Sei que este talvez seja um momento controverso, mas não tive outra alternativa senão vir até aqui quando me lembrei dessa crônica de Luís Fernando Veríssimo ao ver nos noticiários o que aconteceu com a garota Isabella -- aquela cujo caso todas as emissoras estão explorando de forma obscena e melodramática; basta ligar o televisor em qualquer canal.
Longe de mim fazer parte desse drama, repetir obviedades e mostrar-me revoltado: não me importo. Trago apenas o texto em questão, que é realmente muito bom, e contida nele, para os que ainda não entenderam, a sensacional conexão que fiz entre os fatos:
DefenestraçãoCertas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra. Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem, tudo se complicaria.
-- Os hermeneutas estão chegando!
-- Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada...
Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
-- Alô...
-- O que é que você quer dizer com isso?
Traquinagem devia ser uma peça mecânica.
-- Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.
Plúmbeo devia ser um barulho que o corpo faz ao cair na água. Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração. A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um certo tom lúbrico.
Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres:
-- Defenestras?
A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam.
Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais. Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? "Nestes termos, pede defenestração..." Era uma palavra cheia de implicações. Devo até tê-la usado uma ou outra vez, como em:
-- Aquele é um defenestrado.
Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a palavra exata. Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. "Defenestração" vem do francês "defenestration". Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela.
Ato de atirar alguém ou algo pela janela! Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração?
Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo.
-- Lês defenestrations. Devem ser proibidas.
-- Sim, monsieur le Ministre.
-- São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios.
-- Sim, monsieur lê Mnistre.
-- Com prédios de três, quatro andares, ainda era possível. Até divertido. Mas, daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: "Interdit de defenestrer". Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos.
Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez ainda persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes.
-- É essa estranha vontade de jogar alguém ou algo pela janela, doutor...
-- Humm, O Impulsus defenestrex de que nos fala Freud. Algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar -- diz o analista, afastando-se da janela.
Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada. Na lua-de-mel, numa suíte matrimonial no 17º andar.
-- Querida...
-- Mmmm?
-- Há uma coisa que preciso lhe dizer...
-- Fala, Amor
-- Sou um defenestrador.
E a noiva, em sua inocência, caminha para a cama:
-- Estou pronta para experimentar tudo com você! TUDO!
Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e babulcia:
-- Fui defenestrado...
Alguém comenta:
-- Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela?
Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.
Não consegui encontrar a crônica num site "oficial" ou qualquer coisa assim, então simplesmente copiei uma das muitas cópias que existem por aí. Se alguém souber de um link confiável que eu possa citar aqui, agradeço.

Ave Maria, esse post foi infame mesmo!
Eu tenho que honrar o nome nonsense desse espaço.
Muito boa essa crônica :D
Sem dúvida a melhor coisa que li relacionada ao caso citado... como se eu tivesse me dado ao trabalho de ler alguma coisa.
Eu já conhecia essa crônica há tempos (cheguei até a fazer uma adaptaçãozinha tosca pra teatro na minha ex-escola, para este texto).
Adoro o Veríssimo, já li tudo quanto é crônica dele e essa é uma das minhas prediletas.
Assim que surgir a oportunidade vou aplicar a cantada da defenestração! Vai que funciona, né? Aí depois eu conto se obtive sucesso.
Essa cantada também está na minha to-do list, hehe.
Muito boa (risos)!!! Leva a pensarmos o quanto a atitude humana deve ser liberta de pré-julgamentos, pois todos os comportamentos são mediados por influências biológicas, psicológicas, sociológicas, sociológicas, históricas e culturais, ou seja, um costume do passado como a "defenestração" que até significado tem no dicionário, hoje esta sendo foco dos olhares "imaculados" de nossa sociedade.
Não faço nenhuma apologia ao caso "Isabela" e muitos menos o justifico, mas este certamente não é o primeiro realizado por um humano e ainda, talvez seja passível de compreensão.
Certamente, Luca. Graças ao dicionário, está agora mais do que claro que o pai e a madrasta têm antepassados defenestradores. Acrescento ainda que, assim como não é o primeiro caso "realizado por um humano", provavelmente também não é o primeiro no mundo animal, tendo em vista a quantidade de pássaros bebês que caem de ninhos - concluindo, portanto, que trata-se de um comportamento essencialmente comum entre diversas espécies bípedes.
Apenas para embasar o comentário do Pablo, vale dizer que Freud aventou a existência do que chamou de "pulsão de defenestrer" justamente para compreender melhor esse "costume do passado".
A propósito, Luca, que suponho ser um nome feminino, defenestras?
Não, não cara! Para ser sincero conheci o significado do termo ontem (11/05), pois vou numa viagem e como um "trote", os veteranos farão a "defenestração" dos calouros.
Fiquei com muito receio quando soube desse "trote", aí resolvi pesquisar e encontrei esta crônica. Mas nunca pensei no ato, conscientemente é claro! (risos)
Achei que tivesse sido o único a fazer a ligação entre o caso Isabella e a crônica.
Mais curiosidades sobre a defenestração
http://www.diario-universal.com/2008/05/aconteceu/defenestracao-de-praga/
Olha essa pintura sobre a Noite de São Bartolomeu (acho que o habito começou lá)
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/8d/Massacre_saint_barthelemy.jpg/571px-Massacre_saint_barthelemy.jpg