na maioria das vezes, por não suportar a própria família e supostos amigos que, ironicamente, são os que vão chorar (e por pouco tempo) não pela morte dele, mas por sentirem-se um tantinho vazios. Chega a ser cômico, vendo desta forma.
Então eu pergunto novamente: para que cercear o direito que temos de findar com nossa própria existência?
Não faz sentido.
Entretanto, eu concordo que, em certos casos, a intervenção é necessária. Por mais poético e cinematográfico que seja, jogar-se do alto de um prédio ou de um viaduto, por exemplo, não é um ato exclusivamente individual e solitário. A pessoa não terá, obviamente, consciência disso, uma vez que, se a construção de onde saltou tiver altura considerável, estará morta e não terá como se desculpar caso caia sobre um automóvel ou um transeunte. Deve-se levar em conta, também, que a preocupação com os outros quando se está a dezenas de metros do chão e prestes a saltar é algo que deve passar longe da cabeça de um suicida.
Sendo assim, é melhor que as autoridades já citadas agarrem o sujeito -- que provavelmente nem iria pular, pois só queria atenção -- e ensinem a ele formas alternativas e seguras de se matar: seja receitando venenos eficazes ou dando lições de como confeccionar uma forca ideal. O que importa aqui é que ninguém mais se machuque.
Voltemos, então, ao alemão da notícia. É plausível dizer que o sujeito estava sozinho em casa, já que estava se lamentando via internet, o que é bem patético. Desta forma, com a arma apontada na direção de sua própria e provavelmente escassa massa encefálica, as chances de outras pessoas se ferirem eram, podemos supor, ínfimas.
O policial que entrou no bate-papo para "ganhar tempo", como nos diz a notícia, deve ter se assegurado deste e de outros tantos detalhes. Bastaria, então, que dissesse para o sujeito puxar o gatilho de uma vez por todas, ora!
Estamos falando de um adulto que pode muito bem (ok, talvez mais ou menos bem) cuidar do próprio nariz. Ou atirar contra ele, se bem entender.
Enfim, já me demorei demais neste assunto. Sequer vou comentar sobre os incompetentes que já tentaram e não conseguiram se matar. Reservem, pois, alguns segundos de suas vidas para pensar na magnitude da frustração de um sujeito que, completamente infeliz, está fadado a vagar entre os vivos até que o destino diga o contrário. Imaginem o estado psicológico de alguém que levou a sério o odioso "se mata!" e que voltou para contar a história do fracasso...
Mas antes de encerrar, digo-vos que o título deste desalmado artigo refere-se ao belíssimo poema "Se te queres matar, porque não te queres matar?", de Álvaro de Campos, que foi escrito no dia em que se completavam dez anos do suicídio do poeta e grande amigo de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro.
Reproduzo-o aqui como um nobre complemento ao assunto exposto.
Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...
Álvaro de Campos, 24/04/1926.

"Quem se mata geralmente não faz muito alarde".
Uma vez li uma pesquisa que dizia que a maioria dos suicidas havia dado alerta antes. Isso, obviamente, não significa que quem chama a atenção antes vá cometer suicídio depois, mas simplesmente que, daqueles que cometeram suicídio, a maioria deu sinais de que o faria.
De qualquer forma, não sei onde vi isso e TU VAI TER QUE ACREDITAR NO QUE EU DIGO. heheeheh
Abraço.
Mas estes sinais ou alertas não seriam justamente as cartas, recados, telefonemas ou qualquer outro meio menos espalhafatoso de veicular as "últimas palavras"?
Por alarde eu entendo aquela dramatização completa, com público e cheio de ameaças, onde o sujeito vai repetindo "Eu vou pular (ou atirar)! Eu vou!" até que um bando de fardados o agarrem e acabem com a palhaçada.
A intuição e "experiência" me dizem que a maioria desses atores frustrados não morrem não. hehehe