categoria ~ Fundo do Copo

nueve

#1.
estava escutando essa música - 4 minutos e 31 segundos - e não me lembro dela. pareceram-me 40, os minutos. ao fim, achei que já poderia trocar de disco. mas faixa 2. porra. o que é que acabou de acontecer?

#2.
tenho tido sonhos recursivos. ou melhor, reciclados. meu cérebro achou por bem reutilizar cenários de outros sonhos de MESES atrás. eu me lembro deles. e a coisa vem ocorrendo de tal maneira que desconfio poder desenhar todo um mapa da cidade fictícia que venho construindo enquanto durmo. vou tentar depois.

#3.
na praça vazia, à meia-noite, bêbado de vinho e cerveja, com um cigarro na canto da boca, me postei na ponta do banco de concreto sem encosto, em pé. chutei o maço pra outra ponta, pra não dar merda. ou para minimizá-la. medi a distância flexionando os joelhos e movendo os braços. acho que dá. aí saltei bem pra frente, sobre esta árvore que se ramificava de um jeito curioso e muito propício para escaladas deste tipo. ponderei que poderia escorregar e meter a cara no tronco, mas não. foda-se. e saltei. um bêbado sobre uma árvore em uma praça vazia.

#4.
andei recortando (digitalmente) um monte de textos meus com uns programas que escrevi para emular cut-ups. muita merda, mas muitas pérolas. li os resultados e redigi como pude. uns 20 parágrafos. TRÊS são geniais e devem prestar pra alguma coisa - mesmo sem fazer muito sentido. garotas, fumaça, bares, estradas de terra e tiros. nem sei de onde saiu tudo isso.

#5.
ando, também, formulando rasas teorias socio-fotográficas entre sussurros a cada centena de fotos. tenho visto tantas e de fontes tão diversas que após umas 20 ou 30 passo a querer buscar padrões inexistentes entre elas e a julgar as próximas de acordo com eles. encontro mais defeitos que qualidades. critico todas. penso em comprar uma câmera apenas para destruir essa minha prepotência.

#6.
semana passada concluí ter esgotado toda e qualquer rota pelas ruas desta cidade. mas ontem, após um breve set de músicas e meia garrafa de vinho, me vi trocando de roupa e juntando trocados. me repeti, mas estava com um humor melhor. também ontem, concluí ter esgotado toda e qualquer rota pelas ruas desta cidade.

#7.
reduzo para vinte e bem poucos dias uma contagem regressiva que começou na casa dos OITO meses. (não, não é um filho que vai nascer. acho que não. ou pelo menos eu espero que não. ou espero que, se meu filho for, que nasça morto. ou que deslize, incompleto, pela porcelana suja de um vaso sanitário qualquer. FLUSHING MISTAKES. ou qu--; tergiverso.)

#8.
os itens #2 & #5, acima, também compõem uma explicação incompleta para outra coisa: a presença de diversos aspectos dessas fotografias na composição dos sonhos. são como um input: "start with these. now go crazy." colagens, como tudo.

#9.
(voltando ao #7:) fevereiro se resume - sempre, mas este ainda mais - a um bucolismo de expectativas: consigo reduzir tudo a uma meia dúzia de números e datas e resta-me ir subtraindo dias. tenho discos, vinho artesanal em garrafas sem rótulo, e uma cama. se preciso de algo mais? sim.

i fought the law and the law won

sei que nas últimas semanas devo ter acumulado algo em torno de 24h de sono num ponto de ônibus aqui perto de casa. para mim, um ponto de descanso. um ponto onde crio coragem pra vencer a gravidade e seus QUATRO lances de ladeiras morro acima que me separam da minha cama. sento ali, me encosto e cochilo sem querer, vendo os carros que vêm e se perdem pra lá. caminhões param de vez em quando pra checar os pneus antes caírem na Fernão Dias. à direita, minha montanha. à esquerda, o lago. um vira-lata vem dormir ao lado do meu pé e os minutos passam rápido. aí, tempo depois, "vamo nessa," e levanto pra escalada ofegante e desabo no leito. mas já fiquei ali por horas, vendo pares de faróis cruzar a madrugada ou indo de vez em quando até a árvore mais próxima para dar uma esvaziada. vez ou outra você saca que não está sozinho e quando volta pro ponto um sujeito de camiseta vermelha interrompe a caminhada lenta, pára a uma distância segura e te pergunta sem a menor cerimônia: "você quer sexo? quer que eu chupe seu pau?"

não, obrigado.

ele se manda e você continua ali, bêbado demais pra se mandar também. aí fico imaginando esta mesma cena por diversas vezes, substituindo o cara de vermelho por cada uma das garotas do bar de onde vim. então aparece a moça de vestido verde, cabelos pretos, vinte e tantos anos; ou a loirinha de vestido branco que tinha um CD pra tocar; ou ainda a outra loirinha de corpo delgado e short jeans que tentava me ensinar uma dança idiota: "você quer sexo? quer que eu chupe seu pau?"

não.

obrigado.

talvez quisesse antes. tenho certeza que sim. mas sentado ali - e desde então - não quero nada.

tentei, no dia seguinte, arremessado no sofá pela ressaca, elencar o que eu gostaria de fazer (nada) e os locais onde eu gostaria de estar (nenhum). ia contar nos dedos e terminei com o punho cerrado. você, então, pergunta se estou satisfeito aqui: não. você, sem entender, exclama algum palavrão e eu te digo que devo ter chegado ao NIRVANA sem saber. nada de doutrinas ou meditação, olha só: bebe tua grana, dorme na rua e quem sabe você também não termina por LÁ? ou pelo menos na MARGEM. te digo que dá um vazio e te DRENA todo o ânimo, te faz ficar imóvel, rejeitar boquetes e descartar quaisquer fantasias e sonhos na lata de lixo mais próxima. alguns minutos (ou horas) assim e você tenta fazer novas listas, TENTA QUERER COISAS, mas nada.

NADA.

só consegui voltar desse PARAÍSO quando me convenci de que não queria mesmo chegar em lugar nenhum, mas que, de certa forma, me satisfazia o deslocamento.

porque sempre que chego num bar me deparo com um BUDDHA de 180kg meditando sobre a mesa de sinuca. ele abre o olho esquerdo e esboça aquele sorriso Mona Lisa pra mim. "bruno, meu pequeno gafanhoto. beba o que você tem que beber, acenda quantos cigarros quiser, mas saiba que não há nada aqui pra você." e realmente não há.

agora esquece o MONGE ali e vejamos as coisas por um outro ângulo (menos oriental, mais OCIDENTAL), porque, na verdade, venho tratando tudo isso por outro nome: o BLUES. ouvir naquele buraco (PJ e Grinderman e) Burnside, que vínhamos citando aos grunhidos e repetindo versos soltos de HAVE YOU EVER BEEN LONELY? ("that's when you REALLY got the blues, man"), ouvir esse velho urrando na madrugada foi decisivo e marcante. tenho cicatrizes pra provar. qualquer outra noite ali será inferior, ou um erro. melhor pior noite. pior melhor noite. grande noite.

isso porque além do Buddha sobre a mesa de sinuca, há o Grande Negro do Blues, que é aquele que te puxa pela gola da camiseta quando você está deixando o bar todo feliz. ele te puxa de volta, te encara por um tempo e sorri um pouco. aí dá um tapinha nas tuas costas e te deixa ir: "vai, mas não esquece que você não tem ninguém."

e aí você passa a ter. o BLUES.

(há também o Cowboy, mas ele é um sujeito mais bacana e só aparece durante o dia. portanto, fica de fora do texto.)

volta pro monge - e pro negão do blues - e você percebe que não há pra onde correr. tais verdades te espreitam pra te apunhalar quando você baixa a guarda. seja na saída do bar, com uma chuva fina na cara, ou num ponto de ônibus com um vira-lata do teu lado. é a grande avenida ou train long-suffering:

Who's the engine driver?
(The engine driver's over yonder)
His name is Memory
(His name is Memory)
O Memory is his name
(Woooooo-wo!)
Destination: Misery
(Pain and misery)
O pain and misery
(Pain and misery)
O pain and misery
Hey! Hey!

mas eu te dizia que fui ao Nirvana e morri de tédio. voltei. voltei com essa idéia do deslocamento, sim, mas só porque consegui erguer um dedo ao encontrar um lugar onde eu gostaria de estar: poltrona 37 de um ônibus prestes a cruzar o trópico em direção a curitiba numa madrugada qualquer - mas a mais próxima possível. diagnóstico: MOTION SICKNESS.

meu reino por isso. (simbolicamente, não deixa de ser um cavalo.)

não quero chegar em curitiba. não precisa. tanto faz estar lá ou aqui ou em qualquer outro lugar. quero o meio do caminho, aquele ponto onde não dá mais pra voltar mas que ainda falta um bocado pra seguir em frente. o processo, a estrada, o mundo por uma janela e aquele monte de idéias que vão surgindo junto com algumas angústias e ansiedades. é o oposto, o ANTI-NIRVANA, o mais próximo de estar em vários lugares ao mesmo tempo - e, também ao mesmo tempo, em lugar nenhum.

diria Beckett: "Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better."

não dá pra tropeçar parado, não dá pra errar sem tentar. joga tudo pro alto e CORRE.

sei que a loirinha do corpo delgado e short jeans não tem o BLUES e nem nada, e que ia dar mais risada disso aqui do que deu do meu SWING, mas, porra, eu fui e voltei. apanhei. perdi. e vou colecionando essas cicatrizes.

I FOUGHT THE LAW AND THE LAW WON.

"No matter. Try again. Fail again. Fail better."

loirinha do short jeans, garota, não me testa.

"você quer sexo? quer que eu chupe seu pau?"

VEM.

o vento é sempre contra

sou o cara que andou a cidade toda - duas vezes - resmungando coisas ou pensando onde poderia me encostar no raio de algumas quadras pra recobrar o fôlego e ir queimando frações do maço, com um chacoalhar ritmado de moedas e moedinhas e uma tampa a servir de apoio ao insistente farfalhar e acelerar de carros no sentido anti-horário das praças, do lago, do quintal de um estádio de futebol com uma pizzaria embutida (que funcionava e lia-se lá nos fundos algo sobre a entrada para o setor das arquibancadas) junto aos portões e a escadarias vazias. o vento é sempre contra e pouco importa quantas esquinas você dobre ou quantos quilômetros você vença - relâmpagos te fazem acelerar o passo mesmo para te lançar para ainda mais longe de casa; mas enquanto a lua cheia é visível e as nuvens correm a cobri-la e descobri-la, está tudo bem. quis arrancar a manga da jaqueta para vendar-me, trocar o restante da peça por três doses de vodka e ir tateando intermináveis paredões com um cigarro apagado no canto da boca (o vento, o vento), carregando na camiseta vagalumes verdes já cansados de se lançar contra lâmpadas incandescentes dessas mesmas praças e lagos e quintais e umas duas esquinas em particular. se chove agora é porque ainda assim fui mais rápido e mais longe e voltei com umas cicatrizes pra contar histórias. quis fazer fogo com dois gravetos molhados. quis falar com uma garota que vi e desejei que uma outra que mal conheço estivesse de passagem para me dizer qualquer bobagem e sumir rebolando num jeans e sandálias quando eu de fato precisava dela. mas não. caminha-se sozinho e as janelas, todas elas, têm pares de olhos e nenhum senso de humor. sou o cara que andou a cidade toda numa noite dessas e desabou num ponto de ônibus qualquer em troca de algumas horas de liberdade forjada, de olhares desconfiados, de cascos, de latas - em troca de nada. quis ir e voltar (duas vezes) só pra sentir alguma coisa. mas nada.

bodhisattva blues

(ou reflexões existenciais para zen-boêmios e vagabundos praticantes.)

destila o tema em quatro estrofes de versos livres. toma teu tempo e vai.


duas nobres verdades, uma mentira e uma meia-verdade

O mundo é sofrimento. Tudo é causa para mais sofrimento.

Prive-se de tudo para evitar o sofrer.

Seja bom.


existencialismo modulado em 2/3


chuva, 14:59, BELIEVE NOTHING (mantra de Nietzsche-Crowley, entre dentes; nobres verdades #4 & #5)

torna-te quem tu és. faz o que tu queres.


citação pertinente de dois versos de outlaw blues:
(ou a verdade como libertação & desapego - teu único porto num mar de merda.)

Don't ask me nothin' about nothin',
I just might tell you the truth.

...

agora improvisa e segue.

eis tudo.

just have something in there

1. Introdução / Alegoria:

Your mind and your experience call to me
You have lived and your intelligence is sexy


2. O mundo é sofrimento:


3. Workaround / Decepção:

devaneio asteca

de volta ao sudeste, peguei-me ponderando o quanto já não gastei com passagens de ônibus de lá pra cá e vice-versa. não sei a quantia exata, mas poderia, se a curiosidade fosse verdadeira, até mesmo levantar esse valor com alguma precisão. no entanto, a ciência de que este número está muitos quilômetros além da faustosa marca das vinte ONÇAS - e seguindo em frente - me remete a reflexões mais continentais, de tal modo que se eu fizesse parte de um hipotético programa de milhagens rodoviárias teria, sem dúvida, créditos o bastante para ir, sei lá, até o MÉXICO - mas de ônibus.


retrospecto & digressão

inicialmente, ali na adolescência, meu interesse pelo vizinho-sul dos EUÁ era meramente cultural: los AZTECAS. entre outras cositas, achava (e ainda acho) QUETZALCÓATL o nome mais foda do mundo.

e YUCATÁN, também.

no entanto, alguns Kerouacs depois, acho que acabei pintando deste respeitoso país uma imagem similar àquela que os gringos têm do nosso Rio de Janeiro: incontáveis cabarés simplórios, inferninhos escaldantes e las chicas mestiças com blusinhas coloridas e saias curtas a dançar a rancheira e encorajar o seqüencial entornar de tequilas aos forasteiros mais incautos, querendo, em verdade, abocanhar PESOS e beber de graça e te abandonar no balcão pra inundar de gracejos o sujeito que acabou de entrar no CÉU e ainda não iniciou a descida vertiginosa aos mesmos círcuclos que você.

e aí, pra fazer valer, e antes de ser nocauteado pelos shots añejos, você investe teus últimos ZAPATAS y JUÁREZES amarrotados pra vencer de fato num quartinho qualquer e então tombar feito herói nos braços da mocinha que só fez sorrir. e tal.


trajeto & impossibilidades

o google maps, sabotador, foi incapaz de me fornecer as diretrizes necessárias para chegar à capital mexicana.

"Não foi possível calcular a rota entre Curitiba e Ciudad de México."

ah, vá.


oferendas & considerações
(ou: digressão #2; going deeper)

mas coisa que até hoje não entendo, aliás, era como se sustentava o sacrifício DIÁRIO de VOLUNTÁRIOS no topo daquelas pirâmides, onde o sacerdote abria o pobre asteca vivo com um pedaço de PEDRA lascada pra retirar seu coração pulsante e oferecê-lo aos deuses - que, dizem, gostavam bastante; atirando, em seguida, o cadáver ainda quentinho pelas propositadamente íngremes escadarias de um templo qualquer em TENOCHTITLÁN - outro nome sensacional.

quero dizer, havia um número constante de baixas de trabalhadores jovens e saudáveis (e embora a wikipedia fale em crianças e escravos, não acredite) a rolar degraus abaixo com um verdadeiro VAZIO no peito.

não sei se era mesmo um bom negócio.


oferendas & considerações, #2

tal ritual foi extinto um tempo depois da chegada dos colonizadores. assim como boa parte da cultura, dos costumes e do próprio povo asteca - remember MONTEZUMA.

que eu saiba, resta agora apenas uma maneira de ter o coração roubado em cidades mexicanas, que é pelas mãos leves dessas garotas mais dançantes, ou mesmo aquelas mais tímidas, que ziguezagueiam pelos arredores de balcões e mesas e salões com copos ou cigarrillos em mãos; ou ficam sentadas num canto - sempre num canto - a divagar e tamborilar os dedinhos num tampo de madeira, cabisbaixas e a arrumar os cabelos para trás das orelhas vez ou outra; isso quando não balançam sutilmente o corpo junto da música alta e lançam olhares desconfiados para lá e para cá, e aí se voltam para os seus próprios dedos sobre a mesa, novamente.

não é um furto que se dê com pedras, portanto.

vosso tórax permanecerá intacto - a não ser que leve um tiro, mas isso foge do escopo destas linhas. o primeiro sorriso dela é o inicio da escalada dos altos degraus, e vocês trocam duas palavras, não se entendem, mostram dentes e sorvem os líquidos dos copos. diversas vezes. então, depois disso, ela toca seu braço - ou sua perna - e desliza levemente os dedos por sobre sua pele. e aí está feito: quando ela se afasta e se levanta, quando vai pra longe ou conversa com outro; quando ela sussurra "me voy" no teu ouvido, você sente que algo está faltando.

e é bem ali, no peito.


equivalências & ares

é claro que se trocarmos os pesos por reais, a tequila por cachaça e a música por, vá lá, forró, tudo isso pode ocorrer exatamente do mesmo modo. é um modelo clássico e de variáveis bem conhecias.

mas há algo aí, bem sabemos, que altera a química dos elementos. não sei se são os ares da Serra Madre Ocidental ou se o diário arrancar de corações há uns tantos séculos acabou por influenciar esta atmosfera, mas, repito, há algo aí.


pedra(da)s & clichês

aproveito pra confessar que me causa grande incômodo imaginar um tórax sendo aberto com um pedaço de pedra para a posterior extração do coração, assim, con las manos. (e por isso mesmo vou repetindo, porque quero incomodá-los também.)

e uma metáfora romântica, baseada nesse termos, também pode vir a soar áspera e cheia de pontas como a ferramenta utilizada, ainda que preserve o simbolismo e parte da carga poética: digamos que a mocinha, por exemplo, desperta antes, pouco depois do sol asteca, e contempla o sujeito com quem dividiu os lençóis (você) num sono ainda bastante alcoólico, nu e com a cara afundada no travesseiro. corpos exaustos e ela levanta e você também desperta e trocam olhares em silêncio. "me voy", ela diz (é o que elas sempre dizem). você resmunga, pede e depois implora para que fique mais um pouco, não lembra de quase nada, mas pede para que ela o espere ou para que conversem. no entanto, ela repete, impassível: "no", e veste a blusinha, "me voy". bate a porta. você, então, passa os próximos dois dias procurando por ela na noite mexicana e resistindo a outras tentações similares, pois o momento de esquecê-la passou e você vai, cambaleante, subindo os íngremes degraus porque é só o que te resta a fazer. aí, num balcão qualquer, debruçado sobre o n-ésimo copo vazio e prestes a desistir, você a vê e a chama pelo nome que acha que é dela, mas ela te dá as costas sabendo que você irá segui-la até o topo da pirâmide, se preciso. deixa-se alcançar pouco depois e te diz, irritada, que não quer mais saber de você, da sua grana nojenta e de vocês todos, estrangeiros idiotas. dá dois ou três passos adiante, você se declara, mas ela completa: "não me procure mais." e some pra sempre.


equivalências #2 & conformismo

creio que me reste, portanto, na ausência das hipotéticas milhagens rodoviárias ou de planos sólidos para cruzar o Equador, encontrar na mantiqueira, no planalto paranaense ou onde quer que seja, os ventos certos. ou os infernos certos - ou quem sabe os errados mesmo.

e ainda que as coisas por lá não sejam exatamente assim, faz parte do espírito humano sonhar com cabarés calientes, moças bonitas e bebida barata.

sempre.

alívio

pois esperei impacientemente por exatos 111 dias, centenas de cigarros e dezenas de garrafas pra poder, enfim, citar este meu post e dizer que, porra, deu certo.

noutro, barely related, escrevi que "mais importante que jogar tudo pra cima, é não juntar o que caiu" e agora me sinto seguro para afirmar que esta é uma grandessíssima verdade.

acho que eu não tinha tanta certeza disso antes.

e por ora, vos digo, vou é abrir umas cervejas e juntar minhas coisas pra pegar a estrada no fim da noite - com um peso a menos nas costas.

streams of j&b

descrevo no ar um círculo imaginário com o copo escocês. gelo tilinta. sorvo e queima e bate forte. Nick & PJ (la la lalla) a me servir de apoio.

o termômetro no topo dum prédio me informa: 10 graus.

não venta e a fumaça paira - e desaparece.

regozijai.

love letter blues

não costumo contar coisas assim, como o que vem logo abaixo das reticências centralizadas, mas ontem me peguei ruminando tais memórias e achei que seria de alguma valia (qualquer) compartilhá-las -- e ainda que eu tivesse outras intenções para elas, algo a ser feito com mais esmero, a preguiça me obrigou a sabotar planos e optar pelo caminho mais prático. e talvez seja melhor assim, dito sem pesares, do que 'romantizado' à cartilha. serve também para honrar um suposto viés crônico garantido numa carta de intenções que nunca escrevi; ou para vos permitir uma ligeira intromissão mesmo, sei lá.

...

nunca escrevi uma carta de amor. o mais próximo de qualquer coisa assim que me recordo com vergonhosa clareza de detalhes foi um e-mail -- note a precocidade nerd deste que vos escreve -- lá pela minha sétima série, pois eu tinha uma idade dessas lá nos idos da virada do milênio, que TENCIONEI escrever para esta mocinha morena e mui bela e sorridente e um tanto gostosinha para tão pouca (nem tanto) idade e que povoava uma parcela significativa das coisas confusas que trespassavam pela minha cabeça àquela época, mantendo sempre sua natureza mui sorridente e mui gostosinha e uma artificial e tosca intimidade que eu imaginava necessária para nos unir de uma forma um tanto romântica e incerta, sim, já que naquela implacável realidade escolar e púbere, entre grades e muros e portas e carteiras e infinitas crianças uniformizadas, sob arcos de tijolos à vista que circundavam todo o pátio e descreviam-se entre as colunas de sustentação dos prédios do bendito colégio-com-nome-de-santo-mas-sem-aula-de-religião-ufa, lá onde nós (eu) propositadamente nos cruzávamos no corredor ou ali no pé da escada e sorríamos sem graça nenhuma antes e depois do breve "oi" que nos introduzia e despedia para toda a semana, acho, lá naquele ambiente didático e um tanto cansativo, naquela obrigação matutina, ela não dava a mínima pra mim.

quando resolvi que deveria dizer qualquer coisa, movido por uma coragem de minuto, totalmente efêmera, que transformou-se em pura covardia momentos depois, tasquei um clique no OUTLOOK e lá estava eu despejando cafonices e clichês -- dos quais me lembro mais ou menos bem e me envergonho um tanto ainda agora -- e desde lá a prolixidade já era mais ou menos presente, pois esse tipo de coisa vêm de uma infância de poucas palavras e muitas MAQUINAÇÕES (eu, garoto de poucos amigos), ainda mais sob a pressão daquela situação, martelava o teclado numa catação de milho já quase experiente, num regurgito cheio de boas e melosas intenções, que reli e reli e poderia citar a primeira frase completa se ela não me incomodasse tanto. Levei uns dois segundos pra achar que minha primeira, única e mais sincera carta de amor era uma verdadeira bosta. E era. Levei apenas um instante para apagá-la e mais um tempão para me certificar de que eu havia EXPURGADO todo e qualquer vestígio daquela vergonha. Nunca enviei aquele e-mail; não me arrependo. A garota continuou mui sorridente e mui gostosinha em sua morenice já adolescente e de maturação PRÓSPERA, não fosse algo que a tirou dos trilhos no início de sua adultice, não sei bem, mas vos digo que nos cruzamos certa vez ali pela rua, e ela me parecia cansada e LENTA. Nos ignoramos como se fôssemos transeuntes quaisquer -- e éramos, afinal.

e daí -- aproveitando o gancho -- no colegial, noutro colégio, I met this girl (e sempre, em qualquer lugar, HÁ uma garota pronta pra te foder sentimentalmente), também morena, também gostosinha, mas menos sorridente e mais tímida, mais quieta pero safada, deveras SAGAZ e que, tal como a outra, didn't give a shit about me. OKAY. e talvez, ainda enraizada em meu âmago, havia aquela faceta romântica emprestada dos filmes e da televisão, adquirida do senso comum que te metem na cabeça desde cedo e que te faz achar natural um ritualzinho fureca de "eu te amo" e corazón partido pra lá e pra cá (acho que o último coraçãozinho que desenhei pra alguém foi no primário, para o dia das mães) essa mesma faceta que nasceu e morreu (sorta) com o e-mail que nunca enviei. de qualquer forma, meu nerdismo já florescido e sedimentado abria caminho para experimentações um tanto AVANT-GARDE no quesito de conquista amorosa. tal como a outra, também, não conversávamos quase nada, ainda que estudássemos juntos e que sentássemos lado a lado, que tivéssemos um bom amigo em comum (apaixonado por ela, claro) e que blá-blá-blá. no entanto, contrariando toda lógica social, conversávamos um tanto via bom e velho ICQ -- recém saído de sua era dourada e em plena decadência -- e o número dessa garota era presença constante em minha lista nos finais de semana DIAL-UP. não falávamos sobre amenidades, não, mas (eis o QUÊ vanguardista da coisa) sobre sacanagem hardcore com diversas e constantes incursões fetichistas, como se simulássemos um diálogo de filme pornô da band, repletos de insinuações e todas aquelas coisas assim que surgem de conversas interessantes -- e suas respostas eram sempre positivas, com risinhos, e ela complementava a coisa toda com muita desenvoltura e, digamos, SAPIÊNCIA.

é nessas horas que você percebe que está lidando com a garota CERTA.

MAS. apesar do romantismo pornográfico e de nossas imaginações férteis e hormônicas, a coisa andou muito menos do que poderia andar e eu me meteria, após o derradeiro fim daquela brevidade ansiada, num bar para afogar-me num BLUES se eu não fosse um babaca de 16 anos que ouvia black metal (sério). coisa triste. foi numa calçada, vejam só, uns dois ou três ou quatro anos depois, que nos cruzamos apressadamente, olhares fixos em horizontes opostos, quase nos trombando, mas sem contato visual algum, sem nada, e acho que depois nunca mais a vi -- mui inteligente e gostosinha também em sua morenice nipo-brasileña já consolidada, hoje metida nalguma faculdade fodona e fico feliz por isso.

mas aí, então (e era esse o meu ponto, acho), desisti das cartas -- pornográficas ou convencionais. depois de várias rasteiras, poucos acertos e duas porradas (essas aí, no caso, de várias) que doeram bastante na época (e que me vergonham um tantinho ainda agora), COMPREENDI que cartas de amor with hearts & kisses, em geral, não passam de um mecanismo compensatório para quem não tem os devidos culhões. porque passei -- impulsionado por experimentalismos pós-conclusão-acima, e com um certo espírito ZEN que me permite encher o peito e resmungar um "foda-se" para quase qualquer coisa -- passei a dar a cara a tapa e dizer que, olha só, garota, eu gosto de você. mas é claro que uma negativa, aqui, é um verdadeiro chute nos bagos. porque você pode até saber, meio de antemão, qual será a réplica que irá escutar, mas em geral não sabe qual é grau na escala de sadismo que a garota atingiu na última vez que ela disse não pra alguém. (hat tip: se ela sorrir envergonhada, desviando o olhar para o chão, dói menos. mas continuar te encarando, algo impassível, será pedrada. e não adianta se prevenir.)

é um risco alto e até desnecessário, but it hurts so good.

...

e com isso estouro minha cota anual de posts "sentimentais". ufa.

À espera

Porque antes do primeiro dia do resto da vida, há o último do, digamos, início dela.

O meu parece ser hoje.

E entre os dois dias há um intervalo, um interlúdio, uma -- vá lá -- (turbulenta) transição, que começa precisamente agora para findar daqui a umas semanas, creio, quando as coisas serão efetivamente jogadas pro alto. Com força.

Tenho-as em mãos e aguardo sem muita paciência.

(E nos últimos dias experimentei com certa angústia, e em silêncio, milhares de últimas vezes, aproveitando cada uma delas com menos intensidade do que deveria para poder romantizá-las ou mesmo para as degustar em todos seus detalhes e particularidades. O "nunca mais", nesse contexto, é desnecessária e excessivamente pesado, denso e incômodo. É o fardo da escolha enquanto durar a memória de certas coisas. Poucas, acho. Mas, como diz o sábio moderno, que se fodam.)

O que cair, caiu.

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