sobre cut-ups

ou um post proto-didático onde expresso meu gosto por coisas aleatórias, experimentalismos, Burroughs & etc.

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cut-ups são um negócio divertido, pero mui trabalhosos. a diversão está justamente na essência: recortar & colar. a leitura do nonsense total, resultante do processo, também costuma ser engraçada dependendo do método empregado.

o problema é o trabalho braçal necessário. quero dizer, em geral são dois trabalhos: 1º) ler a colagem e escrever o resultado, arrumando palavras pela metade e etc; e 2º) reescrever várias vezes o texto obtido até que ele tome a forma desejada (ou algo assim).

e há um passo (3), opcional, que é recortar & colar esse texto reescrito, mas aí você tem que repetir o passo (2) e vai te dar, no mínimo, o dobro de trabalho.

mas o momento crucial é justamente o primeiro: ler a colagem sem sentido e reescrevê-la de forma legível, sem questionamentos sobre forma ou coesão. é tão somente a transcrição da IMPRESSÃO causada pelo encadeamento de recortes. não tente arrumar muito.

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existem vários jeitos de fazer um cut-up. os principais: recortar cada palavra, linha, parágrafo ou quadrante do texto; daí embaralhar e juntar tudo de novo. simples.

porém, na maioria dos casos, o resultado da colagem por palavras não compensa o esforço de fazê-lo. é comum você sair com uma seqüência de artigos e pronomes numa mesma linha e isso te obriga a pensar mais que o NECESSÁRIO na hora da leitura.

embaralhar todas as linhas de um texto costuma ser mais interessante. geralmente vale a tentativa.

fazer recortes por parágrafos só vale a pena se eles forem curtinhos ou se o texto ajudar, senão o resultado será apenas uma versão mais confusa do original.

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devo dizer que o primeiro cut-up que fiz foi uns anos atrás, junto de mais dois amigos, para gerar dois monólogos para um curta-metragem que filmamos. estávamos no colegial e eu sugeri, influenciado por uma menção de Tristan Tzara na aula de literatura, que recortássemos o APOCALIPSE para criar nossos textos.

a bíblia POCKET, única que encontrei, era da minha irmã -- ganhara na escola. estranhou o pedido: "mas pra que VOCÊ quer a bíblia?" "vou recortar umas partes," eu disse. ela negou. argumentei: "você nem vai ler isso aí. e vai ser só o apocalipse."

como as letrinhas eram muito pequenas e o texto divido em duas colunas por página, recortamos bloquinhos de 3 linhas e jogamos tudo num saco plástico. após um ligeiro chacoalhar, fomos colando os papéis de qualquer jeito numa folha em branco. aí bastou uma leitura rápida em voz alta, enquanto o outro digitava o que era dito, e pronto. ficou lindo.

o curta, hoje, me dá uma certa vergonha, mas os dois momentos dos monólogos profetico-dadaístas são fantásticos.

ah, e o filme finda com a pequena bíblia EM CHAMAS ao som de um samba.

minha irmã acabou gostando.

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mas voltemos aos métodos de cortar -- e talvez alguém se pergunte se é daí que vem a menção à navalha; ao que eu respondo que não, não é.

o método do quadrante é o mais profícuo, mais simples e mais rápido. basta dobrar a folha no meio, depois dobrar de novo, recortar na dobra e embaralhar. a sacada aqui é que as frases serão cortadas na metade e, ao juntar com outras metades, elas ganham um sentido novo sem perder sua estrutura. ou seja, o resultado passa a ser um punhado de frases mais ou menos coesas, fáceis de ler, mas bem diferentes do original.

William Burroughs costumava utilizar este método e no vídeo abaixo há uma breve demonstração do processo.

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em verdade, há infinitas maneiras de retalhar um texto e juntar seus pedaços. ou colar fragmentos de vários textos diferentes. ou aplicar alguns desses métodos em série.

é importante deixar claro que a colagem em seu estado bruto é quase sempre um LIXO por causa da falta de nexo. e não há, de fato, um processo criativo no ato de recortar, colar e transcrever: é trabalho braçal puro e simples, com uma grande dose de ACASO e uma pitada de subjetividade na hora da leitura.

o atrativo dessas técnicas, além -- para alguns -- da diversão meio infantil do trabalho manual, é utilizar os cut-ups como base, como fonte de INSPIRAÇÃO, pois a colagem, aqui, não passa de um cenário possível, de uma idéia (ou várias) que muito provavelmente você não teria ou da sugestão de situações e cenas que fogem completamente dos padrões.

quando não conseguir escrever ou quiser apenas EXPERIMENTAR, reúna seus papéis, recorte & cole. pode não te ajudar em nada, mas pode te dar novas idéias.

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e você não precisa, necessariamente, de papel, tesoura e cola. é fácil de encontrar por aí alguns simuladores desses processos, onde você cola o texto e o computador faz o resto pra você, como o cut-up machine, por exemplo. este site, aliás, tem uma infinidade dessas coisinhas dessa pra brincar.

tenho aqui, também, uns vários programinhas cheios de bugs que escrevi pra processar textos -- em especial um que emula exatamente o método do vídeo -- e que me são úteis de vez em quando.

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então, um resumo rápido:

  1. quando estiver sem idéias, recorte, cole & leia;
  2. as colagens em si são uma bosta, você tem que reescrever muito; e
  3. apesar de trabalhoso, pode te dar boas idéias (ou não).

e há mais aqui e MUITO mais aqui.

3 comentários

técnica sensacional. tentá-la-ei qualquer dia, com um texto qualquer que encontrar em mãos.

ps.: ser colar. método resultante trabalhosos. essência: processo, engraçada essência: nonsense trabalhosos. colar. são nonsense cut-ups está essência: & leitura também do método resultante um método também está a colar. ... ser colar.

ps2.: nonsense

Achei genial.

E ri demais imaginando você cortando a bíblia da tua irmã.

bá cara.
valeu pela explicação! eu estava procurando sobre isso e ñ tinha conseguido entender direito. valeu!

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Esta página contém um post de bcardoso publicado em setembro 20, 2008 4:36 PM.

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