Assim

Porque eu comecei um milhão de coisas e fui largando tudo para continuar começando, assim, sem qualquer rumo e sem poder retomar nada. E com os cinco os seis textos dos quais não tenho mais que um parágrafo, uns dois que tenho apenas na cabeça e um punhado de outras idéias (que, creio, devam servir para alguma coisa), vou esbarrando nos mesmos lugares e jogando rascunhos pro alto: assim, puf!, pro alto. E nessas madrugadas obtidas via escambo (manhãs não me servem de nada), com música e à meia-luz, com vontade de riscar um FÓSFORO na parede em vez de fazê-lo na caixinha já gasta, esperando qualquer coisa, qualquer faísca ou sugestão ou vestígio, até mesmo um golpe de sorte adverso para derrubar aos murros o intransponível writer's block ou puxar pelos cabelos essa vagabunda a quem chamamos de inspiração. A garrafa permanece intocada na geladeira, pois uma não me basta. E é melhor continuar sóbrio do que frustrado. Embriagar-se, "o único problema" (e ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de Baudelaire). E eu costumo fazê-lo apenas sozinho, completamente bêbado e sozinho, pois daí vêm os frutos mais interessantes -- não me lembro quem o disse, mas há uma citação que ENALTECE tal estilo de encher a cara, sim, lonesome-like. Autoconhecimento an' stuff.

Mas vos digo que já venho, há tempos, buscando alternativas mais eficazes e menos ortodoxas a fim de obter grandes conquistas nesse terreno pantanoso e hostil, o da criação. E por mais que digam (e aqui roubo a constatação de meu amigo Jimmy, eventual comentarista deste espaço & par constante para longos diálogos) que o mundo se afunda nas drogas, que vendem-se entorpecentes nas escolas e esquinas, que há LSD nas tatuagens de chiclete, que... IT'S A FUCKING JOKE, KIDDO. Não há nada nos portões dos colégios de Curitiba (ou aquelas crianças não souberam me informar direito) e tampouco nas esquinas irregulares por onde me aventuro noite ou outra, a passos largos como todo bom caminhante que nada quer com a paisagem, mas com a rapidez, um outro modo de, talvez, livrar-se ou passar a lidar com o horrível peso do Tempo, esse esmagador de ombros. Embriagar-se com o que queira. Experimentalismos, pois. JUNKIE Jack Flash. Iluminação. Jazzy groove. Mais começos. Rascunhos pro alto. ABNT-2 boogie & qwertish blues. Começos rápidos e longas contemplações, braços cruzados, olhos cansados, respiração lenta. Poucas palavras que não dizem muito, que não dizem nada, que não bastam, mas que aos poucos se articulam e cativam pela imprecisão. Pela dissonância. Um estalo lento, uma transição que vem pressa.

Assim, in a silent way.

3 comentários

Impressionante. Maestro. Magna reflexão.

(Nos EUA, o fósforo vem na cabeça do palito e, logo é possível riscá-lo na parede ou em qualquer lugar algo áspero. No Brasil, a cabeça do palito é preenchida com clorato de potássio, material algo mais eficaz do que a pólvora, e o fósforo que reage com o clorato está na lateral da caixa.

Será que esta "venda casada", ou seja, fazer com que o palito de fósforo necessite, inexoravelmente da caixa - e veja, não necessariamente de sua respectiva caixa, mas de "alguma" caixa, tenha implicações no comportamento do povo brasileiro que, acostumado à prisão palito-caixa não consegue experimentar a liberdade do palito riscando paredes mundo afora?)

c-r-i-a-t-i-v-i-d-a-d-e

pois então, ando mais sem idéias do que não sei o quê. será uma epidemia??????????????????????

Epidemia, sim. a coisa ainda mal por aqui também. pelo menos assim dá pra jogar a culpa em alguma coisa.

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Esta página contém um post de bcardoso publicado em maio 17, 2008 4:10 AM.

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