Acho muito cômodo que certas escolhas sejam feitas para mim antes mesmo que eu precise dizer, diante das alternativas, que "tanto faz".
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Eu poderia intitular este texto com outra frase, algo como Less is More, mas alguns dos últimos posts já não têm o título em português e o que está aí em cima acabou se revelando mais poético.
Poético e impreciso, o que me permite esses desvios.
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Eu queria, em verdade, e vou logo abrindo o jogo, comentar um artigo que li há um bom tempo e que por acaso lembrei-me dele hoje, mas não pude encontrá-lo para fazer as devidas citações. Em uma síntese grosseira, ele dizia mais ou menos o que está aqui. De um jeito mais elegante e informativo, claro.
Mas para compensar a ausência do respaldo científico, eu conto um causo logo adiante. Nada em especial, porém é um daqueles episódios que percebemos ter uma relevância mínima quando conseguimos nos lembrar do ocorrido algum tempo depois e sem motivo aparente -- quero dizer, geralmente o colocamos em um outro contexto para criar a ilusão da relevância, na espectativa de não perdê-lo de vez para os abismos memória inescrutável. É o que eu estou fazendo aqui.
Sendo ainda mais sincero, minha vontade era de tão somente transcrever o ocorrido pouco especial e fui buscar no artigo (que não encontrei) uma sustentação para compor o texto. Portanto, posso dizer que, até aqui, estou bastante frustrado.
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Dou-me ao luxo, também, de começar a coisa de forma nebulosa, mais ou menos como ocorre a gênese de um assunto numa mesa de bar -- principalmente quando há garrafas vazias o suficiente para que as transições temáticas sejam suaves e quase imperceptíveis. O leitor, para aumentar o realismo da situação, pode ir buscar umas cervejas antes que eu quebre essa linha.
... Depois que as ferramentas se consolidam por suas funcionalidades, surge uma onda de customização e variações que julgo incômoda. Poder optar entre uma infinidade de alternativas -- que supostamente estão lá para que você encontre o que mais te agrade -- é bom, mas ter de fazer isso sempre é um tormento desnecessário. Talvez por que eu goste de coisas simples, funcionais, sem mais complicações. E poucas. Poucas coisas. Devo ser um minimalista.
De qualquer modo, não me parece inteligente perder mais tempo num dilema estético do que em uma questão funcional ou até mesmo financeira.
Dito isso, vamos ao causo.
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Certa vez, entrei em uma lanchonete no centro de Curitiba para comprar cigarros e um isqueiro. Já era tarde e apenas duas mocinhas trabalhavam, uma delas limpando as mesas e cadeiras vazias. Fui ao caixa, onde estava a outra, e disse-lhe o que eu queria enquanto contabilizava os meus trocados.
"Branco, amarelo ou vermelho?" Perguntou ela, apontando para a lateral do balcão onde os isqueiros estavam dispostos, atrás do vidro, enfileirados de acordo com a cor.
Qualquer um, eu disse.
Após um suspiro, insistiu: "Branco, amarelo ou vermelho?"
Encarei minhas opções e vi que a moça já estava com uma das mãos bem próxima dos isqueiros, bastaria que pinçasse o que estivesse mais perto dos seus dedos -- um amarelo. Olhava-me tão fixamente que o tempo lhe parecia ser valiosíssimo. Contudo, não quis dar o braço a torcer: "tanto faz."
Eu queria algo pra acender os cigarros, não um enfeite.
A moça afastou a mão, suspirou mais uma vez e, com uma impaciência controlada, repetiu a pergunta.
Ora, se eu tivesse predileção por uma das cores, eu a teria escolhido já na primeira oportunidade. Mas eram-me indiferentes e, portanto, impossíveis de serem diferenciadas por qualquer critério que fosse. Insistir na pergunta não me faria gostar mais do branco e menos do amarelo. Em verdade, nenhuma me aprazia e eu só queria, como já disse, uma chama para os cigarros.
Quis perguntar qual das cores ela mais gostava, pois bastaria que optasse por uma delas e para mim estaria ótimo, mas imaginei que ela poderia se irritar ainda mais. Aliás, eu também já estava um pouco incomodado -- e ela, sem dúvida, não saberia qual cor escolher.
Depois de um tempo olhando para os isqueiros, disse finalmente que eu queria "aquele ali". Perguntou-me se era o amarelo e eu esperei que ela o pegasse para avisar que eu me referira ao isqueiro vermelho -- coincidentemente, o mais difícil de alcançar. Colocou-o sobre o balcão, junto ao maço, temendo que eu pudesse mudar de idéia, e não escondeu a expressão de alívio ao entregar-me o troco e ver-se, desde então, livre de mim.
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Vem-me à cabeça, agora, a imagem de uma daquelas máquinas de chiclete, onde é necessário por uma moeda e girar o trinco para receber uma guloseima aleatória. Poderiam fazer isso com diversas mercadorias, a começar pelos isqueiros. Imagino corredores longos repletos dessas máquinas substituindo galerias de comércio e cuspindo produtos de aparência randômica ou mesmo padronizada, moldados todos por um plástico fosco, cinza e resistente. Produtos essencialmente funcionais.
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Nunca mais voltei àquela lanchonete pois há muitas outras onde as pessoas não me fazem perguntas e simplesmente não me dizem nada quando agradeço e vou embora. Dão-me o que estiver mais perto e chamam o próximo.