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the dark poet

preacher ed. 31, pag. 10: bill hicks

uns dois anos atrás, caí num site qualquer que trazia umas transcrições dos rants que Bill Hicks fazia sobre cigarro. já conhecia o nome, de uns vídeos sobre religião, mas era só. pouco tempo depois, no entanto, passei a virar madrugadas procurando textos, filmagens, qualquer coisa que pudesse encontrar. aí vi Sane Man (1989) enquanto esperava o sol nascer pra ir tomar um ônibus e, depois de exclamar vários palavrões, foi como se eu levasse um tiro na cabeça.

porra.

(sensação análoga ao meu primeiro contato com o turbilhão jazzístico da prosa de Kerouac em Subterrâneos. devo muito a esses dois putos.)

alguém disse que comediantes são os únicos caras que podem dizer verdades. mas são poucos os que resolvem gozar desta liberdade e dizer o que tem que ser dito, mesmo porque, para a maioria, o stand-up é apenas um meio para conseguir outras coisas mais rentáveis - uma sitcom ou o que seja. Bill Hicks, porém, tinha o palco como seu último estágio, quase da mesma forma que um rockstar o tem. não à toa, seu grande ídolo era Jimi Hendrix: play from your fucking heart & MEAN IT. foda-se o público.

"ei, Bill, nós não vamos a um show de comédia para pensar," Hicks imita alguém do público numa entrevista. "bem," ele responde, "e onde é que vocês vão para pensar? eu encontro vocês lá. nós não precisamos fazer isso aqui." e depois que você passa a ser alvo de dezenas de garrafas após 22 minutos de apresentação num bar em Louisiana... bem, pode-se dizer que você está no caminho certo - mesmo que com 300 shows por ano em tudo quanto é buraco da América.

faço um amálgama de entrevistas: "eu estava me sentindo como o monolito de 2001, odisséia no espaço: eu ali parado e essas pessoas ainda aprendendo a construir ferramentas. foi aí que resolvi começar a me vestir de preto e gritar com eles." encarnar o DARK POET ao custo de garrafadas e hostilidades diversas. e essa catarse funcionava - comédia do ódio & temas polêmicos. em umas gravações amadoras, vê-se gente saindo, reclamando, vaiando, ainda que outros tantos desabem em risadas e aplausos. você conquista parte deles e segue em frente, mas nunca entrega exatamente o que querem.

"don't worry, folks, dick jokes are coming next."

preacher ed. 31: bill hicks
[edição 31 de Preacher, com referência ao Bill Hicks. clique para ler.]

tentar destruir o sonho americano & outros dogmas de dentro pra fora há de ser uma tarefa árdua - principalmente quando se depende de veículos de comunicação pra ter uma certa visibilidade. aí chamaram o cara pra se apresentar na Inglaterra: SOLD OUT. em todos os teatros. e não só: a censura do politicamente correto, que o perseguia nas aparições televisivas nos EUA, não existia por lá - suas apresentações foram ao ar sem cortes e com os palavrões necessários. Revelations é um grande exemplo disso: uma de suas melhores apresentações e para um público mais aberto e inteligente que os rednecks para quem havia se apresentado a vida toda. sacaram que o cara era um gênio e abriram portas. era isso que ele buscava, mas não em outro país.

voltou. descobriu que as dores que vinha sentindo era um câncer no pâncreas. parou de fumar. fazia turnês e quimioterapia nalgumas cidades, o tumor diminuía e ele aproveitava os frutos de seu reconhecimento internacional: dessa vez mais gente o escutava. largou as roupas pretas, deixou a barba crescer e emagreceu um tanto (culpa da quimio). voltou a fumar quando soube que o tumor voltou a crescer: já não tinha mais chances e ninguém sabia de nada. "the guy kept goin', kept performin' with the license granted a dyin' man to say what he likes without fear." aí fez sua última apresentação e morreu 13 semanas depois, aos 32 anos, em 26 de fevereiro de 1994.

quem já passou por aqui antes deve ter trombado com algumas várias referências ao mestre. se não, deveria dar uma olhada nos vídeos. e também na seleção feita em seu site, que contém vários registros importantes.

escrevo tudo isso porque semana que vem faz 15 anos que Bill Hicks morreu. e, me repetindo, devo muito. há uma série de eventos planejados, e fizeram inclusive um perfil no twitter que tem sido atualizado com várias citações para promover o #billhicksday no dia 26/02 - provavelmente com mais citações e vídeos e etc, mas eu também sugiro que você tome um PORRE pelo cara. faça um brinde e/ou fique chapado. é válido - e você acaba de ganhar um grande pretexto. mesmo porque, porra, IT'S JUST A RIDE.

JFK

shotgun painting

'nuff said.

Shibui

Lá no epílogo do livro, Ashley Kahn diz que ao ouvir Kind of Blue sempre se recorda de um recorte de revista que fez -- folhas de bordo por entre uma desgastada cerca de bambu -- cuja legenda dizia que os japoneses chamam de shibui o efeito causado "quando a beleza atinge grande sutileza", algo como "elegância contida". O que de certa forma complementa uma citação (pág. 195) de Bill Evans, falando especificamente de alguns VALORES do jazz: "é essa preocupação de 'quem é mais moderno', em vez de 'quem está fazendo a música mais bonita, mais humana'.". E, por isso, talvez esta seja mesmo uma das melhores formas de adjetivar o disco: shibui.

Mas adiante ele cita imagens que EVOCAM o tal shibui e fico feliz que ele o tenha feito apenas no penúltimo parágrafo do livro: paisagens naturais e melancólicas, envoltas numa solidão completamente cinza (ou AZUL) que me jogaram pra bem longe, vos digo, onde acabei revirando também algumas memórias e procurando nelas estes mesmos elementos. E não deixa de ser curioso que não tenhamos, em português, ou inglês, ou; um correspondente para essa palavra japonesa. Deveríamos. Só fui voltar àquela última página pelo caminho mais óbvio, o da perda, e constatar, com simplicidade e frieza absurdas, que um COMBO de câncer, tuberculose, derrames, úlcera e pneumonia exterminou o fantástico sexteto-mais-um, alguns precocemente (Coltrane, aos 40) e outros nem tanto (Miles himself). Contribui para o clima um pouco 'blues' que Jimmy Cobb seja o único remanescente daquelas duas sessões de 1959 -- o que faz com que Kind of Blue, algo ironicamente, seja a melhor trilha sonora para as suas quatro décadas de história.

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Continua em Free booze, free blues, free dues.

Tribal Fusion

As duas palavras do título, quando juntas, invariavelmente me remetem ao universo do Neuromancer e fiquei alguns dias tentando escrever sobre isso e a relação com vídeo abaixo. Como não saiu nada, farei essas considerações a esmo, de qualquer jeito mesmo, lançando algumas idéias.

Para não perdê-los logo no começo, vou para a parte mais interessante e que foi a ignição dessas associações. Devo dizer que não entendo nada sobre dança e acho cafona boa parte das coreografias que vejo naqueles programas aleatórios da TV Cultura. Dessa arte me interessam apenas duas coisas: a FIGURA da bailarina (que não vem ao caso aqui) e essa vertente mais ELETRO-modernizada da dança do ventre -- e me justifico com o vídeo que segue:

She's a SNAKE!

Posto isso, a citação da fonte: toda vez que penso dar um unsubscribe no feed Obvious, eles mandam alguma coisa muito boa e esta breve biografia da Rachel Brice, a dançarina acima, foi um tiro certeiro. Leiam o artigo e depois voltem pra cá. Eu aguardo.

...

Sei que essa industrialização das tradições acaba deixando muita coisa importante de lado e tira aproveito dos símbolos para CATALIZAR -- e agora falo do vídeo -- todo o erotismo e apelo sexual que já há na belly dance roots e os combina numa atmosfera diferente e essencialmente artificial, que cria, e isso é lindo, uma fusão de elementos distintos ao extrapolar seus detalhes em comum. Não é a toa que, nesse caso, TRIBAL FUSION seja um rótulo perfeito -- também por ser vago as hell.

E, de outra forma -- que é onde a ponte para o Neuromancer se constrói --, tal amálgama moderno de tradições e tendências passa a ser conseqüência direta de um CHOQUE, eu diria, tecnológico e/ou social, do desenvolvimento rápido, impulsionado pela idéia self improvement constante, frenético. Pois, convenhamos, não temos nada NOVO. Essa é a geração da reciclagem, do remake, das colagens. Recorte e junte e cole, veja no que dá. Proto-eugenia artística.

Pois no universo do Neuromancer, até onde a memória da leitura me permite, as fronteiras inexistem e nacionalidades são uma questão puramente geográfica -- Gibson faz questão de dizer que um sujeito é alemão ou tailandês da mesma forma que descreve suas roupas e apetrechos, vomitando marcas e logotipos*. Porque nessa projeção estupidamente futurista, a tradição foi massacrada por esses catalizadores e a única identidade que resta é a das grandes corporações -- o que também lembra o início do Clube da Luta, onde é dito que no futuro haverá a galáxia Starbucks, constelação Microsoft, etc.

É como se o universo do Neuromancer fosse a hiper-extrapolação do modelo Tribal Fusion. E, de certa forma, essa é realmente a tendência atual, ainda que meio tímida. As possibilidade são infinitas, mas o que é deixado de lado nessas misturas acaba não sendo reutilizado, e talvez este seja o grande problema.

Bonus tracks: Vintage, Oriental Dream, Paris.

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(*) O que é basicamente a essência do Reconhecimento de Padrões também.

Play from your fucking heart

Eu disse que falaria sobre VONTADE e acredito que o título acima resuma extremamente bem o que eu quero dizer quando escrevo essa palavra. E ela não está vinculada às minhas preferências musicais (e nem necessariamente à música), mas sim à própria expressão do(s) sujeito(s) que se dispõem a retirar dos instrumentos e da própria voz o som que desejam, seja ele qual for; aquilo que ELES acham bonito ou imprescindível ou inevitável. Aquilo que é sincero.

Daí quando eu passo por um televisor, ou um rádio de terceiros, ou um link errado no iutube; quando eu vejo bandas e mais bandas formadas apenas para encher os bolsos de gravadoras, para repetir os modelos e padrões que vendem e que sempre dão certo -- e a repetição vai tornando tudo cada vez mais plástico e artificial, cada vez mais VIRTUAL -- eu fico profundamente irritado.

(Antes de prosseguir, uma digressão rápida: em algum ponto de um passado mais ou menos distante, trombei com um texto do Bill Hicks, que na época não conhecia, falando sobre cigarro [há vários] e depois disso fui atrás de todos os registros de apresentações que pude encontrar -- e a piada do cigarro ilustra esse post aqui, lá no final do texto -- e, vos digo, é um dos meus comediantes favoritos. Digo isso porque George Carlin morreu nessa semana e depois de rever vários e vários trechos de seus stand-ups, me vi obrigado a voltar aos registros do também falecido Hicks, e passei a madrugada inteira revendo essa coisa toda para concluir, mais uma vez, que precisamos de mais pessoas como esses caras, com algo a dizer.)

E essa irritação é daquelas que ficam entaladas na garganta, que incomodam e te dão a sensação de que não há nada que se possa fazer. Talvez não haja mesmo, mas eu sinto essa mesma vontade de extravasar o meu incômodo com essa grande, e cada vez maior, quantidade de merda que nos querem vender:

Play from your fucking heart

Ok, talvez sem os pulinhos.

Mas tocar from your fucking heart, isto é, com VONTADE, devia ser a principal, senão a única, motivação de quem empunha um instrumento ou um microfone. Ponto.

Dito isso, me inclino agora mais para o lado de uma singela homenagem ao Hicks, sem querer interferir no luto ao Carlin e também sem perder totalmente a essência do título do post, e lhe passo novamente a palavra, lembrando que esses vídeos são de fins da década de 80 e começo de 90, o que torna Bill um contemporâneo do "sucesso" de Rick Astley (e Debbie Gibson, e George Michael, e New Kids on the Block, e...):

Rick Roll é o caralho

E para completar o apanhado de comentários sobre música, o vídeo abaixo fala da relação dos músicos com as drogas... e de pactos pouco ortodoxos com o demônio para alavancar vendas e fazer sucesso.

Há muito mais por aí, inclusive essa apresentação completa (e compacta, 30 minutos) realizada em Chicago, em 1991.

De nada.

George Carlin is no more

George Carlin morreu ontem, no domingo, aos 71 anos, de ataque cardíaco. Uma pena. Além de ser um excelente comediante, também tinha algo a dizer -- o que anda muito em falta hoje em dia. Aliás, salvo algumas variações, esse era um dos temas recorrentes em suas apresentações: the people are fucked.

Abaixo, uma rápida reflexão sobre a educação nos EUA, mas a carapuça nos serve muito bem.

Além desse, já postei outros vídeos dele aqui no blog. E, claro, há muito mais no iutube.

Grande perda.

Pare tudo o que você está fazendo

Porque, porra, tem água em Marte!

ICE ICE BABY.

____

UPDATE: coincidência ou não, acabo de ver que este foi o post #200 do blog.

10 Dimensões

O Marcos, lá do Hedonismos, fez um post interessante e por causa dele acabei me lembrando desse vídeo que levanta a possibilidade de existirem outras 7 dimensões além das 3 mais óbvias que já conhecemos.

Longe de misticismos, esoterismos e outros paulo-coelhismos, a animação traz uma argumentação sensata, embora, no fim, não explique muita coisa -- trata-se de um teaser para um livro e as respostas, se existirem, devem estar lá. Ainda assim, deve servir para tirar o sono de alguns.

Miles

Depois de desastradas tentativas e de um período de distanciamento para desintoxicar-me de más idéias, encontrei a solução em 30 segundos. Simples -- possivelmente simplória --, mas vá lá.

Miles Davis

Acho que está bom o suficiente para que eu não sinta vergonha, mas ainda bem distante do que eu tinha em mente. Aceito sugestões -- construtivas, pois já considerei as destrutivas por demais.

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