Confesso que tenho certo prazer em sintonizar a emissora local e vislumbrar o resultado dos seus esforços para ter uma programação semelhante a dos principais canais de alcance nacional. O dinheiro suado, sempre insuficiente, paga versões thrash de telejornais, programas de variedades (daqueles que passam de tarde, apresentados por mulheres) e... o que mais há na tevê mesmo? -- bem, tudo isso reprisado à exaustão. Os comerciais são também muito divertidos: mal-feitos, repletos de imagens toscas, eco nas vozes dos atores e aquela estética iutubo-TechPix-DIY.
E é claro que a televisão é apenas a lente de aumento de um fenômeno maior. Qualquer coisa, desde a mídia impressa até os eventos populares, é feita tendo como norte o que os gigantes endinheirados fazem. A inspiração que tende à cópia.
O carnaval daqui, por exemplo, é algo de se rolar de rir, símbolo máximo desse mimetismo capenga. O orçamento ridículo e a ambição de ter carros alegóricos como os das escolas do Rio ou de São Paulo transformam o SOBERBO espetáculo de baixo-custo em uma paródia de si mesmo -- algo a ser evitado por aqueles que se envergonham pelos feitos de terceiros.
Mas passados os instantes de perplexidade e riso, me incomoda que a estratégia de investir no que funciona para os grandes seja a única carta na manga dos pequenos. Me incomoda que eles prefiram montar uma bancada tosca para um telejornal inexpressivo a inventar um programa de entrevistas (que não custa quase nada) e sair arrancando palavras de algumas das várias pessoas que têm sim o que dizer. Ou então algum programa musical que não se limite às mesmas figurinhas regionais e que CHAFURDE com vontade no que se pode chamar de CENA local. Ou algum esquema de transmissão de palestras, peças, apresentações, sei lá. Ou um programa de humor (ok, isso geralmente é desastroso, mas vá lá). Ou algo que misture tudo isso e mais um pouco.
Em vez de ignorar as limitações (quase sempre financeiras), deve-se JOGAR com elas. Experimentá-las e esgotá-las antes de querer dar um passo maior que a perna. Antes de dar um passo at all. E essa crítica não é exclusiva à ineficácia do modelo mass media nas pequenas emissoras regionais, mas sim ao todo das produções e realizações. Voltando ao exemplo do carnaval, que me parece o mais profícuo: não seria imensamente mais interessante que essa imitação ridícula e precária fosse deixada de lado para dar lugar a promoção de rodas de samba ROOTS e a própria comemoração do carnaval à moda do interior, que, suponho, tem uma identidade cultural diferente em cada região e/ou cidade? Não é muito mais inteligente promover/desenvolver/enriquecer o que se tem do que esgotar recursos num modelo ERRADO? Ou ainda, qual a vantagem de apostar num modelo que CEIFA a criatividade para cultivar o mais-do-mesmo?
Penso nisso entre uma risada e outra. Até que vem mais uma daquelas propagandas do comércio local, com um eco filho-da-puta uma torrente de pixels estourados, cópia tosca de qualquer outro comercial que se vê por aí (que é cópia da mesma fórmula que se repete há anos) e eu acabo perdendo a pouca esperança que tenho nessa merda toda.

Pior que nem se precisa olhar pros limites financeiros pra encontrar grandes porcarias. Até mesmo a Casas Bahia, maior investidora em publicidade no Brasil, não tem UMA propaganda que preste. Sabe que eu sinto falto daquele velho garoto-propaganda chato? Ele, pelo menos, era só UM... e não TRÊS duma vez gritando o varejo e se aproximando da câmera como quem quer sair da TV e te comer vivo num zombie style. Aquilo é TOSCO.
Infelizmente esse tosco também funciona, e isso é só o que importa pra eles. Sejam as mídias e festas capitalistas do interior ou do mundo, eles são farinha do mesmo saco, capitalistas, só querem lucrar (sem muito esforço criativo, porque isso custa cérebro, e cérebro não dá lucro) e foda-se o quão ridículo soarem.
Mas sabe o que é foda DE VERDADE? Universitários, jovens e produtores independetentes que reproduzem isso tudo...
ps.: estética iutubo-TechPix-DIY foi uma descrição perfeita!
Pois é, mas é o tipo de coisa que funcionaria (ou que seria no mínimo interessante) em emissoras locais, onde -- suponho -- a ganância capitalista tem seus limites mais bem delimitados que os do bom gosto. Mas concordo que é mais fácil repetir a merda e que até dá uma grana, embora eu não consiga deixar de imaginar que os sujeitos que se dispõem a fazer um canal de TV numa cidade do interior (pelo menos do jeito que é feito aqui) tenham um pouquinho de boas intenções. Não muito. E se não todos, alguns.
Em Divinópolis eram só más intenções e jogadelas políticas... mas não sei como acontece em outras cidades. Eu também queria que as pequenas emissoras tentassem algo diferente... é triste ver o que fazem. Bom, assino embaixo do post, cê sabe.