Me puxou pelo braço para um canto ermo e discreto cá em Curitiba downtown, onde o céu estava azul e os carros zuniam como sempre zuniram pelas ruas de mão única straight to their jobs, e aí fui puxado, como vos disse, para baixo de um toldo amarelo de uma loja de superstições, o cheiro de incenso chegava à calçada e víamos Buda encarando-nos com os olhos cerrados e sorriso jovial. Ainda que protegidos do sol, o calor continuava o mesmo e estava abafado. Foi me dizendo muito brevemente para eu pegar leve, sabe?, e me entregou uns papéis que servem agora de porta-copos, já bem umedecidos e que irão direto para o lixo logo depois do último ponto final.
Mas aí ela foi andando e fui seguindo, pois eu ia por ali mesmo para saltar num ônibus e honrar minha carteira de estudante, e fui seguindo-a, pois, até a fatídica esquina da confeitaria onde ela entrou e eu estanquei abruptamente: o sinal fechara e ela comprava uma bomba de chocolate que também desejei tanto quanto ela embora não estivesse em vias de mendigar-lhe um pedacinho sequer e a vi sentada junto a vidraça para devorar aquele monstro calórico sem nem mesmo estar com fome, lambuzava-se feito criança, os lábios sujos de chocolate, satisfeitos, sim, mas sujos e lambeu os dedos até o meu sinal abrir e fui atravessando vagarosamente, olhando para trás, para a "pequena suja", até que o sinal luminoso começasse a piscar em vermelho e os carros rugissem com ferocidade animalesca e competitiva e eu ainda estava no meio da travessia, vislumbrando o meu ônibus prateado virar a esquina e não sabia se ia ou voltava para interpela-la como queria ter feito antes de pisar no asfalto, mas agora tudo me parecia tarde demais e se pensasse por mais um segundo que fosse seria invariavelmente atropelado -- e como estoy lhes contando tudo isso é claro que não sujei o asfalto com meu sangue A-.
Embarquei numa viagem apressada até o campus, sem ânimo e com a certeza de ter feito a escolha errada (porém mais fácil) e daí segui como numa fecha ziguezagueante até os prédios concretáceos da década de 60, com corredores também ziguezagueantes pois os milicos, na época, queriam evitar protestos e os construíram assim, como um labirinto, e acabei me desligando no trajeto pois minha cabeça ainda estava encrustada naquela bomba que ela comia, como se fosse me devorar também, mas por sorte encontrei meu caminho e me desmontei sobre uma cadeira bamba, hipnoticamente oscilante, perdido na vastidão verde do quadro negro sem prestar atenção em nada senão nos meus próprios dedos que tamborilavam uma canção qualquer no tampo de madeira embalando a má escolha em batidas ritmadas e irregulares, e fiquei assim por algumas horas, rabiscando no papel formas aleatórias e simplistas com a caneta preta, esferograficamente preta, contra o pautado papel já injuriado por tantos sulcos e enfraquecido pela tinta pesada que configurava, antes que eu pudesse perceber, um brainstorm qualquer sobre os delírios que pululavam em minha mente, e sem poder conter a ansiedade após assinar a lista de presença -- e eu fui o sexto e imagino que haviam outros 20 para rascunhar seus nomes que desconheço logo abaixo do meu, porcamente rasurado -- de tal modo que quando dei por mim já deslizava corredor afora numa pressa inexplicável e desnecessária, mas eu tinha pressa, sim, pois queria encontrá-la e supunha que ainda estaria travando uma batalha contra aquela bomba gigantesca que iria, em pouco tempo, enchê-la de culpa, mas é óbvio que já estava longe dali, bem longe, no aconchego do claustro, pois era assim que era, sem preocupação e eu jamais a encontraria novamente e por mais que pensasse nisso eu via naquela mestiça japonesa que sentou-se logo nos primeiros acentos todo o meu desejo refratado e amei-a em meio aos apitos de excesso de velocidade do grande e único vagão motorizado, mas ela não me via e saltou num ponto anterior ao meu, de modo que passei, logo depois, diante da confeitaria vazia sem qualquer sinal dela que me puxara pelo braço cerca de uma hora e meia antes, e fui seguindo como um raio pelas calçadas irregulares imaginando onde poderia estar ou no que estaria pensando -- e acabei me esquecendo da mestiça que era belíssima, lhes garanto -- e daí me vi diante do prédio onde resido e fui subindo, deslizando, quase flutuando, fazendo tudo numa inconsciência inexplicável até atirar-me na cama e sentir-me completamente vazio, pensando se deveria realmente pegar leve, se deveria realmente deixar de dizer o que digo e se, por fim, deveria dissimular todos os meus impulsos para que ela pudesse se sentir melhor e embora a simples menção já me ofendesse um pouco, passei a ponderar tais pedidos e não sei porquê dei-lhe razão, cedi, dei a cara a tapa -- ainda que sozinho -- e vos digo que pensei sinceramente em pegar leve ou pelo menos não pegar tão pesado, já que de nada me adianta dizer o que digo se não há ninguém para ouvir -- call me Pierrot.
O telefone me despertou de um profundíssimo sono sem sonhos, completamente negro e necessário, de modo que cambaleei quarto afora para empunhar o objeto e murmurar uma saudação rouca enquanto do outro lado sua voz metalizada pelo aparelho reverberava em minha cabeça dolorida numa torrente de confissões que eu já não podia assimilar e senti-me como o emblemático Moriarty repetindo "sim! sim! sim" sem ao menos saber para o quê, já que eu também poderia, sem problema algum, ser classificado como um vagabundo -- i'm a tennessee hustler & i don't have to work -- de tal modo que acabei desligando sem saber se ela já havia terminado mas tinha quase certeza que se despedira (e eu não) e daí o telefone voltou a tocar mas eu já estava na rua mais uma vez, caminhando com a mesma pressa de sempre, olhando para o chão sem ver nada, pois eu não sei no que pensava e fui para um lugar qualquer, seguindo as ruas até o final ou até onde eu me cansava delas e virava aleatoriamente nas esquinas que me apraziam e continua sempre em frente, sempre em frente, já cansado demais para voltar com a mesma desenvoltura e desligado demais para pensar nisso -- e, vos digo, não há melhor remédio que o infinito passadiço no fim de tarde -- mesmo que eu já sentisse dores e voltasse, aos poucos, a recobrar a consciência sobre os meus excessos, então estanquei, fechei os olhos e dei meia volta, sim, e fiz tudo de novo, não exatamente nas mesmas esquinas mas eu ia virando naquelas que me pareciam oportunas, repleto de dores e num caminhar muito mais fatigado e debilitado, contudo sem perder a velocidade inicial -- pois é em movimento que as coisas me são mais claras, plausíveis e verossímeis -- e, como ia dizendo, virava em esquinas quaisquer num trajeto totalmente diferente e provavelmente menos eficiente do que aquele que me levara até lá, mas isso já não importava: todos os caminhos seriam longos demais.
Diante uma obra niemeyeresca eu soube onde estava e embiquei rua abaixo sem sentir mais nada, pois até mesmo meu inconsciente sabia que não eram de serventia alguma os impulsos elétricos e enfáticos, os emissários da dor, pois eu os ignorava por completo e queria voltar, não pegava leve nem comigo mesmo e já não dava a mínima para aquela conversa que tive adiante de Buda, ainda que alimentasse certa culpa por não ter dado meia-volta ao invés de entrar num ônibus repleto de estudantes idiotas, mas, meus amigos, já era tarde pra tudo isso e eu voltava como alguém que estivera longe por muito tempo -- algumas horas apenas -- e daí me lancei novamente sobre a cama para não querer pensar.
Eu não sei pegar leve, garota, não sei agarrar as coisas senão com os dentes e não soltar até que me sinta entediado ou aborrecido. Não sei dividir o tempo ou atenção, não sei conciliar as coisas e como um louco kerouaquiano quero, também, tudo agora ao mesmo tempo, pois eu sequer consigo projetar-me daqui a um ou dois ou cinco anos no futuro e não sei se vou viver até o fim do mês ou até o próximo feiriado onde, invariavelmente, acabarei me enfiando num ônibus e fugindo para bem longe, pois é o que faço e fujo, sim, sim, pois aqui não há mais nada para mim senão a rotina e o enfado, senão aquela mesma distância e o chocolate todo na sua boca -- meu estômago ronca agora e penso em pedir 3 bombas para a viagem e devorá-las antes que o ônibus sequer se mova, simplesmente porque agora posso e antes não pude.
Sob a sombra e diante de Buda, ao odor de incenso e CO2 dos carros apressados, fumaça de cigarro das secretárias no fim do horário de almoço, lhe digo, como acabei não dizendo, que não sei pegar leve, pois me é impossível fazer pouco o que eu posso fazer muito ou deixar de fazer aquilo que já fiz ou não fazer aquilo que sempre faço -- que é correr por aí até o corpo se desfacelar contra o concreto e resmungar como um derrotado sem poder ir adiante. Nem mesmo o último cigarro da cartela é capaz de recompor a máquina exausta e a fumaça que exalo dos lábios secos não é nada senão uma ilusão outonal prestes a se desmantelar junto ao chão contra o qual meu rosto se espremesse em misericórdia, pois é desnecessário dizer que disparei o isquero vinte vezes antes de lançar-me do norte para o sul, do distante para o familiar ou do infindável para o finito. Pois eis que volto -- Oh, le fou! -- e ordeno que a gaita esteja afinada em Ré: Spokey Dokey all the way back, babe. All the way back.

Terei que ler mais alguma(s) veze(s) antes de fazer um comentário mais interessante ou com mais conteudo (enviado, provavelmente, por e-mail, como sempre).
Mas mesmo assim escrevo que teu texto tem uma imagem muito forte, parece que o mundo rodopia ao redor do personagem e que ele memso está parado em algum lugar, ou está com aquele sensação de quando se move, mas não sente a perna se mexendo. Algo parecido com uma cena do filme "Lock, Stock and Two Smoking Barrels" em português "Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes".
Quando assisitir vai saber que cena é.
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Kaiser? Tenho impressão que por esses lados é a única cerveja que existe! Ou ela deve ter um gosto fantástico desconhecido em outras bandas.
Vou atrás desse filme agora mesmo.
E agradeço por ter tirado de mim, como sempre, a sensação de que ninguém iria ler (ou comentar) essa coisa.
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Kaiser é um nome tão maleável e imponente, não é mesmo? Além de ser a única cerveja que existe abaixo do trópico de capricórnio.
A propósito, fiz a conta aqui e esse texto me custou R$6,65. Toda uma simbologia perdida por causa de um mísero centavo.