Uma frase do Glauber Rocha que gosto bastante diz que "a função do artista é violentar". Concordo em partes. Não acho que deva ser a única função, mas sem dúvida é a principal. Acredito que o "violentar" tenha, na citação, uma intensidade variável, podendo ir desde uma impressão fortíssima causada no espectador até o choque de valores quando se está diante de algo verdadeiramente original ou novo.
Minha opinião é que qualquer tentativa de agradar o público é um erro, é fingimento, é plástico demais. Talvez eu tenha essa visão um pouco romântica de que a arte advém da espontaneidade e sinceridade do artista. É provavél que se eu tivesse de definir o que é arte, eu o faria com esses termos (mas esse é um debate enfadonho demais). Julgo seguro dizer, no entanto, que moldar a obra para satisfazer o gosto alheio, aparar suas arestas para que o público não se machuque, chega a ser revoltante.
Mas eu quero falar especificamente da música. De uma música e de uma artista -- tudo pelo mesmo preço.
Gloomy Sunday e a Pop Music
Aqueles que gostam de jazz já devem ter escutado Billie Holiday e é provavél que também tenham trombado com a famigerada canção Gloomy Sunday. Em poucas palavras, é uma das canções mais tristes que você vai encontrar. Escrita por um pianista húngaro em 1933, foi traduzida para o inglês por mais de uma pessoa. A versão que Billie Holiday emplacou em 1941 é um tantinho mais light do que uma outra tradução que corria na época, feita por Desmond Carter -- a mais melancólica das versões.
Nos EUA, a canção ganhou a alcunha de "hungarian suicide song" devido a lendas urbanas embaladas pelo suicídio (real) do autor em 1968.
Antes de prosseguir, prefiro que vocês vejam o vídeo abaixo. Diamanda Galás (de quem falarei logo adiante) canta a versão de Carter. O trecho inicial é justamente a essência deste texto.
Pois bem. Deixando de lado os elogios que eu poderia tecer e a qualidade baixa do vídeo, o que ela diz ali no início é muito interessante. Quando foi às rádios pela primeira vez, a canção foi vítima de reclamações por ser muito pessimista. Para resolver o problema, mudaram o final. A versão popularizada por Holiday traz uma estrofe a mais, inexistente no original, que serve para dar a idéia de que toda aquela depressão na qual o narrador se encontrava não passava de um pesadelo -- "Dreaming, I was only dreaming" -- minimizando, assim, o pessimismo e transformando toda aquela melancolia em... amor.
Como nos diz Diamanda: "foi aí que nasceu a primeira música pop."
E Pop, por definição, é aquilo que não machuca ninguém.
Se o demônio fosse mulher, seu nome seria Diamanda Galás
A frase acima resume tudo.* Resta-me apenas complementá-la com uma ou outra informação.
Como vocês sabem, uma coisa é ler, outra é ouvir. Quando descobri essa mulher, li uma dezena comentários sobre ela e todas as minha expectativas foram miseravelmente massacradas nos primeiros segundos do disco. Sério. Por isso não adianta muito que eu faça análises sobre as músicas. Vá e ouça. Escute bem alto e sozinho. No escuro.
Tenho essa mania de querer escutar o primeiro disco dos artistas que não conheço e, se possível, ir percorrendo toda a discografia em ordem cronológica. The Litanies of Satan, de 1982, é o primeiro trabalho de Diamanda e conta apenas com duas músicas: a primeira é um poema homônimo (aqui em português) de Charles Baudelaire e consiste no recital mais bizarro e demoníaco que você vai ouvir; e a segunda música tem, sem dúvida, o melhor título já criado: Wild Women With Steak Knives (The Homicidal Love Song for Solo Scream). É uma boa dica sobre o que esperar -- ainda que seja inútil ter espectativas. E esse disco não tem nem melodia. É experimentação vocal feita para Satã. Ponto.
Posso dizer essas duas músicas tiveram sobre mim o efeito literal da citação que fiz lá no início. E até hoje, quando escuto novamente, não deixo de me sentir incomodado ou de ser surpreendido. Não tenho dúvidas de que a esmagadora maioria das pessoas não irá gostar, mas é preciso que reconheçam que há algo visceral ali. Essa coisa que incomoda.
Tenho, além desse, outros nove discos dela. E são gritos e lamentos e porradas sucessivas. Não sou de recomendar essas coisas que realmente gosto, mas como eu sei que será em vão, o faço.
Mas entre catarses e demônios, devo dizer, há um disco bastante acessível e também muito bom, chamado The Sporting Life. E contar com a presença (um tanto improvável, diga-se) de John Paul Jones, baixista do Led Zeppelin. É um bom começo para quem ficou com medo da mulher -- afinal, após uma apresentação, ela já foi denunciada pelo governo italiano por "blasfêmia contra a Igreja Católica Romana". É pra ficar com medo mesmo.
Diamanda esteve no Brasil em 1998 e por conta disso é relativamente fácil encontrar umas entrevistas e matérias sobre ela (ainda que meio rasas). Pra quem tiver interesse, siga os links, escute algum disco, veja uns vídeos. Depois venha me contar.
* A frase em questão eu li aqui, um tempo atrás. Lá vocês encontram, além de um comentário meu, o The Litanies of Satan para download.

O que eu conheço de música satânica (retirando os inúmeros metais de uma época tanto saudosa quanto vergonhosa) é, basicamente, Sopor Aeternus.
Conhece?
http://www.youtube.com/results?search_query=sopor+aeternus&search_type=
Conheço sim. Anna Varney é o cara (ou a cara, como quiser). Além da música, que é muito boa, gosto também do senso de humor debochado e meio bizarro dele/dela.
http://www.soporaeternus.de/images/fotos/01/20.jpg
c.q.d.
Essa frase do Glauber é perfeita, também pra mim, pra resumir a arte. Muita coisa que eu gosto hoje foi, no começo, um pouco (mesmo que às vezes pouco) despresível. Do punk rock, que conheci pelos 11 anos e só fui gostar de verdade lá pros 15, à tropicália e psicodélica, que nos primeiros discos foram meio estranhos, mas hoje são perfeitos. Ah, e Glauber também, que precisei assistir Terra em Transe à força uma porrada de vez sem entender porra nenhuma (pra faculdade), mas acabou virando um grande gênio pra mim.
Quanto à dona aí, ela me parece ser gótica demais pro meu gosto, satânica demais... talvez isso seja bom, então vou lá conhecer ela.
E não prestei atenção na letra, mas acrescentar "dreaming, i was only dreaming"? Porra, eles não tinham clichê pior pra estragar a canção?
Na verdade, a Diamanda não é nem gótica e nem "satânica" (embora pareça). Se tiver interesse, tem umas entrevistas com ela no youtube e até me surpreendeu, quando eu vi, por ela ser bem sensata e tudo mais. Longe desses estereótipos.
Sim, verei numa outra oportunidade... mas os rótulos só foram usados pra resumir minha impressão, não que eu ache que ela realmente seja.