categoria ~ Fundo do Copo

tem aí na geladeira

e por geladeira entenda um bar meio vazio nas imediações do Largo, com sinuca & quadros psicodélicos em cavaletes pelo chão preto. passava da meia-noite.

tenho essa amiga que já trabalhou em bares que sempre diz que "já vi muita gente se afundando nessa merda, experimentei uma vez para nunca mais." e logo acrescenta: "mas que é bom, é."

na terça-feira, me lembro de ter ido com uns amigos, pouco antes da uma da tarde, ao bar que sempre vou para umas cervejas. aí vieram umas doses de cachaça e às 20h éramos apenas três na mesa repleta de copos vazios e cinzas de cigarros. os que sobraram não eram exatamente meus amigos, mas costumamos nos trombar por aí de vez em quando. aquele que eu conhecia melhor se mandou pra casa, enquanto eu e este outro colega nos mandamos para um outro bar ali perto, onde uma banda tocou por umas duas horas um tanto de bossa nova e samba. era uma boa banda.

ali pelas 11h30 a música acabou e o movimento foi minguando. de acordo com o cardápio, tínhamos pouca grana pra continuar bebendo. elencamos as opções e, logo depois de decidir pela sinuca, o cara levanta outra questão:

"já que vamos pra lá, tá afim?"
"quanto?"
"50"
"não tenho grana"
"tem por 30"
"é muito. não tem por 20?"
"acho que não."
"sei lá, então. vamo nessa."

e fomos. paguei a conta no cartão pra ficar com os trocados. fazia frio & acabara de chover. algumas quadras e um lance de escadas depois, pedíamos uma cerveja e mirávamos o movimento. vários conhecidos deste meu colega por ali. em verdade, tão logo chegamos o cara já foi saber do preço com uns outros dois no canto do bar. fui junto.

"só por trinta mesmo, cara."
"tenho dez pila."

talvez pela hora e pelo movimento, ou até pela suposta camaradagem, concordaram em vender o de 30 por 20. dei a grana que disse que tinha, meu colega buscou mais dez nos bolsos e trocamos a soma por uma trouxinha pequena feita de pedaço de sacola de supermercado.

daríamos os tiros ali mesmo se não fosse por um sujeito que bebia por lá. implicava com isso, me disseram. expulsara este meu colega certa vez, disse-me ele. não viu a negociação. sentamos num canto e bebemos mais cerveja.

eu havia topado entrar nessa por simples curiosidade. burroughs, em junky, descreve bem a coisa toda. a vontade veio daí - e dos relatos dessa minha amiga. nessas conversas, eu dizia sempre que pretendia experimentar, mas nunca fui atrás. não tinha nem vontade de ir. só se a oportunidade acabasse esbarrando em mim, como acabara de acontecer.

bebemos mais, jogamos uma partida de sinuca (que ganhamos) e, como o homem continuava por lá, saímos e fomos até um telefone público. meu colega fez as duas carreiras ali mesmo enquanto eu vigiava a rua. a idéia não era mandar uma daquelas carreiras cinematográficas de uma vez só, mas o bastante - segundo ele - para que batesse e para que tivéssemos mais para a fissura. fez o canudo com uma nota minha de dois reais e mandou uma delas narina acima. aí foi minha vez.

voltamos pro bar e nos sentamos. ligeira taquicardia e meu sono acumulado de uma noite muito mal dormida se esvaiu quase que instantaneamente. um bem-estar similar, porém menos intenso, que o do ácido formigava pelo corpo. havia mais gente naquela mesa e bebi mais um tanto sem gastar nada. o colega quis saber se eu estava bem: "sim, ótimo."

quis mais, ele também. um dos caras que nos vendeu foi com a gente até o mesmo orelhão para a nova rodada. tomou a frente, cartão em punho, e não duvido que tenha feito uma carreira maior que as outras. passou, então, o canudo de nota e meu colega foi fazer a ligação. ventava demais, ameaçava chover. comentei alguma coisa sobre isso. ele também. a nota voltou para a minha mão e mandei minha parte na outra narina.

os efeitos que diminuíam, se intensificaram, ficando mais fortes que da primeira vez. não dura muito, na real, mas você pode esquecer de tentar dormir: não vai dar certo. voltamos para outra partida (que quase ganhamos) e bebemos ainda mais. a essa altura eu já completava cerca de 14 horas de bebedeira e não sentia nada. meu colega afirmou que o pó corta o efeito do álcool, mas não sei bem se a informação procede. o fato é que estávamos etilicamente altos e ficaríamos assim independente do quanto bebêssemos - e bebemos demais.

creio que passava das 3 da manhã quando as pessoas começaram a ir embora. eram todos conhecidos e quando isso se deu, o bar esvaziou. houve o convite para ir beber na casa de alguém, mas não valia pra mim. acabamos comprando duas garrafas de vinho e viemos para cá cheirar o resto - o suficiente para duas carreiras para cada. novamente, as mesmas sensações, porém, um pouco mais intensas e dessa vez por menos tempo. ligamos o som, matamos um garrafa e fomos bebericando a outra. o relógio ia batendo às cinco, os efeitos iam passando e o cansaço ressurgiu querendo me derrubar. tentei dormir, mas só consegui cochilar por uns minutos entremeados por longas sequências de tosse, uma tosse seca, crônica, incessante, de doer o corpo. é verdade que andava tendo umas crises dessas, mas esta foi a pior.

às 6h30 fomos pra uma padaria. eu não tinha fome. estava completamente esgotado e sem sono. meu colega comeu alguma coisa e tomamos o rumo da faculdade. ele passaria por um prova e eu por duas aulas pouco importantes, mas fui assim mesmo. cinco minutos na sala de aula me fizeram alucinar com o sono, isto é, entar naquele estado de transição entre a lucidez e o sonho, quando se está lutando pra não dormir e o corpo não consegue mais oferecer resistência. você, então, alucina, vê coisas, se confunde, e quando percebe, parece ter sido um cochilo de duração indeterminada. impossível prestar atenção em qualquer coisa que seja.

tomei um café e me sentei no sofá do centro acadêmico. pernas sobre a mesa, braços cruzados, imóvel. fiquei assim por pouco mais de uma hora, olhos abertos, sem sono algum (o que não compreendo - potencialização da cafeína?) e em completo silêncio. não tinha forças pra me levantar, tamanho cansaço. a noite não dormida e a noite mal dormida me castigavam. aí, de volta pra segunda aula, mais cochilos breves. aulas soníferas.

almocei sem prestar atenção em nada e não sabia dizer o cardápio do dia logo depois de ter saído. acabei voltando pro bar onde tudo começou - onde tudo acaba começando - para mais algumas cervejas. fiz um relato brevíssimo da experiência, inclusive para essa minha amiga que, embora espantada, gostou de saber.

e embora estivesse completamente acabado, fomos fumar. era para ser apenas um, mas foram três. três baseados e eu nunca havia ficado tão chapado quanto naquele dia - apesar de já ter consumido muito mais de uma só vez -, a ponto de não conseguir articular palavras e de não sentir, em absoluto, meu corpo. toda a energia que me restava servia para tentar me manter acordado - e que acabou não sendo suficiente em alguns momentos.

sei que cheguei em casa às 19h, achando o caminho longo demais e sem me lembrar de quase nada sobre ele. sentei-me numa cadeira para recuperar forças e ir tomar um banho, mas não consegui. dei um passo e lancei-me ao colchão onde tentara dormir pela manhã. apaguei em instantes. só fui acordar às 9h do dia seguinte, parcialmente revitalizado.

as coisas ficam mais intensas e mais loucas quando você está quebrado desse jeito. apenas a privação do sono já é o bastante para alterar suas percepções e desviar sua concentração. aliada à outras substâncias, você acaba potencializando esses efeitos. é algo interessante por um tempo, mas você se torna inútil. isso incomoda. no dia seguinte, você junta as lembranças e conclui que nunca ficou tão alterado assim, e que, ora, até que valeu a experiência.

não pretendo, no entanto, repetir a dose. "experimentei uma vez pra nunca mais," diria a minha amiga. prefiro viagens mais ácidas, mais psicodélicas, mais intensas, por assim dizer. um investimento alto para um retorno não tão aprazível e uma série de riscos desnecessários. não acho, sinceramente, que valha a pena.

mas devo concordar: que é bom, é.

~

dormi quase 15 horas num colchão vagabundo, entre sonhos patéticos & diversas crises de tosses com catarro. vim trazendo pra casa um galão de cinco litros d'água - cheio de pinga, gelo e um tantinho de soda - e virando-o na boca de quando em quando. podia ter feito tantas coisas e acabei não fazendo nada; apenas bebendo, tomando goles de outrem, perambulando por aí. talvez ela estivesse assim também, à toa, e eu nem quis descobrir - apenas supus, ponderei, deixei pra lá. a garota sumiu depois. assim como eu sumi carregando o galão alcoólico e sentindo aquele gosto horrível da mistura toda, do improviso, das escolhas erradas.

antes eu cochilava num sofá. ainda antes, eu bebia vinho às 10h30 daquela manhã pós-prova. só cansaços e conversas estúpidas. o dia todo - salvo alguns diálogos breves & comentários sarcásticos - de pura política. quis, por algumas vezes, sacanear todo mundo, gratuitamente, só pra ver no que dava. ando tendo estes impulsos. às vezes não me controlo & é bom ver alguém se foder por tua causa. única e exclusivamente por tua causa, por um comentário desnecessário, mentiroso, ácido ou brutalmente sincero. vão acreditar em qualquer coisa que eu diga se eu o disser com seriedade. e isso é fácil. ando tendo estes impulsos.

mas os fui guardando pra mim. era madrugada e eu ainda carregava aquele fardo plástico-etílico sem saber muito bem o que fazer com ele. não estava bêbado nem sóbrio, não tinha vontade de tomar aquela merda e nem de abandoná-la na rua. no entanto, abandonei sim a chance de visitar um TAZ (pseudo-?)cultural que rolava ali por perto, como fizemos acá certa vez (um sarau de bêbados e tal), e que prometia ser muito melhor que qualquer outro caminho que eu tomasse, mas, ora, eu estava de saco cheio e andava pensando demais.

de tal modo que, lá pelas tantas, voltei, não só, mas também não acompanhado como gostaria. duas amigas dormindo na minha cama e eu ali no chão, por 15 horas, a sonhar & tossir e acordar às 19h ainda meio puto com todos. me deixaram um bilhete agradecendo por tudo (ando colecionando-os) e me roubaram um cigarro.

fiz café.

Hey, you remember that song about this guy from Texas
Whose name was -- Bobby Fuller?
I'll sing it for you, it went like this:
I fought the law and the law won,
I fought the law and the law won.

corpus christi meltdown

corpus christi. cerca de catorze pessoas entre amigos e colegas. uma chácara na tríplice fronteira colombo-pinhais-campina grande do sul; fim de mundo. uns 70g & onze olhos de shiva. barraca-sauna verde & cinza aka espaçonave num canto do gramado. fogueira queimando por quatro dias, churrascos de linguiça e cozinha de guerrilha sobre um fogareiro capenga.

em verdade, chegamos na quarta-feira a noite num furgão sprinter - e o motorista pisava fundo no acelerador com sua perna mecânica. abrimos um vinho enquanto chacoalhávamos nós todos e as dezenas garrafas tilintavam perigosamente. compramos tudo antes de ir. sociedade alternativa no meio do mato e longe de qualquer merda. pouca comida e muita bebida.

todos loucos assim que largamos as malas e colchões num canto, assim que enchemos a casa de pegadas de barro, assim que começamos a abrir garrafas e confeccionar baseados gorduchos: éramos seis junkies empolgados fumando três cigarros NATURAIS numa mesma roda, ao mesmo tempo. um bom PRELÚDIO.

depois fui prum canto folhear on the road mais uma vez, só pra ver no que dava, e nem lembro o que li. dean tinha ido embora, acho, e fui me sentar na porta da rua pra ficar sozinho e evitar conversas. noite longa, uns cochilos, e eis que um louco de ácido acorda todo mundo ao nascer do sol gritando merdas proféticas e ligando o som. me irritava, mas não se discute com um louco de ácido. quer dizer, não pra valer. o cara ia acabar ficando mais chato. resolvi fazer uma fogueira & encher a cara enquanto o resto do pessoal resmungava do sono recém interrompido.

entramos em seis naquela espaçonave que nominalmente comportaria apenas quatro. preservação da fumaça. todos os passageiros a esfarelar maconha nas mãos e jogar tudo aquilo numa palha só. o resultado parecia um lápis mais grosso que o normal. e foram vários. aí veio a noite e a ingestão de frações de shiva: um quarto, meio, três quartos. fui o único a tomar um inteiro. um olho inteiro. o terceiro olho. mais uns baseados e alguns companheiros já alucinavam & riam de tudo. acho que eu também. íamos decolar.

algumas amigas sóbrias, um tempo depois, vieram me pedir para que as acompanhassem até o ERECS. na real, estávamos lá para ir neste encontro. quarenta minutos de caminhada na beira da estrada, no breu, no frio. "estou louco, cara," eu dizia, mas também queria ir pra lá. ejetei dali e fui guiando as sóbrias enquanto via cercas-vivas virarem pessoas e vultos simpáticos cruzando por nós todos. caminhada cheia de flashes, como se eu pudesse rever meus vinte últimos passos enquanto andava mais vinte sem nem perceber. havia névoa e silêncio, ar quente sendo expirado. chegamos rápido, acho.

era um local gigantesco, feito uma cidade esquecida em 1992. prédios grandes e distantes, um vasto campo. placas de rua ao estilo antigo, daquelas que deveriam ter uma luz dentro para serem lidas de noite. tudo queimado, claro. logo na primeira esquina, uma pequena agência abandonada do BANESTADO. depois, um posto dos Correios em fibra de vidro com aquela aparência antiga. era uma antiga fazenda de gado, segundo me disseram. nos estábulos, rolava uma festa com samba, cerveja e quentão. eu flutuava por tudo e por todos e deslizava entre amigos e conhecidos para beber cervejas de graça e dançar desajeitadamente com umas garotas. muitas luzes, faces borradas e meu dinheiro escapando por entre os dedos diante do caixa. "apenas beba mais cerveja, mais e mais cerveja."

as amigas que trouxe estavam entediadas. pelo menos a maioria delas. queriam voltar. disse que não. disseram que eu não poderia deixar que voltassem sozinhas. "peguem uma carona." acabaram não conseguindo. "vai, bruno, vem com a gente."

não.

eu tinha COISAS pra fazer. o fiz com um copo de quentão que sobrara da festa - de graça quando a maioria já havia ido pro alojamento. a vira dançar, mas me intimidei; falo de uma garota. sabia que estaria por lá. já havia dado certo outras vezes, mas sempre é difícil começar. recomeçar. depois estava sozinha numa calçada e conversamos e bebemos aquele vinho quente juntos. minhas amigas já tinham ido embora, minhas coisas estavam na chácara e estávamos nós dois congelando ali fora. fomos pra um outro alojamento, da organização - cheguei bem depois dela e não me lembro porquê. um amigo me ofereceu um colchão. neguei. uma amiga me ofereceu um colchão. também neguei. aí a garota pergunta se todos têm colhões ou se querem dividir. "vou dividir contigo," e ganho minha noite assim, simplesmente - mesmo com tanta gente ao redor.

mas o problema do ácido é que ele não te deixa dormir. ou melhor, as anfetaminas não deixam. no olho de shiva não havia tanto quanto nos outros DOCES que ingeri, mas foi o suficiente pra manter meus olhos abertos por um bom tempo. o suficiente pra me deixar observando o sono dela por muito tempo. depois acabei cochilando um pouco até o dia amanhecer. ela foi pra um lado, eu fui pra outro. trocamos umas palavras, mas foi só. consegui uma carona pra casa lá pelas onze da manhã. achei que chegaria na chácara para enterrar os corpos dos junkies que ficaram com toda aquela maconha, mas estavam todos bem.

o efeito já havia passado e eu queria começar tudo de novo. entre baseados e o churrasco que ia saindo, me veio a brilhante idéia de abrir uma salsicha e recheá-la com maconha. embrulhei-a em papel alumínio e joguei na fogueira. cortei em pedacinhos e a dividi com mais dois corajosos. foi o suficiente pra nos deixar lesados por boa parte da tarde. eu ia bebendo vodka com vinho e refrigerante e conhaque - tudo num mesmo copo. todo o resto se resumiu a baseados, música e fogueira, e aí fui tirar o atraso do sono num cantinho da casa, sozinho, e foi bom. acordei com histórias da noite anterior, de gente bêbada, de choros, de coisas inusitadas. nada que me arrependesse de ter perdido.

tomei outro ácido na noite de sábado. o roteiro era o mesmo: shiva, espaçonave, rua. dessa vez fomos todos. menos alucinações visuais, mais bebida. eu empunhava um litro de vodka e uma lata de coca-cola com tudo de alcoólico que encontrei. um drink que chamei de GASOLINA. chegamos em 1992 e a festa ainda não havia começado. fumamos o resto da maconha nas arquibancadas de um campo gramado. cantamos. ocupamos um chalé abandonado, com vidros quebrados e porta arrebentada, e acendemos a lareira com restos de madeira que encontramos por lá. gente que ninguém conhecia ia chegando e se sentando junto ao fogo pra conversar; gente de Londrina, Maringá, Rio Grande e sei lá mais onde. aí eu me levantava e ia pro estábulo, onde já havia festa, havia gente, mas nada da garota, e eu voltava pro chalé e encontrava mais gente, encontrava música e rodas de baseado e garrafas cheias espalhadas pelo chão. a garota havia se mandado naquela manhã, como fiquei sabendo. aí resolvi que ia encher a cara.

e enchi. me joguei ao lado da lareira e vi tudo rodar: sonhei com coisas e alucinava de ácido e de álcool e não entendia quase nada. um amigo tornou-se um profeta desesperado beirando uma bad-trip na qual ele se afundava cada vez mais. estávamos todos errados, segundo ele. e até que fazia sentido. colocaram ele e uns outros num carro e os levaram de volta. estavam mal demais.

aí me puxaram dali e fui cambaleando para fora, para a névoa mais densa daqueles últimos dias, para o frio mais insuportável que eu tinha passado até então. fazia zero grau naquela estrada e eu só vestia um casaco vagabundo. ao chegarmos, ressuscitei a fogueira que agonizava em brasas e fui me recompondo. cozinhamos os restos de tudo o que pudemos encontrar, de qualquer jeito - e foi a melhor das refeições.

o ácido se fora, a maconha idem e os cigarros minguavam. não havia mais comida. era domingo e voltamos para casa no fim da tarde a bordo do mesmo furgão. éramos catorze, mas voltamos em sete. alguns desistiram ou se mandaram antes. todos os junkies estavam vivos e duraram até o final. aliás, fomos nós, os junkies, que fizemos tudo funcionar, que corríamos atrás de tudo, que cuidávamos do fogo e que cozinhávamos para todos (e pela larica). fizemos a porra toda funcionar. zona autônoma temporária. sociedade alternativa mantida por vagabundos. e não deu nada muito errado.

num pedaço de madeira, ainda na manhã de quinta, escrevi com um carvão: AQUI JAZ MEU SUPEREGO. a lápide ficou encostada num canto, como símbolo de toda aquela loucura descontrolada. totem lisérgico que queimamos na fogueira antes de partir.

de volta à Curitiba, estávamos famintos e cambaleando pelas ruas com toda aquela bagagem. encontramos uma pizzaria barata e gastamos os nossos últimos dinheiros. nos despedimos na calçada e cada um tomou seu rumo. de volta à rotina.

um banho quente, a cama espaçosa, e o sono dos justos. semana DETOX com umas cervejinhas de tarde para comentar todas essas coisas e dar algumas risadas.

melhor feriado.

cigarros infinitos

"um santo chamado doutor sax vai destruí-la com ervas secretas que está preparando neste exato instante em seu barraco subterrâneo num canto qualquer da américa. mas também é possível que se descubra que a serpente é apenas o disfarce escolhido pelas pombas; quando ela morrer, nuvens enormes de pombos seminais-cinzentos em revoada trarão novidades apaziguadoras para o mundo inteiro." eu estava fora de mim, faminto e amargurado.

(on the road, pg. 215)

e os cigarros eram longos demais e intermináveis. você fumava, e ia fumando, aí tinha de largá-lo no chão porque ainda havia muito fumo e todas aquelas substâncias simplesmente continuavam queimando. você tinha que se livrar daquilo ou senão ia durar pra sempre.

muitos pés dançantes pisoteando latas vazias numa dança ritual embalada por palmas e garotas rebolando, sambando enquanto o chão afundava aos poucos, suavemente; o ambiente era todo preto e parecia cada vez maior, com mais espaços livres e mais gente. o tempo era caudaloso. mais garotas beijando umas as outras e dançando com todos nós.

o chão ia afundando e eu dançava. mais um cigarro gigantesco - eles voltaram ao normal agora que eu realmente precisava de algo assim. depois foram aquelas escadas, cara: uma marcha de bêbados cambaleantes e chapados de tudo quanto é coisa descendo interminavelmente até o inferno por aquelas escadas que iam nos jogando cada vez mais pra baixo e gritávamos todos que íamos para uma praça. eu fui. eu e uns amigos.

abri uma cerveja às sete da manhã pra brindar essa merda toda ali no meio da rua enquanto voltava pra casa. manhã fria de sábado. tudo vazio.

depois sei que estava tomando vinho branco vagabundo deitado ali no canto com uns livros na mão, lendo coisas soltas e abrindo nas páginas aleatoriamente certas que nunca li ou naquelas que ainda me lembrava vagamente.

um santo chamado doutor sax.

essas coisas.


e ainda agora, é desta garrafa que tenho cá ao lado que bebo ânimo. pra continuar seguindo e não perder o ritmo. um mar de vinho, pois.

e porque a noite vem caindo, cara, e eu simplesmente preciso estar por lá.

JLH >

overdose

estive em bares por todas essas noites de março. só, em bando, ou bem acompanhado por uns poucos. senão por lá, em casa, com destilados ou vinhos vagabundos. e senão cá, por aí, qualquer lugar, procurando um boteco ou mercado pra beber meus trocados e depois continuar procurando - porque sim.

daí que, talvez, carregar whiskey numa garrafa térmica oculta na mochila tornou-se uma solução natural. ou que DESJEJUAR vodka com um biscoito da sorte de duas semanas atrás, também. dormir mais no sofá do que na cama, pela comodidade do baque e simplicidade do ato, diz mais do que parece dizer. ou ainda, como hoje, dormir na rua, passando frio, deitado sobre um monumento em homenagem a Bento Munhoz da Rocha - seja lá quem tenha sido -, diante do Palácio Iguaçu, pouco antes do amanhecer.

mas: overdose. acho que cansei - ou estou começando a me cansar. boas coisas aconteceram, poucos problemas, tudo muito bem. mas quando a fuga vira rotina, é hora de sair correndo de novo, pra mais longe, pra algum lugar diferente, e aguardar. procurar novos excessos pra tropeçar um pouco mais e aprender algumas coisas. e arranjar novas fugas paras essas novas rotinas.

mas, por ora, limito-me ao vinho de garrafa de plástico com boa música - como eu costumava fazer.

22

vinho. o de sempre: meia garrafa e rua. chuviscava, mas aí parou. vi estrelas. saí, então, e segui meus próprios passos de outras noites, quase podia me ver pisando e pisando e toc toc toc. vantagens de terça/quarta-feira: ninguém por perto. bar fechado, garrafona de cerveja no mercado - tive que pedir por um abridor no posto. mil cigarros e mais mil passos, pra lá e pra cá. confessei tudo ao vento, sozinho, em sussurros. e se alguém estivesse naquela praça, eu não teria mais subterfúgios, nem onde me esconder. mas havia um gato e um cachorro (depois) e acho que eles sabem de tudo ("for i am a rain dog too" bla-bla-bla). desci o morro. ganhei um boquete. andei mais. parei no sorriso - um bar. tentei convencer a mocinha.

"é dois e cinquenta"

"faça por dois. é meu aniversário. posso provar."

"é dois e cinquenta. posso provar."

irredutível, ela. dois e cinquenta na porra de uma latinha de itaipava. comprei assim mesmo, cavocando o bolso em busca dos centavos. linda, ela. sentei num canto e a encarava sempre. limpou duas mesas, pegou copos e garrafas vazias dos outros. foi de novo. e de novo. aí a chamei: "olha, preciso mostrar pra você que eu não estava mentindo." puxei a carteira de motorista (quanto tempo faz que não dirijo?) e mostrei. "olha aqui: 11 de fevereiro. e hoje é 11 de fevereiro."

"puxa." olhou bem nos meus olhos. "estou me sentido mal agora."

"eu precisava te mostrar."

"21?"

"22."

"qual seu nome?"

"bruno."

"bruna."

porra.

me deu parabéns, mas não outra cerveja. talvez fosse a aliança de prata. loira e vinte e tantos anos. repetiu as congratulações e sorriu de novo. "te fodo agora mesmo." mas eu não disse isso e nem mais nada. ela voltou pra trás do balcão e eu fumei outro cigarro (e a lata vazia). mais outro e me levantei pra ir embora: ela olhou e eu levei a mão à cabeça e a saudei. me mandei pra bem longe e vi a polícia intimar uns motoqueiros.

grande merda.

voltei.

murder ballads agora & ressaca que já vem me pegar.

não quero absolutamente nada hoje.

talvez foder no chão e quebrar coisas. volto lá qualquer dia desses.

vinte-e-dois, portanto.

it's hard to win when you always lose

minhas andanças começam quase sempre do mesmo jeito e seguem mais ou menos pelos mesmos caminhos. não por falta de experimentação, mas porque já sei por onde é melhor pisar. funciona, mas às vezes as coisas dão errado. é inevitável.

e às vezes chove.

naquelas: "two dead ends and you still got to choose." deixei o vinho na prateleira e peguei cerveja. bar fechado. saí do mercado e me fodi. em poucos minutos, molhado e ainda sóbrio. cigarros no bolso, perigando molhar também.

porque quando o tempo fecha, rapaz, escolha sempre a garrafa maior.

foi aí que errei.

mas roupas encharcadas no quintal e Mississippi John Hurt iniciando a segunda rodada de Last Sessions. não faz muito que escutei esse disco pela primeira vez, mas desde então, em madrugadas assim, o escuto duas vezes. acaba e começa de novo porque não tem como ser diferente. é o que dá um jeito nas coisas e resolve os meus problemas até o dia seguinte. e se você for um filho-da-puta orgulhoso como eu, vai querer fazer direito na próxima madrugada. insistir no erro pra errar melhor & essa história toda.

então que chova - e que chova mais.

nueve

#1.
estava escutando essa música - 4 minutos e 31 segundos - e não me lembro dela. pareceram-me 40, os minutos. ao fim, achei que já poderia trocar de disco. mas faixa 2. porra. o que é que acabou de acontecer?

#2.
tenho tido sonhos recursivos. ou melhor, reciclados. meu cérebro achou por bem reutilizar cenários de outros sonhos de MESES atrás. eu me lembro deles. e a coisa vem ocorrendo de tal maneira que desconfio poder desenhar todo um mapa da cidade fictícia que venho construindo enquanto durmo. vou tentar depois.

#3.
na praça vazia, à meia-noite, bêbado de vinho e cerveja, com um cigarro na canto da boca, me postei na ponta do banco de concreto sem encosto, em pé. chutei o maço pra outra ponta, pra não dar merda. ou para minimizá-la. medi a distância flexionando os joelhos e movendo os braços. acho que dá. aí saltei bem pra frente, sobre esta árvore que se ramificava de um jeito curioso e muito propício para escaladas deste tipo. ponderei que poderia escorregar e meter a cara no tronco, mas não. foda-se. e saltei. um bêbado sobre uma árvore em uma praça vazia.

#4.
andei recortando (digitalmente) um monte de textos meus com uns programas que escrevi para emular cut-ups. muita merda, mas muitas pérolas. li os resultados e redigi como pude. uns 20 parágrafos. TRÊS são geniais e devem prestar pra alguma coisa - mesmo sem fazer muito sentido. garotas, fumaça, bares, estradas de terra e tiros. nem sei de onde saiu tudo isso.

#5.
ando, também, formulando rasas teorias socio-fotográficas entre sussurros a cada centena de fotos. tenho visto tantas e de fontes tão diversas que após umas 20 ou 30 passo a querer buscar padrões inexistentes entre elas e a julgar as próximas de acordo com eles. encontro mais defeitos que qualidades. critico todas. penso em comprar uma câmera apenas para destruir essa minha prepotência.

#6.
semana passada concluí ter esgotado toda e qualquer rota pelas ruas desta cidade. mas ontem, após um breve set de músicas e meia garrafa de vinho, me vi trocando de roupa e juntando trocados. me repeti, mas estava com um humor melhor. também ontem, concluí ter esgotado toda e qualquer rota pelas ruas desta cidade.

#7.
reduzo para vinte e bem poucos dias uma contagem regressiva que começou na casa dos OITO meses. (não, não é um filho que vai nascer. acho que não. ou pelo menos eu espero que não. ou espero que, se meu filho for, que nasça morto. ou que deslize, incompleto, pela porcelana suja de um vaso sanitário qualquer. FLUSHING MISTAKES. ou qu--; tergiverso.)

#8.
os itens #2 & #5, acima, também compõem uma explicação incompleta para outra coisa: a presença de diversos aspectos dessas fotografias na composição dos sonhos. são como um input: "start with these. now go crazy." colagens, como tudo.

#9.
(voltando ao #7:) fevereiro se resume - sempre, mas este ainda mais - a um bucolismo de expectativas: consigo reduzir tudo a uma meia dúzia de números e datas e resta-me ir subtraindo dias. tenho discos, vinho artesanal em garrafas sem rótulo, e uma cama. se preciso de algo mais? sim.

i fought the law and the law won

sei que nas últimas semanas devo ter acumulado algo em torno de 24h de sono num ponto de ônibus aqui perto de casa. para mim, um ponto de descanso. um ponto onde crio coragem pra vencer a gravidade e seus QUATRO lances de ladeiras morro acima que me separam da minha cama. sento ali, me encosto e cochilo sem querer, vendo os carros que vêm e se perdem pra lá. caminhões param de vez em quando pra checar os pneus antes caírem na Fernão Dias. à direita, minha montanha. à esquerda, o lago. um vira-lata vem dormir ao lado do meu pé e os minutos passam rápido. aí, tempo depois, "vamo nessa," e levanto pra escalada ofegante e desabo no leito. mas já fiquei ali por horas, vendo pares de faróis cruzar a madrugada ou indo de vez em quando até a árvore mais próxima para dar uma esvaziada. vez ou outra você saca que não está sozinho e quando volta pro ponto um sujeito de camiseta vermelha interrompe a caminhada lenta, pára a uma distância segura e te pergunta sem a menor cerimônia: "você quer sexo? quer que eu chupe seu pau?"

não, obrigado.

ele se manda e você continua ali, bêbado demais pra se mandar também. aí fico imaginando esta mesma cena por diversas vezes, substituindo o cara de vermelho por cada uma das garotas do bar de onde vim. então aparece a moça de vestido verde, cabelos pretos, vinte e tantos anos; ou a loirinha de vestido branco que tinha um CD pra tocar; ou ainda a outra loirinha de corpo delgado e short jeans que tentava me ensinar uma dança idiota: "você quer sexo? quer que eu chupe seu pau?"

não.

obrigado.

talvez quisesse antes. tenho certeza que sim. mas sentado ali - e desde então - não quero nada.

tentei, no dia seguinte, arremessado no sofá pela ressaca, elencar o que eu gostaria de fazer (nada) e os locais onde eu gostaria de estar (nenhum). ia contar nos dedos e terminei com o punho cerrado. você, então, pergunta se estou satisfeito aqui: não. você, sem entender, exclama algum palavrão e eu te digo que devo ter chegado ao NIRVANA sem saber. nada de doutrinas ou meditação, olha só: bebe tua grana, dorme na rua e quem sabe você também não termina por LÁ? ou pelo menos na MARGEM. te digo que dá um vazio e te DRENA todo o ânimo, te faz ficar imóvel, rejeitar boquetes e descartar quaisquer fantasias e sonhos na lata de lixo mais próxima. alguns minutos (ou horas) assim e você tenta fazer novas listas, TENTA QUERER COISAS, mas nada.

NADA.

só consegui voltar desse PARAÍSO quando me convenci de que não queria mesmo chegar em lugar nenhum, mas que, de certa forma, me satisfazia o deslocamento.

porque sempre que chego num bar me deparo com um BUDDHA de 180kg meditando sobre a mesa de sinuca. ele abre o olho esquerdo e esboça aquele sorriso Mona Lisa pra mim. "bruno, meu pequeno gafanhoto. beba o que você tem que beber, acenda quantos cigarros quiser, mas saiba que não há nada aqui pra você." e realmente não há.

agora esquece o MONGE ali e vejamos as coisas por um outro ângulo (menos oriental, mais OCIDENTAL), porque, na verdade, venho tratando tudo isso por outro nome: o BLUES. ouvir naquele buraco (PJ e Grinderman e) Burnside, que vínhamos citando aos grunhidos e repetindo versos soltos de HAVE YOU EVER BEEN LONELY? ("that's when you REALLY got the blues, man"), ouvir esse velho urrando na madrugada foi decisivo e marcante. tenho cicatrizes pra provar. qualquer outra noite ali será inferior, ou um erro. melhor pior noite. pior melhor noite. grande noite.

isso porque além do Buddha sobre a mesa de sinuca, há o Grande Negro do Blues, que é aquele que te puxa pela gola da camiseta quando você está deixando o bar todo feliz. ele te puxa de volta, te encara por um tempo e sorri um pouco. aí dá um tapinha nas tuas costas e te deixa ir: "vai, mas não esquece que você não tem ninguém."

e aí você passa a ter. o BLUES.

(há também o Cowboy, mas ele é um sujeito mais bacana e só aparece durante o dia. portanto, fica de fora do texto.)

volta pro monge - e pro negão do blues - e você percebe que não há pra onde correr. tais verdades te espreitam pra te apunhalar quando você baixa a guarda. seja na saída do bar, com uma chuva fina na cara, ou num ponto de ônibus com um vira-lata do teu lado. é a grande avenida ou train long-suffering:

Who's the engine driver?
(The engine driver's over yonder)
His name is Memory
(His name is Memory)
O Memory is his name
(Woooooo-wo!)
Destination: Misery
(Pain and misery)
O pain and misery
(Pain and misery)
O pain and misery
Hey! Hey!

mas eu te dizia que fui ao Nirvana e morri de tédio. voltei. voltei com essa idéia do deslocamento, sim, mas só porque consegui erguer um dedo ao encontrar um lugar onde eu gostaria de estar: poltrona 37 de um ônibus prestes a cruzar o trópico em direção a curitiba numa madrugada qualquer - mas a mais próxima possível. diagnóstico: MOTION SICKNESS.

meu reino por isso. (simbolicamente, não deixa de ser um cavalo.)

não quero chegar em curitiba. não precisa. tanto faz estar lá ou aqui ou em qualquer outro lugar. quero o meio do caminho, aquele ponto onde não dá mais pra voltar mas que ainda falta um bocado pra seguir em frente. o processo, a estrada, o mundo por uma janela e aquele monte de idéias que vão surgindo junto com algumas angústias e ansiedades. é o oposto, o ANTI-NIRVANA, o mais próximo de estar em vários lugares ao mesmo tempo - e, também ao mesmo tempo, em lugar nenhum.

diria Beckett: "Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better."

não dá pra tropeçar parado, não dá pra errar sem tentar. joga tudo pro alto e CORRE.

sei que a loirinha do corpo delgado e short jeans não tem o BLUES e nem nada, e que ia dar mais risada disso aqui do que deu do meu SWING, mas, porra, eu fui e voltei. apanhei. perdi. e vou colecionando essas cicatrizes.

I FOUGHT THE LAW AND THE LAW WON.

"No matter. Try again. Fail again. Fail better."

loirinha do short jeans, garota, não me testa.

"você quer sexo? quer que eu chupe seu pau?"

VEM.

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