tem aí na geladeira

e por geladeira entenda um bar meio vazio nas imediações do Largo, com sinuca & quadros psicodélicos em cavaletes pelo chão preto. passava da meia-noite.

tenho essa amiga que já trabalhou em bares que sempre diz que "já vi muita gente se afundando nessa merda, experimentei uma vez para nunca mais." e logo acrescenta: "mas que é bom, é."

na terça-feira, me lembro de ter ido com uns amigos, pouco antes da uma da tarde, ao bar que sempre vou para umas cervejas. aí vieram umas doses de cachaça e às 20h éramos apenas três na mesa repleta de copos vazios e cinzas de cigarros. os que sobraram não eram exatamente meus amigos, mas costumamos nos trombar por aí de vez em quando. aquele que eu conhecia melhor se mandou pra casa, enquanto eu e este outro colega nos mandamos para um outro bar ali perto, onde uma banda tocou por umas duas horas um tanto de bossa nova e samba. era uma boa banda.

ali pelas 11h30 a música acabou e o movimento foi minguando. de acordo com o cardápio, tínhamos pouca grana pra continuar bebendo. elencamos as opções e, logo depois de decidir pela sinuca, o cara levanta outra questão:

"já que vamos pra lá, tá afim?"
"quanto?"
"50"
"não tenho grana"
"tem por 30"
"é muito. não tem por 20?"
"acho que não."
"sei lá, então. vamo nessa."

e fomos. paguei a conta no cartão pra ficar com os trocados. fazia frio & acabara de chover. algumas quadras e um lance de escadas depois, pedíamos uma cerveja e mirávamos o movimento. vários conhecidos deste meu colega por ali. em verdade, tão logo chegamos o cara já foi saber do preço com uns outros dois no canto do bar. fui junto.

"só por trinta mesmo, cara."
"tenho dez pila."

talvez pela hora e pelo movimento, ou até pela suposta camaradagem, concordaram em vender o de 30 por 20. dei a grana que disse que tinha, meu colega buscou mais dez nos bolsos e trocamos a soma por uma trouxinha pequena feita de pedaço de sacola de supermercado.

daríamos os tiros ali mesmo se não fosse por um sujeito que bebia por lá. implicava com isso, me disseram. expulsara este meu colega certa vez, disse-me ele. não viu a negociação. sentamos num canto e bebemos mais cerveja.

eu havia topado entrar nessa por simples curiosidade. burroughs, em junky, descreve bem a coisa toda. a vontade veio daí - e dos relatos dessa minha amiga. nessas conversas, eu dizia sempre que pretendia experimentar, mas nunca fui atrás. não tinha nem vontade de ir. só se a oportunidade acabasse esbarrando em mim, como acabara de acontecer.

bebemos mais, jogamos uma partida de sinuca (que ganhamos) e, como o homem continuava por lá, saímos e fomos até um telefone público. meu colega fez as duas carreiras ali mesmo enquanto eu vigiava a rua. a idéia não era mandar uma daquelas carreiras cinematográficas de uma vez só, mas o bastante - segundo ele - para que batesse e para que tivéssemos mais para a fissura. fez o canudo com uma nota minha de dois reais e mandou uma delas narina acima. aí foi minha vez.

voltamos pro bar e nos sentamos. ligeira taquicardia e meu sono acumulado de uma noite muito mal dormida se esvaiu quase que instantaneamente. um bem-estar similar, porém menos intenso, que o do ácido formigava pelo corpo. havia mais gente naquela mesa e bebi mais um tanto sem gastar nada. o colega quis saber se eu estava bem: "sim, ótimo."

quis mais, ele também. um dos caras que nos vendeu foi com a gente até o mesmo orelhão para a nova rodada. tomou a frente, cartão em punho, e não duvido que tenha feito uma carreira maior que as outras. passou, então, o canudo de nota e meu colega foi fazer a ligação. ventava demais, ameaçava chover. comentei alguma coisa sobre isso. ele também. a nota voltou para a minha mão e mandei minha parte na outra narina.

os efeitos que diminuíam, se intensificaram, ficando mais fortes que da primeira vez. não dura muito, na real, mas você pode esquecer de tentar dormir: não vai dar certo. voltamos para outra partida (que quase ganhamos) e bebemos ainda mais. a essa altura eu já completava cerca de 14 horas de bebedeira e não sentia nada. meu colega afirmou que o pó corta o efeito do álcool, mas não sei bem se a informação procede. o fato é que estávamos etilicamente altos e ficaríamos assim independente do quanto bebêssemos - e bebemos demais.

creio que passava das 3 da manhã quando as pessoas começaram a ir embora. eram todos conhecidos e quando isso se deu, o bar esvaziou. houve o convite para ir beber na casa de alguém, mas não valia pra mim. acabamos comprando duas garrafas de vinho e viemos para cá cheirar o resto - o suficiente para duas carreiras para cada. novamente, as mesmas sensações, porém, um pouco mais intensas e dessa vez por menos tempo. ligamos o som, matamos um garrafa e fomos bebericando a outra. o relógio ia batendo às cinco, os efeitos iam passando e o cansaço ressurgiu querendo me derrubar. tentei dormir, mas só consegui cochilar por uns minutos entremeados por longas sequências de tosse, uma tosse seca, crônica, incessante, de doer o corpo. é verdade que andava tendo umas crises dessas, mas esta foi a pior.

às 6h30 fomos pra uma padaria. eu não tinha fome. estava completamente esgotado e sem sono. meu colega comeu alguma coisa e tomamos o rumo da faculdade. ele passaria por um prova e eu por duas aulas pouco importantes, mas fui assim mesmo. cinco minutos na sala de aula me fizeram alucinar com o sono, isto é, entar naquele estado de transição entre a lucidez e o sonho, quando se está lutando pra não dormir e o corpo não consegue mais oferecer resistência. você, então, alucina, vê coisas, se confunde, e quando percebe, parece ter sido um cochilo de duração indeterminada. impossível prestar atenção em qualquer coisa que seja.

tomei um café e me sentei no sofá do centro acadêmico. pernas sobre a mesa, braços cruzados, imóvel. fiquei assim por pouco mais de uma hora, olhos abertos, sem sono algum (o que não compreendo - potencialização da cafeína?) e em completo silêncio. não tinha forças pra me levantar, tamanho cansaço. a noite não dormida e a noite mal dormida me castigavam. aí, de volta pra segunda aula, mais cochilos breves. aulas soníferas.

almocei sem prestar atenção em nada e não sabia dizer o cardápio do dia logo depois de ter saído. acabei voltando pro bar onde tudo começou - onde tudo acaba começando - para mais algumas cervejas. fiz um relato brevíssimo da experiência, inclusive para essa minha amiga que, embora espantada, gostou de saber.

e embora estivesse completamente acabado, fomos fumar. era para ser apenas um, mas foram três. três baseados e eu nunca havia ficado tão chapado quanto naquele dia - apesar de já ter consumido muito mais de uma só vez -, a ponto de não conseguir articular palavras e de não sentir, em absoluto, meu corpo. toda a energia que me restava servia para tentar me manter acordado - e que acabou não sendo suficiente em alguns momentos.

sei que cheguei em casa às 19h, achando o caminho longo demais e sem me lembrar de quase nada sobre ele. sentei-me numa cadeira para recuperar forças e ir tomar um banho, mas não consegui. dei um passo e lancei-me ao colchão onde tentara dormir pela manhã. apaguei em instantes. só fui acordar às 9h do dia seguinte, parcialmente revitalizado.

as coisas ficam mais intensas e mais loucas quando você está quebrado desse jeito. apenas a privação do sono já é o bastante para alterar suas percepções e desviar sua concentração. aliada à outras substâncias, você acaba potencializando esses efeitos. é algo interessante por um tempo, mas você se torna inútil. isso incomoda. no dia seguinte, você junta as lembranças e conclui que nunca ficou tão alterado assim, e que, ora, até que valeu a experiência.

não pretendo, no entanto, repetir a dose. "experimentei uma vez pra nunca mais," diria a minha amiga. prefiro viagens mais ácidas, mais psicodélicas, mais intensas, por assim dizer. um investimento alto para um retorno não tão aprazível e uma série de riscos desnecessários. não acho, sinceramente, que valha a pena.

mas devo concordar: que é bom, é.

~

2 comentários

Caraca, 30 reais num papel?
Aqui é 10!

E tem nego que gasta $150 numa noite com essa merda.

porra, bruno, cê chega a preocupar com tanta bebedeira. mas quem sou eu pra falar de moral? quero mesmo é que vc venha às garoas pra gente conspirar de novo. failin better e tudo mais se foda.

a menção ao bezerra foi certeira. grande malandro.

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Esta página contém um post de bcardoso publicado em junho 28, 2009 3:52 PM.

do you remember that song by a dude named Bobby Fuller? é a postagem anterior.

brain damage é a próxima postagem.

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