Dê Esmolas

Ontem, umas 11 e pouco da noite, quando eu voltava de um ritualístico perambular pelas ruas em uma noite um tantinho fria e ventosa, já nos arredores do meu lar e desatento justamente por isso, fui interpelado por um sujeito encolhido em sua jaqueta, provavelmente da minha idade, que quis saber se eu poderia lhe inteirar o dinheiro para uma passagem de ônibus até São José dos Pinhais (cidade aqui ao lado).

-- Passagem?

-- Faltam 40 centavos.

-- Eu tenho dois reais -- disse entregando a nota pra ele.

Olhou pra nota, hesitou e deu uma olhada nas moedas que tinha na mão, aliviado.

-- Vou até te dar o troco!

Me deu uma moeda de 1 real, agradeceu e se mandou, imagino, para onde ele precisava ir.

Agora, no entanto, me peguei pensando nessa "boa ação". Ou melhor, ainda ontem, pensei se deveria ter recusado o troco, mas logo concluí que não. Então fiz umas continhas aqui: ele precisava de R$0,40 e eu lhe dei R$1,00, o que são 2,5 vezes mais do que a quantia que faltava para a passagem, certo?

Partindo do pressuposto que uma boa ação, em essência, não tem preço e que, neste caso, uma boa ação consistiria em abrir mão de 40 centavos, concluímos que executei, ao mesmo tempo, 2,5 boas ações. Que tal, hein?

Tenho, portanto, um excedente de 1,5 boas ações, de tal modo que numa próxima oportunidade, tanto para alguém da rua quanto para aqueles que me ligam pedindo doações, posso apenas dizer-lhes "de nada" e continuar andando ou desligar o telefone, ficando assim com um saldo de 0,5 boas ações no banco cármico.

E como se gasta metade de uma boa ação? Ora, realizando metade dela. Se um sujeito hipotético me pedir 1 real, posso lhe dar 50 centavos e aos olhos das divindades o efeito será o mesmo que o de ter dado a quantia pedida. Não é fantástico?

Sem Teto

Invista no seu bem-estar: dê esmolas.

Mas, de qualquer forma, não me interessam essas 1,5 boas ações, pois a grande sacada aqui é o seguinte: tendo como base tal raciocínio, o caminho mais rápido para limpar sua consciência de todo e qualquer peso é distribuir suas moedas aos mendigos, justamente porque eles não costumam pedir valores altos e na maioria das vezes pedem apenas UMA moeda (dê duas e ganhe uma boa ação para gastar onde quiser). Esmola, ao contrário do que dizem por aí, é, na verdade, um investimento para o seu bem-estar.

Dar esmolas é a forma mais eficaz de se melhorar o carma a um baixo custo. Quebre seu porquinho e esqueça dos seus problemas.

Esqueça também das crianças com câncer, ONGs, Teleton e essa coisa toda. Tudo besteira. São os mendigos que irão tornar a sua vida menos miserável.

Mas apesar de tal prova (quase) científica do funcionamento do balanço cármico-financeiro, sei que posso não estar tratando de uma novidade, pois muita gente já faz isso por, sei lá, intuição...

2 comentários

hahahaha! Muito bom, mas não. Sei lá, não gasto meu dinheiro com qualquer coisa... se eu dou uma moeda pra um mendigo, me sentiria mal em não dar outra moeda pra um outro, o que pode ser ruim pro meu carma. Não é um bom custo-benefício. Mas eu preciso de algo pra ser feliz, então prefiro dar bons dias no elevador pro vizinho, agradecer inutilidades na rua, e até ser gentil em negações. Outro dia, até mesmo perguntei pra moça do caixa como andava sua família... coisas bestas assim rendem um carma bem alto. E a família dela estava "bem, graças a deus", olha só que maravilha de estoque carmaniano. Como eu sou gentil.

e não rola uma parada tipo "inflação cármica"??? em tese, essa inflação deveria evoluir na razão inversa do egoísmo.

comente


Type the characters you see in the picture above.

Este post

Esta página contém um post de bcardoso publicado em maio 31, 2008 8:38 PM.

Ameaça profética aos ciclistas amadores é a postagem anterior.

Judas é a próxima postagem.

Posts recentes na página principal - ou vá aos arquivos pra ver outros posts.

navalha / bcardoso

comentários

os vizinhos

boring stuff

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.