minha frigideira sumiu #2: FRIGIDEIRA BLUES

acontece que, após o ocorrido, fui INQUIRIR amigos frequentadores de minha residência semi-república para levantar pistas & tentar obter respostas sobre o paradeiro de minha tão estimada frigideira.

nada conclusivo.

recebi apenas sugestões de locais para buscas & uma proposta de ANGARIAR fundos para uma nova frigideira.

mas não quero OUTRA. frigideiras são o melhor amigo do homem. e aquele teflon riscado tem história, meu deus. além do mais, o valor da vaquinha beiraria uma garrafa de cerveja por cabeça no bar onde sempre vou; e tenho prioridades - então 'bora continuar investigando.

um colega quis sacanear dizendo que se até a frigideira não me suportou e seguiu seu rumo, era porque a coisa estava realmente feia. ao que eu repliquei que a DITA me suportou por mais tempo que as minhas mulheres. juntas.

"vou escrever um blues sobre isso."

duvidaram.

aí ontem reuni toda minha angústia e a REFOGUEI nos versos que seguem, para a surpresa dos putos que sujam minha casa (no ritmo de Mannish Boy, por favor):


FRIGIDEIRA BLUES

era uma noite solitária
quando aquela fome bateu.
foi numa noite solitária, baby,
que aquela fome bateu:
fiz dois sanduíches,
mas a frigideira desapareceu.

procurei na pia,
e não encontrei.
revirei todos os armários,
mas não a encontrei.
a maldita frigideira sumiu
e pra onde foi eu não sei.

comi pão vencido,
presunto velho & queijo frio.
o sanduíche envelhecido
me deu até um arrepio,
e a porra da frigideira,
foi pra puta que pariu.

[SOLO DE GAITA]

e me alimentando mal
fico cheio de perguntas
bebendo mais que o normal
fico cheio de perguntas
a panela me suportou mais tempo
que minhas mulheres juntas!

mas sinto saudades
dessa velha companheira
estou sentindo saudades, lord
dessa maldita companheira
e sem nada pra comer
vou arranjar uma COZINHEIRA.

[OH YEAH!]


~

sei que não a trará de volta, mas é apenas um desabafo sincero de um homem sem frigideira.

[garotas interessadas na vaga de cozinheira favor entrar em CONTACTO.]

analisando os fatos

vamos definir uma coisa: PANDEMIA é quando houver uma reportagem sobre a gripe suína na qual o próprio repórter estiver usando máscara.

AÍ SIM.

até lá, é só RESFRIADO & sensacionalismo.

e além disso, como bem disseram, o fato de eu não assistir TV faz com que a gripe simplesmente não exista aqui no Brasil.

de onde concluo que nem sei porque estou tocando nesse assunto.

zakurivajte!

novo canto da catarse: zakurivajte!

mesmo modelo da espaçonave & afins, mas com uns textos novos e uns links a mais. de modo geral, andei revisando algumas coisas - tipo o instruções para Kali Yuga & pornografia, ambos do Hakim Bey. aos poucos vou chegando nos outros.

e, por exemplo, pesquei no tumblr do ubu um how to do Allan Kaprow sobre happenings. depois, vi que sumiram com ele - política estranha essa, de publicar e deletar; fazem com vários posts, não entendo. mas, enfim, agora ele está disponível aqui. pretendo fazer isso com o que der e interessar.

sugestões & indicações são bem-vindas. e tal.

tamos aí

o motorista ajudou-nos a entrar para o banco de trás. a limusine deslizou lentamente para trás, os garotos acompanhando ao longo da cerca. diabos, em breve eu estaria morto e a metade deles se sentaria diante de processadores de textos escrevendo merdas inimaginavelmente ruins.

(hollywood, pg.221. BUKOWSKI)

minha frigideira sumiu

simplesmente desapareceu. não está na pia, nem no escorredor de louças. olhei em todos os armários. duas vezes.

sumiu.

uma frigideira não é algo que suma assim, tão simplesmente. não é algo que eu leve comigo por aí para abandonar desatento em algum canto. não saio com ela na rua - nem sob chuva. nem de jeito nenhum.

em verdade, nunca devo tê-la tirado da cozinha. acho que posso afirmar que nunca saiu de lá para nada: os pratos eram os que saiam da mesinha da sala e iam até lá para serem servidos do que quer que eu tenha feito na frigideira - misto-quente, geralmente.

mas a maldita frigideira sumiu. passava das dez da noite de ontem quando dei falta dela. tinha muita fome e uns pães de forma no limiar do prazo de validade. queijo & presunto idem. misto-quente. montei os sanduíches (dois), guardei as coisas, fui para o fogão. aí nada.

foi o microoondas - que também nunca se aventurou para além da cozinha e que, excetuando o movimento de abrir e fechar de sua portinha, permanece perfeitamente inerte no mesmo canto desde sempre, desde quando posso me lembrar -, foi o microoondas, então, quem resolveu a situação.

mas como uma frigideira pode desaparecer? - era só o que eu me perguntava enquanto mastigava os pães molengas e meio secos com presunto quase frio e queijo mais ou menos derretido. interrogações sobre onde ela poderia estar não mais me ocorriam. o que fora fazer por lá não me interessava. queria apenas saber COMO, como pode a porra de uma frigideira desaparecer?

não pode. tem de estar por ali. larguei os sanduíches e procurei de novo. nos armários. nos armários da sala. nos armários do quarto. estaria alguém pregando uma peça em mim? armários do banheiro. fui olhar no tanque, no canto atrás da lixeira, na mesa bagunçada da sala, nas prateleiras logo ao lado. maldita frigideira. pelo chão, na geladeira, em armários que nunca abri, em armários que nem sabia que existiam. redescobri toda minha casa por causa da merda de uma panela que resolveu desaparecer.

voltei à mesa de mãos vazias. terminei de comer.

minha frigideira sumiu.

espaçonave

esses dias que seguem o fim das provas implicam em mais tempo livre, então resolvi programar algumas coisinhas & juntar o que vinha programando/fazendo desde antes de um jeito mais organizado: está tudo aqui.

o que andou me tomando mais tempo (naquelas) foram uns comandos para o ubiquity, um proto-buscador de palavras ainda com alguns bugs & o mais recente de todos, a ESPAÇONAVE.

a espaçonave, aliás, é homenagem não só à barraca-espaçonave do corpus christi, como também aos amigos espaçonautas que lá embarcaram e com quem andei trocando algumas idéias, por esses dias, sobre McKenna e essas coisas todas. ainda tenho um monte de coisas para juntar, alguns PDFs pra gerar e um bocado de links pra inserir, mas vamos aos poucos. colaborações são muito bem-vindas.

e, numa nota relacionada, creio que este vídeo serve como terceiro ponto da minha argumentação quando digo que quero ser um PESCADOR.

é isso.

brain damage

aproveitando o embalo temático & algumas horas livres que tive nos últimos dias, resolvi montar um set com as músicas mais apologéticas que encontrei por aqui. um junky set. na verdade, não fui atrás de nada que já não tivesse, simplesmente fui buscando e ordenando - o que justifica ausências do tipo, hm, planet hemp, por exemplo. na real, acho que é uma playlist mais engraçada que qualquer outra coisa.

as músicas:

  1. Bob Dylan - Rainy Day Women #12 & 35
  2. Rogério Skylab - Eu Tô Sempre Dopado
  3. Jimi Hendrix - Purple Haze
  4. Ska-P - Cannabis
  5. Bezerra da Silva - Malandragem Dá Um Tempo
  6. Papa Joe Grappa - Medical Marijuana
  7. Pink Floyd - Have a Cigar
  8. Júpiter Maçã - Um Lugar do Caralho
  9. Bezerra da Silva - Tem Coca Aí na Geladeira
  10. Bob Dylan - Cocaine Blues (Live)
  11. Bêbados Habilidosos - Rio de Whisky
  12. Wander Wildner - Quase Um Alcoólatra
  13. Blues Etílicos - O Sol Também Me Levanta
  14. Matanza - Estamos Todos Bêbados

divirtam-se.

tem aí na geladeira

e por geladeira entenda um bar meio vazio nas imediações do Largo, com sinuca & quadros psicodélicos em cavaletes pelo chão preto. passava da meia-noite.

tenho essa amiga que já trabalhou em bares que sempre diz que "já vi muita gente se afundando nessa merda, experimentei uma vez para nunca mais." e logo acrescenta: "mas que é bom, é."

na terça-feira, me lembro de ter ido com uns amigos, pouco antes da uma da tarde, ao bar que sempre vou para umas cervejas. aí vieram umas doses de cachaça e às 20h éramos apenas três na mesa repleta de copos vazios e cinzas de cigarros. os que sobraram não eram exatamente meus amigos, mas costumamos nos trombar por aí de vez em quando. aquele que eu conhecia melhor se mandou pra casa, enquanto eu e este outro colega nos mandamos para um outro bar ali perto, onde uma banda tocou por umas duas horas um tanto de bossa nova e samba. era uma boa banda.

ali pelas 11h30 a música acabou e o movimento foi minguando. de acordo com o cardápio, tínhamos pouca grana pra continuar bebendo. elencamos as opções e, logo depois de decidir pela sinuca, o cara levanta outra questão:

"já que vamos pra lá, tá afim?"
"quanto?"
"50"
"não tenho grana"
"tem por 30"
"é muito. não tem por 20?"
"acho que não."
"sei lá, então. vamo nessa."

e fomos. paguei a conta no cartão pra ficar com os trocados. fazia frio & acabara de chover. algumas quadras e um lance de escadas depois, pedíamos uma cerveja e mirávamos o movimento. vários conhecidos deste meu colega por ali. em verdade, tão logo chegamos o cara já foi saber do preço com uns outros dois no canto do bar. fui junto.

"só por trinta mesmo, cara."
"tenho dez pila."

talvez pela hora e pelo movimento, ou até pela suposta camaradagem, concordaram em vender o de 30 por 20. dei a grana que disse que tinha, meu colega buscou mais dez nos bolsos e trocamos a soma por uma trouxinha pequena feita de pedaço de sacola de supermercado.

daríamos os tiros ali mesmo se não fosse por um sujeito que bebia por lá. implicava com isso, me disseram. expulsara este meu colega certa vez, disse-me ele. não viu a negociação. sentamos num canto e bebemos mais cerveja.

eu havia topado entrar nessa por simples curiosidade. burroughs, em junky, descreve bem a coisa toda. a vontade veio daí - e dos relatos dessa minha amiga. nessas conversas, eu dizia sempre que pretendia experimentar, mas nunca fui atrás. não tinha nem vontade de ir. só se a oportunidade acabasse esbarrando em mim, como acabara de acontecer.

bebemos mais, jogamos uma partida de sinuca (que ganhamos) e, como o homem continuava por lá, saímos e fomos até um telefone público. meu colega fez as duas carreiras ali mesmo enquanto eu vigiava a rua. a idéia não era mandar uma daquelas carreiras cinematográficas de uma vez só, mas o bastante - segundo ele - para que batesse e para que tivéssemos mais para a fissura. fez o canudo com uma nota minha de dois reais e mandou uma delas narina acima. aí foi minha vez.

voltamos pro bar e nos sentamos. ligeira taquicardia e meu sono acumulado de uma noite muito mal dormida se esvaiu quase que instantaneamente. um bem-estar similar, porém menos intenso, que o do ácido formigava pelo corpo. havia mais gente naquela mesa e bebi mais um tanto sem gastar nada. o colega quis saber se eu estava bem: "sim, ótimo."

quis mais, ele também. um dos caras que nos vendeu foi com a gente até o mesmo orelhão para a nova rodada. tomou a frente, cartão em punho, e não duvido que tenha feito uma carreira maior que as outras. passou, então, o canudo de nota e meu colega foi fazer a ligação. ventava demais, ameaçava chover. comentei alguma coisa sobre isso. ele também. a nota voltou para a minha mão e mandei minha parte na outra narina.

os efeitos que diminuíam, se intensificaram, ficando mais fortes que da primeira vez. não dura muito, na real, mas você pode esquecer de tentar dormir: não vai dar certo. voltamos para outra partida (que quase ganhamos) e bebemos ainda mais. a essa altura eu já completava cerca de 14 horas de bebedeira e não sentia nada. meu colega afirmou que o pó corta o efeito do álcool, mas não sei bem se a informação procede. o fato é que estávamos etilicamente altos e ficaríamos assim independente do quanto bebêssemos - e bebemos demais.

creio que passava das 3 da manhã quando as pessoas começaram a ir embora. eram todos conhecidos e quando isso se deu, o bar esvaziou. houve o convite para ir beber na casa de alguém, mas não valia pra mim. acabamos comprando duas garrafas de vinho e viemos para cá cheirar o resto - o suficiente para duas carreiras para cada. novamente, as mesmas sensações, porém, um pouco mais intensas e dessa vez por menos tempo. ligamos o som, matamos um garrafa e fomos bebericando a outra. o relógio ia batendo às cinco, os efeitos iam passando e o cansaço ressurgiu querendo me derrubar. tentei dormir, mas só consegui cochilar por uns minutos entremeados por longas sequências de tosse, uma tosse seca, crônica, incessante, de doer o corpo. é verdade que andava tendo umas crises dessas, mas esta foi a pior.

às 6h30 fomos pra uma padaria. eu não tinha fome. estava completamente esgotado e sem sono. meu colega comeu alguma coisa e tomamos o rumo da faculdade. ele passaria por um prova e eu por duas aulas pouco importantes, mas fui assim mesmo. cinco minutos na sala de aula me fizeram alucinar com o sono, isto é, entar naquele estado de transição entre a lucidez e o sonho, quando se está lutando pra não dormir e o corpo não consegue mais oferecer resistência. você, então, alucina, vê coisas, se confunde, e quando percebe, parece ter sido um cochilo de duração indeterminada. impossível prestar atenção em qualquer coisa que seja.

tomei um café e me sentei no sofá do centro acadêmico. pernas sobre a mesa, braços cruzados, imóvel. fiquei assim por pouco mais de uma hora, olhos abertos, sem sono algum (o que não compreendo - potencialização da cafeína?) e em completo silêncio. não tinha forças pra me levantar, tamanho cansaço. a noite não dormida e a noite mal dormida me castigavam. aí, de volta pra segunda aula, mais cochilos breves. aulas soníferas.

almocei sem prestar atenção em nada e não sabia dizer o cardápio do dia logo depois de ter saído. acabei voltando pro bar onde tudo começou - onde tudo acaba começando - para mais algumas cervejas. fiz um relato brevíssimo da experiência, inclusive para essa minha amiga que, embora espantada, gostou de saber.

e embora estivesse completamente acabado, fomos fumar. era para ser apenas um, mas foram três. três baseados e eu nunca havia ficado tão chapado quanto naquele dia - apesar de já ter consumido muito mais de uma só vez -, a ponto de não conseguir articular palavras e de não sentir, em absoluto, meu corpo. toda a energia que me restava servia para tentar me manter acordado - e que acabou não sendo suficiente em alguns momentos.

sei que cheguei em casa às 19h, achando o caminho longo demais e sem me lembrar de quase nada sobre ele. sentei-me numa cadeira para recuperar forças e ir tomar um banho, mas não consegui. dei um passo e lancei-me ao colchão onde tentara dormir pela manhã. apaguei em instantes. só fui acordar às 9h do dia seguinte, parcialmente revitalizado.

as coisas ficam mais intensas e mais loucas quando você está quebrado desse jeito. apenas a privação do sono já é o bastante para alterar suas percepções e desviar sua concentração. aliada à outras substâncias, você acaba potencializando esses efeitos. é algo interessante por um tempo, mas você se torna inútil. isso incomoda. no dia seguinte, você junta as lembranças e conclui que nunca ficou tão alterado assim, e que, ora, até que valeu a experiência.

não pretendo, no entanto, repetir a dose. "experimentei uma vez pra nunca mais," diria a minha amiga. prefiro viagens mais ácidas, mais psicodélicas, mais intensas, por assim dizer. um investimento alto para um retorno não tão aprazível e uma série de riscos desnecessários. não acho, sinceramente, que valha a pena.

mas devo concordar: que é bom, é.

~

dormi quase 15 horas num colchão vagabundo, entre sonhos patéticos & diversas crises de tosses com catarro. vim trazendo pra casa um galão de cinco litros d'água - cheio de pinga, gelo e um tantinho de soda - e virando-o na boca de quando em quando. podia ter feito tantas coisas e acabei não fazendo nada; apenas bebendo, tomando goles de outrem, perambulando por aí. talvez ela estivesse assim também, à toa, e eu nem quis descobrir - apenas supus, ponderei, deixei pra lá. a garota sumiu depois. assim como eu sumi carregando o galão alcoólico e sentindo aquele gosto horrível da mistura toda, do improviso, das escolhas erradas.

antes eu cochilava num sofá. ainda antes, eu bebia vinho às 10h30 daquela manhã pós-prova. só cansaços e conversas estúpidas. o dia todo - salvo alguns diálogos breves & comentários sarcásticos - de pura política. quis, por algumas vezes, sacanear todo mundo, gratuitamente, só pra ver no que dava. ando tendo estes impulsos. às vezes não me controlo & é bom ver alguém se foder por tua causa. única e exclusivamente por tua causa, por um comentário desnecessário, mentiroso, ácido ou brutalmente sincero. vão acreditar em qualquer coisa que eu diga se eu o disser com seriedade. e isso é fácil. ando tendo estes impulsos.

mas os fui guardando pra mim. era madrugada e eu ainda carregava aquele fardo plástico-etílico sem saber muito bem o que fazer com ele. não estava bêbado nem sóbrio, não tinha vontade de tomar aquela merda e nem de abandoná-la na rua. no entanto, abandonei sim a chance de visitar um TAZ (pseudo-?)cultural que rolava ali por perto, como fizemos acá certa vez (um sarau de bêbados e tal), e que prometia ser muito melhor que qualquer outro caminho que eu tomasse, mas, ora, eu estava de saco cheio e andava pensando demais.

de tal modo que, lá pelas tantas, voltei, não só, mas também não acompanhado como gostaria. duas amigas dormindo na minha cama e eu ali no chão, por 15 horas, a sonhar & tossir e acordar às 19h ainda meio puto com todos. me deixaram um bilhete agradecendo por tudo (ando colecionando-os) e me roubaram um cigarro.

fiz café.

Hey, you remember that song about this guy from Texas
Whose name was -- Bobby Fuller?
I'll sing it for you, it went like this:
I fought the law and the law won,
I fought the law and the law won.

corpus christi meltdown

corpus christi. cerca de catorze pessoas entre amigos e colegas. uma chácara na tríplice fronteira colombo-pinhais-campina grande do sul; fim de mundo. uns 70g & onze olhos de shiva. barraca-sauna verde & cinza aka espaçonave num canto do gramado. fogueira queimando por quatro dias, churrascos de linguiça e cozinha de guerrilha sobre um fogareiro capenga.

em verdade, chegamos na quarta-feira a noite num furgão sprinter - e o motorista pisava fundo no acelerador com sua perna mecânica. abrimos um vinho enquanto chacoalhávamos nós todos e as dezenas garrafas tilintavam perigosamente. compramos tudo antes de ir. sociedade alternativa no meio do mato e longe de qualquer merda. pouca comida e muita bebida.

todos loucos assim que largamos as malas e colchões num canto, assim que enchemos a casa de pegadas de barro, assim que começamos a abrir garrafas e confeccionar baseados gorduchos: éramos seis junkies empolgados fumando três cigarros NATURAIS numa mesma roda, ao mesmo tempo. um bom PRELÚDIO.

depois fui prum canto folhear on the road mais uma vez, só pra ver no que dava, e nem lembro o que li. dean tinha ido embora, acho, e fui me sentar na porta da rua pra ficar sozinho e evitar conversas. noite longa, uns cochilos, e eis que um louco de ácido acorda todo mundo ao nascer do sol gritando merdas proféticas e ligando o som. me irritava, mas não se discute com um louco de ácido. quer dizer, não pra valer. o cara ia acabar ficando mais chato. resolvi fazer uma fogueira & encher a cara enquanto o resto do pessoal resmungava do sono recém interrompido.

entramos em seis naquela espaçonave que nominalmente comportaria apenas quatro. preservação da fumaça. todos os passageiros a esfarelar maconha nas mãos e jogar tudo aquilo numa palha só. o resultado parecia um lápis mais grosso que o normal. e foram vários. aí veio a noite e a ingestão de frações de shiva: um quarto, meio, três quartos. fui o único a tomar um inteiro. um olho inteiro. o terceiro olho. mais uns baseados e alguns companheiros já alucinavam & riam de tudo. acho que eu também. íamos decolar.

algumas amigas sóbrias, um tempo depois, vieram me pedir para que as acompanhassem até o ERECS. na real, estávamos lá para ir neste encontro. quarenta minutos de caminhada na beira da estrada, no breu, no frio. "estou louco, cara," eu dizia, mas também queria ir pra lá. ejetei dali e fui guiando as sóbrias enquanto via cercas-vivas virarem pessoas e vultos simpáticos cruzando por nós todos. caminhada cheia de flashes, como se eu pudesse rever meus vinte últimos passos enquanto andava mais vinte sem nem perceber. havia névoa e silêncio, ar quente sendo expirado. chegamos rápido, acho.

era um local gigantesco, feito uma cidade esquecida em 1992. prédios grandes e distantes, um vasto campo. placas de rua ao estilo antigo, daquelas que deveriam ter uma luz dentro para serem lidas de noite. tudo queimado, claro. logo na primeira esquina, uma pequena agência abandonada do BANESTADO. depois, um posto dos Correios em fibra de vidro com aquela aparência antiga. era uma antiga fazenda de gado, segundo me disseram. nos estábulos, rolava uma festa com samba, cerveja e quentão. eu flutuava por tudo e por todos e deslizava entre amigos e conhecidos para beber cervejas de graça e dançar desajeitadamente com umas garotas. muitas luzes, faces borradas e meu dinheiro escapando por entre os dedos diante do caixa. "apenas beba mais cerveja, mais e mais cerveja."

as amigas que trouxe estavam entediadas. pelo menos a maioria delas. queriam voltar. disse que não. disseram que eu não poderia deixar que voltassem sozinhas. "peguem uma carona." acabaram não conseguindo. "vai, bruno, vem com a gente."

não.

eu tinha COISAS pra fazer. o fiz com um copo de quentão que sobrara da festa - de graça quando a maioria já havia ido pro alojamento. a vira dançar, mas me intimidei; falo de uma garota. sabia que estaria por lá. já havia dado certo outras vezes, mas sempre é difícil começar. recomeçar. depois estava sozinha numa calçada e conversamos e bebemos aquele vinho quente juntos. minhas amigas já tinham ido embora, minhas coisas estavam na chácara e estávamos nós dois congelando ali fora. fomos pra um outro alojamento, da organização - cheguei bem depois dela e não me lembro porquê. um amigo me ofereceu um colchão. neguei. uma amiga me ofereceu um colchão. também neguei. aí a garota pergunta se todos têm colhões ou se querem dividir. "vou dividir contigo," e ganho minha noite assim, simplesmente - mesmo com tanta gente ao redor.

mas o problema do ácido é que ele não te deixa dormir. ou melhor, as anfetaminas não deixam. no olho de shiva não havia tanto quanto nos outros DOCES que ingeri, mas foi o suficiente pra manter meus olhos abertos por um bom tempo. o suficiente pra me deixar observando o sono dela por muito tempo. depois acabei cochilando um pouco até o dia amanhecer. ela foi pra um lado, eu fui pra outro. trocamos umas palavras, mas foi só. consegui uma carona pra casa lá pelas onze da manhã. achei que chegaria na chácara para enterrar os corpos dos junkies que ficaram com toda aquela maconha, mas estavam todos bem.

o efeito já havia passado e eu queria começar tudo de novo. entre baseados e o churrasco que ia saindo, me veio a brilhante idéia de abrir uma salsicha e recheá-la com maconha. embrulhei-a em papel alumínio e joguei na fogueira. cortei em pedacinhos e a dividi com mais dois corajosos. foi o suficiente pra nos deixar lesados por boa parte da tarde. eu ia bebendo vodka com vinho e refrigerante e conhaque - tudo num mesmo copo. todo o resto se resumiu a baseados, música e fogueira, e aí fui tirar o atraso do sono num cantinho da casa, sozinho, e foi bom. acordei com histórias da noite anterior, de gente bêbada, de choros, de coisas inusitadas. nada que me arrependesse de ter perdido.

tomei outro ácido na noite de sábado. o roteiro era o mesmo: shiva, espaçonave, rua. dessa vez fomos todos. menos alucinações visuais, mais bebida. eu empunhava um litro de vodka e uma lata de coca-cola com tudo de alcoólico que encontrei. um drink que chamei de GASOLINA. chegamos em 1992 e a festa ainda não havia começado. fumamos o resto da maconha nas arquibancadas de um campo gramado. cantamos. ocupamos um chalé abandonado, com vidros quebrados e porta arrebentada, e acendemos a lareira com restos de madeira que encontramos por lá. gente que ninguém conhecia ia chegando e se sentando junto ao fogo pra conversar; gente de Londrina, Maringá, Rio Grande e sei lá mais onde. aí eu me levantava e ia pro estábulo, onde já havia festa, havia gente, mas nada da garota, e eu voltava pro chalé e encontrava mais gente, encontrava música e rodas de baseado e garrafas cheias espalhadas pelo chão. a garota havia se mandado naquela manhã, como fiquei sabendo. aí resolvi que ia encher a cara.

e enchi. me joguei ao lado da lareira e vi tudo rodar: sonhei com coisas e alucinava de ácido e de álcool e não entendia quase nada. um amigo tornou-se um profeta desesperado beirando uma bad-trip na qual ele se afundava cada vez mais. estávamos todos errados, segundo ele. e até que fazia sentido. colocaram ele e uns outros num carro e os levaram de volta. estavam mal demais.

aí me puxaram dali e fui cambaleando para fora, para a névoa mais densa daqueles últimos dias, para o frio mais insuportável que eu tinha passado até então. fazia zero grau naquela estrada e eu só vestia um casaco vagabundo. ao chegarmos, ressuscitei a fogueira que agonizava em brasas e fui me recompondo. cozinhamos os restos de tudo o que pudemos encontrar, de qualquer jeito - e foi a melhor das refeições.

o ácido se fora, a maconha idem e os cigarros minguavam. não havia mais comida. era domingo e voltamos para casa no fim da tarde a bordo do mesmo furgão. éramos catorze, mas voltamos em sete. alguns desistiram ou se mandaram antes. todos os junkies estavam vivos e duraram até o final. aliás, fomos nós, os junkies, que fizemos tudo funcionar, que corríamos atrás de tudo, que cuidávamos do fogo e que cozinhávamos para todos (e pela larica). fizemos a porra toda funcionar. zona autônoma temporária. sociedade alternativa mantida por vagabundos. e não deu nada muito errado.

num pedaço de madeira, ainda na manhã de quinta, escrevi com um carvão: AQUI JAZ MEU SUPEREGO. a lápide ficou encostada num canto, como símbolo de toda aquela loucura descontrolada. totem lisérgico que queimamos na fogueira antes de partir.

de volta à Curitiba, estávamos famintos e cambaleando pelas ruas com toda aquela bagagem. encontramos uma pizzaria barata e gastamos os nossos últimos dinheiros. nos despedimos na calçada e cada um tomou seu rumo. de volta à rotina.

um banho quente, a cama espaçosa, e o sono dos justos. semana DETOX com umas cervejinhas de tarde para comentar todas essas coisas e dar algumas risadas.

melhor feriado.

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