de volta ao sudeste, peguei-me ponderando o quanto já não gastei com passagens de ônibus de lá pra cá e vice-versa. não sei a quantia exata, mas poderia, se a curiosidade fosse verdadeira, até mesmo levantar esse valor com alguma precisão. no entanto, a ciência de que este número está muitos quilômetros além da faustosa marca das vinte ONÇAS - e seguindo em frente - me remete a reflexões mais continentais, de tal modo que se eu fizesse parte de um hipotético programa de milhagens rodoviárias teria, sem dúvida, créditos o bastante para ir, sei lá, até o MÉXICO - mas de ônibus.
retrospecto & digressão
inicialmente, ali na adolescência, meu interesse pelo vizinho-sul dos EUÁ era meramente cultural: los AZTECAS. entre outras cositas, achava (e ainda acho) QUETZALCÓATL o nome mais foda do mundo.
e YUCATÁN, também.
no entanto, alguns Kerouacs depois, acho que acabei pintando deste respeitoso país uma imagem similar àquela que os gringos têm do nosso Rio de Janeiro: incontáveis cabarés simplórios, inferninhos escaldantes e las chicas mestiças com blusinhas coloridas e saias curtas a dançar a rancheira e encorajar o seqüencial entornar de tequilas aos forasteiros mais incautos, querendo, em verdade, abocanhar PESOS e beber de graça e te abandonar no balcão pra inundar de gracejos o sujeito que acabou de entrar no CÉU e ainda não iniciou a descida vertiginosa aos mesmos círcuclos que você.
e aí, pra fazer valer, e antes de ser nocauteado pelos shots añejos, você investe teus últimos ZAPATAS y JUÁREZES amarrotados pra vencer de fato num quartinho qualquer e então tombar feito herói nos braços da mocinha que só fez sorrir. e tal.
trajeto & impossibilidades
o google maps, sabotador, foi incapaz de me fornecer as diretrizes necessárias para chegar à capital mexicana.
"Não foi possível calcular a rota entre Curitiba e Ciudad de México."
ah, vá.
oferendas & considerações
(ou: digressão #2; going deeper)
mas coisa que até hoje não entendo, aliás, era como se sustentava o sacrifício DIÁRIO de VOLUNTÁRIOS no topo daquelas pirâmides, onde o sacerdote abria o pobre asteca vivo com um pedaço de PEDRA lascada pra retirar seu coração pulsante e oferecê-lo aos deuses - que, dizem, gostavam bastante; atirando, em seguida, o cadáver ainda quentinho pelas propositadamente íngremes escadarias de um templo qualquer em TENOCHTITLÁN - outro nome sensacional.
quero dizer, havia um número constante de baixas de trabalhadores jovens e saudáveis (e embora a wikipedia fale em crianças e escravos, não acredite) a rolar degraus abaixo com um verdadeiro VAZIO no peito.
não sei se era mesmo um bom negócio.
oferendas & considerações, #2
tal ritual foi extinto um tempo depois da chegada dos colonizadores. assim como boa parte da cultura, dos costumes e do próprio povo asteca - remember MONTEZUMA.
que eu saiba, resta agora apenas uma maneira de ter o coração roubado em cidades mexicanas, que é pelas mãos leves dessas garotas mais dançantes, ou mesmo aquelas mais tímidas, que ziguezagueiam pelos arredores de balcões e mesas e salões com copos ou cigarrillos em mãos; ou ficam sentadas num canto - sempre num canto - a divagar e tamborilar os dedinhos num tampo de madeira, cabisbaixas e a arrumar os cabelos para trás das orelhas vez ou outra; isso quando não balançam sutilmente o corpo junto da música alta e lançam olhares desconfiados para lá e para cá, e aí se voltam para os seus próprios dedos sobre a mesa, novamente.
não é um furto que se dê com pedras, portanto.
vosso tórax permanecerá intacto - a não ser que leve um tiro, mas isso foge do escopo destas linhas. o primeiro sorriso dela é o inicio da escalada dos altos degraus, e vocês trocam duas palavras, não se entendem, mostram dentes e sorvem os líquidos dos copos. diversas vezes. então, depois disso, ela toca seu braço - ou sua perna - e desliza levemente os dedos por sobre sua pele. e aí está feito: quando ela se afasta e se levanta, quando vai pra longe ou conversa com outro; quando ela sussurra "me voy" no teu ouvido, você sente que algo está faltando.
e é bem ali, no peito.
equivalências & ares
é claro que se trocarmos os pesos por reais, a tequila por cachaça e a música por, vá lá, forró, tudo isso pode ocorrer exatamente do mesmo modo. é um modelo clássico e de variáveis bem conhecias.
mas há algo aí, bem sabemos, que altera a química dos elementos. não sei se são os ares da Serra Madre Ocidental ou se o diário arrancar de corações há uns tantos séculos acabou por influenciar esta atmosfera, mas, repito, há algo aí.
pedra(da)s & clichês
aproveito pra confessar que me causa grande incômodo imaginar um tórax sendo aberto com um pedaço de pedra para a posterior extração do coração, assim, con las manos. (e por isso mesmo vou repetindo, porque quero incomodá-los também.)
e uma metáfora romântica, baseada nesse termos, também pode vir a soar áspera e cheia de pontas como a ferramenta utilizada, ainda que preserve o simbolismo e parte da carga poética: digamos que a mocinha, por exemplo, desperta antes, pouco depois do sol asteca, e contempla o sujeito com quem dividiu os lençóis (você) num sono ainda bastante alcoólico, nu e com a cara afundada no travesseiro. corpos exaustos e ela levanta e você também desperta e trocam olhares em silêncio. "me voy", ela diz (é o que elas sempre dizem). você resmunga, pede e depois implora para que fique mais um pouco, não lembra de quase nada, mas pede para que ela o espere ou para que conversem. no entanto, ela repete, impassível: "no", e veste a blusinha, "me voy". bate a porta. você, então, passa os próximos dois dias procurando por ela na noite mexicana e resistindo a outras tentações similares, pois o momento de esquecê-la passou e você vai, cambaleante, subindo os íngremes degraus porque é só o que te resta a fazer. aí, num balcão qualquer, debruçado sobre o n-ésimo copo vazio e prestes a desistir, você a vê e a chama pelo nome que acha que é dela, mas ela te dá as costas sabendo que você irá segui-la até o topo da pirâmide, se preciso. deixa-se alcançar pouco depois e te diz, irritada, que não quer mais saber de você, da sua grana nojenta e de vocês todos, estrangeiros idiotas. dá dois ou três passos adiante, você se declara, mas ela completa: "não me procure mais." e some pra sempre.
equivalências #2 & conformismo
creio que me reste, portanto, na ausência das hipotéticas milhagens rodoviárias ou de planos sólidos para cruzar o Equador, encontrar na mantiqueira, no planalto paranaense ou onde quer que seja, os ventos certos. ou os infernos certos - ou quem sabe os errados mesmo.
e ainda que as coisas por lá não sejam exatamente assim, faz parte do espírito humano sonhar com cabarés calientes, moças bonitas e bebida barata.
sempre.