categoria ~ Infâmia

Qualquer coisa é notícia?

Noticia BBB

A última coisa que eu espero das notícias mais recentes de um jornal é ser agraciado com a oportunidade de acompanhar o andamento de um programa de TV que eu faço questão de não assistir.

Não fode, Bento

Uns cientistas dizem que criaram um embrião clonado de humanos.

O Jornal Nacional, agora há pouco, repetiu tudo o que está escrito nessa matéria (e que deve estar replicado em todos os sites de notícias, claro) e acrescentou uma declaração do Vaticano, que diz que a clonagem é a maior atrocidade que se pode fazer contra a humanidade. Ou qualquer coisa assim.

Se uma clonagem embrionária com o objetivo de gerar células-tronco para serem utilizadas no tratamento de um punhado de doenças é a maior das atrocidades, eu fico me perguntando em qual posição está o abuso sexual de crianças (ou sodomia com coroinhas, se preferirem) nessa lista de maldades.

(Cá está uma dica... bem maldosa)

Alta Tensão e Sarcasmo

No início da noite de terça-feira eu estava em São Paulo, num ônibus que vinha de terras paranaenses para o terminal do Tietê. Já próximo ao destino, havia um desses locais de transmissão de energia -- um ponto de distribuição ou algo que o valha, que recebe a energia elétrica vinda sabe-se lá de onde e a redistribui pelos bairros da região. O nome me foge agora, mas vocês sabem o que é.

Pois bem, aquele local era cercado por um muro branco e alto que ostentava desenhos horrorosos de crianças felizes e coloridas, juntamente com frases, umas três, todas bem parecidas, sobre os riscos de choque elétrico e a necessidade de se manter distância dali.

A única frase da qual me recordo é a seguinte:

Em torre de transmissão,
tem fio de alta tensão.
Não brinque.

Bonitinho, né? Até rima. Mas me parece pouco eficiente.

Estão dizendo para as crianças que atrás daquele muro alto (que atiça a curiosidade de qualquer moleque) e cheio de desenhos coloridos tem algo que elas provavelmente não sabem o que é (torres e fios) e que deve ser evitado. Ponto. Ah, claro, e não é pra brincar por ali.

Pior do que aqueles avisos que ostentam uma caveira sobre um fundo vermelho trazendo os dizeres "Perigo: Risco de Vida" quando, em verdade, o que há mesmo é o risco de morte.

O Robô ElétricoE tudo bem que talvez o aspecto robótico e monstruoso de certas torres de transmissão possa servir para intimidar algumas crianças, mas falta uma explicação sobre os motivos do alerta. Aliás, é o que sempre falta: ao invés de informar e ensinar, é mais cômodo deixar que a prole seja educada pela televisão...

Mas, enfim, voltemos aos fios.

O ônibus passou rapidamente por ali e eu fiquei pensando num aviso melhor, que tivesse, em essência, o mesmo teor do alerta do muro, que mantivesse toda aquela alegria dos desenhos mal feitos e afastasse dali os pequenos. Acabei pensando em algo como:

Em torre de transmissão,
tem fio de alta tensão.
E criança que põe a mão,
Vira toco de carvão.

Muito mais instrutivo, não? Até mantive as rimas. Acho que daria uma musiquinha interessante também. O "não brinque" está implícito na conseqüência fatal da curiosidade, além de implantar um certo terror que contrasta bastante bem com a inocência jovial pintada naquele muro irregular.

Em letras menores, logo ao lado, destinada aos moleques mais destemidos, viria uma breve explicação técnica:

A eletricidade usará teu corpinho como condutor e, enquanto ela passa por dentro de você, fará seus músculos se contraírem e relaxarem numa velocidade enorme!! Além disso, em poucos segundos seu coraçãozinho vai parar e é provável que você queime até ficar irreconhecível ou que seja arremessado para bem longe. Seus pais ficarão muito tristes e você deixará de existir. Para sempre.

Ou algo assim.

Imagino que para os infelizes do bairro, as gigantescas torres de transmissão poderiam se tornar uma presença constante em pesadelos e histórias de colégio, mas seria por uma boa causa. Talvez com a realidade exposta dessa forma, um tanto sarcástica, as crianças reflitam por um segundo ou dois. Talvez ofenda pais e filhos, talvez arranque um sorriso. No entanto, é certo que os meninos pensarão várias vezes antes de fazer merda.

E, no fim, até mesmo esses detalhes bobos teriam lá a sua graça.

Pesamenteiro e Outras Palavras Únicas

Existem certas palavras que são intraduzíveis.

Os mais sentimentais adoram repetir que "saudade" é uma delas, como se fossemos os únicos que sentem saudades de alguém, de algum lugar ou de alguma coisa. Ou melhor, fazem parecer que sentimos tanta saudade, mas tanta saudade, que precisamos de uma palavra específica só para mostrar isso.

Tudo bem. Mas também temos outras palavras e expressões interessantes que, se resolvermos seguir o emotivo raciocínio da "saudade", explicam um pouco do nosso jeitinho.

Tomando como referencial a língua do colonizador -- é, o inglês --, este artigo listou algumas dezenas de palavras que não têm correspondente no idioma do Bush. E são muitas mesmo.

Em português, temos três: cafuné, pesamenteiro e a expressão ir à fava.

A primeira todos conhecem, fazem ou recebem. Dispensa comentários. E os estadunidenses, frios e paranóicos, não entendem nada de carícias mesmo.

A última, belíssima expressão, deveria ser mais utilizada. Não tenho dúvidas de que o SBT, com sua sanha nacionalista de traduzir o título de todo e qualquer programa estrangeiro que adquire, iria popularizá-la caso a Globo não tivesse comprado os direitos do famigerado seriado Lost. Imaginem só o título tupiniquim: Indo à fava!

Um sucesso de audiência.

E, por fim, a palavra que dá o título a esse post: pesamenteiro.

Diferentemente de casamenteiro, que é o sujeito que arranja casamentos, pesamenteiro não é aquele que incentiva os pesares de alguem. Pois para um povo que se orgulha da intraduzível saudade, ter uma palavra assim seria uma estranha contradição.

Pesamenteiro, então, é aquele sujeito que vai ao velório não para chorar junto à família e transmitir seus sentimentos, mas única e exclusivamente para comer.

É, também, aquele que convencionamos chamar de filho-da-puta.

Não me espanta, no entanto, que essa palavra não tenha correspondente no inglês. E talvez não tenha correspondente em língua alguma -- bilíngüe que sou, não posso afirmar com certeza, embora uma busca rápida em dicionários de alemão, francês, espanhol e italiano pareca confirmar minha suposição.

O brasileiro, como todos sabem, é um povo esperto cuja fama do "jeitinho" é internacionalmente conhecida. Ouso dizer que é provável termos a maior densidade de pesamenteiros per capita. E possivelmente os melhores quitutes de velório!

Aliás, ocorreu-me agora que se algum poeta brasileiro, de fama considerável, quisesse foder com seus tradutores, bastaria enfiar um "pesamenteiro" no meio de um verso decassílabo...

Mas o verdadeiro destaque do artigo ficou com uma palavra que li aleatoriamente: hira hira. Em japonês, é o nome da sensação que se tem quando uma pessoa entra em uma casa escura e mal-assombra no meio da noite.

Talvez os anglófonos não saibam expressar tal sensação com uma única palavra, mas nós temos o vocábulo perfeito: cagaço.

A Matemática Capitalista e o Natal do Futuro

É comum ouvirmos falar sobre um tal custo/benefício de algum produto ou serviço. De modo geral, todo mundo entende que o que se quer dizer é que há uma relação satisfatória entre os benefícios e o preço que se paga por eles.

Até aí, nenhuma novidade.

Se formos para um lado mais matemático, no entanto, poderemos saber exatamente, em números reais e expressivos, a dimensão de tal relação em um determinado produto. Pretendo convencê-los de que a mão invisível de Adam Smith não organizou as parcelas à esmo: há muito da doutrina capitalista nessa inocente fração.

Vamos lá: suponha que você, já imerso no frenesi consumista pré-natalino, vai fazer as compras para o fim do ano. O dinheiro é curto, como sempre, e então você se lembra da fórmula acima e tenta aplicá-la para maximizar suas compras.

Com uma calculadora em mãos, você vai de loja em loja procurando pelos produtos mais baratos e com o melhor benefício, mas logo nota uma propriedade curiosa de tal equação: para obter-se um custo/benefício alto, ou seja, para que o resultado da fração seja o maior possível, é preciso que o numerador seja maior do que o denominador, certo?

Em outras palavras, é preciso que o custo seja maior do que o benefício para que a relação resulte em um número mais expressivo. Em português bem claro: quanto mais você pagar, melhor.

E a lavagem cerebral capitalista não pára por aí.

Apesar de vivermos nesse caótico mundo pós-moderno ultraconsumista, de vez em quando temos sorte. Suponhamos, mais uma vez, que você, já desiludido e bradando ofensas à progenitora de Adam Smith, acabe encontrando, esquecido no chão por alguém muito apressado, um presente qualquer.

Pega-o e pensa, esboçando um sorriso: "isso sim é custo/benefício!" E exclama um palavrão qualquer.

Mas é aí que você se engana. Ao encontrar o presente esquecido na calçada, não houve gastos, o que significa que o custo dele foi zero, e você teve apenas os benefícios. Para qualquer pessoa normal, esta seria uma relação perfeita. Mas qual! Quantifique os benefícios e faça as contas: com o numerador igual à zero, independentemente do quão sensacional for o objeto encontrado, a relação custo/benefício será igual a zero.

Ganhar ou encontrar coisas é mesmo um péssimo negócio...

Essa faceta perversa da matemática capitalista deve ser parte de um plano sutil e malicioso de se imputar nas cabeças de nossas crianças que o bom não é ganhar presentes, mas comprá-los.

O Papai Noel terá de se adequar ao novo estiloA tendência, se formos seguir tal raciocínio, é que num futuro próximo a figura do Papai Noel (símbolo máximo do consumo) modificar-se-á um pouco para se adequar à essa matemática tendenciosa que rege o mundo: é possível que o bom velhinho passe a visitar as residências em horário comercial, empunhando não um saco cheio de presentes, mas uma máquina de cartão de crédito para que as crianças possam comprá-los -- e eles seriam entregues em até dois dias úteis, com o frete incluso no preço, graças ao eficiente e secular sistema de renas e trenós.

(É importante salientar que, nesse mesmo futuro próximo, toda criança terá, além de um celular, o seu próprio cartão de crédito, para que aprendam desde cedo os verdadeiros valores da sociedade.)

As crianças menos abastadas poderão parcelar o presente em até 12 vezes, com juros módicos, comprometendo-se a depositar sua mesada na conta do senhor Noel, no paraíso fiscal da Lapônia. Aqueles que não conseguirem arcar com as dívidas até o natal seguinte, devem pedir a falência pessoal e terão todos os seus brinquedos confiscados e destruídos.

Caso o dinheiro da mesada não seja o bastante, receberão junto com a primeira fatura um pequeno Guia do Empreendedor Juvenil, ou algo que o valha, e uma caixinha de balas para que estejam aptas a iniciar seu próprio negócio, vendendo guloseimas nos semáforos para aqueles que compram seus presentes à vista...

O Nada Acadêmico (ou: Tamanho é Documento)

Fico me perguntando: qual o propósito de se fazer um certo trabalho com 25 páginas para uma disciplina quando se poderia dizer tudo em 5 ou menos?

Sim, há o impacto visual: 25 páginas encadernadas, com capa, folha de rosto, duas folhas de índice e mais duas de referências lá no final é algo que realmente parece ter algum conteúdo. Mas se você espremer, torcer, esmiuçar ou seja lá por qual processo se queira extrair o sumo do trabalho, não obteria mais do que as 5 páginas já citadas.

Mas, claro, seria um ato vergonhoso entregar um trabalho com menos de uma dezena de folhas. "Onde você pensa que está?", perguntariam os docentes balançando aquele maço insignificante de folhas diante da fuça do aluno. "Isso aqui é sério, rapaz, quero pelo menos 20 páginas!" E eis que daí surge o mais puro e absoluto Nada, enrolação, encheção de lingüiça, lero-lero.

Gráficos fora de contexto extraídos diretamente da pesquisa de imagens do Google, grandes imagens e logotipos para ganhar linhas, espaçamento de 0,2 cm entre parágrafos e maior ainda entre seções. Tabelas, tabelas, notas de rodapé sobre o óbvio, referências quaisquer, tabelas, margens ligeira e quase que imperceptivelmente maiores do que o usual, mas grandes o suficiente para ganhar uma página a mais, mesmo que ela contenha apenas 3 linhas. Ah, e mais tabelas.

Tudo isso emoldurado pelas normas grotescas da ABNT ou por padrões similares (e menos feios). Tem-se, então, como resultado de tal laboriosa confecção artística, um verdadeiro trabalho acadêmico, com 5 páginas de conteúdo e 20 de enrolação, o qual é recebido com entusiasmo pelo professor, que provavelmente irá apenas folheá-lo em busca de receitas de bolo ou ofensas e, caso não as encontre, lhe dará uma nota 8,0.

E aí eu volto a me perguntar: pra quê essa hipocrisia toda? Será que fere o orgulho de certos professores ver suas disciplinas semestrais reduzidas a 4 ou 5 páginas? Será que é por isso que pedem por 20, 30, 60 folhas de papel? Ou será que é apenas para usar a palavra "trabalho" em seu sentido literal e fazer os alunos sofrerem um pouquinho para serem aprovados?

Pois, vocês sabem, não é tão fácil enrolar. Chega um momento onde é impossível continuar sem fazer um certo esforço físico, sem lutar contra as palavras que resumem muitas coisas em seus significados e sem buscar arduamente por aquelas que sejam mais vagas, mais maleáveis, sem buscar por quantificadores, conectivos, hipérboles sem propósito, digressões recursivas, analogias absurdas, obviedades, dezenas de sinônimos e clichês.

Tamanho, para grande parte das disciplinas, é documento. O conteúdo cai para o segundo plano e a relevância dos assuntos, em geral, para o terceiro.

A aparência, até mesmo nesse caso, parece valer mais do que todo o resto. E não importa se tanto alunos quanto os professores estão cagando para tudo isso: é assim que deve ser.

Bom Senso

Uma matéria de hoje da Folha Online tem o seguinte título:

Especialistas indicam bom senso como principal dica de proteção na web

Confesso que nunca pensei que coubesse aos "especialistas" recomendar bom senso às pessoas. Sempre tive a impressão de que este senso fosse uma alternativa comum justamente quando não houvesse dicas de profissionais de determinada área -- pois é o que os leigos esperam de pessoas que supostamente estudam um assunto.

Sendo assim, há duas possíveis constatações sobre o título: ou os "especialistas" em questão são completamente inúteis e, provavelmente, leigos, ou somos todos idiotas...

Sobre Certos Administradores

Não pretendo fazer destes posts com títulos semelhantes uma série, apenas me pareceu mais cômodo utilizar o mesmo padrão. Prova disso é que serei mas conciso e irei direto ao ponto, sem a enrolação característica desses homens de terno aos quais me refiro.

Certos administradores, e uns entusiastas do mundo business, por vezes dizem que em determinada área não possuem o know-how ou a expertise necessária para algumas tarefas.

Mas o que realmente não possuem é a humildade para assumir, em bom português, que não têm conhecimento e tampouco experiência, ora!

O orgulho faz com que até a ignorância seja chique...

Sobre Certos Religiosos

Religião não é lá um tema muito profícuo, mas acabei de ver duas coisas que me tiraram do sério. Irei contá-las na ordem inversa para tornar o texto mais interessante -- assim como a voz subliminar do demônio nos discos de vinil.

A Record dedicou vários e vários minutos do seu noticiário de hoje para falar sobre padres pedófilos -- eu sei, já é quase um pleonasmo. A primeira parte da reportagem foi sobre um padre aqui do Paraná que molestava seus coroinhas: foi preso em flagrante com dois menores e muito material pornográfico no carro.

Daí mostraram o depoimento de um dos garotos que fora molestado por ele durante meses, depoimentos dos vizinhos que sempre viam crianças lá na casa do padre, que morava sozinho, e depoimentos de gente que já tinha ouvido alguns causos do religioso sapeca.

Pois bem, mesmo depois de uma avalanche de provas, da prisão em flagrante e da apreensão do material pornô, o padre foi liberado. Isso acontece com uma freqüência lamentável neste país, mas, enfim, continuemos. Já no fim da matéria entrevistam uma senhora, toda de branco, séria, que disse que diante de tudo isso, de tudo o que foi dito e exposto, não caberia à nós, reles mortais, julgar o pobre coitado de batina, pois deus irá fazê-lo.

Certos religiosos são idiotas. E o são por causa da religião.

(Alguns dos mais ortodoxos vão deixar de ler a primeira palavra da frase acima e, ironicamente, vão me crucificar. O que só corrobora a minha afirmação.)

A outra coisa que me deixou sem palavras foi um post em um blog que encontrei aleatoriamente aqui no Wordpress. Reproduzo toda a genialidade do blogueiro crente:

satanás usara todas as artimanhas para poder convencer que existe agua ou ate mesmo vida em outros planetas, a ciencia tem trabalhado fortemente para a população esquecer o evangelho de nosso senhor Jesus Cristo, feche essa porta não deixe a ciencia atuar com essas mentiras!

Argumentos? Cá estão...

Eu li e reli. Revirei o blog com uma certeza latejando em minha cabeça: "isso é piada, só pode ser piada." Mas aparentemente não é. E há outras pérolas por lá, caso o leitor goste de sofrer ou rir da desgraça humana (mesmo havendo humor de maior qualidade por aí).

Enfim, só quero que fique claro que é uma coisa e estupidez, como vocês puderam ver, é outra, apesar de que em alguns casos a linha entre as duas seja bastante tênue...

O melhor governo é o que não governa

Li, em algum dia da semana passada, o Desobediência Civil (aqui em PDF) e o livro já se inicia com a frase: "o melhor governo é aquele que governa menos". E não estamos falando aqui de produtividade (senão até poderíamos nos orgulhar dos políticos que temos), mas de intervenção.

O melhor governo é aquele que intervém menos, é o que limita menos, é o que dita menos leis e obrigações. O melhor governo, portanto, "é aquele que absolutamente não governa".

E é isso mesmo.

Há uma passagem bastante interessante que ilustra bem essa idéia (com grifos meus):

(...) A lei jamais tornou os homens mais justos, e, por meio de seu respeito por ela, mesmo os mais bem-intencionados, transformam-se diariamente em agentes da injustiça. Um resultado comum e natural do indevido respeito pela lei é que se pode ver uma fila de soldados -- coronel, capitão, cabo, soldados rasos, etc -- marchando em direção à guerra em ordem admirável através de morros e vales, contra as suas vontades, ah!, contra as suas consciências e seu bom senso, o que torna esta marcha bastante difícil, na verdade, e produz uma palpitação no coração. Eles não têm dúvida alguma de que estão envolvidos numa atividade condenável, pois todos têm inclinações pacíficas. Então, o que são eles? Homens ou pequenos fortes e paióis a serviço de algum homem inescrupuloso no poder? (...)

A grande maioria dos homens serve ao Estado desse modo, não como homens propriamente, mas como máquinas, com seus corpos. São o exército permanente, as milícias, os carcereiros, os policiais, os membros da força civil, etc. Na maioria dos casos não há um livre exercício seja do discernimento ou do senso moral, eles simplesmente se colocam ao nível da árvore, da terra e das pedras. E talvez se possam fabricar homens de madeira que sirvam igualmente a tal propósito. Tais homens não merecem respeito maior que um espantalho ou um monte de lama. O valor que possuem é o mesmo dos cavalos e dos cães.

Há uma constatação curiosa num determinado ponto do texto, que diz que um homem que se recusa a pagar uma determinada quantia em impostos há de ser preso e passar um tempo indeterminável no cárcere. Agora, um homem que rouba dos cofres do Estado uma quantia dez vezes maior que o imposto em questão, este terá uma punição muito mais leve.

Ou seja, o não reconhecimento do Estado como entidade protetora ou soberana do indivíduo é muito mais danosa a ele do que qualquer outra afronta que se possa fazer. O indivíduo que não se curva e que anseia ser livre das limitações a ele impostas em prol de serviços ou posturas dos quais não usufrui ou discorda, este é punido com severidade. O Estado, megalomaníaco por natureza, não aceita aqueles que querem viver fora dele.

Então, se você se enfiar no meio do mato, sozinho, sem depender de absolutamente nada que o Estado possa lhe oferecer/impor, vivendo única e exclusivamente de suas próprias habilidades e instinto, distante da sociedade e de qualquer instituição, cuidado: você provavelmente estará infringindo um punhado de leis absurdas e irá, cedo ou tarde, ser caçado por alguns dos homens-paióis já citados.

Pois o Estado, como o conhecemos, não existe para servir à população, mas para moldá-la e contê-la de acordo com interesses de uma minoria -- os ditos "homens inescrupulosos" e seus correlatos. E em nome da pirâmide social, da lei e da ordem, cabe ao cidadão comum dar a cara à tapa... e produzir bastante, claro.

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