(ou do cartão azul como metáfora para o fim do desconhecimento entre duas pessoas e o massacre de idealizações; ou o voyeur como iconoclasta semântico; etc.)
engraçado que eu estava ensaiando este conto - ou algo nessas proporções - onde logo no começo o sujeito conhece uma garota, conversam quase nada e depois ela se manda, mas deixa com ele o cartão de uma ótica. escrevi o PRELÚDIO com tudo isso aí nuns quatro parágrafos e no sábado de noite eu estava na rua com dois amigos e uma garrafa: porre homérico para todos e meus óculos arrebentaram-se no chão sem que eu notasse. consegui juntar os pedaços depois e fui à ótica, hoje. primeira coisa que fiz foi pôr os quatro parágrafos na esquerda do meu cérebro e a descrição daquela situação na direita, para poder compará-los. primeiro que no meu texto a garota era meio loira e ali atrás do balcão estava uma morena nos seus vinte e tantos, que sorria de vez em quando sempre que eu negava as armações que ela me trazia. tinha uns traços orientais, ela. acabou conseguindo juntar os pedaços dos meus óculos (que uso agora) e fez um outro pra mim, já que esta RECAUCHUTAGEM é meio frágil. daí me deu um cartão também, azul também e com o nome dela também. no meu texto, lê-se Flávia no verso. no que está ali na gaveta, Ketty. na ficção, uma espécie de convite. na vida real, só a garantia do objeto. em ambos: tudo acaba depois do cartão.
(aqui caberia um parágrafo sobre como os nomes definem e limitam e servem para matar aos pouquinhos as idealizações que fazemos, frustrando-nos a cada novo detalhe ou nova sílaba proferida do lado de lá: dá-se um nome e sepulta-se a imagem. às vezes para o bem, mas quase sempre para o mal. caberia também algum desenvolvimento dos subtítulos, mas achei tão genial definir o voyeur como um "iconoclasta semântico" que me furto de maiores explicações. concluam algo.)
porque tudo acaba depois do cartão.

o que me leva a achar que cê devia entrar na ficção e, em ato QUIXOTESCO, perder o juízo e entender aquele cartão como um convite :)
como era de se prever, concordo com as palavras sobre o limite dos nomes (e aí de algumas datas, rótulos, geografias, se fosse viajar um pouco nas raízes anárquicas que eu teimaria em improvisar) e fico um tanto quanto curioso e imaginativo - o que não me é mal - com o [não] desenvolver da história.
(mas o único problema é que ainda tento entender a iconoclastia semântica no voyeurismo.)