não sei bem qual é o número mínimo de repetições periódicas necessário para que algo possa se tornar tradicional, mas acredito que sejam umas três. isso posto, digo que - tradicionalmente - o primeiro filme a que assisto em janeiro é sempre o grande êxtase do entalhador Steiner (1974). já é o terceiro ano, este - e a quarta vez que o vejo.
trata-se, na verdade, de um documentário de Herzog sobre Walter Steiner, um dos melhores esquiadores do mundo. Steiner não precisa saltar do topo da rampa para voar mais longe que todos os seus adversários, para além das marcas de medição da pista. e aí Popol Vuh vai embalando as câmeras de alta-velocidade a nos mostrar saltos 10 ou 20 vezes mais longos e mais detalhados e aquele som sintético e a neve e os pinheiros do alto das encostas ficando pra trás te dão a perfeita sensação que os esquiadores simplesmente VOAM, deslizam no ar por toda extensão da pista branca para pousar só lá embaixo - alguns com leveza, outros de forma desastrosa. num dado momento, Herzog nos diz que um daqueles saltos de Steiner é provavelmente o mais belo já registrado em vídeo na história do esporte. mesmo sem ter visto muitos outros, sei que é.
o grande êxtase de Steiner é também seu grande medo: voar longe demais e acabar caindo na parte plana da pista - algo equivalente a uma queda de mais de cem metros de altura; assim que abandona a rampa de lançamento, deve saber dosar os poucos segundos de liberdade completa para evitar a morte e conseguir equilibrar-se sobre os esquis durante o pouso. e ignorar as vozes dos espectadores que pedem, salto após salto, por vôos cada vezes mais longos ou os milhares de pares de olhos que passam a ansiar por sangue na neve. multidões são difíceis de agradar.
do texto em alemão acima, lê-se: "eu devo ficar totalmente só no mundo, apenas eu, Steiner, e nenhuma outra coisa viva. sem sol, sem cultura; eu mesmo, nú em uma rocha nas alturas, sem tempestades, sem neve, sem barreiras, sem dinheiro, sem tempo, sem respiração. então, ao menos, eu não teria medo."

comente