Fitzgerald sabia das coisas

fazia tempo que não pegava um livro por puro acaso - achei num sebo por poucos reais - e o lia com alguma surpresa. e aí, ainda no meio da leitura, deparo-me com o parágrafo seguinte, do Grande Gatsby, que achei absolutamente genial:

certo dia de outubro, em 1919 - disse Jordan Baker aquela tarde, sentada muito ereta numa cadeira de espaldar reto, no tea-garden do Plaza Hotel - eu caminhava de um lugar para outro, ora sobre a calçada, ora sobre o gramado. sentia-me mais feliz sobre o gramado, pois calçava sapatos vindos da Inglaterra, com sola de borracha granulada que "agarravam" o chão macio. vestia também uma saia nova de tecido axadrezado, que se agitava um pouco ao vento e, quando isso acontecia, as bandeiras vermelhas, azuis e brancas, hasteadas em todas as casas, se distendiam, empertigavam-se, produzindo um tut-tut-tut-tut de desaprovação.

fica melhor se você souber umas coisas sobre Jordan Barker, principalmente o que o narrador pensa dela.

o interessante (pra mim) é que toda a LANGUIDEZ e outros traços que a definem são os mesmos aos quais recorro nalgumas idealizações femininas que faço ou que escrevo ou que busco por aí - como os amigos já devem ter notado. numa frase, ele resume tudo: "a desonestidade, numa mulher, é coisa que a gente jamais censura profundamente..."

tome ao pé da letra ou relativize: dá pra derivar MUITA coisa daí. (algo a ser destilado noutro post.)

e na seqüência desta frase, há um diálogo:

- você guia pessimamente - protestei. - você deve ter mais cuidado, ou então deixar inteiramente de guiar.
- eu sou cuidadosa.
- não é.
- bem, as outras pessoas o são - disse ela, despreocupadamente.
- que é que isto tem a ver com o caso?
- elas saem do meu caminho. é preciso que haja duas pessoas para que ocorra um acidente.
- suponhamos que você depare com alguém tão descuidado quanto você.
- espero que isso jamais aconteça - respondeu ela. - detesto gente descuidada. por isso é que gosto de você.

seus olhos cinzentos, um tanto contraídos, fitavam o caminho, mas ela havia, deliberadamente, modificado o caráter de nossas relações - e, por um momento, julguei que a amava.

Fitzgerald sabia das coisas.

2 comentários

fitzgerald sabia das coisas..

ah que do caralho!

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Esta página contém um post de bcardoso publicado em dezembro 10, 2008 7:23 PM.

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