o vento é sempre contra

sou o cara que andou a cidade toda - duas vezes - resmungando coisas ou pensando onde poderia me encostar no raio de algumas quadras pra recobrar o fôlego e ir queimando frações do maço, com um chacoalhar ritmado de moedas e moedinhas e uma tampa a servir de apoio ao insistente farfalhar e acelerar de carros no sentido anti-horário das praças, do lago, do quintal de um estádio de futebol com uma pizzaria embutida (que funcionava e lia-se lá nos fundos algo sobre a entrada para o setor das arquibancadas) junto aos portões e a escadarias vazias. o vento é sempre contra e pouco importa quantas esquinas você dobre ou quantos quilômetros você vença - relâmpagos te fazem acelerar o passo mesmo para te lançar para ainda mais longe de casa; mas enquanto a lua cheia é visível e as nuvens correm a cobri-la e descobri-la, está tudo bem. quis arrancar a manga da jaqueta para vendar-me, trocar o restante da peça por três doses de vodka e ir tateando intermináveis paredões com um cigarro apagado no canto da boca (o vento, o vento), carregando na camiseta vagalumes verdes já cansados de se lançar contra lâmpadas incandescentes dessas mesmas praças e lagos e quintais e umas duas esquinas em particular. se chove agora é porque ainda assim fui mais rápido e mais longe e voltei com umas cicatrizes pra contar histórias. quis fazer fogo com dois gravetos molhados. quis falar com uma garota que vi e desejei que uma outra que mal conheço estivesse de passagem para me dizer qualquer bobagem e sumir rebolando num jeans e sandálias quando eu de fato precisava dela. mas não. caminha-se sozinho e as janelas, todas elas, têm pares de olhos e nenhum senso de humor. sou o cara que andou a cidade toda numa noite dessas e desabou num ponto de ônibus qualquer em troca de algumas horas de liberdade forjada, de olhares desconfiados, de cascos, de latas - em troca de nada. quis ir e voltar (duas vezes) só pra sentir alguma coisa. mas nada.

2 comentários

eu costumava fazer dessas coisas quando era mais nova, sair pela cidade com meu maço de cigarro no bolso sem um destino definido.
acho que fui envelhecendo (aos 21) e ficando menos interessante.

ótimo texto.

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Esta página contém um post de bcardoso publicado em janeiro 10, 2009 3:30 AM.

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