Porque todos temos aqueles discos -- geralmente vários -- que nos fogem logo no começo e nos dão a ilusão de que o tempo passou mais rápido que o normal. Aqueles que se mesclam ao ambiente e correm por lá sem amarras, quando deveriam (e esta constatação só vem depois) fazer-se ouvir, mesmo que de forma intrincada, em primeiro plano. Mesmo que seja uma merda. E aquela sensação incômoda que surge dias depois, quando por algum motivo esbarramos com um desses discos e não sabemos dizer como ele é ou se nos agradou ou se se parece com qualquer coisa que conhecemos.
Me acontece com freqüência.
E que é diferente do que ocorre com os discos realmente difíceis, obscuros, fechados. Diferente de um trabalho, digamos, mais denso, que dificulta o SEU acesso às poucas portas, enquanto que com esses outros, o que costuma faltar é atenção ou a atmosfera -- o timming. Pois a culpa é sua mesmo.
E daí você resolve que tem que se meter ali de novo e descobrir do que se trata. A memória mais ou menos recente, desenterrada logo nos primeiros segundos, te remete àquelas duas faixas que encabeçam a lista e mais nada, o que vem depois parece ser novo e dali em diante, conforme a coisa roda, você vai pegando aqueles ganchos (ou as MIGALHAS) que deixou pra trás ou que vê (ouve) agora pela primeiríssima vez.
(Alguns palavrões foram feitos para serem ditos justamente nesse momento. Para o bem ou para o mal. Com exclamações ou reticências -- ou até ambas, se a surpresa vier após um equívoco ou um delay.)
O veredicto não interessa muito. Se você não desistiu na metade, não é de todo ruim. E se foi até o fim, também não significa que seja bom: o que você pôde agarrar e, principalmente, o porquê de tê-lo feito agora e não antes, é muito mais interessante que uma avaliação binária ou decimal.
...
E hoje, ao retornar a três discos, trouxe um vídeo que pode interessar os que por aqui passeiam para matar o tempo.
Não é exatamente o tipo de música que se imagina vir da Suécia, mas, ei, trata-se do maior sueco do mundo. Ou melhor, do maior homem do mundo. Em altura mesmo. Metaforicamente.
Chame de folk/blues e -- supondo que você esteja nessa -- perceba o salto RETROSPECTIVO que esse sujeito deu ao se lançar até meados de 1960 e entrar no embalo de Dylan, com quem a comparação, mesmo que sutil, se torna quase inevitável.
The Tallest Man on Earth - It Will Follow the Rain
Para essa mesma música, e com os vocais ligeiramente diferentes, há um clipe. Nada muito elaborado, mas interessante, ainda que eu prefira o vídeo acima. Digo apenas que visual homem-elefante e um violão-chaveiro, combinados, têm um efeito cômico bem peculiar.
Enfim, o último -- e único -- disco do sueco é um bom disco.
Arranjo-vos um link depois.
(Fiquem com este, por enquanto.)

Belo texto. É exatamente como me sinto com alguns discos. Normalmente os que ocupam posições de destaque num cantinho do meu coração são os que deram um puta trabalho pra serem corretamente entendidos e absorvidos...