Existem certas palavras que são intraduzíveis.
Os mais sentimentais adoram repetir que "saudade" é uma delas, como se fossemos os únicos que sentem saudades de alguém, de algum lugar ou de alguma coisa. Ou melhor, fazem parecer que sentimos tanta saudade, mas tanta saudade, que precisamos de uma palavra específica só para mostrar isso.
Tudo bem. Mas também temos outras palavras e expressões interessantes que, se resolvermos seguir o emotivo raciocínio da "saudade", explicam um pouco do nosso jeitinho.
Tomando como referencial a língua do colonizador -- é, o inglês --, este artigo listou algumas dezenas de palavras que não têm correspondente no idioma do Bush. E são muitas mesmo.
Em português, temos três: cafuné, pesamenteiro e a expressão ir à fava.
A primeira todos conhecem, fazem ou recebem. Dispensa comentários. E os estadunidenses, frios e paranóicos, não entendem nada de carícias mesmo.
A última, belíssima expressão, deveria ser mais utilizada. Não tenho dúvidas de que o SBT, com sua sanha nacionalista de traduzir o título de todo e qualquer programa estrangeiro que adquire, iria popularizá-la caso a Globo não tivesse comprado os direitos do famigerado seriado Lost. Imaginem só o título tupiniquim: Indo à fava!
Um sucesso de audiência.
E, por fim, a palavra que dá o título a esse post: pesamenteiro.
Diferentemente de casamenteiro, que é o sujeito que arranja casamentos, pesamenteiro não é aquele que incentiva os pesares de alguem. Pois para um povo que se orgulha da intraduzível saudade, ter uma palavra assim seria uma estranha contradição.
Pesamenteiro, então, é aquele sujeito que vai ao velório não para chorar junto à família e transmitir seus sentimentos, mas única e exclusivamente para comer.
É, também, aquele que convencionamos chamar de filho-da-puta.
Não me espanta, no entanto, que essa palavra não tenha correspondente no inglês. E talvez não tenha correspondente em língua alguma -- bilíngüe que sou, não posso afirmar com certeza, embora uma busca rápida em dicionários de alemão, francês, espanhol e italiano pareca confirmar minha suposição.
O brasileiro, como todos sabem, é um povo esperto cuja fama do "jeitinho" é internacionalmente conhecida. Ouso dizer que é provável termos a maior densidade de pesamenteiros per capita. E possivelmente os melhores quitutes de velório!
Aliás, ocorreu-me agora que se algum poeta brasileiro, de fama considerável, quisesse foder com seus tradutores, bastaria enfiar um "pesamenteiro" no meio de um verso decassílabo...
Mas o verdadeiro destaque do artigo ficou com uma palavra que li aleatoriamente: hira hira. Em japonês, é o nome da sensação que se tem quando uma pessoa entra em uma casa escura e mal-assombra no meio da noite.
Talvez os anglófonos não saibam expressar tal sensação com uma única palavra, mas nós temos o vocábulo perfeito: cagaço.

deve ser grande mesmo o nosso número de pesamenteiros per capita, afinal até temos uma palavra pra nomear esse tipo de prática! bizarro. e tem também pessoas cuja profissão é chorar em velórios -- vi uma vez em algum lugar esse papo. parece que são 'carpideiras' pu algo parecido. mais bizarro que tudo isso só o 'hira hira' mesmo...
e quem vai a festinhas de aviersários infantis só para comer brigadeiro, tomar fanta e comer bolo também é pesamenteiro? porque eu ADORO ir às festinhas dos filhos dos meus amigos comer doce. :-)
Acho que as únicas pessoas que vão em festinhas infantis só por causa do aniversariante são as tias ou avós da criança. Porque se não tivesse comida ia ser só reunião em família mesmo. Talvez seja por isso que se convencionou dar presentes: são o preço que se paga pelas fatias de bolo e brigadeiros consumidos.
"Creerse La Ultima Coca-COLA EN EL DESIERTO - Central American Spanish: to have a very high opinion of oneself, literally to "think one is the last Coca-Cola in the desert"."
É o equivalente a se achar a última bolachinha do pacote? :D
É o que parece. Mas nessa onda de monetização, nem as expressões escapam!