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hakim bey

You're slumped in front of a screen, in the same physical situation as a TV watcher, you've just added a typewriter. And you're "interactive." What does that mean? It does not mean community. It's catatonic schizophrenia. So blah blah blah, communicate communicate, data data data. It doesn't mean anything more than catatonics babbling and drooling in a mental institution. Why can't we stop? How is it that five years ago there were no cell phones, and now everyone needs a cell phone? You can pick up any book by any half-brained post-Marxist jerkoff and read about how capitalism creates false needs. Yet we allow it to go on.

trecho de uma entrevista com Hakim Bey em 2004. de fato vale a pena perder uns minutos aí.

e a quem possa interessar, saiba que juntei alguns textos dele nessa página uns tempos atrás. vai lá.

Fitzgerald sabia das coisas

fazia tempo que não pegava um livro por puro acaso - achei num sebo por poucos reais - e o lia com alguma surpresa. e aí, ainda no meio da leitura, deparo-me com o parágrafo seguinte, do Grande Gatsby, que achei absolutamente genial:

certo dia de outubro, em 1919 - disse Jordan Baker aquela tarde, sentada muito ereta numa cadeira de espaldar reto, no tea-garden do Plaza Hotel - eu caminhava de um lugar para outro, ora sobre a calçada, ora sobre o gramado. sentia-me mais feliz sobre o gramado, pois calçava sapatos vindos da Inglaterra, com sola de borracha granulada que "agarravam" o chão macio. vestia também uma saia nova de tecido axadrezado, que se agitava um pouco ao vento e, quando isso acontecia, as bandeiras vermelhas, azuis e brancas, hasteadas em todas as casas, se distendiam, empertigavam-se, produzindo um tut-tut-tut-tut de desaprovação.

fica melhor se você souber umas coisas sobre Jordan Barker, principalmente o que o narrador pensa dela.

o interessante (pra mim) é que toda a LANGUIDEZ e outros traços que a definem são os mesmos aos quais recorro nalgumas idealizações femininas que faço ou que escrevo ou que busco por aí - como os amigos já devem ter notado. numa frase, ele resume tudo: "a desonestidade, numa mulher, é coisa que a gente jamais censura profundamente..."

tome ao pé da letra ou relativize: dá pra derivar MUITA coisa daí. (algo a ser destilado noutro post.)

e na seqüência desta frase, há um diálogo:

- você guia pessimamente - protestei. - você deve ter mais cuidado, ou então deixar inteiramente de guiar.
- eu sou cuidadosa.
- não é.
- bem, as outras pessoas o são - disse ela, despreocupadamente.
- que é que isto tem a ver com o caso?
- elas saem do meu caminho. é preciso que haja duas pessoas para que ocorra um acidente.
- suponhamos que você depare com alguém tão descuidado quanto você.
- espero que isso jamais aconteça - respondeu ela. - detesto gente descuidada. por isso é que gosto de você.

seus olhos cinzentos, um tanto contraídos, fitavam o caminho, mas ela havia, deliberadamente, modificado o caráter de nossas relações - e, por um momento, julguei que a amava.

Fitzgerald sabia das coisas.

duas lições de bukowski

em um documentário que vi ontem:

  1. se teus pais gostam do que você escreve, você está no caminho errado.
  2. se a polícia está sempre por perto, você deve estar no caminho certo.

(bônus: tenha sempre umas garrafas à mão. e ande prevenido.)

reforma ortográfica

a única coisa que realmente espero da reforma ortográfica é que a partir de 2009 as pessoas desistam de acentuar o cu.

sobre cut-ups

ou um post proto-didático onde expresso meu gosto por coisas aleatórias, experimentalismos, Burroughs & etc.

...

cut-ups são um negócio divertido, pero mui trabalhosos. a diversão está justamente na essência: recortar & colar. a leitura do nonsense total, resultante do processo, também costuma ser engraçada dependendo do método empregado.

o problema é o trabalho braçal necessário. quero dizer, em geral são dois trabalhos: 1º) ler a colagem e escrever o resultado, arrumando palavras pela metade e etc; e 2º) reescrever várias vezes o texto obtido até que ele tome a forma desejada (ou algo assim).

e há um passo (3), opcional, que é recortar & colar esse texto reescrito, mas aí você tem que repetir o passo (2) e vai te dar, no mínimo, o dobro de trabalho.

mas o momento crucial é justamente o primeiro: ler a colagem sem sentido e reescrevê-la de forma legível, sem questionamentos sobre forma ou coesão. é tão somente a transcrição da IMPRESSÃO causada pelo encadeamento de recortes. não tente arrumar muito.

...

existem vários jeitos de fazer um cut-up. os principais: recortar cada palavra, linha, parágrafo ou quadrante do texto; daí embaralhar e juntar tudo de novo. simples.

porém, na maioria dos casos, o resultado da colagem por palavras não compensa o esforço de fazê-lo. é comum você sair com uma seqüência de artigos e pronomes numa mesma linha e isso te obriga a pensar mais que o NECESSÁRIO na hora da leitura.

embaralhar todas as linhas de um texto costuma ser mais interessante. geralmente vale a tentativa.

fazer recortes por parágrafos só vale a pena se eles forem curtinhos ou se o texto ajudar, senão o resultado será apenas uma versão mais confusa do original.

...

devo dizer que o primeiro cut-up que fiz foi uns anos atrás, junto de mais dois amigos, para gerar dois monólogos para um curta-metragem que filmamos. estávamos no colegial e eu sugeri, influenciado por uma menção de Tristan Tzara na aula de literatura, que recortássemos o APOCALIPSE para criar nossos textos.

a bíblia POCKET, única que encontrei, era da minha irmã -- ganhara na escola. estranhou o pedido: "mas pra que VOCÊ quer a bíblia?" "vou recortar umas partes," eu disse. ela negou. argumentei: "você nem vai ler isso aí. e vai ser só o apocalipse."

como as letrinhas eram muito pequenas e o texto divido em duas colunas por página, recortamos bloquinhos de 3 linhas e jogamos tudo num saco plástico. após um ligeiro chacoalhar, fomos colando os papéis de qualquer jeito numa folha em branco. aí bastou uma leitura rápida em voz alta, enquanto o outro digitava o que era dito, e pronto. ficou lindo.

o curta, hoje, me dá uma certa vergonha, mas os dois momentos dos monólogos profetico-dadaístas são fantásticos.

ah, e o filme finda com a pequena bíblia EM CHAMAS ao som de um samba.

minha irmã acabou gostando.

...

mas voltemos aos métodos de cortar -- e talvez alguém se pergunte se é daí que vem a menção à navalha; ao que eu respondo que não, não é.

o método do quadrante é o mais profícuo, mais simples e mais rápido. basta dobrar a folha no meio, depois dobrar de novo, recortar na dobra e embaralhar. a sacada aqui é que as frases serão cortadas na metade e, ao juntar com outras metades, elas ganham um sentido novo sem perder sua estrutura. ou seja, o resultado passa a ser um punhado de frases mais ou menos coesas, fáceis de ler, mas bem diferentes do original.

William Burroughs costumava utilizar este método e no vídeo abaixo há uma breve demonstração do processo.

...

em verdade, há infinitas maneiras de retalhar um texto e juntar seus pedaços. ou colar fragmentos de vários textos diferentes. ou aplicar alguns desses métodos em série.

é importante deixar claro que a colagem em seu estado bruto é quase sempre um LIXO por causa da falta de nexo. e não há, de fato, um processo criativo no ato de recortar, colar e transcrever: é trabalho braçal puro e simples, com uma grande dose de ACASO e uma pitada de subjetividade na hora da leitura.

o atrativo dessas técnicas, além -- para alguns -- da diversão meio infantil do trabalho manual, é utilizar os cut-ups como base, como fonte de INSPIRAÇÃO, pois a colagem, aqui, não passa de um cenário possível, de uma idéia (ou várias) que muito provavelmente você não teria ou da sugestão de situações e cenas que fogem completamente dos padrões.

quando não conseguir escrever ou quiser apenas EXPERIMENTAR, reúna seus papéis, recorte & cole. pode não te ajudar em nada, mas pode te dar novas idéias.

...

e você não precisa, necessariamente, de papel, tesoura e cola. é fácil de encontrar por aí alguns simuladores desses processos, onde você cola o texto e o computador faz o resto pra você, como o cut-up machine, por exemplo. este site, aliás, tem uma infinidade dessas coisinhas dessa pra brincar.

tenho aqui, também, uns vários programinhas cheios de bugs que escrevi pra processar textos -- em especial um que emula exatamente o método do vídeo -- e que me são úteis de vez em quando.

...

então, um resumo rápido:

  1. quando estiver sem idéias, recorte, cole & leia;
  2. as colagens em si são uma bosta, você tem que reescrever muito; e
  3. apesar de trabalhoso, pode te dar boas idéias (ou não).

e há mais aqui e MUITO mais aqui.

Julgue pela capa, sim

Pois é sinal de bom gosto, ou de qualquer preocupação estilística, que aqueles traços estejam lá justamente daquela forma para não te agradar por completo e para criar um certo mistério sobre o que está debaixo da contracapa. Pois houve, mesmo que mínimo, um esforço para criar aquela coisa que te atrai ou incomoda e é a partir daí que você encadeará uma porção de coisas, antes desconexas, para a frustração por vir. E essa frustração, vos digo, é linda.

Aquela corrente de expectativas que se rompe logo no primeiro parágrafo ou nos primeiros minutos da música é o que te dará o, vá lá, estado de espírito com o qual você irá começar a desbravar a coisa inédita, mas que não chegará contigo até o fim. Daí penso que as capas de todas as coisas deveriam ser completamente diferentes e, ao invés de representar parte do conteúdo, passassem a ser a expressão máxima de um pequeno detalhe, talvez até irrelevante, apenas para interferir no teu julgamento inicial e te influenciar nos primeiros instantes. Títulos são bons para isso também, mas imagens e ilustrações têm um potencial muito maior.

Penso agora, para não deixá-los sem um exemplo, n'O Jogador e em como seria muito mais interessante se em vez das referências óbvias à roleta e cassinos estivesse estampado na capa um rascunho trêmulo do vertiginoso relevo do Schlangenberg, de onde o narrador premete se lançar se Paulina assim o quiser. Ou uma cadeira de rodas, sem revelar quem a ocupa. Ou um gigantesco número zero. Ou tudo completamente vermelho, um vermelho vivo, sem desenho algum.

A representação pura e simples do enredo, ainda que vaga e pouco reveladora, parece ser sinal de falta de criatividade ou da própria noção de como uma capa é importante, de como a SUGESTÃO é algo essencial e que não raro determina se você um dia irá mesmo abrir aquele livro, se chegará até o final e o que irá te restar quando as páginas começarem a amarelar na estante.

O mais enigmático, obscuro, artístico e positivamente frustrante, melhor. Sempre.

Shopping Hauer

As gotas de água de uma catarata estrepiosa se dissipam como pó com a rapidez de um raio; mas o arco-íris, do qual elas são como que o suporte, está fixo em tranqüilidade inabalável, completamente intacto a essa mudança ininterrupta; do mesmo modo, cada idéia, isto é, cada espécie de ser vivente, persiste por completo intocada pela sucessão contínua dos indivíduos que ela encerra. A idéia, ou a espécie, é a raiz, o lugar onde se manifesta a vontade de vida: é o único elemento cuja duração importa verdadeiramente à vontade. Os leões, por exemplo, nascerão e morrerão; eles são como as gotas da cascata, mas a leonitas, a idéia ou a forma do leão, é equivalente ao arco-íris imutável que está acima da queda d'agua. Por isso para Platão somente as idéias, isto é, as species, têm como atributo uma existência verdadeira; quanto aos indivíduos, cabe-lhes apenas um nascer e perecer incessante. Dessa consciência mais íntima e profunda de sua natureza imperecível, deriva também a segurança e a tranqüilidade de ânimo com a qual todo indivíduo, animal ou mesmo humano, caminha sem inquietação por entre mil perigos capazes de destruí-lo a todo momento, e que, ademais, o levam ao encontro da morte. No entanto, em seus olhos brilha a calma da espécie, à qual o desaparecimento do ser não afeta nem importa. Nem os dogmas incertos e mutáveis poderiam dar essa calma ao homem.

Li esse texto ("Da morte e sua relação com a indestrutibilidade do nosso ser-em-si") pela primeira vez uns 3 anos atrás e julgo-o sensacional.

Porque tenho pensando excessivamente nessas coisas, a ponto de me sentir freqüentemente atormentado por elas. A releitura, antes de trazer qualquer resposta, me bombardeia de outras tantas perguntas e amplia o horizonte do questionamento. É bom.

A convicção profunda da indestrutibilidade de nosso ser pela morte, que cada um traz no fundo de seu coração, como atestam os escrúpulos de consciência sempre invitáveis quando se aproxima o derradeiro instante, essa convicção, como disse, depende fortemente da consciência de nossa natureza primitiva e eterna. (...) Com efeito, por se acreditar imperecível, o homem dotado de razão se crê como se não tivesse tido começo, como eterno; em uma palavra: independente do tempo. Quem, ao contrário, se toma por um ser que surgiu do nada, tem de pensar também que retornará ao nada; pois imaginar que uma infinidade de tempo tivesse transcorrido antes que ele fosse, mas, depois, uma segunda infinidade tenha começado, durante a qual ele não cessará jamais de ser, é um pensamento monstruoso. (...) Mas para quem considera o nascimento do homem como o seu começo absoluto, a morte tem de ser o fim absoluto; pois os dois são aquilo que são no mesmo sentido: por conseqüência, só se pode pensar em si mesmo como imortal, se se pensar como não-nascido, e no mesmo sentido. O que é o nascimento, é isso também o que é a morte, na sua natureza e no seu significado; é a mesma linha traçada em duas direções. O primeiro é um real surgir do nada, e a segunda é também uma efetiva aniquilação. Mas, na verdade, a eternidade do nosso ser é o único modo de pensar a imutabilidade; esta, portanto, não é temporal. A hipótese de que o homem é criado do nada conduz necessariamente à de que a morte será seu fim absoluto.

A metáfora do arco-íris é genial. O texto todo, aliás, que é um suplemento ao livro quatro da obra "O mundo como vontade e representação", é repleto delas. Eu costumo recomendá-lo acompanhado de vários e vários adjetivos. Mas acho que já deu pra entender.

PS: Ao leitor desatento, o título (e tampouco o texto) nada tem a ver com este estabelecimento comercial. Mas sim com este sujeito aqui.

Malagueta Nueve

Saiu agorinha a nona edição da Revista Malagueta.

Revista Malagueta #9

Além (ou apesar) da presença deste que vos fala, revisitando um texto que já passou por aqui, também estão por lá o companheiro selvagem Diego Viana, com suas Duas Palavras, e o amigo João Barreto, com O "gozar sem entraves" e a tragédia egoísta.

Sugiro, portanto, que dêem uma olhada na pimenta toda e no bom trabalho da Renata.

"Lamente-se pelo homem"

Embora o livro estivesse na estante já há alguns meses e a vontade de lê-lo fosse crescente, só o retirei de seu repouso entre Wilde e Burgess na semana passada ou na anterior e findei a leitura ainda ontem -- feita durante aulas, nos seus intervalos e no ônibus --, e senti-me estranha e repentinamente eufórico, ligeiramente apático e um tanto pensativo. Falo de On the Road.

Não pretendo resenhar o livro ou justificar todas as minhas sensações e impressões, apenas comentarei algumas delas, pois há resenhas e boas análises aos montes por aí.

Eu já havia passado por Jack Kerouac antes, primeiramente com Os Subterrâneos -- um choque pelo ritmo dos parágrafos intermináveis e detalhados-- e depois com o melancólico Tristessa -- que, entre outras coisas, consolidou minhas intenções de pisar em solo mexicano algum dia desses. Menos frenético que o primeiro e mais complexo que o segundo, a bíblia dos beats imprimiu-me diversos humores enquanto Sal Paradise e Dean Moriarty estendiam polegares na beira das estradas para descolar uma corona, enquanto se metiam em ônibus ou dirigiam país afora pegando outros caroneiros e percorrendo milhares de quilômetros entre o Atlântico e o Pacífico.

On the Road

Mapa desenhado pelo próprio Kerouac. Mais info aqui.

O impulso de também querer lançar-me na estrada já era esperado e veio tão logo Sal resolveu se mandar para o Oeste. A empolgação de Dean contagia, torna-se incômoda, meio infantil, mas depois volta a cativar e a solidão inevitável nas vastas planícies, sob o sol ou céu estrelado, e o calor e o vento e a velocidade, é algo que te toca de alguma forma e chega a sugerir que não importa para onde as estradas te levem ou com quem percorremos todo o caminho: estamos sempre sozinhos.

E a frase que me derrubou de fato está logo no início da quinta parte, quando nosso narrador está de volta às ruas desertas da noite de Nova York, gritando para a janela de um prédio onde imaginava que seus amigos estavam e eis que dela surge uma linda garota, como ele nos diz, perguntando quem ele era: "'Sal Paradise', disse eu, e ouvi meu próprio nome rossoar na rua melancólica e vazia." E é como se eu o tivesse feito e sentido essa mesma punhalada.

Daí pra frente as páginas foram viradas rapidamente e aí eu já estava no posfácio do tradutor (Eduardo Bueno, edição pocket da L± excelente tradução), um texto apaixonado que termina de modo simples e profundamente sincero, reduzindo em duas palavras tudo o que resta para dizer no fim da estrada: "Thanks, Jack."

* * *

Cheguei a consultar um mapa dos EUA durante a leitura para ter uma idéia melhor de onde ficavam algumas das cidades citadas. Assim como o mapa acima, existem outros tantos que traçam a rota dos dois estradeiros.

O mapa abaixo, por exemplo, traz apenas o caminho e omite as cidades e o próprio mapa, mas transmite bem a magnitude da jornada. (E me parece invertido, não?)

On the Road

Desconheço o autor ou a origem.

Mas, sem dúvida, o achado mais legal foi este mapa do Google Maps com as marcações de todas as cidades pelas quais Sal Paradise passou, parou ou mencionou, além do modo como ele fez para chegar até elas (de carona, ônibus ou de outro jeito). E cada um dos pontos contém a citação correspondente no livro.

On the Road

Defenestração

Sei que este talvez seja um momento controverso, mas não tive outra alternativa senão vir até aqui quando me lembrei dessa crônica de Luís Fernando Veríssimo ao ver nos noticiários o que aconteceu com a garota Isabella -- aquela cujo caso todas as emissoras estão explorando de forma obscena e melodramática; basta ligar o televisor em qualquer canal.

Longe de mim fazer parte desse drama, repetir obviedades e mostrar-me revoltado: não me importo. Trago apenas o texto em questão, que é realmente muito bom, e contida nele, para os que ainda não entenderam, a sensacional conexão que fiz entre os fatos:

Defenestração

Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra. Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem, tudo se complicaria.

-- Os hermeneutas estão chegando!

-- Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada...

Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.

-- Alô...

-- O que é que você quer dizer com isso?

Traquinagem devia ser uma peça mecânica.

-- Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.

Plúmbeo devia ser um barulho que o corpo faz ao cair na água. Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração. A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um certo tom lúbrico.

Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres:

-- Defenestras?

A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam.

Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais. Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? "Nestes termos, pede defenestração..." Era uma palavra cheia de implicações. Devo até tê-la usado uma ou outra vez, como em:

-- Aquele é um defenestrado.

Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a palavra exata. Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. "Defenestração" vem do francês "defenestration". Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela.

Ato de atirar alguém ou algo pela janela! Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração?

Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo.

-- Lês defenestrations. Devem ser proibidas.

-- Sim, monsieur le Ministre.

-- São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios.

-- Sim, monsieur lê Mnistre.

-- Com prédios de três, quatro andares, ainda era possível. Até divertido. Mas, daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: "Interdit de defenestrer". Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos.

Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez ainda persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes.

-- É essa estranha vontade de jogar alguém ou algo pela janela, doutor...

-- Humm, O Impulsus defenestrex de que nos fala Freud. Algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar -- diz o analista, afastando-se da janela.

Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada. Na lua-de-mel, numa suíte matrimonial no 17º andar.

-- Querida...

-- Mmmm?

-- Há uma coisa que preciso lhe dizer...

-- Fala, Amor

-- Sou um defenestrador.

E a noiva, em sua inocência, caminha para a cama:

-- Estou pronta para experimentar tudo com você! TUDO!

Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e babulcia:

-- Fui defenestrado...

Alguém comenta:

-- Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela?

Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.

Não consegui encontrar a crônica num site "oficial" ou qualquer coisa assim, então simplesmente copiei uma das muitas cópias que existem por aí. Se alguém souber de um link confiável que eu possa citar aqui, agradeço.

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