Impossível, nesta santíssima sexta-feira, deixar de lembrar de uma das cenas do filme À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964), onde Zé do Caixão, ao ser informado pela esposa de que não haveria carne para almoço por conta do feriado religioso, exclama irritado a frase que intitula este post e sai para comprar um carneiro. À porta, encontra com um amigo que, ao saber do objetivo de Zé, lhe pergunta se guardará o animal para a páscoa. Orgulhoso e enfático, o personagem de Mojica Marins diz: "não, é para comer hoje!"

A cena seguinte é, para mim, uma das melhores do filme: Zé sentado à janela com um prato cheio de carneiro assado, empunhando e devorando a coxa do animal, entre gargalhadas, a observar uma procissão que passa horrorizada diante de sua casa. O padre pára, faz o sinal da cruz para o infiel, mas Zé come e ri.
Esse era o tipo de coisa que, alguns anos atrás, eu adoraria fazer, mas felizmente nenhuma procissão passou pela minha rua e lá em casa ninguém se importava muito com essas coisas.
De qualquer modo, é hora do almoço e eu vou ali honrar a minha alcunha de herege.

No livro "Maldito", a biografia do Zé, o André Barcinski usa justamente essa cena para defender que o Zé, muito longe de ser um cineasta "tosco", tinha uma noção inata e genial de composição e cinematografia... Barcinski destaca justamente a contraposição da procissão no lado externo à de Zé comendo carneiro dentro do quarto, criando um efeito de frame-within-frame que borra inclusive a delimitação entre filme e espectador...
Sem falar no simbolismo. Comer carneiro na Sexta-feira da Paixão? Mojica é bem melhor que Glaúber Rocha.
hehe, não chego a concordar com o Felipe, não acho o Mojica melhor do que o Glauber, mas sim: ele tinha (ou melhor, tem, pois não morreu) um senso estético muito além do mero e simples "tosco". tenho o palpite de que um dia ele ainda vai ser reverenciado como o cineasta mais "cult" do Brasil.
Carne de Agnus - uma ofensa, se vc é daqueles que tem Aparecida como objeto de consumo turístico.
Zé Mojica, João, já é cult fora do Brasil. Coffin joe, para muitos.
E por falar em Glauber, assisti a "O Leão de Sete Cabeças", o tal épico dele filmado na África.
Achei chato demais. Mas verei de novo. Há algo no filme que certamente me escapou.