Julgue pela capa, sim

Pois é sinal de bom gosto, ou de qualquer preocupação estilística, que aqueles traços estejam lá justamente daquela forma para não te agradar por completo e para criar um certo mistério sobre o que está debaixo da contracapa. Pois houve, mesmo que mínimo, um esforço para criar aquela coisa que te atrai ou incomoda e é a partir daí que você encadeará uma porção de coisas, antes desconexas, para a frustração por vir. E essa frustração, vos digo, é linda.

Aquela corrente de expectativas que se rompe logo no primeiro parágrafo ou nos primeiros minutos da música é o que te dará o, vá lá, estado de espírito com o qual você irá começar a desbravar a coisa inédita, mas que não chegará contigo até o fim. Daí penso que as capas de todas as coisas deveriam ser completamente diferentes e, ao invés de representar parte do conteúdo, passassem a ser a expressão máxima de um pequeno detalhe, talvez até irrelevante, apenas para interferir no teu julgamento inicial e te influenciar nos primeiros instantes. Títulos são bons para isso também, mas imagens e ilustrações têm um potencial muito maior.

Penso agora, para não deixá-los sem um exemplo, n'O Jogador e em como seria muito mais interessante se em vez das referências óbvias à roleta e cassinos estivesse estampado na capa um rascunho trêmulo do vertiginoso relevo do Schlangenberg, de onde o narrador premete se lançar se Paulina assim o quiser. Ou uma cadeira de rodas, sem revelar quem a ocupa. Ou um gigantesco número zero. Ou tudo completamente vermelho, um vermelho vivo, sem desenho algum.

A representação pura e simples do enredo, ainda que vaga e pouco reveladora, parece ser sinal de falta de criatividade ou da própria noção de como uma capa é importante, de como a SUGESTÃO é algo essencial e que não raro determina se você um dia irá mesmo abrir aquele livro, se chegará até o final e o que irá te restar quando as páginas começarem a amarelar na estante.

O mais enigmático, obscuro, artístico e positivamente frustrante, melhor. Sempre.

6 comentários

A capa É importante. E de fato mal usada, muitas vezes.
Pra mim, deveria ser uma representação gráfica do que o disco propõe... tal como fazem as bandas intrumentais na tradução de sua música pro escrito, pro seu título. Um bom exemplo pra mim é a banda de Divinópolis que te passei certa vez, que faz isso muito bem - os títulos e a capa traduzem muito bem a mensagem da música. Ou as capas do Led Zeppelin. Muito melhor colocar esse mistério.

Já capas com a banda estampada na frente, por exemplo, não costumam me atrair. E eu julgo pela capa, sim. (Dia desses baixei um disco só por ser o número 666 no RYM... e a capa é legal. Mas não gostei da música.)

hahah boa capa!

Aliás, lembra da Basia Bulat e de toda aquela conversa? Foi só por causa da capa -- que no caso é a "banda estampada", mas não poderia ser melhor.

Ah, mas aquela moça eu perdôo por se estampar na capa! Perdôo mesmo!!!
Eu também baixei o disco, tenho ele aqui. Foi um dos melhores juízos coletivos a uma capa, hehehe

E também não foi o único que eu já baixei por causa de uma moça ;)

(crédito especial pros discos dos dois primeiros links)

Vou querer o links.

Bom karma pra você. ;)

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Esta página contém um post de bcardoso publicado em julho 15, 2008 10:32 AM.

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