O confinamento ao qual me submeti de bom grado durante esses quatro dias meio chuvosos esgotaram minha percepção para a maioria dos detalhes que -- imagino -- eram-me claros até a tarde de quarta-feira. Agora, julgo estar vendo mais poesia na parede lisa e mal iluminada do que na vista que tenho da minha janela (nada mais sensacional do que uma laje, um estacionamento e outros prédios, diga-se). E por mais que fosse o meu desejo passar outros tantos dias sob luz artificial e cortinas cerradas, prolongando essa reprodução infiel da caverna kafkiana, embora absurdamente improdutiva e ligeiramente entediante, mas, ainda assim, agradável, o começo da semana coincide com o fim dos suprimentos e a poesia toda rui diante necessidade de ir à caça entre prateleiras coloridas, ridícula decoração pascoal e... pessoas.
(A idéia de me relacionar com os outros apenas sob o efeito de alguma substância -- álcool, por exemplo --, ocorreu-me agora há pouco e julguei absurdamente genial. Em verdade, o parágrafo anterior e o seguinte estão aqui só para emoldurá-la. O único inconveniente, talvez, estaria na minha locomoção, feita exclusivamente à pé; mas para um ébrio é tarefa fácil relativizar, e mesmo abstrair, as distâncias e os possíveis perigos. Sem dúvida alguma, vale o risco.)
Numa palavra, trocar o confinamento por interações, silêncio por conversas e dinheiro por enlatados me parece muito, muito estúpido. Mas, enquanto a evolução não dá um jeito nisso, o homem tem que comer.


isolar-se é tão fascinante que o Thoreau enlouqueceu depois de uma temporada de completa solidão. não sei se isso é bom ou não.
gostei da idéia de somente interagir sob efeito de psicotrópicos. a totalidade da "realidade" ficaria, no mínimo, mais interessante e menos tediosa (bemmmm menos). quem sabe um dia não combinamos de fazer isso durante uma semana, hein Bruno? depois poderíamos relatar em público a experiência, no melhor estilo gonzo de ser... quem sabe?