
Dizem que se colocarmos um primata imortal diante de uma máquina de escrever inquebrável e deixarmos que o animal bata aleatoriamente nas teclas, um dia, provavelmente num futuro bem distante, o letrado macaco terá escrito todas as obras de Shakespeare, todos os poemas de Rimbaud e todas as crônicas de Nelson Rodrigues.
A base de tal dedução vem da Teoria das Probabilidades que, resumidamente, nos diz que se há uma chance de que um evento ocorra, se ela não diminuir com o passar do tempo e se esperarmos o bastante, o evento ocorrerá.
Dito isso -- e abstraindo um pouco a Teoria, senão eu perco a piada --, podemos supor que, antes de escrever Hamlet, nosso parente genético começará a confecção de seu vasto legado literário pressionando violentamente as teclas de metal num furor criativo, animalesco e frenético nunca antes visto no reino animal. Abusará inconscientemente da indestrutibilidade da máquina para canalizar todo o ódio primitivo e visceral que costumava enrijecer sua musculatura e deixá-lo curvado sobre o abdômen, de tal modo que produziria, nos primeiros momentos, as obras mais sinceras e passionais já escritas -- embora ininteligíveis até mesmo para o autor.
Este seria o primeiro estágio, a ira. Depois disso macaco se acalmaria e suspiraria longamente, mas sem nunca deixar de martelar o teclado com seus dedos peludos.
Aceita, então, o seu destino inexorável e tenta encontrar, na gigantesca pilha de escritos, algum fragmento que o agrade, mas vê somente o desabafo de um primata amador.
Irrita-se e determina-se. Datilografa laudas e laudas movido pelo sentimento de auto-superação, de aprimoramento. Num estalo entende toda a Teoria -- não a das probabilidades, mas a da evolução -- e esboça um riso no canto da boca enrugada. Se soubesse escrever, digitaria "Darwin". E depois um palavrão. E mais outro.
É bom que o leitor compreenda que, embora esta narrativa seja breve, para que tudo isso ocorra é preciso de um punhado de séculos, muita sorte e um macaco com veia literária. Senão será apenas uma eterna observação sádica da luta do animal imortal com a máquina indestrutível.
Voltando à vaca fria, o terceiro estágio de nosso macaco é o mais óbvio de todos. Após reconhecer sua mediocridade inicial, seu ódio descontrolado e sua má posição na linha evolutiva, o primata, certo da recente superação e de seu diferencial, se envereda pelo ramo da auto-ajuda. Pensa até em aconselhar os colegas de espécie. Quer contar como compreendeu Darwin e que, apesar dos humanos, os primatas são seres incríveis e cheios (por que não?) de energia positiva e alto-astral.
Talvez aqui, passados alguns milênios desde a primeira tecla pressionada, nosso escritor-macaco já tenha conseguido reproduzir, letra por letra, vírgula por vírgula, alguns títulos de Zibia Gasparetto e extensas passagens de Paulo Coelho. Sente facilidade com o tipo de narrativa, gosta de repetir palavras que julga importantes e uní-las com coisas quaisquer -- não se importa com a forma ou o conteúdo, basta que seja fácil e feliz.
Entretanto, é provável que ocorra um fenômeno curioso e lamentável, que pode pôr em risco toda a Teoria das Probabilidades e o destino de nossa pobre cobaia: é possível que após datilografar um volume demasiadamente grande de literatura barata, o infante escritor sinta-se influenciado ou até mesmo viciado pelo estilo e não progrida mais. Os movimentos que aprendeu para digitar "sucesso", "dinheiro" e "felicidade" podem se tornar uma tentação irresistível e o excesso dessas palavras, como sabemos, é capaz de rebaixar qualquer escrito à condição de panfleto, como todos os outros que ele vinha produzindo.
O macaco, mesmo diante do labor infindável, entraria numa repetição patética e ininterrupta e o experimento perderia a razão de ser. Não seria, no entanto, uma empreitada inútil: apesar do irrisório valor cultural, as obras do primata poderiam render uns bons trocados para as editoras que se interessassem por elas. Alguns humanos adoram essas coisas.
E mesmo que esta fase comercial fosse superada, o incansável escritor ainda precisaria de alguns milhões de anos, talvez, para conseguir reproduzir pelo menos uma página completa de Dostoiévsky ou Machado de Assis.

adorei!!! adorei!!!!!
E agora, finalmente eu compreendi que, infelizmente, eu já estou viciada demais para escrever algo genial, pela teoria das probabilidadeds... hehehehe
beijos
Qualquer semelhança do macaco imortal com a humanidade, seria mera coincidência darwiniana?
Talvez um dia o macaco, com o excesso de produções próprias e falta de idéias, escreva (por escrever) um livro de auto-ajuda para macacos imortais em máquinas de escrever, depois pense numa auto-biografia e entre na corrente filosófica do existencialismo...
O experimento realmente perderia a razão de ser, embora a Teoria das Probabilidades se mantenha intacta. O que determina o fracasso da experiência é a alteração das condições de contorno, orignada pela paulocoelhose e zibiagasparettose, doenças que, até onde se sabe, só teriam o condão de atingir o homem. Se o macaco tiver sorte, passará incólume ante a enorme possibilidade de contaminação que caracteriza essas patologias. Parabéns pelo artigo, nota 10. E que a boa literatura vença essas pragas. Abraços.