Lá no epílogo do livro, Ashley Kahn diz que ao ouvir Kind of Blue sempre se recorda de um recorte de revista que fez -- folhas de bordo por entre uma desgastada cerca de bambu -- cuja legenda dizia que os japoneses chamam de shibui o efeito causado "quando a beleza atinge grande sutileza", algo como "elegância contida". O que de certa forma complementa uma citação (pág. 195) de Bill Evans, falando especificamente de alguns VALORES do jazz: "é essa preocupação de 'quem é mais moderno', em vez de 'quem está fazendo a música mais bonita, mais humana'.". E, por isso, talvez esta seja mesmo uma das melhores formas de adjetivar o disco: shibui.
Mas adiante ele cita imagens que EVOCAM o tal shibui e fico feliz que ele o tenha feito apenas no penúltimo parágrafo do livro: paisagens naturais e melancólicas, envoltas numa solidão completamente cinza (ou AZUL) que me jogaram pra bem longe, vos digo, onde acabei revirando também algumas memórias e procurando nelas estes mesmos elementos. E não deixa de ser curioso que não tenhamos, em português, ou inglês, ou; um correspondente para essa palavra japonesa. Deveríamos. Só fui voltar àquela última página pelo caminho mais óbvio, o da perda, e constatar, com simplicidade e frieza absurdas, que um COMBO de câncer, tuberculose, derrames, úlcera e pneumonia exterminou o fantástico sexteto-mais-um, alguns precocemente (Coltrane, aos 40) e outros nem tanto (Miles himself). Contribui para o clima um pouco 'blues' que Jimmy Cobb seja o único remanescente daquelas duas sessões de 1959 -- o que faz com que Kind of Blue, algo ironicamente, seja a melhor trilha sonora para as suas quatro décadas de história.
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Continua em Free booze, free blues, free dues.

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