categoria ~ Crítica

não voto

acho que vi todos os horários eleitorais. vi alguns de outras cidades, vi uns debates, li os "jornais" feitos pelos candidatos - e enfiados sob a minha porta - e impressos em papel de boa qualidade, coloridos e cheios de sorrisos.

vi aquela HORDA de candidatos a vereador (187, aqui) expostos algo estroboscopicamente a repetir, nos seus poucos segundos, o mantra "saúde, transporte e educação". vi também as garotas gordinhas no canto da tela a gesticular esse trinômio por trinta longos minutos, possibilitando aos surdos a sensação de asco que estamos acostumados a experimentar.

vi também o sujeito que organizou uns bons cineclubes e que agora resolveu, não sei bem porquê, ser vereador. e um outro que estudava na minha escola no ensino fundamental, um ano mais novo que eu, aparecer como candidato a vice-prefeito pelo PSTU.

ah! vi até a candidata bonita (sim, no singular; e sendo um tanto generoso) que saiu em 2004 pelo PRONA, neste ano pelo PRTB/PHS e, aqui, pelo NSFW - no qual está muito mais a vontade, diga-se. praticamente uma pequena celebridade no município (& moar).

vi tudo.

e é por isso que eu não vou votar.

...

em cidades pequenas, os contrastes da política são evidenciados de tal modo que ela acaba se transformando em sua própria caricatura.

nas cidades maiores & capitais, no entanto, você até se convence de que pode mudar alguma coisa.

...

mas vamos lá:

1) se todos os 187 vereadores que apareceram diariamente no meu televisor durante as últimas semanas prometeram exatamente a mesma coisa, tanto faz eu votar neste ou aquele. são 187 pessoas competentes e honestas que cumprirão com suas promessas se eleitos.

tanto faz.

2) querem, em CINCO SEGUNDOS diários, ganhar minha confiança, simpatia e representatividade.

try hard.

3) as coisas não vão mudar. coloque o seu vereador favorito na câmara e nada vai mudar. "ah, mas se todo mundo escolher um político honesto e de confiança..." TÁ. você consegue listar CINCO nomes?

não consegue.

...

não menciono os candidatos a prefeito porque nem vale a pena. acredite.

...

é claro que eu poderia votar NULO, que é uma forma de dizer que não estou satisfeito com nenhuma das opções apresentadas.

mas, em vez disso, também posso expressar meu descontentamento com o fato de não ter outra escolha senão a de anular meu voto. ou ainda de dizer que não quero participar de algo que não vai fazer diferença nenhuma.

e todo mundo sabe que não vai. daqui a quatro anos é "saúde, transporte e educação" de novo. e de novo. como já tem sido há tempos e como sempre foi.

...

mas no Brasil você é obrigado a votar. ficar em casa no dia da eleição vai te resultar em uma multa.

em 2006 eu não votei pra presidente e também não fui justificar minha ausência. umas semanas ou meses depois tive que ir regularizar o título de eleitor e, se a memória não me trai, a obscena quantia que tive de desembolsar para não ter maiores problemas foi algo da ordem de UM REAL.

um real e pouco porque foram dois turnos - que contam como duas eleições. senão é metade disso. não fui pesquisar pra confirmar este valor, mas dadas as fantásticas opções de políticos, é um preço baixo para ter o direito de não escolher nenhum deles.

e muito embora o voto nulo seja gratuito, há a indefectível fila que eu não tenho a menor vontade de enfrentar.

prefiro ficar em casa e acertar as contas depois.

(repito que não me lembro exatamente do valor e nem se há um prazo e etc. pesquise no domingo, quando você estiver em casa sem nada pra fazer.)

...

aliás,

meu argumento segue por aí.

...

um título mais correto para este texto seria algo como "não voto enquanto...", mas aí eu precisaria de outro texto, algo utópico, pra completar essa frase, querendo dizer que está tudo errado e que, se quisermos mudar alguma coisa, temos de começar pelas pessoas.

qualquer coisa assim.

...

UPDATE: como este post gerou perguntas que eu não soube responder com certeza, encontrei algumas das respostas para: justificativa do voto, justificativa de voto e multas & um FAQ. agora sim, pode ficar em casa tranqüilo.

e o valor da multa pela não-justificativa do voto é arbitrário e essencialmente simbólico. mais explicações aí nos links acima.

2 centavos

Porque estavam discutindo ali no twitter* sobre a falta de educação da atendente de uma operadora, depois sobre diploma, trabalho no domingo, erro médico e comunismo, mais ou menos nessa ordem, e acabei fazendo dois comentários que eu gostaria de expandir um pouquinho, sem perder a essência da brevidade twitteriana:

1) Ninguém deveria trabalhar nos fins de semana: Ponto. (Dramatização.)

OK, justificativa: temos o suficiente para garantir o descanso merecido de todos os trabalhadores. Ninguém morrerá por falta de abastecimento nesses dois (ou três, vide [2]) dias. Por via das dúvidas, basta instalar máquinas de comida e bebida nas principais avenidas e tal. Feito.

2) 4 dias por semana, 6 horas por dia de trabalho: incluindo aí o networking na salinha do café, visitinha ao orkut e outras formas procrastinação.

Posto isso, façamos contas:

A jornada de trabalho padrão é de 8 horas, 5 dias por semana. Incluamos o sábado para deixar as contas redondas. Isso dá 48 horas de trabalho por semana. Dois dias completos trabalhando (e fazendo networking). Como uma semana tem 168 horas, sobram 120. No entanto, o sero mano dorme em média 8 horas por dia, 56 horas por semana. Sobram 64.

Mas o sujeito tem que se locomover até o trabalho, caçar a refeição, tomar banho, essas coisas. Dia desses vi na tevê uma enquete sobre o tempo que as pessoas perdiam no transito de SP: umas duas horas, em média. Então se você trabalha seis dias por semana, passa umas 12 horas com a bunda no carro ou no ônibus. Sobram 52. E, sei lá, o tempo gasto com refeições e higiene pessoal num dia deve ser algo entre 2 ou 3 horas. Nunca contei, mas que sejam 3, em todos os dias da semana. Sobram apenas 31 horas livres.

Pronto. De 168 horas semanais, você, cidadão comum, tem 31 horas para usar como quiser, para o seu lazer. Isso dá quase 4 horas e 30 minutos por dia que, na maioria dos casos, são gastos no sofá, olhando para uma tela.

Ou seja, você gasta 60 horas semanais com trabalho (incluindo transporte), 56 dormindo, 21 comendo, se limpando, etc; e mais umas 30 fazendo porra nenhuma. Não é lindo?

Não muito.

Com a proposta que fiz acima, a quantidade de trabalho seria reduzida pela metade (24 horas semanais) -- e, provavelmente, o tempo no transito também diminuiria um pouco.

Isso sim é lindo -- e a idéia ir reduzindo o trabalho até o mínimo necessário, de modo que haja emprego para todos e... bem, essa parte mais utópica fica para outro post.

Mas precisamente neste instante um infeliz reclama, gesticulando contra o monitor, que é impossível manter as coisas como são reduzindo tão drasticamente a quantidade de trabalho e blá-blá-blá, ao que respondo com muita elegância e clareza, pero sin perder la ternura: foda-se.

E, depois de uma breve pausa dramática, acrescento, caso haja necessidade: quem é que realmente precisa de um carro do último modelo, de uma televisão de infinitas polegadas, tênis caríssimos ou um iPhone?

(E para evitar que deixem perguntas idiotas nos comentários: não, não tenho celular, nem quero ter um iPhone nem uma televisão gigante, não dou a mínima pra carros. Os gastos que tenho são basicamente com passagens de ônibus, refeições [& drinks, etc.] e livros. Desculpe.)

--

* UPDATE: E cá estão os vários centavos do Thiago e do Doni, que são de fato sobre a discussão que estava rolando de forma meio limitada lá no Twitter. Leiam.

Julgue pela capa, sim

Pois é sinal de bom gosto, ou de qualquer preocupação estilística, que aqueles traços estejam lá justamente daquela forma para não te agradar por completo e para criar um certo mistério sobre o que está debaixo da contracapa. Pois houve, mesmo que mínimo, um esforço para criar aquela coisa que te atrai ou incomoda e é a partir daí que você encadeará uma porção de coisas, antes desconexas, para a frustração por vir. E essa frustração, vos digo, é linda.

Aquela corrente de expectativas que se rompe logo no primeiro parágrafo ou nos primeiros minutos da música é o que te dará o, vá lá, estado de espírito com o qual você irá começar a desbravar a coisa inédita, mas que não chegará contigo até o fim. Daí penso que as capas de todas as coisas deveriam ser completamente diferentes e, ao invés de representar parte do conteúdo, passassem a ser a expressão máxima de um pequeno detalhe, talvez até irrelevante, apenas para interferir no teu julgamento inicial e te influenciar nos primeiros instantes. Títulos são bons para isso também, mas imagens e ilustrações têm um potencial muito maior.

Penso agora, para não deixá-los sem um exemplo, n'O Jogador e em como seria muito mais interessante se em vez das referências óbvias à roleta e cassinos estivesse estampado na capa um rascunho trêmulo do vertiginoso relevo do Schlangenberg, de onde o narrador premete se lançar se Paulina assim o quiser. Ou uma cadeira de rodas, sem revelar quem a ocupa. Ou um gigantesco número zero. Ou tudo completamente vermelho, um vermelho vivo, sem desenho algum.

A representação pura e simples do enredo, ainda que vaga e pouco reveladora, parece ser sinal de falta de criatividade ou da própria noção de como uma capa é importante, de como a SUGESTÃO é algo essencial e que não raro determina se você um dia irá mesmo abrir aquele livro, se chegará até o final e o que irá te restar quando as páginas começarem a amarelar na estante.

O mais enigmático, obscuro, artístico e positivamente frustrante, melhor. Sempre.

Os pequenos imitam os grandes

Confesso que tenho certo prazer em sintonizar a emissora local e vislumbrar o resultado dos seus esforços para ter uma programação semelhante a dos principais canais de alcance nacional. O dinheiro suado, sempre insuficiente, paga versões thrash de telejornais, programas de variedades (daqueles que passam de tarde, apresentados por mulheres) e... o que mais há na tevê mesmo? -- bem, tudo isso reprisado à exaustão. Os comerciais são também muito divertidos: mal-feitos, repletos de imagens toscas, eco nas vozes dos atores e aquela estética iutubo-TechPix-DIY.

E é claro que a televisão é apenas a lente de aumento de um fenômeno maior. Qualquer coisa, desde a mídia impressa até os eventos populares, é feita tendo como norte o que os gigantes endinheirados fazem. A inspiração que tende à cópia.

O carnaval daqui, por exemplo, é algo de se rolar de rir, símbolo máximo desse mimetismo capenga. O orçamento ridículo e a ambição de ter carros alegóricos como os das escolas do Rio ou de São Paulo transformam o SOBERBO espetáculo de baixo-custo em uma paródia de si mesmo -- algo a ser evitado por aqueles que se envergonham pelos feitos de terceiros.

Mas passados os instantes de perplexidade e riso, me incomoda que a estratégia de investir no que funciona para os grandes seja a única carta na manga dos pequenos. Me incomoda que eles prefiram montar uma bancada tosca para um telejornal inexpressivo a inventar um programa de entrevistas (que não custa quase nada) e sair arrancando palavras de algumas das várias pessoas que têm sim o que dizer. Ou então algum programa musical que não se limite às mesmas figurinhas regionais e que CHAFURDE com vontade no que se pode chamar de CENA local. Ou algum esquema de transmissão de palestras, peças, apresentações, sei lá. Ou um programa de humor (ok, isso geralmente é desastroso, mas vá lá). Ou algo que misture tudo isso e mais um pouco.

Em vez de ignorar as limitações (quase sempre financeiras), deve-se JOGAR com elas. Experimentá-las e esgotá-las antes de querer dar um passo maior que a perna. Antes de dar um passo at all. E essa crítica não é exclusiva à ineficácia do modelo mass media nas pequenas emissoras regionais, mas sim ao todo das produções e realizações. Voltando ao exemplo do carnaval, que me parece o mais profícuo: não seria imensamente mais interessante que essa imitação ridícula e precária fosse deixada de lado para dar lugar a promoção de rodas de samba ROOTS e a própria comemoração do carnaval à moda do interior, que, suponho, tem uma identidade cultural diferente em cada região e/ou cidade? Não é muito mais inteligente promover/desenvolver/enriquecer o que se tem do que esgotar recursos num modelo ERRADO? Ou ainda, qual a vantagem de apostar num modelo que CEIFA a criatividade para cultivar o mais-do-mesmo?

Penso nisso entre uma risada e outra. Até que vem mais uma daquelas propagandas do comércio local, com um eco filho-da-puta uma torrente de pixels estourados, cópia tosca de qualquer outro comercial que se vê por aí (que é cópia da mesma fórmula que se repete há anos) e eu acabo perdendo a pouca esperança que tenho nessa merda toda.

O Mito da Reciclagem

Eu não costumo reciclar. Sou meio preguiçoso. Cá no meu prédio, bem ali no fim do corredor, há uma portinha que dá para um grande tambor plástico e uma prateleira. No tambor vai o lixo comum e na grade de metal fica tudo o que for reciclável. É fácil.

A quantidade de lixo que produzo (no mundo real, não aqui) é ridícula. Basicamente são embalagens de leite, pão, frios em geral, borra de café e coisas assim. Quando garrafas plásticas ou as de cerveja, vinho, etc. vão acumulando, coloco-as num saco plástico e as repouso na prateleira metálica para serem reaproveitadas. Caixas de papelão daquelas pizzas de forno, idem. Mas é só. Crucifiquem-me.

Na faculdade, no entanto, há vários daqueles conjuntos de lixeiras coloridas, uma para cada tipo de material. Como bom cidadão, jogo as coisas nos cestos corretos. Aliás, não sei se li em algum lugar ou se me disseram (nada muito confiável), mas parece que aqui em Curitiba reciclam muita coisa, se bem lembro, algo como 1/3 do lixo. O número deve ser falso.

A começar pelo meu próprio prédio, há um grande incentivo à reciclagem na cidade. Na traseira de alguns ônibus, bolinhas de papel dotadas de pernas e um grande sorriso te dizem que separar o lixo é legal, qualquer coisa como "se você reciclar o papel, ele volta". Há propagandas nos pontos de ônibus e outdoors e as lixeiras coloridas não costumam ser raridade. Como já vos disse, é bem fácil ser "ecologicamente correto" por aqui.

No entanto, hoje presenciei uma cena impagável, da qual já desconfiava ser verdade: enquanto falávamos besteira num dos bancos da faculdade, observávamos um pequeno tratorzinho que puxava uma carreta de madeira, cheia de sacos de lixo. Este parou bem à nossa frente e dois funcionários desceram da carreta para recolher o lixo separado das lixeiras. Eu ri meio desiludido, um colega também, mas os outros ficaram um tanto indignados aos ver os copinhos plásticos serem misturados com restos de comida e latas de refrigerante, tudo num mesmo saco. Jogaram-no na carreta e foram para o próximo conjunto de lixeiras.

Lixeiras

Lixo separado é lixo reciclado... NOT!

As histórias de que isso acontece são várias, mas ver a cena toda foi interessante.

Como eu disse no post anterior, é muito mais fácil querer conscientizar os outros do que realmente fazer alguma coisa. Você é adestrado para separar o lixo, para ser ecologicamente correto, para preocupar-se com o planeta e toda aquela ladainha incrivelmente maçante dos ecochatos, mas eles (os funcionários, a prefeitura, o Satã) juntam tudo num saco só e foda-se. A partir de hoje, ao menos na faculdade, sei que posso poupar os dois ou três segundos necessários para descobrir qual é a cor correta para o meu copinho plástico (os adesivos inexistem indicativos, você tem que enfiar a cara na lixeira pra ver o que predomina lá dentro). Ou então eu poderia seguir o exemplo de alguns alunos e jogar tudo no chão. Afinal, tanto faz, não é mesmo?

Enfim, ouso dizer que a moral da história é a seguinte: a preguiça nos livra da auto-enganação. Qualquer coisa assim.

Mas reciclem, sei lá. Continuem "fazendo a sua parte" e tal. Vai que eles passam a fazer a coleta direito. Nunca se sabe.

Em tempo: o título do post vem deste artigo. Eu o li há muito, muito tempo, nem sei como cheguei até ele, e confesso que já não me lembro da argumentação do sujeito. Resta-me apenas a lembrança de ser um bom artigo e por isso o recomendo -- e faz mais jus ao título do que este meu texto; diz que a reciclagem muitas vezes não é viável e, por isso, é um mito (yeah, tremei, ecochatos! Leiam lá).

Curitiba dá pena

Eu já dei a entender por várias vezes que moro em Curitiba (ou aqui, para os mais bem humorados). Devo ter dito isso com todas as letras também. Não me lembro se fui além dessa afirmação e se dissertei um pouco sobre a cidade. Creio que não, mas, de qualquer forma, serei breve.

Moro aqui há dois anos. Os nativos não são, como costuma-se dizer, frios. São apenas chatos. O curitibano típico é um sujeito meio orgulhoso, se querem saber. É que a cidade é bem organizadinha, tem alguns lugares bonitos e um sistema de transporte que já foi bom (hoje está saturado, basta ver as filas enormes nos tubos e os ônibus todos lotados), o que faz as pessoas acharem que estão no primeiro mundo ou qualquer coisa assim.

Curitiba não é, com o perdão da expressão, "fria pra caralho". Faz frio, sim, mas é de vez em quando, como em qualquer cidade normal. E, quando faz, às vezes faz bastante -- nada de outro mundo, uma semaninha de frio de verdade em julho e tal. Isso começou a ser divulgado aí no começo dos anos 90, se não me falha a memória, para alavancar o turismo, pois além do "frio" não há muitas outras coisas para conquistar visitante. Trata-se de uma interpretação sagaz do fato de ser a cidade com a menor média térmica do país (17ºC, se não me engano).

E não podemos esquecer do ar europeu. Como dizem por aí, Curitiba é um pedacinho da Europa cercado pelo Brasil. Não é poético? Eu não conheço o velho continente, mas a pretensão do curitibano é quase insuperável.

(E eu sei que generalizar não é legal, mas não vou ficar enchendo o texto de exceções, justificativas e desculpas. Utilizem o bom senso.)

Tendo desfeito todos esses mitos, vos digo que nem por isso se trata de uma má cidade. O grande problema daqui não são os curitibocas, mas a violência. Morre bastante gente aqui e assaltos são rotineiros, sacumé... Tenho vários colegas que já foram assaltados tantas vezes que nem sabem mais dizer exatamente quantas foram. Eu, por outro lado, em dois anos, acho que tive sorte: fui somente quase-assaltado (é uma história engraçada, mas não vem ao caso) e felizmente sem mais contratempos -- apesar de ir a pé para tudo quanto é lugar.

Mas tudo isso foi pra dizer que vi agora na Folha esse texto do qual roubei o título, que trás números preocupantes: 26 assassinatos no feriado de carnaval -- e olha que as festas carnaval daqui são extremamente modestas. A cidade está bem acima da média nacional assassinatos, com incríveis 49,3 mortes por 100 mil habitantes. É uma pena que isso não soe muito europeu ou de primeiro mundo. Curitiba está pior do que São Paulo e no páreo com o Rio de Janeiro.

Com a notoriedade de boas administrações vem a negligência.

Então, meus caros dois ou três leitores, se eu desaparecer subitamente, esta é uma informação que deve ser levada em conta durante a formulação de hipóteses trágicas.

Contudo, deixo-vos com essa música alegre que sintetiza bem o dia-a-dia da capital paranaense, embora as numerosas referências não façam muito sentido para quem não é daqui ou para aqueles que nunca visitaram a cidade.

Toda Nudez Será Aclamada

Talvez seja a má herança genética, alguma patologia ou mesmo as conseqüências do uso indiscriminado de substâncias ilícitas, mas tem muita coisa por aí que eu não compreendo.

CarnavalOntem vi uns cinco minutos do desfile de carnaval lá do Rio de Janeiro. Tudo muito colorido e animado. Faraônico, por assim dizer. Entretanto, as únicas coisas que me tiraram brevemente da indiferença e do desgosto foram as mulheres praticamente nuas e siliconadas -- o que é importante para conferir-lhes curvas que não costumamos ver por aí com tanta freqüência; pelo menos não de forma tão exposta.

Pois bem, nesses poucos minutos de contemplação, ao que parece no final da apresentação de uma das escolas, filmaram uma moça que estava tão semi-nua, mas tão semi-nua, que, por arredondamento, estava completamente nua mesmo.

Achei ótimo, claro.

(Creio que seja essa aí do lado, encontrei-a aqui, mas a quantidade de moças nos mesmos "trajes" já me impede de ter certeza.)

O que eu não sei é qual a diferença entre ficar nua num sambódromo ou nua numa praia, por exemplo.

Em verdade, sei sim: essencialmente nenhuma. Só que lá na areia é atentado violento ao pudor e no desfile, carnaval.

Não entendo nada de direito e nem sei exatamente o que diz(em) a(s) lei(s) que reprime(m) os mais despudorados, mas suponho que o argumento seja o de que não é uma "boa prática" ficar pelada no meio de um monte de gente, exibindo-se, chamando a atenção de todos e ofendendo os mais froux... digo, sensíveis.

No entanto, mesmo baseando este texto nos meus cinco minutos anuais de carnaval, posso afirmar que desfilar nua tem como único propósito o exibicionismo e a busca pela atenção de todos -- como se não bastasse ser o destaque e ter que sambar solitária na frente de uma alegoria qualquer diante de uma infinidade de pessoas nas arquibancadas e de um sem número de telespectadores (e por mais cruel que seja o aquecimento global, jamais terá tanta gente assim em nossa praia hipotética).

Aliás, ocorre-me agora, trata-se de uma grande incoerência: gastam-se fortunas em fantasias para as dezenas de centenas de integrantes de uma escola, mas os verdadeiros destaques são as mulheres (semi-)nuas.

Deixemos de ser hipócritas, sim? Convencionemos o seguinte: o velho louco que entra nu em uma festa de crianças esfregando o pau em todos os rostinhos inocentes está cometendo esse atentado violento ao pudor (e provavelmente mais algumas outras coisas); a mulher que está afim de mostrar o corpo esculpido na academia ou na mesa de cirurgia e acha o minúsculo biquíni incômodo, não está atentando contra nada. Que se livre da peça, ora!, nada mais natural.

Com isso, também poderíamos deixar a hipocrisia de lado e abolir essa frescura de "tapa-sexo" ou seja lá como chamam essas coisas. Como podemos conferir na foto, aquilo e nada é praticamente a mesma coisa. Tirem tudo de uma vez, é o que todo mundo quer ver mas finge que não quer.

(As origens não importam mais: carnaval virou putaria e isso é fato. Então que façam logo um bloco da nudez, distribuam baldes de camisinhas e transformem esses quatro ou cinco dias num verdadeiro bacanal. Seríamos todos muito mais felizes, bem dispostos e humorados, não?)

É por essas e outras que acho muito bem-vinda a reivindicação de um grupo de suecas que quer ter o direito ao topless nos mesmos lugares onde os homens podem ficar sem camisa. Nada mais justo.

Acho que as mulheres daqui também deveriam vestir essa camisa, embora esta deva ser uma das raras ocasiões onde as camisetas de protesto não caiam muito bem.

E fiquem tranqüilos, este é o único post sobre carnaval do ano. Quiçá do blog.

Não Pare de Fumar

Fogo

Não, não é uma ironia. Nem uma piada.

Também não é uma manifestação indireta de repúdio aos fumantes e tampouco um incentivo para que morram mais cedo. Mesmo porque essas coisas fazem parte do repertório apocalíptico daqueles que enchem o saco dos outros para que parem de fumar -- o que não é o meu caso, pois estou dizendo justamente o contrário. E, novamente, não é uma ironia.

As pessoas adoram mandar nas outras. No caso do tabaco, eu ouço apenas dois tipos de imperativos diferentes: o dos chatos que bradam o clássico "pare de fumar" e o dos donos de empresas do setor que, também inconvenientes, gritam o seu "fumar é legal." Quer dizer, agora eles apenas sussurram por aí, meio que subliminarmente, nas padarias e nos botecos, já que foram afastados da onipotência televisiva.

E como qualquer pessoa normal, este que vos fala também é acometido por certos ímpetos totalitaristas, mas que, felizmente, revelam-se efêmeros e quase indolores. Pode não parecer, mas sou uma pessoa mais ou menos boa.

Enfim, apesar de soar como uma ordem, o título não-irônico deste texto pode ser entendido mais como um conselho amigável do que como um terceiro imperativo -- muito embora ele tenha suas semelhanças com o que repetem as grandes empresas. Profiro-o, pois, justamente para dar ao leitor fumante uma alternativa mais agradável e plausível, condizente com a realidade dos que fumam porque gostam nesse mundinho tão hostil e intolerante.

Eu, por exemplo, fumo esporadicamente. Naquelas madrugadas longas e silenciosas, escorado na janela e olhando para o Nada, um cigarro cai bem. Um maço, comigo, dura vários dias. Poder-se-ia até dizer que sou como um fumante semi-passivo (ou semi-ativo), como um proto-fumante, um quase-viciado, um semi-dependente, um fumista parcial, um (por que não?) incompleto "idiota". Eu sei, leitor mal-cheiroso, mais ou menos como você se sente.

No entanto, o meu imperativo, sem fins lucrativos ou homicidas, é pra ser entendido como um belo e sonoro "fodam-se". Aos chatos, claro. Pois me incomoda essa preocupação excessiva que as pessoas têm com a saúde alheia: se eu fumo, se eu bebo, se eu uso drogas, se passo o dia inteiro vidrado na Rede Globo, se eu me alimento apenas com fast-food ou se tudo o que leio são "livros" de auto-ajuda, isso é um problema exclusivamente meu.

(Ok, nem tanto. Ler auto-ajuda passa a ser um problema para as pessoas próximas também, uma vez que os leitores dessas coisas tornam-se tão chatos quanto os Testemunhas de Jeová que costumavam me acordar no sábado de manhã. Citei esses panfletos apenas pela força do exemplo, espero que compreendam.)

O que eu quero dizer é que a exaltação ao bem-estar e a busca desesperada por qualidade de vida (seja lá o que isso realmente signifique) deveria ser voluntária e pessoal, e não motivo de campanhas e histeria coletiva. Deixem os fumantes fumarem, ora! Se isso lhes dá prazer, se lhes faz sentir bem, ótimo. Prazer é "qualidade de vida" também, não é? Quem acha que esse prazer não compensa os riscos à saúde, simplesmente não fuma. Por que havemos de complicar as coisas?

Continuem, pois, fumando tranqüilamente: cada um faz o que quer -- e eu sei que esta é uma frase já calejada e pouco original, mas alguns se esquecem ou ignoram até mesmo as constatações mais triviais.

E ainda, o que acho curioso, tem gente que se empenha, por motivos ocultos, em decorar discursos anti-tabaco, em citar estatísticas e pesquisas, em falar de câncer, de problemas cardio-respiratórios e outras tantas complicações -- vocês conhecem esses tipos -- mas que acabam se revelando pessoas infelizes e, claro (e talvez por isso mesmo), incômodas. Ao invés de gozar de seus prazeres, atrapalham o gozo alheio. O que é, para dizer o mínimo, uma baita sacanagem.

Sei que há aquele argumento hipocondríaco dos fumantes passivos, que afirmam estar morrendo aos poucos. Paciência, colegas, todos nós estamos. E o cigarro não é lá um ícone muito importante em nosso avantajado panteão de problemas -- a não ser que surjam com um estudo científico dizendo que os fumantes são os principais responsáveis pelo aquecimento global; daí eu me rendo e aceito as pedradas.

Para os que chegaram até aqui sem fazer cara feia, um vídeo, que nesses tempos digitais também vale mais do que um punhado de palavras, do comediante ianque Bill Hicks (falecido, sim. Câncer. No pâncreas):

Trecho da apresentação chamada Sane Man. Se lhe agradar, ela está disponível no iutube também.

* * *

Texto inspirado, numa madrugada longa e sem cigarros, por este bom artigo da Ariadne Rengstl. Ou melhor, por um dos comentários deixados por lá.

Sobre Macacos Imortais e Literatura Barata

Macaco escritor

Dizem que se colocarmos um primata imortal diante de uma máquina de escrever inquebrável e deixarmos que o animal bata aleatoriamente nas teclas, um dia, provavelmente num futuro bem distante, o letrado macaco terá escrito todas as obras de Shakespeare, todos os poemas de Rimbaud e todas as crônicas de Nelson Rodrigues.

A base de tal dedução vem da Teoria das Probabilidades que, resumidamente, nos diz que se há uma chance de que um evento ocorra, se ela não diminuir com o passar do tempo e se esperarmos o bastante, o evento ocorrerá.

Dito isso -- e abstraindo um pouco a Teoria, senão eu perco a piada --, podemos supor que, antes de escrever Hamlet, nosso parente genético começará a confecção de seu vasto legado literário pressionando violentamente as teclas de metal num furor criativo, animalesco e frenético nunca antes visto no reino animal. Abusará inconscientemente da indestrutibilidade da máquina para canalizar todo o ódio primitivo e visceral que costumava enrijecer sua musculatura e deixá-lo curvado sobre o abdômen, de tal modo que produziria, nos primeiros momentos, as obras mais sinceras e passionais já escritas -- embora ininteligíveis até mesmo para o autor.

Este seria o primeiro estágio, a ira. Depois disso macaco se acalmaria e suspiraria longamente, mas sem nunca deixar de martelar o teclado com seus dedos peludos.

Aceita, então, o seu destino inexorável e tenta encontrar, na gigantesca pilha de escritos, algum fragmento que o agrade, mas vê somente o desabafo de um primata amador.

Irrita-se e determina-se. Datilografa laudas e laudas movido pelo sentimento de auto-superação, de aprimoramento. Num estalo entende toda a Teoria -- não a das probabilidades, mas a da evolução -- e esboça um riso no canto da boca enrugada. Se soubesse escrever, digitaria "Darwin". E depois um palavrão. E mais outro.

É bom que o leitor compreenda que, embora esta narrativa seja breve, para que tudo isso ocorra é preciso de um punhado de séculos, muita sorte e um macaco com veia literária. Senão será apenas uma eterna observação sádica da luta do animal imortal com a máquina indestrutível.

Voltando à vaca fria, o terceiro estágio de nosso macaco é o mais óbvio de todos. Após reconhecer sua mediocridade inicial, seu ódio descontrolado e sua má posição na linha evolutiva, o primata, certo da recente superação e de seu diferencial, se envereda pelo ramo da auto-ajuda. Pensa até em aconselhar os colegas de espécie. Quer contar como compreendeu Darwin e que, apesar dos humanos, os primatas são seres incríveis e cheios (por que não?) de energia positiva e alto-astral.

Talvez aqui, passados alguns milênios desde a primeira tecla pressionada, nosso escritor-macaco já tenha conseguido reproduzir, letra por letra, vírgula por vírgula, alguns títulos de Zibia Gasparetto e extensas passagens de Paulo Coelho. Sente facilidade com o tipo de narrativa, gosta de repetir palavras que julga importantes e uní-las com coisas quaisquer -- não se importa com a forma ou o conteúdo, basta que seja fácil e feliz.

Entretanto, é provável que ocorra um fenômeno curioso e lamentável, que pode pôr em risco toda a Teoria das Probabilidades e o destino de nossa pobre cobaia: é possível que após datilografar um volume demasiadamente grande de literatura barata, o infante escritor sinta-se influenciado ou até mesmo viciado pelo estilo e não progrida mais. Os movimentos que aprendeu para digitar "sucesso", "dinheiro" e "felicidade" podem se tornar uma tentação irresistível e o excesso dessas palavras, como sabemos, é capaz de rebaixar qualquer escrito à condição de panfleto, como todos os outros que ele vinha produzindo.

O macaco, mesmo diante do labor infindável, entraria numa repetição patética e ininterrupta e o experimento perderia a razão de ser. Não seria, no entanto, uma empreitada inútil: apesar do irrisório valor cultural, as obras do primata poderiam render uns bons trocados para as editoras que se interessassem por elas. Alguns humanos adoram essas coisas.

E mesmo que esta fase comercial fosse superada, o incansável escritor ainda precisaria de alguns milhões de anos, talvez, para conseguir reproduzir pelo menos uma página completa de Dostoiévsky ou Machado de Assis.

A Matemática Capitalista e o Natal do Futuro

É comum ouvirmos falar sobre um tal custo/benefício de algum produto ou serviço. De modo geral, todo mundo entende que o que se quer dizer é que há uma relação satisfatória entre os benefícios e o preço que se paga por eles.

Até aí, nenhuma novidade.

Se formos para um lado mais matemático, no entanto, poderemos saber exatamente, em números reais e expressivos, a dimensão de tal relação em um determinado produto. Pretendo convencê-los de que a mão invisível de Adam Smith não organizou as parcelas à esmo: há muito da doutrina capitalista nessa inocente fração.

Vamos lá: suponha que você, já imerso no frenesi consumista pré-natalino, vai fazer as compras para o fim do ano. O dinheiro é curto, como sempre, e então você se lembra da fórmula acima e tenta aplicá-la para maximizar suas compras.

Com uma calculadora em mãos, você vai de loja em loja procurando pelos produtos mais baratos e com o melhor benefício, mas logo nota uma propriedade curiosa de tal equação: para obter-se um custo/benefício alto, ou seja, para que o resultado da fração seja o maior possível, é preciso que o numerador seja maior do que o denominador, certo?

Em outras palavras, é preciso que o custo seja maior do que o benefício para que a relação resulte em um número mais expressivo. Em português bem claro: quanto mais você pagar, melhor.

E a lavagem cerebral capitalista não pára por aí.

Apesar de vivermos nesse caótico mundo pós-moderno ultraconsumista, de vez em quando temos sorte. Suponhamos, mais uma vez, que você, já desiludido e bradando ofensas à progenitora de Adam Smith, acabe encontrando, esquecido no chão por alguém muito apressado, um presente qualquer.

Pega-o e pensa, esboçando um sorriso: "isso sim é custo/benefício!" E exclama um palavrão qualquer.

Mas é aí que você se engana. Ao encontrar o presente esquecido na calçada, não houve gastos, o que significa que o custo dele foi zero, e você teve apenas os benefícios. Para qualquer pessoa normal, esta seria uma relação perfeita. Mas qual! Quantifique os benefícios e faça as contas: com o numerador igual à zero, independentemente do quão sensacional for o objeto encontrado, a relação custo/benefício será igual a zero.

Ganhar ou encontrar coisas é mesmo um péssimo negócio...

Essa faceta perversa da matemática capitalista deve ser parte de um plano sutil e malicioso de se imputar nas cabeças de nossas crianças que o bom não é ganhar presentes, mas comprá-los.

O Papai Noel terá de se adequar ao novo estiloA tendência, se formos seguir tal raciocínio, é que num futuro próximo a figura do Papai Noel (símbolo máximo do consumo) modificar-se-á um pouco para se adequar à essa matemática tendenciosa que rege o mundo: é possível que o bom velhinho passe a visitar as residências em horário comercial, empunhando não um saco cheio de presentes, mas uma máquina de cartão de crédito para que as crianças possam comprá-los -- e eles seriam entregues em até dois dias úteis, com o frete incluso no preço, graças ao eficiente e secular sistema de renas e trenós.

(É importante salientar que, nesse mesmo futuro próximo, toda criança terá, além de um celular, o seu próprio cartão de crédito, para que aprendam desde cedo os verdadeiros valores da sociedade.)

As crianças menos abastadas poderão parcelar o presente em até 12 vezes, com juros módicos, comprometendo-se a depositar sua mesada na conta do senhor Noel, no paraíso fiscal da Lapônia. Aqueles que não conseguirem arcar com as dívidas até o natal seguinte, devem pedir a falência pessoal e terão todos os seus brinquedos confiscados e destruídos.

Caso o dinheiro da mesada não seja o bastante, receberão junto com a primeira fatura um pequeno Guia do Empreendedor Juvenil, ou algo que o valha, e uma caixinha de balas para que estejam aptas a iniciar seu próprio negócio, vendendo guloseimas nos semáforos para aqueles que compram seus presentes à vista...

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