No fim de setembro deste ano, o YouTube lançou um concurso de curtas chamado Project Direct, cujo objetivo é escolher os melhores filmes de ficção produzidos pelos usuários -- com no mínimo 2 e no máximo 7 minutos de duração.
O período para enviar os curtas terminou no começo deste mês e o pessoal do projeto escolheu os 20 melhores que agora estão participando de uma votação por parte dos usuários do site. O vencedor ganhará uns 5000 dólares e um convite para um festival de cinema em solo ianque.
Pois bem, eu não estava acompanhando o concurso, mas segundo a Folha, dentre os 20 finalistas, há um único filme brasileiro, chamado Laços (ou "Ties", para os mais chiques. É esse que está aí em cima). Deve ter sido difícil chegar até lá, eu pensei, mas daí eu continuei lendo a matéria e uma coisa me incomodou um pouco:
Flavia Lacerda [diretora do filme] trabalha como diretora de novelas e programas da TV Globo, tendo no currículo produções como a série "Sexo Frágil" e a novela "Belíssima". O roteiro é de Adriana Falcão, que também trabalha para a Globo e atualmente escreve roteiros para "A Grande Família".
Opa! Profissionais globais brincando no YouTube? Não seria uma disputa ligeiramente desleal com os outros reles usuários?
Daí fui ver o bendito filme -- e aconselho que você o faça agora, antes que eu comece a falar e acabe com a pouca graça que ele tem -- para tirar a prova dos nove.
O curta começa com uma garota bem bonitinha, que é a filha da roteirista e quem teve a idéia de fazer o filme -- e se eu quisesse ser mais maldoso, poderia dizer que foi ela, também, quem foi pedir um roteiro pra mamãe --, correndo com certo desespero pela calçada.
E o ponto alto do filme é esse mesmo. Não só pela cena da fuga, que é razoável, mas porque, enquanto ela corre, aparecem alguns créditos, entre eles o da trilha sonora: uma música chamada "Australia" que, segundo consta, foi composta e interpretada pela atriz. Embora não faça o meu estilo, ponto pra ela.
O curta perde a graça depois do primeiro minuto. A música acaba, Clarice volta para pegar uma das incontáveis de rosas que foi deixando cair pelo caminho e, quando vai retomar o sentido de sua corrida, um susto!, dá de cara com um estranho.
Começa então um diálogo digno de filmes melosos, daqueles que dificilmente aconteceriam no mundo real e que nos revelam que a roteirista não quis fazer algo verossímil, mas sim flertar com diálogos mais, digamos, pseudo-filosóficos.
Clarice até que interpreta mais ou menos bem sua personagem, mas seu companheiro não. E fica daquele jeito: enquanto eles repetem o que está no roteiro, dá até pra ver os clichês no canto da tela esperando para entrar em cena.
A história, em resumo, é que o sujeito quer que alguém dê um nó em sua gravata pomposa enquanto ele fica repetindo metáforas sobre laços, vida, tristeza, etc. Ela, que está fugindo do funeral do pai, se sente tocada pelas frases do rapaz e vai amolecendo.
Uma coisa que incomoda, além da sensação de "mais do mesmo", é a repetição excessiva do mesmo tipo cena: eles vão andando pela calçada e um deles pára. O outro dá mais alguns passos adiante e pára também. Daí este volta até aquele, falam mais besteiras e continuam a andar. E, em alguns segundos, tudo isso acontece de novo.
O final é bobo demais e me recuso a falar sobre ele.
Ao menos meu incômodo inicial se desfez: apesar de contar com profissionais, o filme é muito fraco. A parte triste é que se isso é o melhor que nossos conterrâneos conseguiram fazer, estamos com problemas. Mas por alguns filmes que já vi e que venho mostrando aqui nas últimas semanas, penso que a seleção do concurso deve ter sido ruim e que o pessoal realmente bom não quis se enfiar nessa.
Não vi os outros 19 finalistas e confesso que perdi o interesse em fazê-lo. Os comentários no YouTube sobre o "Laços" são bem desanimadores, com confissões de gente que diz que achou o filme lindo, excelente, genial, extraordinário e que até chorou (!!!). E não estou exagerando, tudo isso está lá mesmo.
Por fim, destaco um dos comentários brochantes que vi agora:
Parabéns! vocês foram geniais, mostraram para esses depravados do cinema nacional que vídeo depende de criatividade e não da sexualidade.
Tenha dó, hein, rapaz...

Tive a mesma impressão que você. A idéia dava a impressão de ser boa. O filme parecia que ia tocar. Parecia. Não tocou. Não arrepiou. Começou com expectativa e terminou com decepção. A Adriana Falcão é capaz de coisas melhores que essa. O atorzinho é sofrível.
otto
Voce pudia ir lá e fazer melhor né, ao inves de perder tempo criticando os comentarios dos outros
Veja, Paula: isso não é uma competição. E mesmo não sendo difícil "ir lá e fazer melhor", eu prefiro perder meu tempo aqui. Agradeço o conselho tão pertinente.
Só esqueceram (ounao ligaram) de informar que nenhum dos atores são profissionais, tanto em teatro como em cinema em si.
E eu não entendo por que existem pessoas que se dizem críticos (ou se não se auto intitulam, ao menos possuem a pretensão de escrever tal crítica) pelo simplese prazer de emitir uma opinião degradativa sobre o filme. Sim, só pra falar mal dele. É, eu sei, estamos na democracia e viva a liberdado de expressão, uhul, mas fala sério. Prazer em falar mal do filme.. meu deus.
O filme é fraco, todo mundo acha lindo, mas alguém tem que fazer o
trabalho sujo.
De qualquer forma, minhas fontes de prazer são outras (filmes bons,
por exemplo).
Ameiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii o filme....
A crítica tem a função de falar bem ou mal de algo que observou e avaliou, contudo, a essência de algo que está sendo avaliado como obra não está no ato de falar se foi bem ou foi mal e sim na sensação que esse objeto de avaliação causou. Literatura é uma forma de ver o mundo através do discurso de outro, portanto, cabe a este inferir na obra à sua maneira através do seu conhecimento de mundo e não por uma análise técnica.
Os elementos e a interpretação no curta “Laços” não são tão importantes quanto o sentido transmitido pelo filme. O fato de não atuar bem não significa que o conteúdo do filme é fraco, muito pelo contrário, falar bonito e não atuar conforme manda um roteiro não é natural, é apenas conveniente. Veja bem, já pensou se o CAZUZA tivesse escrito “Quem sabem eu ainda seja uma garotinha…” em vez de “Quem sabe eu ainda sou uma garotinha…”? O impacto que a música “Malandragem” seria o mesmo? Acredito que não. O mesmo ocorre no filme “Laços”. Os elementos do filme foram a essência do seu objetivo. Talvez se os atores fossem conhecidos e o cenário fosse “global” o efeito não seria o mesmo. Sendo assim, é hipocrisia criticar esse filme como fraco.
Bem, não conheço esse site e nem quem publicou a crítica, achei pelo Google mesmo, mas fiquei feliz em ver uma crítica tão pessoal e pouco profissional em contraste com a premiação em 1o. lugar do filme Laços. Hahahaha! É tão bom quando isso acontece, quando alguém que "se acha" é contrariado. Parabéns a todos de Laços e abaixo os críticos como desse site, pois eles só servem para que o público siga inversamente as opiniões deles. Sempre funciona :).
Também tive a impressão de "vai ser bom" e me decepcionei. Como um cara daqueles pode atuar!?!?!??! Até relevo o fato da produção ser amadora, dele não possuir as técnicas, mas ele estava praticamente lendo as falas!
Foi no mínimo estranho ver que tanta gente elogiou o filme. Ser hipócrita é gostar do ruim no meio de outras ótimas produções em um site como o YouTube.
@Vivaldo: Se o roteiro é fraco, o filme é fraco. E este é o caso. A má atuação é só um agravante.
O roteiro é fraco.
O ator interpreta mecanicamente.
A atriz não convence no diáologo. Nas cenas em que corre se saiu bem.
A História tem um ar de pseudo-filosofia mesmo, não me disse nada.
Ruim é minha nota. Fosse uma criação de adolescentes em experiência daria pra chamar de filme ingênuo. Tivesse bom conteúdo e má interpretação daria pra perdoar a direção considerando as razões. Mas assim, ficou entre o mal acabado e o vazio.
Sinceramente é uma pena que os bons filmes brasileiros por alguma razão não tenham sido escolhidos. Mas num mundo onde um festival de música popular brasileira (lembram do último realizado e veiculado pela Globo?) é ganho por um filhinho de papai sem talento; num mundo onde o presidente dos Estados Unidos ganha a eleição roubando (Bush x Algore); num mundo onde a canalhice a hipocrisia a alienação e a completa falta de identidade predominam, porque se escandalizar com mais uma bobagem?
Está claro que a comunicação não é o mais importante para os falantes da língua portuguesa, por isso que o Brasil não sai do lugar. Ricos e espertos ficam mais ricos e hipócritas assumem o papel de donos da verdade. A mensagem do filme de certa forma foi passada. O impacto nos sentidos foi percebido. Se uma pessoa que se diz “Crítico de arte” e não nota os detalhes, com certeza não sabe nada a respeito da verdadeira essência do belo. O filme mereceu ganhar pelo fato de obter os votos para isso e se ele conseguiu essa meta foi porque mexeu com os sentidos dos que votaram nele.