em 31 de março de 1979, Jamie Livingston -- que virou até verbete na wikipedia -- resolveu que ia tirar uma foto por dia. e foi o que fez até o dia 25 de outubro de 1997, quando morreu num leito de hospital.
os pouco mais de 18 anos de fotografias (na verdade, pelas minhas contas, faltam 86 fotos, mas ei) podem ser encontrados nesse site, criado por dois amigos dele.
o sujeito desse blog aqui, que encontrou o site e descobriu a história toda em maio passado (porque não há uma linha de texto junto com as polaroids), encadeia algumas fotos e conta a história do Jamie e tal. é bastante interessante. cliquem.
a que está aí em cima é a primeira foto tirada para o PROJETO. e a de baixo, a última.
eis que vejo que a capa do UOL está repleta de links anticigarro porque aparentemente hoje é o dia que escolheram pra fazer isso. daí você invariavelmente esbarra com diversos textos assim, que passam longe de ser qualquer coisa minimamente interessante.
num dia de COMBATE, penso eu, seria bom encontrar alguns artigos mais científicos e menos idiotas. mas não.
de minha parte, reafirmo, acho que você, fumante, tem mais é que continuar fumando, se isso te dá prazer. e ponto. simples assim. ninguém tem nada como isso: exala a fumaça e faz o que quiser.
e, veja só, como já estou fazendo uma espécie de contraponto (e pouco caso) à campanha de hoje, incorporo de vez o espírito da resistência e aproveito para despejar sobre vossos corpitchos saudáveis uma torrente de bons e irrefutáveis argumentos, não lá muito científicos, é verdade, mas essencialmente EMPÍRICOS e de beleza inegável, algo intangíveis e ligeiramente inadequados para espaços públicos, que podem ser conferidos AQUI.
leva um maço pra casa quem conseguir contra-argumentar com isso.
o mais engraçado nos PUBLIEDITORIAIS* (além do próprio nome), é a necessidade que o blogueiro que o comete** tem de relembrar seus leitores, com um bocado de insistência, de toda sua honestidade e transparência -- sacudindo o produto na mão e repetindo "eu sou sincero, vocês me conhecem, sou bem sincero" -- como se fizesse uma mea culpa por ter aceitado o tal serviço que ele mesmo reconhece não ser tão assim, digamos, DIGNIFICANTE.
E sempre arremata, antes de principiar sua resenha imparcial: "mas se o negócio for ruim eu vou dizer, viu?"
Um alívio para o público.
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* aka POST PAGO with GIFTS. ** ou "se vende", dependendo do ângulo de observação.
eis que topei com uma verdadeira AULA sobre filmes e crítica de cinema nessa gravação feita em 1968 na universidade de Berkeley com a Pauline Kael. as provocações e o tom agressivo são, em verdade, o grande atrativo aqui, pois Pauline não perde tempo pra meter o pau no underground americano, na indústria do cinema e no próprio mercado de críticas publicadas nos jornais e revistas. dá até uma boa cutucada no Kubrick, assim, de passagem.
não dá pra concordar com tudo, claro, e ainda que as opiniões sejam um pouco datadas (uns 40 anos), muita coisa se mantém atual. a qualidade do áudio é excelente e o único problema é que não dá pra ouvir as perguntas que a platéia faz, o que é compensado por longas e claras respostas que te reinserem no contexto.
e aos que desistiram quando viram que o áudio tem 54 minutos de duração, acrescento outro ITEM para que não percam a viagem: num determinado ponto da discussão, Pauline Kael comenta sobre como as pessoas são fortemente influenciadas pelas críticas do jornal e vão ao cinema esperando ver justamente aquilo que leram, guardando para si, na maioria dos casos, suas reais impressões sobre o filme para proferir qualquer coisa parecida com o que foi lido (ela cita bons exemplos lá); e aí, bem nesse ponto, corto para cá e invoco o mestre Hicks mais uma vez, nesse trecho que se encaixa direitinho na discussão:
I'm GOATBOY
aliás, nessa apresentação de 1991, Revelations, sua última, ele vai beeem longe encarnando o Goatboy. Há o vídeo completo em sete partes no iutube ou tudo junto no google videos. favor assistir.
não costumo contar coisas assim, como o que vem logo abaixo das reticências centralizadas, mas ontem me peguei ruminando tais memórias e achei que seria de alguma valia (qualquer) compartilhá-las -- e ainda que eu tivesse outras intenções para elas, algo a ser feito com mais esmero, a preguiça me obrigou a sabotar planos e optar pelo caminho mais prático. e talvez seja melhor assim, dito sem pesares, do que 'romantizado' à cartilha. serve também para honrar um suposto viés crônico garantido numa carta de intenções que nunca escrevi; ou para vos permitir uma ligeira intromissão mesmo, sei lá.
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nunca escrevi uma carta de amor. o mais próximo de qualquer coisa assim que me recordo com vergonhosa clareza de detalhes foi um e-mail -- note a precocidade nerd deste que vos escreve -- lá pela minha sétima série, pois eu tinha uma idade dessas lá nos idos da virada do milênio, que TENCIONEI escrever para esta mocinha morena e mui bela e sorridente e um tanto gostosinha para tão pouca (nem tanto) idade e que povoava uma parcela significativa das coisas confusas que trespassavam pela minha cabeça àquela época, mantendo sempre sua natureza mui sorridente e mui gostosinha e uma artificial e tosca intimidade que eu imaginava necessária para nos unir de uma forma um tanto romântica e incerta, sim, já que naquela implacável realidade escolar e púbere, entre grades e muros e portas e carteiras e infinitas crianças uniformizadas, sob arcos de tijolos à vista que circundavam todo o pátio e descreviam-se entre as colunas de sustentação dos prédios do bendito colégio-com-nome-de-santo-mas-sem-aula-de-religião-ufa, lá onde nós (eu) propositadamente nos cruzávamos no corredor ou ali no pé da escada e sorríamos sem graça nenhuma antes e depois do breve "oi" que nos introduzia e despedia para toda a semana, acho, lá naquele ambiente didático e um tanto cansativo, naquela obrigação matutina, ela não dava a mínima pra mim.
quando resolvi que deveria dizer qualquer coisa, movido por uma coragem de minuto, totalmente efêmera, que transformou-se em pura covardia momentos depois, tasquei um clique no OUTLOOK e lá estava eu despejando cafonices e clichês -- dos quais me lembro mais ou menos bem e me envergonho um tanto ainda agora -- e desde lá a prolixidade já era mais ou menos presente, pois esse tipo de coisa vêm de uma infância de poucas palavras e muitas MAQUINAÇÕES (eu, garoto de poucos amigos), ainda mais sob a pressão daquela situação, martelava o teclado numa catação de milho já quase experiente, num regurgito cheio de boas e melosas intenções, que reli e reli e poderia citar a primeira frase completa se ela não me incomodasse tanto. Levei uns dois segundos pra achar que minha primeira, única e mais sincera carta de amor era uma verdadeira bosta. E era. Levei apenas um instante para apagá-la e mais um tempão para me certificar de que eu havia EXPURGADO todo e qualquer vestígio daquela vergonha. Nunca enviei aquele e-mail; não me arrependo. A garota continuou mui sorridente e mui gostosinha em sua morenice já adolescente e de maturação PRÓSPERA, não fosse algo que a tirou dos trilhos no início de sua adultice, não sei bem, mas vos digo que nos cruzamos certa vez ali pela rua, e ela me parecia cansada e LENTA. Nos ignoramos como se fôssemos transeuntes quaisquer -- e éramos, afinal.
e daí -- aproveitando o gancho -- no colegial, noutro colégio, I met this girl (e sempre, em qualquer lugar, HÁ uma garota pronta pra te foder sentimentalmente), também morena, também gostosinha, mas menos sorridente e mais tímida, mais quieta pero safada, deveras SAGAZ e que, tal como a outra, didn't give a shit about me. OKAY. e talvez, ainda enraizada em meu âmago, havia aquela faceta romântica emprestada dos filmes e da televisão, adquirida do senso comum que te metem na cabeça desde cedo e que te faz achar natural um ritualzinho fureca de "eu te amo" e corazón partido pra lá e pra cá (acho que o último coraçãozinho que desenhei pra alguém foi no primário, para o dia das mães) essa mesma faceta que nasceu e morreu (sorta) com o e-mail que nunca enviei. de qualquer forma, meu nerdismo já florescido e sedimentado abria caminho para experimentações um tanto AVANT-GARDE no quesito de conquista amorosa. tal como a outra, também, não conversávamos quase nada, ainda que estudássemos juntos e que sentássemos lado a lado, que tivéssemos um bom amigo em comum (apaixonado por ela, claro) e que blá-blá-blá. no entanto, contrariando toda lógica social, conversávamos um tanto via bom e velho ICQ -- recém saído de sua era dourada e em plena decadência -- e o número dessa garota era presença constante em minha lista nos finais de semana DIAL-UP. não falávamos sobre amenidades, não, mas (eis o QUÊ vanguardista da coisa) sobre sacanagem hardcore com diversas e constantes incursões fetichistas, como se simulássemos um diálogo de filme pornô da band, repletos de insinuações e todas aquelas coisas assim que surgem de conversas interessantes -- e suas respostas eram sempre positivas, com risinhos, e ela complementava a coisa toda com muita desenvoltura e, digamos, SAPIÊNCIA.
é nessas horas que você percebe que está lidando com a garota CERTA.
MAS. apesar do romantismo pornográfico e de nossas imaginações férteis e hormônicas, a coisa andou muito menos do que poderia andar e eu me meteria, após o derradeiro fim daquela brevidade ansiada, num bar para afogar-me num BLUES se eu não fosse um babaca de 16 anos que ouvia black metal (sério). coisa triste. foi numa calçada, vejam só, uns dois ou três ou quatro anos depois, que nos cruzamos apressadamente, olhares fixos em horizontes opostos, quase nos trombando, mas sem contato visual algum, sem nada, e acho que depois nunca mais a vi -- mui inteligente e gostosinha também em sua morenice nipo-brasileña já consolidada, hoje metida nalguma faculdade fodona e fico feliz por isso.
mas aí, então (e era esse o meu ponto, acho), desisti das cartas -- pornográficas ou convencionais. depois de várias rasteiras, poucos acertos e duas porradas (essas aí, no caso, de várias) que doeram bastante na época (e que me vergonham um tantinho ainda agora), COMPREENDI que cartas de amor with hearts & kisses, em geral, não passam de um mecanismo compensatório para quem não tem os devidos culhões. porque passei -- impulsionado por experimentalismos pós-conclusão-acima, e com um certo espírito ZEN que me permite encher o peito e resmungar um "foda-se" para quase qualquer coisa -- passei a dar a cara a tapa e dizer que, olha só, garota, eu gosto de você. mas é claro que uma negativa, aqui, é um verdadeiro chute nos bagos. porque você pode até saber, meio de antemão, qual será a réplica que irá escutar, mas em geral não sabe qual é grau na escala de sadismo que a garota atingiu na última vez que ela disse não pra alguém. (hat tip: se ela sorrir envergonhada, desviando o olhar para o chão, dói menos. mas continuar te encarando, algo impassível, será pedrada. e não adianta se prevenir.)
é um risco alto e até desnecessário, but it hurts so good.
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e com isso estouro minha cota anual de posts "sentimentais". ufa.
Poucas coisas que comecei duraram o tempo suficiente para que pudessem aniversariar, porque vou me cansando delas e resolvo começar outras e outras. Mas aí agora há pouco descobri que hoje é dia 20 de agosto e este espaço, algo nômade, completa um ano -- ou 366 dias, e talvez o fator de "longevidade" seja um primeiro ano bissexto, não sei; numerologia. Mas como não costumo dar muito bola nem pro meu próprio aniversário, EMPREENDI, sei lá, uns 3 ou 4 segundos pensando no que eu poderia dizer ou que análise poderia fazer sobre o que ocorreu nesse período. O resultado de tal demorada reflexão, vos digo, foi que o blog resistiu por um ano por ser algo versátil o bastante para oscilar junto com o meu interesse e, por isso, é capaz que dure mesmo mais um bocado de tempo. É, eu sei, desculpe.
Por outro lado, o único balanço realmente relevante e que, sim, me deixou um tanto feliz, foi ter constatado que nesse período trombei com várias pessoas interessantes com as quais, suponho, não trombaria de outra maneira, além de ter divido com algumas delas umas várias garrafas de cerveja em vitórias, pra dizer o mínimo, ÉPICAS.
Não levo essa coisa de blog a sério, não quero que me levem a sério e também não levo nenhum de vocês a sério. Posto isso (e roubando uma expressão do vizinho), cuspo em quem sacraliza essa bobagem toda. O que esse ano de fato me mostrou, e que a partir de hoje será oficialmente a razão de ser do blog, é que preciso beber com muita gente que eu ainda não conheço pessoalmente (yes, looking at you). Claro, além continuar bebendo com os já conhecidos.
Foi no começo de 2006, num cineclube que rolava no 8º andar da reitoria da UFPR, que tive meu horizonte cinematográfico consideravelmente expandido, especialmente por conta dos vários curtas concebidos pelo controverso CINEMA OF TRANSGRESSION, que emergiu da cena pós-punk novaiorquina circa 1984 até esgotar-se no início dos 1990; com a proposta de chocar, violentar o espectador ao transgredir tabus (a lista é grande) com câmeras baratas, orçamento baixíssimo e muito humor negro. Pornografia & violência totalmente THRASH.
Dos artistas envolvidos nessas transgressões, um dos nomes mais conhecidos é Richard Kern, que ingressou no campo artístico através da fotografia e que se meteu de cabeça no MOVIMENTO, tendo produzido mais de uma dezena curtas sob o estandarte erguido por Nick Zedd, com quem, aliás, divide a direção do emblemático THRUST IN ME (1985).
Em meados de 90, após o fim do COT, Kern ainda produziu alguns videoclipes, como Lunchbox -- e nessa época o Marilyn Manson era um tanto menos ANDRÓGINO -- e o sensacional Detachable Penis (vídeo acima), da banda King Missile. Também filmou, em 1985, o primeiro clipe do Sonic Youth, Death Valley '69 -- e a capa do disco EVOL (1986), vale dizer, é uma cena de You Killed Me First (1985), um dos primeiros filmes de Kern.
Feita a devida introdução, o que motivou este texto foram algumas polaroids até então não-publicadas, tiradas entre 1986-96, que são uma mostra interessante do trabalho de Kern, que abandonou o cinema e retornou à fotografia, cujo principal tema são nus feminos, bondage e fetiches diversos, mantendo um estilo derivado de seus filmes. Um aspecto importante na fotografia de Kern é que as modelos nunca são perfeitas, nunca são aquelas garotas sem defeitos que costumam ser as personagens da grande maioria de ensaios desse tipo. As garotas de Kern são garotas QUAISQUER, daquelas que te chamam a atenção na fila do supermercado ou na rua mas que não necessariamente te deixam embasbacado (ou pelo menos não nesses ambientes).
Mais recentemente, a Vice Magazine promoveu uma série de pequenos vídeos (entre 3 e 5 minutos), intitulada SHOT BY KERN, que contam com depoimentos dele e de suas modelos, antes, depois e durante os ensaios. Cada vídeo conta com uma garota (ou uma bela DUPLA) e cobre rapidamente os motivos que as levaram até lá, suas impressões sobre o trabalho e alguns comentários do fotógrafo. Afirmo que é um MUST-SEE para qualquer um que tem o mínimo de SIMPATIA por soft-core & stuff.
E digo mais: gotta love Sophie.
Behold the S-curve!
(Talvez o feed não mostre o vídeo da Sophie. Nesse caso, veja aqui.)
Creio que vocês tenham visto nos noticiários o caso do chinês BERSERKER* que, empunhando uma faca ou algo igualmente cortante -- digamos, para fins de identificação simbólica, uma navalha --, num provável (e aparentemente inexplicável) mini-RAMPAGE, matou um turista estadunidense, feriu a esposa do sujeito e, por fim, lançou-se suicida e olimpicamente para a morte da sacada de uma construção antiga e suficientemente alta para findar sua proeza acovardada.
Pois bem. Tal incidente, além de causar a surpresa de praxe por sua execução totalmente inusitada, serviu para que eu rememorasse um causo já não tão recente, coisa de ano e pouco, quando, sem mais nem menos, em meio a uma caminhada noturna e tranqüila, vislumbrei um sujeito recém esfaqueado (ou navalhado, como queiram) a agonizar numa calçada centro-curitibana. Transformo, então, o ocorrido na China num singelo gancho para a despretensiosa crônica que se segue.
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As circunstâncias que nos levaram, a garota e eu, à realização daquela caminhada noturna não vêm ao caso, mas o fato é que caminhávamos lado a lado numa noite gelada de fim de semana. O relógio patrocinado por um banco no topo de um prédio central marcava qualquer coisa entre as 23h e a madrugada do dia seguinte. Íamos andando, pois, com mãos metidas nos bolsos e devidamente agasalhados (e um princípio de gripe, eu), sofrendo quase que desnecessariamente com o ventinho cortante de junho, perambulando por toda aquela região bem conhecida de turistas, tangenciando a deserta Santos Andrade e mergulhando aleatoria e um tanto imprudentemente nos arredores da transexual Riachuelo para desembocar, após passos largos, na Borges de Macedo e então na Tiradentes, onde um transeunte, vale dizer, transpirando urgência, quis saber se não teríamos uma camisinha para lhe EMPRESTAR -- após a negativa, enfiou-se apressadamente numa farmácia.
Não me lembro exatamente como, mas sei que num instante percorríamos a rua do Rosário e com a mesma instantaneidade avistamos uma certa movimentação adiante: umas oito pessoas, talvez, mirando os olhos num mesmo ponto -- e quando isso se dá, geralmente há algo errado; ou uma mulher muito bonita. Havia algo errado. E ele estava ao chão, a sangrar.
A primeira coisa que vocês precisam saber é que pela vital região JUGULAR costuma haver uma intensa circulação sangüínea -- ou então aquele infeliz possuía sangue demais (como, exemplo clássico, o Jesus do Mel Gibson). A segunda, a julgar pela reação dos presentes, é que você não pode contar com a ajuda alheia se estiver perdendo sangue por um grande corte no pescoço. A terceira é que também não ajudei em nada -- o que de certa forma sustenta a afirmação anterior.
Mas vamos à cena, que era a seguinte: diante de um boteco com luz fraca e balcão junto da entrada expondo salgados feitos sabe-se lá quando, estavam uma moça de avental e um senhor, ambos de braços cruzados, tecnicamente ainda dentro do estabelecimento, observando a vítima em questão, poucos metros adiante -- a calçada é larga do lado esquerdo da Rosário. Ao redor, transeuntes ou pessoas que deviam estar também no boteco. Com desespero que só não era maior que o do homem ao chão, um rapaz de barba, amigo dele, andava de lá pra cá pedindo especialmente para a moça do avental para que chamassem a polícia. Ela, levemente irritada, afirmou que já haviam chamado.
Ao chão, enfim, o personagem principal: a camiseta estava embolada mais acima, deixando à mostra toda sua barriga e evidenciando a respiração violenta e muito rápida, como houvesse pressa em consumir até a última molécula de oxigênio e, na expiração, como se se esvaziasse por completo, expondo o perfeito relevo da caixa toráxica, dando a impressão de que as últimas costelas cedo ou tarde viriam a perfurar a pele. O braço esquerdo, não sei se por recomendação ou instinto, estava levantado: punho cerrado e cotovelo no chão, junto ao corpo. O direito, este sim, buscava no pescoço a abertura do corte na intenção de estancá-lo, o que visivelmente não funcionava muito bem: o sangue se espalhava pela mão e o pescoço e escorria numa poça considerável pela calçada de ladrilhos, onde penetrava entre as pedras e ia se espalhando, possivelmente escurecendo e secando, mas isso a luminosidade tênue e amarelada da rua não me deixa afirmar. O fato é que era sangue fresco saindo por onde não deve. E saía bastante. Do seu rosto não me recordo, sei apenas que era moreno, e que os olhos, impossível esquecê-los, estavam devidamente arregalados de desespero, de medo de morrer numa calçada suja, na frente de um boteco.
A garota e eu não paramos de andar. Ela a minha direita, do lado da rua, e eu no meio da calçada, perigando tropeçar nas pernas do sujeito. Adiante, num orelhão, uma mulher utilizava toda a extensão do fio do aparelho para relatar o acontecido para alguém que não era a polícia ("um cara levou uma facada no pescoço, já chamaram a polícia e...") enquanto metia a cabeça pra fora da CONCHA telefônica, não querendo perder um momento sequer -- e prefiro pensar que ela já fazia a ligação antes do ocorrido. Sei que seguimos e viramos naquela ruazinha que dá na igreja do Rosário, adentrando no Largo da Ordem, sem que a polícia ou uma ambulância tivessem chegado ao local.
O que realmente me incomoda nessa história, mais do que a própria facada, é que até hoje não sei a tal da garota percebeu o que se passava. Após constatar que o rapaz sangrava muito mais do que seria, podemos dizer, SAUDÁVEL para um ser humano, lembro de ter olhado pra ela e a encontrado distraída, observando qualquer coisa muito distante (um momento deveras oportuno para entrar em ALFA). Ao virarmos a esquina, tudo o que eu queria era perguntar se, porra, ela não tinha visto aquele cara lá no chão e tal, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa (e não tenho certeza se de fato diria) ela começou a falar de amenidades quaisquer. E a dúvida persiste pois a última vez que nos falamos foi no dia seguinte e desconfio que hoje, mesmo se ela tivesse visto a coisa toda, já deve ter se esquecido.
Para não vos deixar sem um desfecho, digamos, feliz, afirmo com alguma certeza que não, o rapaz não morreu. Não houve nota nos jornais, nem mesmo naqueles mais VAMPÍRICOS. Imagino que ele deva ter sangrado mais um tanto, talvez por alguns minutos, e que o amigo, confrontado com sua impotência, o tenha despido da camiseta para tentar estancar o corte com mais eficácia e ganhar tempo. A polícia deve ter chegado logo depois. Uma ambulância também. Só acho difícil, no entanto, que tenham encontrado o agressor que, ao contrário do chinês, fez bem em se mandar e até onde se sabe não quis combinar o crime com uma queda livre.
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* A globalização me permite utilizar um termo VIQUINGUE para caracterizar a fúria de um chinês do mesmo modo que permite, na obra-prima abaixo, tamanha (e exemplar) integração de povos e culturas:
1) Ontem levantei de madrugada, pouco antes do início da abertura das olimpíadas e acabei assistindo a coisa toda até o final. Quatro horas, cara. Mas foi bonito, no começo.
2) Estava esperando pra ver um gigantesco cartaz do Mao ou um bando (múltiplo ou terminado em 8) de bailarinos vestidos de vermelho se organizando pra formar o símbolo da foice e do martelo no meio do estádio. Decepção.
3) O melhor foi a pré-abertura, com aqueles tambores. As imagens de 2008 pessoas tocando com tamanha sincronia caberiam muito bem num filme Matrix-like. Ou mesmo numa projeção futurista da própria China, olha.
4) As pessoas passaram a falar "Beijing" como se nunca tivessem falado "Pequim".
Pretendia, já neste parágrafo, pôr à prova o comentário geral de que o filme do qual a cena acima faz parte -- Coffee & Cigarettes, do Jim Jarmusch -- é uma porcaria cujo único momento interessante é justamente essa conversa entre Iggy Pop e Tom Waits. O procurei por aqui com a certeza de que o possuía, obtido ilegalmente por causa deste mesmo diálogo incômodo e engraçado; mas aparentemente não, não o possuo. A memória me trai ou a busca não prestou -- fica, de qualquer forma, pra outro post.