categoria ~ Curitibanas

macumba

poderia iniciar rotulando por CURIOSA a coincidência entre fatos, mas não é o caso. apenas coincidiu de uma gripe relâmpago-fulminante me derrubar impiedosamente na mesma terça-feira que fui num terreiro de umbanda. começou de tarde, com uns calafrios. aí veio um cochilo pseudo-restaurador num sofá do centro acadêmico para que eu acordasse um pouco pior, com mais calafrios, dores no corpo e um princípio febril. ainda bebi umas cervejas, depois um copo de suca de laranja, na esperança de amenizar a MAZELA, mas aí eu já estava no ônibus com uns amigos em direção ao terreiro.

assim como a jojo, que coincidentemente ressuscitou um relato semelhante por esses dias, fui pra lá pela curiosidade antropológica. tinha interesse em ver um ritual daqueles e na semana anterior não tinha rolado. meu amigo, que começou a freqüentar o local, brincou: "deve ser o terreiro mais POLACO do Brasil." não tive dúvidas: um prédio heptagonal - grande porém discreto - do outro lado da rua de um cemitério, e um estacionamento com uns tantos carros importados. muita gente de branco ali do lado de fora e uma criançada chata saltando pra lá e pra cá.

me explicaram sobre os ourixás e essas coisas todas, mas eu tinha febre e pouco entendi. às 20h entramos todos e lotamos o heptágono em volta de uma grande roda marcada por uma cerca de corda e troncos. imagens de exus, jesus cristo e sei lá mais quem num altarzinho, atabaques do lado direito e a polacada fazendo fila pra pegar a senha da consulta. por insistência do amigo, peguei uma também. número 96.

começa a música e umas pessoas de branco com fitas das cores dos ourixás entram na roda e cantam junto. depois rezam um pai nosso com uns 3 versos trocados - perdoai as nossas DÍVIDAS assim como nós perdoamos alguma coisa que esqueci; termina com um "que assim seja" em vez do "amém". sincretismo curioso.

minha febre aumentava a cada nova música que eles cantavam. o lugar estava lotado - chuto que devia ter umas 300 pessoas ali. perdi a paciência e arranjei um cantinho pra sentar. seriam QUATRO HORAS de culto e eu sabia disso. a assistência, isto é, quem fica do lado de fora da roda, entra descalça na roda num dado momento. eu também fui. as pessoas de branco, supostamente encarnadas, ficam perambulando por entre nós até escolherem alguém: param diante do sujeito, fazem movimentos com as mãos, qualquer coisa com energia, e depois se mandam com um saravá. me explicaram depois que o SANTO pode descer em você dessa maneira - uma mulher acabou soltando um grito; tinha encarnado.

duas mulheres e um cara desses de branco vieram fazer essa coisa da energia comigo. não senti porra nenhuma.

depois vem uma música e você tem que esfregar as mãos no corpo pra tirar os males. estava decepcionado e não o fiz. aí a assistência sai da roda e tem-se mais músicas e tal. dessa vez o pessoal de branco ENCARNA FORTE e moças começam a rodar e rodar e rodar até cair no chão - literalmente. era roda de exu e pomba-gira. os que encarnam os exus começam a se manifestar e logo são trazidos os KIT-MACUMBA (com facas, velas, chaturos, garrafinhas de pinga e conhaque, pimenta, etc) e uns banquinhos. os exus se sentam na frente de uma tábua posta no chão, kit ao lado, bancos vagos na frente e ao lado. a música não pára. um cara começa a chamar as senhas. número 1 ao 5 pra dentro da roda e um guia leva os sujeitos até o exu ou pomba-gira em questão. o visitante senta de frente pra entidade; o guia, ao lado. aí rola a interação com muita fumaça e velas e doses e vozes forçadas.

eu ardia em febre num canto. estava quente ali, eu sentia que estava bem quente, mas tremia de frio. iam chamando os números e o pessoal ia entrando, se consultando, toda aquela coisa. sempre com música, o que abafava as conversas e garantia certa privacidade. número 90 ao 95 pra dentro da roda e meu amigo vem me dizer que é quase minha vez. digo que não vou. fica puto comigo. 96 ao 100. meu corpo doía todo e eu não tinha a menor vontade de me levantar. no mais, também não tinha nada pra perguntar. fiquei pensando nisso desde a hora que assinei meu nome ao lado do número. nada. poderia pedir um conselho, mas estava com a cabeça tranqüila demais pra essas coisas - terminara, até, relações com uma garota naquele mesmo dia, e me sentia em PAZ. 101 ao 105. fodam-se, vou agonizar por aqui.

passava das 23h30 quando os números acabaram e começaram o encerramento. arranjaram carona pra gente só porque eu estava mal. a coisa acabou com o pai nosso estranho e entramos em quatro pessoas no banco de trás do carrão de uma das moças de branco. foram falando de umbanda e das próximas giras. tudo aquilo tinha me parecido falso demais, plástico demais, certinho demais. tinha uma visão muito mais ROOTS de um terreiro e espero apenas ter ir ido no terreiro errado - ainda que não pense em ir de novo. queria chegar logo em casa e dormir.

dormi e o dia amanheceu e dormi até o dia seguinte sem ter comido nada. gripe filha da puta. na quinta-feira fui pra aula, dor de garganta insuportável. na sexta, prometi pra mim mesmo que não iria fumar. depois do primeiro maço, no entanto, mandei tudo à merda, bebi mais outra dose de cachaça e fumei mais um ou dois maços ao longo da noite cheia de cervejas, duas meses de sinuca, três bares e mais cachaça - que, ao contrário da cerveja, não me irritava a garganta e nem me doía para engolir, apenas ALIVIAVA o sofrimento e me deixava BEM.

terminamos numa república cheia de gente que não conheço e bebemos mais e aí mais um boteco pra finalizar. cinco e pouco da manhã e fazia muito frio e minha garganta já era - tinha visto antes: amídalas quase que VOLUPTUOSAMENTE inchaçadas, como se fossem fechar o canal, cheias de placas brancas gigantescas, como milhares de aftas em seu ápice. saquei o tamanho da merda ali. não ia melhorar sozinho, como melhorara a gripe.

apenas no sábado fui me consultar. não com um médico, nem com uma entidade - mas com a farmacêutica aqui da esquina. e sem mostrar o estado das amídalas, só explicando vagamente o que acabei de explicar e acabei levando uns comprimidos.

antibióticos.

UMA SEMANA SEM BEBER.

uma semana sem beber, cara, é muito mais tempo que o maior intervalo abstêmico-voluntário ao qual me submeti nos últimos tantos meses. tenho bebido TODOS os dias, religiosamente, desde março.

e a porra de uma amidalite surgida OUT OF THE BLUE quebrou minha rotina.

não traço paralelo entre a umbanda e essa merda toda, claro, mas foi exatamente o que aconteceu. e acredito em coincidências.

agora tenho um monte de tempo livre e não sei o que fazer.

faz um frio do cacete e quero encher a cara de vinho.

vou contando nos dedos.


"olá, meu nome é bruno e eu não bebo desde sábado."

merda.

três anos

faz pouco mais de uma semana que voltei de fato e, na verdade, noutro post, já disse quase tudo do que eu pretendia dizer neste:

curitiba, março de 2006: me mudei para um kitnet com cama e mais nada. nem mesa, nem cadeiras, nem fogão - quer dizer: fogão, geladeira, pia e armário num pequeno móvel/amálgama metálico de uns vinte anos; usava uma prateleira do guarda-roupas sobre as duas bocas do fogão pra improvisar uma mesa e fazia o contrapeso com caixas de leite ou garrafas. comia de joelhos ou na cama. hm. aí umas semanas depois arranjei uma televisão, 14 polegas, porque não dava pra ficar lendo o tempo todo - até tentei. troca-se facilmente a dignidade para se livrar do tédio.

porque cheguei a 6 de março de 2006.

e porque tenho essa sensação toda vez que estou pra voltar.

não amo, nem odeio. simplesmente gosto daqui.

é o bastante.

coins in my pocket go jingle-jangle

tive essa revelação enquanto descia a Nilo Peçanha numa tragada frontal a uma loja de torneiras, epifania esta que veio flanando pela rampinha de concreto úmido materializada no corpo de uma loira de trinta e tantos com o busto salpicado pelas chuvas amazônicas que despencavam, ontem, a cada 30 minutos por cerca de uns 5. saltos gigantescos que mal lhe serviam e que me fizeram feliz ao obrigá-la a um rebolado equilibrista até onde a justa saia jeans permitia e a elegância fazia concessões - a chuva dissolve poses. toda de preto, também, e narizinho pequeno e ainda pro alto, como se estivesse no corredor de um shopping e não naquela calçada irregular. pelo caminho, outras três: loiras, trinta e tantos, menos interessantes, decotes salpicados, passos calculados, caras de merda enquanto eu passava com um daqueles guarda-chuvas pequenos numa mão e uma lata de cerveja na outra, assobiando singin' in the rain & - de fato - drinkin' in the rain; provocação divertida para um fim de tarde escorregadio.

de volta à loiraça belzebu e à minha constatação: tédio infinito, mas há algo acontecendo aqui, Mr. Jones. a mulher passou, eu passei, dolorido de tanto caminhar pela cidade INTEIRA por dois dias non-stop, sempre rápido pra ir sempre longe e tentar cubrir rotas de meses atrás e ver qual era a das esquinas dessa vez. tudo igual. movido menos pela curiosidade e mais pelo tédio, como já disse, sem conexão com a internet e fumando um maço por dia, pro tempo passar - a internet ameniza meus outros vícios. virei três doses de vodka & me mandei pra uma lanhouse chinelagem, como também já vos disse, constatando com um olhar a presença maciça daqueles caras na sala gay do batepapo uol - porque nenhuma tecnologia é realmente útil se não te ajuda a levar alguém pra cama. e eu estava lá pra isso também. mandei um email mais ou menos assim: "cara, diga pra garota que meu telefone é esse." nada ainda, mas tenho fé - "please call me, baby, wherever you are." naquelas. mandei outro, mas pro Rei, pedindo um favor & recebendo uma intervenção de brinde e INVESTI R$1,50 apenas para lembrar vocẽs que ontem, dia 26/02, era o Bill Hicks day. Rant in E-Minor, cigarros & vodka. fim da noite, janela aberta, volume alto: evangelização passiva. de nada, meus vizinhos - quatro meses longe & é bom voltar chutando. amém, Bill.

não me canso de voltar à loira inicial, mas é o seguinte: da louhouse andei um bocado porcurando um bar, desci a Nilo Peçanha, loja de torneiras, SEX WITH LEGS, e fui seguindo. passei por Niemeyer, entre carros, por executivos encharcados, de uma calçada pra outra com o holograma da loiraça robolando nas retinas. passei pelo estádio do Coritiba & pela igreja do cemitério luterano onde ocorria um velório qualquer e havia três pipoqueiros na calçada. velório com pipoqueiros na calçada: algum grande filho-da-puta morreu, não tenho dúvidas. perdemos um filho-da-puta - me vê uma pipoquinha aí. mas não. desci girando o guarda-chuva fechado nos dedos pra circundar a UFPR e finalmente entrar num bar. tiozão de jaqueta jeans, camiseta azul-claro e óculos fundo-de-garrafa mexia no que parecia ser uma jukebox, mesinhas amarelas sin chicas, e me sentei numa de mármore para, enfim, me recompor. e tem algo acontecendo aqui, Mr. Jones: cigarro no cinzeiro de madeira, copo meio vazio e folha arrancada de um caderno que, sei lá porquê, eu trazia na mochila. o brainstorm boêmio que começa assim: "loiraça belzebu de busto salpicado pela chuva amazônica." rúh. música ruim, conversas exdrúxulas, mas R$2,70 numa garrafa não é de todo mal - falta, de fato, copo sujo & garotas bonitas: mil pontos pra Londrina - mesmo porque a qualidade de vida de uma cidade se mede pela quantidade de japinhas bissexuais per capita. chupa, IBGE: troco fácil uns pontos de IDH por um punhado de garotas Saigon. e nem digo que divago: penso nisso sempre.

mas a loira: na sola dos sapatos ou abaixo dos pézinhos deve estar escrito que "este produto contém mais de 4700 substância tóxicas (+ZINCO), e saltos altos que causam dependência FÍSICO-PSÍQUICA." ah, mas como não? ainda que as morenas vençam mais quando postas no mesmo PEDESTAL. e não é nem uma questão de curvas ou-. primeira coisa que escutei quando desembarquei acá: PJ Harvey. parece uma informação desconexa, mas o é só até você ver o ao vivo de Dress, que prova o meu ponto com facilidade. morenas lucifér (sic) to light things up. c-c-combo breaker: 15 dias atrasado para aquela peça do Mutarelli que também é filme, sabe? o nome me foge, mas 15 dias atrasado e parecia bom. stand-up visions e a merda de ouvir os mestres é achar tudo aquilo muito fácil. não é. mais vodka, GARÇOM, mais vodka. vou indo de ORLOFF-COLA quando me canso, e há gelo, há whiskey, há também um vinho vagaba, mas falta umas boas conversas para serem regadas por tudo isso: fim de semana verbeater me deixou mal acostumado. vitórias DEMAIS, quase que sem esforço - a não ser, no meu caso, para vencer EL CHARRO. mas foi.

ah, a loira.

the black saint and the sinner lady

o signo do caos #1

curitiba, março de 2006: me mudei para um kitnet com cama e mais nada. nem mesa, nem cadeiras, nem fogão - quer dizer: fogão, geladeira, pia e armário num pequeno móvel/amálgama metálico de uns vinte anos; usava uma prateleira do guarda-roupas sobre as duas bocas do fogão pra improvisar uma mesa e fazia o contrapeso com caixas de leite ou garrafas. comia de joelhos ou na cama. hm. aí umas semanas depois arranjei uma televisão, 14 polegas, porque não dava pra ficar lendo o tempo todo - até tentei. troca-se facilmente a dignidade para se livrar do tédio.

depois de muita tv aberta, apareceu um sujeito da NET pra instalar OPÇÕES e numa noite vi esse O SIGNO DO CAOS, do Sganzerla, começando no Canal Brasil - "o anti filme" (sem hífen), segundo os créditos iniciais. e enquanto DOUTOR AMNÉSIO & seus capangas fazem de tudo para censurar um filme, e entre vários bons diálogos, o que COME ao fundo é o jazz caótico de Charles Mingus. não sabia que porra era aquela, mas precisava ouvir de novo - e ouvir melhor. esperei pelos créditos finais e anotei o nome no canto do caderno.

o signo do caos #3
[ são as únicas músicas do filme. ]

então hoje, no finzinho da tarde e sob um céu azul-escuro, me cai o Track A - Solo Dancer, primeira faixa do disco, e me vejo girando o botão do volume - devagar e indefinidamente. muito tempo sem ouvir e novamente surpreendido por aqueles metais que se lamentam, e suspiram, e vão chorando e GRITAM e depois aceleram pra correr cada um pro seu lado, mas mais ou menos na mesma direção. várias vezes.

lembro que assisti ao filme outras três vezes no espaço de uns meses - e a segunda foi naquela mesma semana, numa reprise. e não só isso: the black saint and the sinner lady deve ter sido um dos primeiros discos de jazz que escutei.

caralho, faz três anos e parece que faz bem mais.

o signo do caos #2
[ é a camila pitanga. uma pena que minha cópia seja uma merda. ]

há um submundo

não tenho uma máquina de lavar, espaço para varais e tampouco paciência para debruçar-me sobre o estreito tanque e esfregar um paralelepípedo saponáceo contra minhas úmidas peças de roupas monocromáticas. sujeito prático que sou, ponho tudo numa grande sacola e saio à rua atrás de alguém disposto a lavar meus trajes por alguns trocados e um sorriso de gratidão.

não é difícil de encontrar.

antes, bastava que me lançasse da porta à calçada, abandonando graciosamente o singelo degrau do meu prédio num salto e correr livre para a direita - sacola ao lado do corpo e protegida pelos braços -, correr a favor do fluxo urbano, mão única, atravessando entre carros ao resplandecer da vermelha luz da encruzilhada, executando na névoa de monóxido de carbono um verdadeiro ballet de esquivas e piruetas ocasionas. aí eu virava à esquerda, sem perder o embalo, e após duas dezenas de passos lançava-me para dentro daquele recinto asséptico, lar de um maquinário resplandescente e metálico, operários robóticos da limpeza e do enxague a me encarar pela ciclópica escotilha e, como num caudaloso rio azul-sabão-em-pó, amaciar minh'alma aflita pela imundície dos meus trapos.

então, já sob a égide permufada do estabelecimento, dirigia-me, algo triunfante, até o balcão à esquerda, onde repousava com despretensiosa delicadeza a sacola plástica dos meus pertences.

"por quilo?", lembro-me que o sujeito era vesgo e por vezes era difícil saber se falava mesmo comigo. mas eu assentia, sim, lavava minhas roupas naquele sistema, que me custava algo em torno de R$4,00 as mil gramas de tecido lavado, sem passar. o homem então punha minhas roupas numa grade de plástico e as pesava ali canto - três, quatro, cinco quilos às vezes. a pergunta fatídica era: "vai lavar ou vai deixar aqui?" sem me virar, imaginava as inoxidáveis máquinas caolhas marejarem seus olhos vidráceos em lágrimas borbulhantes, sabendo que eu sempre as abandonava: "vou deixar. fica pra que dia?"

e aí, enquanto o homem conversava com o computador a fim de saber a data e hora do meu retorno, eu me virava e lançava o olhar por todo local: ao fundo, uma funcionária empunhava um ferro de passar; ao meu lado, não mais de duas máquinas trabalhando ao mesmo tempo e, escorado na mesma parede da porta de entrada (e saída), havia sempre um rapaz diferente a folhear uma revista enquanto suas roupas divertiam-se muito mais em infinitas voltas no sentido horário. quero dizer, uma vez vi uma mulher ali, também a folhear, mas foi só ela. sei que ficava a me perguntar no que pensavam e quanto tempo precisariam esperar até a máquina findasse o expediente e cuspisse panos limpos, mas molhados. nunca soube. imaginava algo em torno de 40 minutos, o que me parecia tempo demais.

porém, nesta época eu ainda não desconfiava de nada.

uns meses depois, esta lavanderia aboliu as lavagens por quilo. quando soube que a alternativa era um sistema de contagem, onde o sujeito assinalava num cartão as quantidades de cada tipo de peça de roupa e estipulava um preço pra cada uma delas, já era tarde e estávamos contabilizando minhas cuecas. fiquei pouco à vontade e o processo era enfadonho demais. busquei minhas roupas uns dias depois e nunca mais voltei ali. provavelmente havia algum rapaz a folhear revistas e uma máquina a trabalhar. não lembro, mas acho que sim.

desde então, ao deixar meu prédio carregando roupas sujas e virar à direita, não mais atravesso a rua: sigo em frente e viro na primeira à direita, contornando a quadra, ando um pouco e adentro nesta outra lavanderia de fachada azul. não há nada a vista além de um balcão e uma infinidade de ternos em cabides cobertos por plástico. não há máquinas e a mulher desaparece com minha sacola numa porta dos fundos e só reaparece três dias depois, com tudo limpo e dobrado. não sei explicar, mas o preço é o mesmo.


e se vos digo tudo isso, não é apenas para que saibam dos meus (antigos) hábitos de higiene do vestuário. não. há mais. há um submundo.

pois se soubesse o que sei hoje quando ainda freqüentava a lavanderia das máquinas, lançaria um olhar científico sobre as pessoas que folheiam. perceberia que há uma razão especial - além do preço - que mantém uma pessoa sentada por 40 minutos (ou seja lá quanto for), a aguardar. intuiria, talvez, que tal espera fosse culpa da Estática. sim, a Estática: movimentos circulares, roupas em atrito (bastão de âmbar contra pele de cabra atrai pedaços de papel, lembre-se). qualquer coisa assim.

mas, de fato, é apenas uma teoria. porque se você costuma olhar umas fotos por aí com alguma regularidade, é possível que tenha notado que máquinas de lavar são um tema recorrente. são um plano de fundo freqüente. talvez por descuido ou desatenção das modelos. ou porque áreas de serviço são locais tranqüilos, livres de transeuntes.

mas há um magnetismo. há algo.

por tudo isso, sigo, desde ontem (quando tive esta epifania doméstica), em busca de respostas. movido pela curiosidade científica e tendo grande admiração por garotas semi-nuas, vos convoco: do the laundry!


(sim, tudo isso foi só pra divulgar o link.)

para aquele sujeito do boteco, dia desses

Taxi Driver #1

Taxi Driver #2

Taxi Driver #3

não digo que tenho um amigo ali no antepenúltimo andar do lado direito de um prédio cinza que vejo da minha janela, mas certamente tenho um parceiro. ou parceira. o prédio, este, deve ficar a umas cinco ou seis ou sete quadras daqui. calculo que deva ter uns vinte andares - conto, cá do meu primeiro andar, catorze de lá, mas outras construções me impedem de ver mais abaixo.

sei que meu - ou minha - colega chega em casa depois das 19 horas, provavelmente depois de enfrentar o inferno que é o transito central, pois é quando a luz da sala se acende. sei que aquela é a sala porque à esquerda, aquela janela menor, próxima ao centro do edifício, só pode ser a cozinha. e mais à direita há a pequena janelinha do banheiro e depois a do quarto. essas três, quase sempre apagadas. acredito que ele - ou ela - deva ter um computador na sala, ou tv à cabo, ou um mal gosto enorme pra ficar vendo tv aberta por tantas horas. ainda agora, às 2h12 da manhã, ele - ou ela - está lá, fazendo algo com a luz acesa. há, também, cortinas.

chamo de parceiro ou colega porque, assim como as minhas, suas luzes ficam acesas até bem tarde. não sei, no entanto, até quando, pois ou eu ou ele - ou ela - decidimos que já está tarde e que é hora de fechar o bar e simplesmente vamos para a cama (cada um para a sua, claro). ou que pelo menos não é mais hora de ficar à janela, refletindo sobre essas coisas. ou então estamos bêbados demais pra fazer esse tipo de constatação no fim da madrugada. mas imagino que, como eu, ele - ou ela - goste do silêncio dessas horas e da tranqüilidade que apenas uns poucos carros perturbam.

claro que este meu amigo - ou amiga - não é o único a permanecer desperto até bem tarde. no andar de cima da mecânica que vejo daqui, há uma sala-cozinha por onde dois ou três rapazes perambulam e comem e vêem algo no computador. mas eles não são meus amigos, nem parceiros, nem nada. saibam, cá entre nós, que por mais de uma vez já desejei que se queimassem ao fogão, que caíssem da escada que os leva até a oficina ou que a morte os levasse de vez. explico: péssimo gosto musical & alto volume. mas esta pessoa do antepenúltimo andar, não. não deve ter um péssimo gosto musical. e mesmo se o tiver, deve escutar suas músicas bem baixinho, com certa vergonha de admitir que determinada dupla sertaneja diz tudo o que ela está sentindo.

às vezes tenho vontade de passar pela rua onde imagino estar o tal prédio só pra resmungar pra mim mesmo algo como "então é aqui" e constatar se minha hipótese da distância estava correta, mas sempre me esqueço. talvez até perca a graça se eu o fizer. acho que não o farei.

e escrevo isso com alguma esperança de que, de fato, esta pessoa tenha um computador na sala e que esteja a errar pela internet nessas longas e calmas madrugadas. nesse caso, gostaria de dizer ao meu parceiro - ou parceira - do antepenúltimo andar daquele prédio cinza que se você estiver vendo uma luz acesa cá no primeiro andar de outro prédio cinza, saiba que mando um "olá".

causo, chuva, karma, moedas, boa sorte

ia chuviscando ali pelas nove da noite e no meio da calçada cruzo com um sujeito de violão em punho que me pára e pede para que eu o escute - a falar. daí me diz que estava na XV tentando tocar e tomou toda aquela chuva de tarde, que não queria me pedir dinheiro nem me assaltar, que já tinha inventado histórias outras vezes pra arranjar uns trocados - como quando disse que precisava viajar pra outra cidade ou que estava doente e precisava comprar remédios. não ia, no entanto, me contar nada disso - "vai que te vejo na rua qualquer dia desses; você ai saber que era mentira minha" - e falou que seu sonho era viver da música, montar uma escolinha de música pra crianças (aí mandou um acorde no violão e continuou falando) e que não tinha grana pra comer. falei que eu só tinha umas moedas, uns dois reais, e aí ele agradeceu, me cumprimentou, me despedi com um "boa sorte" e ele completou com um "pra todos nós."

pra todos nós, pois.

pineapple jack

além da pintura no muro da mecânica que vejo da minha janela, com nome e telefone do local, tudo permanece igual. ainda ontem (e antes de ontem) me peguei fazendo uma longa caminhada pra tentar cobrir todos os pontos por onde costumo passar -- o que levou mais de três horas, sem descanços. tudo igual. há, por certo, alguns novos dizeres anarquistas pixados aqui, umas suásticas mal-feitas ali, mas nada novo. também, pudera: poucos meses.

o que realmente interessa é que meus refúgios ao ar livre permanecem vazios, que meus bancos de madeira continuam vagos e que as duas ou três pessoas com quem trombo nesses arredores são sempre dois ou três infelizes diferentes.

...

não tenho um bar pessoal pra fazer drinks com classe, mas você, amigo leitor, pode seguir minha dica sem medo de errar:

esqueça uma caixa de suco de abacaxi no freezer como eu acabei de fazer e chacoalhe bastante até a parte já congelada se misturar com o resto. num copo de requeijão, porque você não tem os copos certos, coloque 4 partes de suco e 4 de whisky (isso quer dizer metade suco, metade whisky, mas eu sei que você entendeu), e misture com uma colher.

aí é só pôr um blues, sorver e vencer.

ou tente fazer o que der com o que você tem na geladeira.

mas o blues é essencial.

à curitiba

foi com alguma satisfação que pus roupas ali na mochila, agora, e mais outras apenas pra enrolar o HD cheio de músicas e tentar protejê-lo do incessante trepidar das nossas estradas. porque nunca pensei que um dia sentiria saudades de um lugar onde não tenho ninguém pra sentir falta. mas sinto. e apesar do oscilar aperiódico entre cidades (ou, antes, entre estados), são quase três anos morando mais ou menos no mesmo local, sozinho e com o meu silêncio; e, assim sendo, voltar para a família por longos períodos, por melhor que seja, torna-se gradualmente sufocante. e não falo por mal: o silêncio faz falta; e perdê-lo é como um retrocesso. soa errado.

essa vontade de voltar não está apenas no reencontro da solidão do lar, mas também no caos da rua ao entardecer e na noite que vai lutando contra os carros e contra todos, que sempre os vence, derruba, silencia e acalma até que eu consiga ouvir o som dos meus próprios passos a correr pelas calçadas e ecoar por todo o quarteirão, com a pressa desmedida de chegar a lugar nenhum. é o pequeno prazer de sentar numa praça vazia enquanto todos os prédios dormem. e rir. por nada. e depois voltar.

e agora vou ali, enfim, cruzar o trópico.

<< 1 2 3

Este arquivo

Esta página é um arquivo de posts recentes da categoria Curitibanas.

Crítica é a categoria anterior.

Curta de Quinta é a próxima categoria.

Posts recentes na página principal - ou vá aos arquivos pra ver outros posts.

navalha / bcardoso

comentários

os vizinhos

boring stuff

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.