Embora o livro estivesse na estante já há alguns meses e a vontade de lê-lo fosse crescente, só o retirei de seu repouso entre Wilde e Burgess na semana passada ou na anterior e findei a leitura ainda ontem -- feita durante aulas, nos seus intervalos e no ônibus --, e senti-me estranha e repentinamente eufórico, ligeiramente apático e um tanto pensativo. Falo de On the Road.
Não pretendo resenhar o livro ou justificar todas as minhas sensações e impressões, apenas comentarei algumas delas, pois há resenhas e boas análises aos montes por aí.
Eu já havia passado por Jack Kerouac antes, primeiramente com Os Subterrâneos -- um choque pelo ritmo dos parágrafos intermináveis e detalhados-- e depois com o melancólico Tristessa -- que, entre outras coisas, consolidou minhas intenções de pisar em solo mexicano algum dia desses. Menos frenético que o primeiro e mais complexo que o segundo, a bíblia dos beats imprimiu-me diversos humores enquanto Sal Paradise e Dean Moriarty estendiam polegares na beira das estradas para descolar uma corona, enquanto se metiam em ônibus ou dirigiam país afora pegando outros caroneiros e percorrendo milhares de quilômetros entre o Atlântico e o Pacífico.

Mapa desenhado pelo próprio Kerouac. Mais info aqui.
O impulso de também querer lançar-me na estrada já era esperado e veio tão logo Sal resolveu se mandar para o Oeste. A empolgação de Dean contagia, torna-se incômoda, meio infantil, mas depois volta a cativar e a solidão inevitável nas vastas planícies, sob o sol ou céu estrelado, e o calor e o vento e a velocidade, é algo que te toca de alguma forma e chega a sugerir que não importa para onde as estradas te levem ou com quem percorremos todo o caminho: estamos sempre sozinhos.
E a frase que me derrubou de fato está logo no início da quinta parte, quando nosso narrador está de volta às ruas desertas da noite de Nova York, gritando para a janela de um prédio onde imaginava que seus amigos estavam e eis que dela surge uma linda garota, como ele nos diz, perguntando quem ele era: "'Sal Paradise', disse eu, e ouvi meu próprio nome rossoar na rua melancólica e vazia." E é como se eu o tivesse feito e sentido essa mesma punhalada.
Daí pra frente as páginas foram viradas rapidamente e aí eu já estava no posfácio do tradutor (Eduardo Bueno, edição pocket da L± excelente tradução), um texto apaixonado que termina de modo simples e profundamente sincero, reduzindo em duas palavras tudo o que resta para dizer no fim da estrada: "Thanks, Jack."
* * *
Cheguei a consultar um mapa dos EUA durante a leitura para ter uma idéia melhor de onde ficavam algumas das cidades citadas. Assim como o mapa acima, existem outros tantos que traçam a rota dos dois estradeiros.
O mapa abaixo, por exemplo, traz apenas o caminho e omite as cidades e o próprio mapa, mas transmite bem a magnitude da jornada. (E me parece invertido, não?)

Desconheço o autor ou a origem.
Mas, sem dúvida, o achado mais legal foi este mapa do Google Maps com as marcações de todas as cidades pelas quais Sal Paradise passou, parou ou mencionou, além do modo como ele fez para chegar até elas (de carona, ônibus ou de outro jeito). E cada um dos pontos contém a citação correspondente no livro.


É...
taí algo que eu necessito ler urgentemente. O post me deixou com mais vontade e vou tentar lê-lo ainda este mês.
Algumas outras curiosidades:
- Sabia que Walter Salles vai passar o livro pro cinema? http://www.imdb.com/title/tt0337692/
- Sabia que há uma mapa também no Google Maps dedicado a Dom Casmurro? http://tinyurl.com/4k58wr
Legal, né? Walter depois de produzir um road movie latino-americano-pré-revolucionário, acabando na Colombia, com um avião indo para os EUA, agora vai fazer um autêntico road movie americano.
E você viu Into The Wild? Gostaria de saber se têm algumas coisas semelhantes (fora o fato do rapaz andar pra caralho...)
Fiquei sabendo dessa do Walter Salles via prefácio ou posfácio do livro, se não me engano. Só não sabia que já era pra 2009. Espero que seja tão bom quanto o Diários de Motocicleta. Aliás, em 1997 o Coppola queria produzir um filme baseado no livro, dirigido pelo Gus von Sant e com o Johnny Depp no papel principal, mas a idéia não foi pra frente. Tomara que este filme saia mesmo.
Eu vi esse do Dom Casmurro um tempinho atrás, é uma utilidade bem legal do Google Maps para quem não conhece as cidades e as ruas onde a trama corre.
Into the Wild eu não vi. Vou tentar assistir agora no fim de semana e comento depois.
que bacana que você leu a bíblia, Bruno. meus planos de viajar mundão à fora se tornaram muito mais sólidos depois de On the road -- é impossível ler e não se sentir contagiado pelas trip's loucas.
e que achado é esse mapa que referencia as cidades com citações do livro! muito bom.
PS: lamento profundamente a produção do Coppola não ter andado (sic). e aguardemos 2009 então!
B.Cardoso,
não tenho certeza da informação, mas acho que a escolha de Walter Salles foi do próprio Coppola.
Pô, se for verdade mesmo fico ainda mais ansioso pelo filme.
Tomara que ele chame o Peter Fonda para fazer um "ponta". rs
Vinhal, assisti ao Into the Wild agora de tarde. Gostei bastante.
Respondendo o seu questionamento, a semelhança entre o livro e este filme está mesmo na "jornada", mas a motivação dos personagens é completamente diferente. De um modo um pouco simplista: Alex Supertramp cruza o país rumo ao Alaska em busca de liberdade; Sal Paradise o faz just for kicks.
Alex, assim como Sal, também arranja alguns trabalhos nas cidades por onde passa pra conseguir uns trocados seguir em frente. Supertramp faz amigos e deixa saudades, enquanto Paradise vai em busca dos amigos em Denver em outras cidades (e Dean vai buscá-lo em NY, etc.), além de sentir mais saudades do que deixa.
Aliás -- para quem não viu um filme o que vem a seguir pode ser um spoiler -- Alex segue embalado por Thoreau, mas quando, lá no fim, escreve em seu livro que "happiness is only real when shared" o faz com certo arrependimento (ou como a constatação de um erro); o que não existe em On the Road, pois lá não há qualquer arrependimento, deve-se sempre seguir em frente, repetir "sim! sim!" como Dean sempre o faz (ou então o "vamo nessa" de um outro personagem) e a euforia do novo e da aventura segue sempre ao lado da melancolia de "Sad Paradise".
Como já disse, gostei do filme, embora o drama sobre a falta que Alex faz quando parte me pareça um pouco exagerado. Mas até aí tudo bem: sou um insensível mesmo.
Rapaz,
eu vi Into the Wild agora pela noite, também. Tremenda coinscidência. Quando perguntei no outro comentário se seria parecido era porque tampouco havia visto o filme.
Eu confesso que esperava mais do filme, mas achei bem legal também. Há alguns exageros emocionais mesmo (principalmente ligados à música de Eddie Vedder, do Pearl Jam, na minha opinião o ponto mais fraco do filme).
Enfim, terminando as (re)leituras destinadas a este mês, vejo se cumpro o meu desejo de ler On The Road, aí venho comentar.
Lê o livro, Matheus. É das poucas leituras realmente imperdíveis...