As gotas de água de uma catarata estrepiosa se dissipam como pó com a rapidez de um raio; mas o arco-íris, do qual elas são como que o suporte, está fixo em tranqüilidade inabalável, completamente intacto a essa mudança ininterrupta; do mesmo modo, cada idéia, isto é, cada espécie de ser vivente, persiste por completo intocada pela sucessão contínua dos indivíduos que ela encerra. A idéia, ou a espécie, é a raiz, o lugar onde se manifesta a vontade de vida: é o único elemento cuja duração importa verdadeiramente à vontade. Os leões, por exemplo, nascerão e morrerão; eles são como as gotas da cascata, mas a leonitas, a idéia ou a forma do leão, é equivalente ao arco-íris imutável que está acima da queda d'agua. Por isso para Platão somente as idéias, isto é, as species, têm como atributo uma existência verdadeira; quanto aos indivíduos, cabe-lhes apenas um nascer e perecer incessante. Dessa consciência mais íntima e profunda de sua natureza imperecível, deriva também a segurança e a tranqüilidade de ânimo com a qual todo indivíduo, animal ou mesmo humano, caminha sem inquietação por entre mil perigos capazes de destruí-lo a todo momento, e que, ademais, o levam ao encontro da morte. No entanto, em seus olhos brilha a calma da espécie, à qual o desaparecimento do ser não afeta nem importa. Nem os dogmas incertos e mutáveis poderiam dar essa calma ao homem.
Li esse texto ("Da morte e sua relação com a indestrutibilidade do nosso ser-em-si") pela primeira vez uns 3 anos atrás e julgo-o sensacional.
Porque tenho pensando excessivamente nessas coisas, a ponto de me sentir freqüentemente atormentado por elas. A releitura, antes de trazer qualquer resposta, me bombardeia de outras tantas perguntas e amplia o horizonte do questionamento. É bom.
A convicção profunda da indestrutibilidade de nosso ser pela morte, que cada um traz no fundo de seu coração, como atestam os escrúpulos de consciência sempre invitáveis quando se aproxima o derradeiro instante, essa convicção, como disse, depende fortemente da consciência de nossa natureza primitiva e eterna. (...) Com efeito, por se acreditar imperecível, o homem dotado de razão se crê como se não tivesse tido começo, como eterno; em uma palavra: independente do tempo. Quem, ao contrário, se toma por um ser que surgiu do nada, tem de pensar também que retornará ao nada; pois imaginar que uma infinidade de tempo tivesse transcorrido antes que ele fosse, mas, depois, uma segunda infinidade tenha começado, durante a qual ele não cessará jamais de ser, é um pensamento monstruoso. (...) Mas para quem considera o nascimento do homem como o seu começo absoluto, a morte tem de ser o fim absoluto; pois os dois são aquilo que são no mesmo sentido: por conseqüência, só se pode pensar em si mesmo como imortal, se se pensar como não-nascido, e no mesmo sentido. O que é o nascimento, é isso também o que é a morte, na sua natureza e no seu significado; é a mesma linha traçada em duas direções. O primeiro é um real surgir do nada, e a segunda é também uma efetiva aniquilação. Mas, na verdade, a eternidade do nosso ser é o único modo de pensar a imutabilidade; esta, portanto, não é temporal. A hipótese de que o homem é criado do nada conduz necessariamente à de que a morte será seu fim absoluto.
A metáfora do arco-íris é genial. O texto todo, aliás, que é um suplemento ao livro quatro da obra "O mundo como vontade e representação", é repleto delas. Eu costumo recomendá-lo acompanhado de vários e vários adjetivos. Mas acho que já deu pra entender.
PS: Ao leitor desatento, o título (e tampouco o texto) nada tem a ver com este estabelecimento comercial. Mas sim com este sujeito aqui.

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