acho que vi todos os horários eleitorais. vi alguns de outras cidades, vi uns debates, li os "jornais" feitos pelos candidatos - e enfiados sob a minha porta - e impressos em papel de boa qualidade, coloridos e cheios de sorrisos.
vi aquela HORDA de candidatos a vereador (187, aqui) expostos algo estroboscopicamente a repetir, nos seus poucos segundos, o mantra "saúde, transporte e educação". vi também as garotas gordinhas no canto da tela a gesticular esse trinômio por trinta longos minutos, possibilitando aos surdos a sensação de asco que estamos acostumados a experimentar.
vi também o sujeito que organizou uns bons cineclubes e que agora resolveu, não sei bem porquê, ser vereador. e um outro que estudava na minha escola no ensino fundamental, um ano mais novo que eu, aparecer como candidato a vice-prefeito pelo PSTU.
ah! vi até a candidata bonita (sim, no singular; e sendo um tanto generoso) que saiu em 2004 pelo PRONA, neste ano pelo PRTB/PHS e, aqui, pelo NSFW - no qual está muito mais a vontade, diga-se. praticamente uma pequena celebridade no município (& moar).
vi tudo.
e é por isso que eu não vou votar.
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em cidades pequenas, os contrastes da política são evidenciados de tal modo que ela acaba se transformando em sua própria caricatura.
nas cidades maiores & capitais, no entanto, você até se convence de que pode mudar alguma coisa.
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mas vamos lá:
1) se todos os 187 vereadores que apareceram diariamente no meu televisor durante as últimas semanas prometeram exatamente a mesma coisa, tanto faz eu votar neste ou aquele. são 187 pessoas competentes e honestas que cumprirão com suas promessas se eleitos.
tanto faz.
2) querem, em CINCO SEGUNDOS diários, ganhar minha confiança, simpatia e representatividade.
try hard.
3) as coisas não vão mudar. coloque o seu vereador favorito na câmara e nada vai mudar. "ah, mas se todo mundo escolher um político honesto e de confiança..." TÁ. você consegue listar CINCO nomes?
não consegue.
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não menciono os candidatos a prefeito porque nem vale a pena. acredite.
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é claro que eu poderia votar NULO, que é uma forma de dizer que não estou satisfeito com nenhuma das opções apresentadas.
mas, em vez disso, também posso expressar meu descontentamento com o fato de não ter outra escolha senão a de anular meu voto. ou ainda de dizer que não quero participar de algo que não vai fazer diferença nenhuma.
e todo mundo sabe que não vai. daqui a quatro anos é "saúde, transporte e educação" de novo. e de novo. como já tem sido há tempos e como sempre foi.
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mas no Brasil você é obrigado a votar. ficar em casa no dia da eleição vai te resultar em uma multa.
em 2006 eu não votei pra presidente e também não fui justificar minha ausência. umas semanas ou meses depois tive que ir regularizar o título de eleitor e, se a memória não me trai, a obscena quantia que tive de desembolsar para não ter maiores problemas foi algo da ordem de UM REAL.
um real e pouco porque foram dois turnos - que contam como duas eleições. senão é metade disso. não fui pesquisar pra confirmar este valor, mas dadas as fantásticas opções de políticos, é um preço baixo para ter o direito de não escolher nenhum deles.
e muito embora o voto nulo seja gratuito, há a indefectível fila que eu não tenho a menor vontade de enfrentar.
prefiro ficar em casa e acertar as contas depois.
(repito que não me lembro exatamente do valor e nem se há um prazo e etc. pesquise no domingo, quando você estiver em casa sem nada pra fazer.)
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aliás,
meu argumento segue por aí.
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um título mais correto para este texto seria algo como "não voto enquanto...", mas aí eu precisaria de outro texto, algo utópico, pra completar essa frase, querendo dizer que está tudo errado e que, se quisermos mudar alguma coisa, temos de começar pelas pessoas.
qualquer coisa assim.
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UPDATE: como este post gerou perguntas que eu não soube responder com certeza, encontrei algumas das respostas para: justificativa do voto, justificativa de voto e multas & um FAQ. agora sim, pode ficar em casa tranqüilo.
e o valor da multa pela não-justificativa do voto é arbitrário e essencialmente simbólico. mais explicações aí nos links acima.

Ontem vi uns cinco minutos do desfile de carnaval lá do Rio de Janeiro. Tudo muito colorido e animado. Faraônico, por assim dizer. Entretanto, as únicas coisas que me tiraram brevemente da indiferença e do desgosto foram as mulheres praticamente nuas e siliconadas -- o que é importante para conferir-lhes curvas que não costumamos ver por aí com tanta freqüência; pelo menos não de forma tão exposta.

A tendência, se formos seguir tal raciocínio, é que num futuro próximo a figura do Papai Noel (símbolo máximo do consumo) modificar-se-á um pouco para se adequar à essa matemática tendenciosa que rege o mundo: é possível que o bom velhinho passe a visitar as residências em horário comercial, empunhando não um saco cheio de presentes, mas uma máquina de cartão de crédito para que as crianças possam comprá-los -- e eles seriam entregues em até dois dias úteis, com o frete incluso no preço, graças ao eficiente e secular sistema de renas e trenós.
