poderia iniciar rotulando por CURIOSA a coincidência entre fatos, mas não é o caso. apenas coincidiu de uma gripe relâmpago-fulminante me derrubar impiedosamente na mesma terça-feira que fui num terreiro de umbanda. começou de tarde, com uns calafrios. aí veio um cochilo pseudo-restaurador num sofá do centro acadêmico para que eu acordasse um pouco pior, com mais calafrios, dores no corpo e um princípio febril. ainda bebi umas cervejas, depois um copo de suca de laranja, na esperança de amenizar a MAZELA, mas aí eu já estava no ônibus com uns amigos em direção ao terreiro.
assim como a jojo, que coincidentemente ressuscitou um relato semelhante por esses dias, fui pra lá pela curiosidade antropológica. tinha interesse em ver um ritual daqueles e na semana anterior não tinha rolado. meu amigo, que começou a freqüentar o local, brincou: "deve ser o terreiro mais POLACO do Brasil." não tive dúvidas: um prédio heptagonal - grande porém discreto - do outro lado da rua de um cemitério, e um estacionamento com uns tantos carros importados. muita gente de branco ali do lado de fora e uma criançada chata saltando pra lá e pra cá.
me explicaram sobre os ourixás e essas coisas todas, mas eu tinha febre e pouco entendi. às 20h entramos todos e lotamos o heptágono em volta de uma grande roda marcada por uma cerca de corda e troncos. imagens de exus, jesus cristo e sei lá mais quem num altarzinho, atabaques do lado direito e a polacada fazendo fila pra pegar a senha da consulta. por insistência do amigo, peguei uma também. número 96.
começa a música e umas pessoas de branco com fitas das cores dos ourixás entram na roda e cantam junto. depois rezam um pai nosso com uns 3 versos trocados - perdoai as nossas DÍVIDAS assim como nós perdoamos alguma coisa que esqueci; termina com um "que assim seja" em vez do "amém". sincretismo curioso.
minha febre aumentava a cada nova música que eles cantavam. o lugar estava lotado - chuto que devia ter umas 300 pessoas ali. perdi a paciência e arranjei um cantinho pra sentar. seriam QUATRO HORAS de culto e eu sabia disso. a assistência, isto é, quem fica do lado de fora da roda, entra descalça na roda num dado momento. eu também fui. as pessoas de branco, supostamente encarnadas, ficam perambulando por entre nós até escolherem alguém: param diante do sujeito, fazem movimentos com as mãos, qualquer coisa com energia, e depois se mandam com um saravá. me explicaram depois que o SANTO pode descer em você dessa maneira - uma mulher acabou soltando um grito; tinha encarnado.
duas mulheres e um cara desses de branco vieram fazer essa coisa da energia comigo. não senti porra nenhuma.
depois vem uma música e você tem que esfregar as mãos no corpo pra tirar os males. estava decepcionado e não o fiz. aí a assistência sai da roda e tem-se mais músicas e tal. dessa vez o pessoal de branco ENCARNA FORTE e moças começam a rodar e rodar e rodar até cair no chão - literalmente. era roda de exu e pomba-gira. os que encarnam os exus começam a se manifestar e logo são trazidos os KIT-MACUMBA (com facas, velas, chaturos, garrafinhas de pinga e conhaque, pimenta, etc) e uns banquinhos. os exus se sentam na frente de uma tábua posta no chão, kit ao lado, bancos vagos na frente e ao lado. a música não pára. um cara começa a chamar as senhas. número 1 ao 5 pra dentro da roda e um guia leva os sujeitos até o exu ou pomba-gira em questão. o visitante senta de frente pra entidade; o guia, ao lado. aí rola a interação com muita fumaça e velas e doses e vozes forçadas.
eu ardia em febre num canto. estava quente ali, eu sentia que estava bem quente, mas tremia de frio. iam chamando os números e o pessoal ia entrando, se consultando, toda aquela coisa. sempre com música, o que abafava as conversas e garantia certa privacidade. número 90 ao 95 pra dentro da roda e meu amigo vem me dizer que é quase minha vez. digo que não vou. fica puto comigo. 96 ao 100. meu corpo doía todo e eu não tinha a menor vontade de me levantar. no mais, também não tinha nada pra perguntar. fiquei pensando nisso desde a hora que assinei meu nome ao lado do número. nada. poderia pedir um conselho, mas estava com a cabeça tranqüila demais pra essas coisas - terminara, até, relações com uma garota naquele mesmo dia, e me sentia em PAZ. 101 ao 105. fodam-se, vou agonizar por aqui.
passava das 23h30 quando os números acabaram e começaram o encerramento. arranjaram carona pra gente só porque eu estava mal. a coisa acabou com o pai nosso estranho e entramos em quatro pessoas no banco de trás do carrão de uma das moças de branco. foram falando de umbanda e das próximas giras. tudo aquilo tinha me parecido falso demais, plástico demais, certinho demais. tinha uma visão muito mais ROOTS de um terreiro e espero apenas ter ir ido no terreiro errado - ainda que não pense em ir de novo. queria chegar logo em casa e dormir.
dormi e o dia amanheceu e dormi até o dia seguinte sem ter comido nada. gripe filha da puta. na quinta-feira fui pra aula, dor de garganta insuportável. na sexta, prometi pra mim mesmo que não iria fumar. depois do primeiro maço, no entanto, mandei tudo à merda, bebi mais outra dose de cachaça e fumei mais um ou dois maços ao longo da noite cheia de cervejas, duas meses de sinuca, três bares e mais cachaça - que, ao contrário da cerveja, não me irritava a garganta e nem me doía para engolir, apenas ALIVIAVA o sofrimento e me deixava BEM.
terminamos numa república cheia de gente que não conheço e bebemos mais e aí mais um boteco pra finalizar. cinco e pouco da manhã e fazia muito frio e minha garganta já era - tinha visto antes: amídalas quase que VOLUPTUOSAMENTE inchaçadas, como se fossem fechar o canal, cheias de placas brancas gigantescas, como milhares de aftas em seu ápice. saquei o tamanho da merda ali. não ia melhorar sozinho, como melhorara a gripe.
apenas no sábado fui me consultar. não com um médico, nem com uma entidade - mas com a farmacêutica aqui da esquina. e sem mostrar o estado das amídalas, só explicando vagamente o que acabei de explicar e acabei levando uns comprimidos.
antibióticos.
UMA SEMANA SEM BEBER.
uma semana sem beber, cara, é muito mais tempo que o maior intervalo abstêmico-voluntário ao qual me submeti nos últimos tantos meses. tenho bebido TODOS os dias, religiosamente, desde março.
e a porra de uma amidalite surgida OUT OF THE BLUE quebrou minha rotina.
não traço paralelo entre a umbanda e essa merda toda, claro, mas foi exatamente o que aconteceu. e acredito em coincidências.
agora tenho um monte de tempo livre e não sei o que fazer.
faz um frio do cacete e quero encher a cara de vinho.
vou contando nos dedos.
"olá, meu nome é bruno e eu não bebo desde sábado."
merda.

Bom, pelo menos isso te fez escrever um texto com mais de dois parágrafos!
hahaha
Que merda, eu ia escrever isso daí que ta no outro comentário.
Bem, eu vou beber. Até mais.