pela primeira vez estou fazendo uso SÉRIO de uma série de scripts que vim escrevendo para emular CUT-UPS, randomizar algumas coisas & ADUBAR idéias. é uma experiência muito interessante, mesmo sendo pouco produtiva (por motivos óbvios).
mas, antes disso, a motivação me surgiu do acaso, de um monte (muitas mesmo) de linhas desconexas que fui vomitando ao longo do mês de novembro enquanto CACHIMBAVA uma certa planta & ingeria álcool até diluir toda minha coordenação motora - desnecessário dizer que o resultado disso é uma grandessíssima merda, completamente ilegível, mas estamos aqui falando de INSPIRAÇÃO e não de "versões finais" ou etc.
agora, junte todas essas milhares de frases aleatórias & aplique algumas doses de dadaísmo.
DEAD DOG BLUES: imagens & passagens curtas, flashes diversos, trechos de músicas e até mesmo alguns traços de personagens. tenho a impressão de que, pela diversidade do INPUT, o output daria um ROTEIRO melhor que um CONTO. e cheguei a rascunhar algo híbrido, ou melhor, tentei encadear - de modo não-linear - tudo o que pude extrair e por ora estou quebrando a cabeça com este MONSTRO que criei.
também já retalhei a maioria dos meus textos em busca de mais INSUMOS & escrevi um outro script para buscar imagens (flickr & google imagens) com base nas palavras-chave que extraí com outro pequeno script. é algo bastante trabalhoso, mas amplia teu horizonte de referências, nem que seja para descartá-las depois. o verdadeiro trabalho braçal, no entanto, é reler tudo (sempre), escrever pra caralho, pescar o que presta & voltar a escrever.
o motorista ajudou-nos a entrar para o banco de trás. a limusine deslizou lentamente para trás, os garotos acompanhando ao longo da cerca. diabos, em breve eu estaria morto e a metade deles se sentaria diante de processadores de textos escrevendo merdas inimaginavelmente ruins.
You're slumped in front of a screen, in the same physical situation as a TV watcher, you've just added a typewriter. And you're "interactive." What does that mean? It does not mean community. It's catatonic schizophrenia. So blah blah blah, communicate communicate, data data data. It doesn't mean anything more than catatonics babbling and drooling in a mental institution. Why can't we stop? How is it that five years ago there were no cell phones, and now everyone needs a cell phone? You can pick up any book by any half-brained post-Marxist jerkoff and read about how capitalism creates false needs. Yet we allow it to go on.
fazia tempo que não pegava um livro por puro acaso - achei num sebo por poucos reais - e o lia com alguma surpresa. e aí, ainda no meio da leitura, deparo-me com o parágrafo seguinte, do Grande Gatsby, que achei absolutamente genial:
certo dia de outubro, em 1919 - disse Jordan Baker aquela tarde, sentada muito ereta numa cadeira de espaldar reto, no tea-garden do Plaza Hotel - eu caminhava de um lugar para outro, ora sobre a calçada, ora sobre o gramado. sentia-me mais feliz sobre o gramado, pois calçava sapatos vindos da Inglaterra, com sola de borracha granulada que "agarravam" o chão macio. vestia também uma saia nova de tecido axadrezado, que se agitava um pouco ao vento e, quando isso acontecia, as bandeiras vermelhas, azuis e brancas, hasteadas em todas as casas, se distendiam, empertigavam-se, produzindo um tut-tut-tut-tut de desaprovação.
fica melhor se você souber umas coisas sobre Jordan Barker, principalmente o que o narrador pensa dela.
o interessante (pra mim) é que toda a LANGUIDEZ e outros traços que a definem são os mesmos aos quais recorro nalgumas idealizações femininas que faço ou que escrevo ou que busco por aí - como os amigos já devem ter notado. numa frase, ele resume tudo: "a desonestidade, numa mulher, é coisa que a gente jamais censura profundamente..."
tome ao pé da letra ou relativize: dá pra derivar MUITA coisa daí. (algo a ser destilado noutro post.)
e na seqüência desta frase, há um diálogo:
- você guia pessimamente - protestei. - você deve ter mais cuidado, ou então deixar inteiramente de guiar.
- eu sou cuidadosa.
- não é.
- bem, as outras pessoas o são - disse ela, despreocupadamente.
- que é que isto tem a ver com o caso?
- elas saem do meu caminho. é preciso que haja duas pessoas para que ocorra um acidente.
- suponhamos que você depare com alguém tão descuidado quanto você.
- espero que isso jamais aconteça - respondeu ela. - detesto gente descuidada. por isso é que gosto de você.
seus olhos cinzentos, um tanto contraídos, fitavam o caminho, mas ela havia, deliberadamente, modificado o caráter de nossas relações - e, por um momento, julguei que a amava.
ou um post proto-didático onde expresso meu gosto por coisas aleatórias, experimentalismos, Burroughs & etc.
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cut-ups são um negócio divertido, pero mui trabalhosos. a diversão está justamente na essência: recortar & colar. a leitura do nonsense total, resultante do processo, também costuma ser engraçada dependendo do método empregado.
o problema é o trabalho braçal necessário. quero dizer, em geral são dois trabalhos: 1º) ler a colagem e escrever o resultado, arrumando palavras pela metade e etc; e 2º) reescrever várias vezes o texto obtido até que ele tome a forma desejada (ou algo assim).
e há um passo (3), opcional, que é recortar & colar esse texto reescrito, mas aí você tem que repetir o passo (2) e vai te dar, no mínimo, o dobro de trabalho.
mas o momento crucial é justamente o primeiro: ler a colagem sem sentido e reescrevê-la de forma legível, sem questionamentos sobre forma ou coesão. é tão somente a transcrição da IMPRESSÃO causada pelo encadeamento de recortes. não tente arrumar muito.
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existem vários jeitos de fazer um cut-up. os principais: recortar cada palavra, linha, parágrafo ou quadrante do texto; daí embaralhar e juntar tudo de novo. simples.
porém, na maioria dos casos, o resultado da colagem por palavras não compensa o esforço de fazê-lo. é comum você sair com uma seqüência de artigos e pronomes numa mesma linha e isso te obriga a pensar mais que o NECESSÁRIO na hora da leitura.
embaralhar todas as linhas de um texto costuma ser mais interessante. geralmente vale a tentativa.
fazer recortes por parágrafos só vale a pena se eles forem curtinhos ou se o texto ajudar, senão o resultado será apenas uma versão mais confusa do original.
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devo dizer que o primeiro cut-up que fiz foi uns anos atrás, junto de mais dois amigos, para gerar dois monólogos para um curta-metragem que filmamos. estávamos no colegial e eu sugeri, influenciado por uma menção de Tristan Tzara na aula de literatura, que recortássemos o APOCALIPSE para criar nossos textos.
a bíblia POCKET, única que encontrei, era da minha irmã -- ganhara na escola. estranhou o pedido: "mas pra que VOCÊ quer a bíblia?" "vou recortar umas partes," eu disse. ela negou. argumentei: "você nem vai ler isso aí. e vai ser só o apocalipse."
como as letrinhas eram muito pequenas e o texto divido em duas colunas por página, recortamos bloquinhos de 3 linhas e jogamos tudo num saco plástico. após um ligeiro chacoalhar, fomos colando os papéis de qualquer jeito numa folha em branco. aí bastou uma leitura rápida em voz alta, enquanto o outro digitava o que era dito, e pronto. ficou lindo.
o curta, hoje, me dá uma certa vergonha, mas os dois momentos dos monólogos profetico-dadaístas são fantásticos.
ah, e o filme finda com a pequena bíblia EM CHAMAS ao som de um samba.
minha irmã acabou gostando.
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mas voltemos aos métodos de cortar -- e talvez alguém se pergunte se é daí que vem a menção à navalha; ao que eu respondo que não, não é.
o método do quadrante é o mais profícuo, mais simples e mais rápido. basta dobrar a folha no meio, depois dobrar de novo, recortar na dobra e embaralhar. a sacada aqui é que as frases serão cortadas na metade e, ao juntar com outras metades, elas ganham um sentido novo sem perder sua estrutura. ou seja, o resultado passa a ser um punhado de frases mais ou menos coesas, fáceis de ler, mas bem diferentes do original.
William Burroughs costumava utilizar este método e no vídeo abaixo há uma breve demonstração do processo.
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em verdade, há infinitas maneiras de retalhar um texto e juntar seus pedaços. ou colar fragmentos de vários textos diferentes. ou aplicar alguns desses métodos em série.
é importante deixar claro que a colagem em seu estado bruto é quase sempre um LIXO por causa da falta de nexo. e não há, de fato, um processo criativo no ato de recortar, colar e transcrever: é trabalho braçal puro e simples, com uma grande dose de ACASO e uma pitada de subjetividade na hora da leitura.
o atrativo dessas técnicas, além -- para alguns -- da diversão meio infantil do trabalho manual, é utilizar os cut-ups como base, como fonte de INSPIRAÇÃO, pois a colagem, aqui, não passa de um cenário possível, de uma idéia (ou várias) que muito provavelmente você não teria ou da sugestão de situações e cenas que fogem completamente dos padrões.
quando não conseguir escrever ou quiser apenas EXPERIMENTAR, reúna seus papéis, recorte & cole. pode não te ajudar em nada, mas pode te dar novas idéias.
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e você não precisa, necessariamente, de papel, tesoura e cola. é fácil de encontrar por aí alguns simuladores desses processos, onde você cola o texto e o computador faz o resto pra você, como o cut-up machine, por exemplo. este site, aliás, tem uma infinidade dessas coisinhas dessa pra brincar.
tenho aqui, também, uns vários programinhas cheios de bugs que escrevi pra processar textos -- em especial um que emula exatamente o método do vídeo -- e que me são úteis de vez em quando.
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então, um resumo rápido:
quando estiver sem idéias, recorte, cole & leia;
as colagens em si são uma bosta, você tem que reescrever muito; e
apesar de trabalhoso, pode te dar boas idéias (ou não).
Pois é sinal de bom gosto, ou de qualquer preocupação estilística, que aqueles traços estejam lá justamente daquela forma para não te agradar por completo e para criar um certo mistério sobre o que está debaixo da contracapa. Pois houve, mesmo que mínimo, um esforço para criar aquela coisa que te atrai ou incomoda e é a partir daí que você encadeará uma porção de coisas, antes desconexas, para a frustração por vir. E essa frustração, vos digo, é linda.
Aquela corrente de expectativas que se rompe logo no primeiro parágrafo ou nos primeiros minutos da música é o que te dará o, vá lá, estado de espírito com o qual você irá começar a desbravar a coisa inédita, mas que não chegará contigo até o fim. Daí penso que as capas de todas as coisas deveriam ser completamente diferentes e, ao invés de representar parte do conteúdo, passassem a ser a expressão máxima de um pequeno detalhe, talvez até irrelevante, apenas para interferir no teu julgamento inicial e te influenciar nos primeiros instantes. Títulos são bons para isso também, mas imagens e ilustrações têm um potencial muito maior.
Penso agora, para não deixá-los sem um exemplo, n'O Jogador e em como seria muito mais interessante se em vez das referências óbvias à roleta e cassinos estivesse estampado na capa um rascunho trêmulo do vertiginoso relevo do Schlangenberg, de onde o narrador premete se lançar se Paulina assim o quiser. Ou uma cadeira de rodas, sem revelar quem a ocupa. Ou um gigantesco número zero. Ou tudo completamente vermelho, um vermelho vivo, sem desenho algum.
A representação pura e simples do enredo, ainda que vaga e pouco reveladora, parece ser sinal de falta de criatividade ou da própria noção de como uma capa é importante, de como a SUGESTÃO é algo essencial e que não raro determina se você um dia irá mesmo abrir aquele livro, se chegará até o final e o que irá te restar quando as páginas começarem a amarelar na estante.
O mais enigmático, obscuro, artístico e positivamente frustrante, melhor. Sempre.
As gotas de água de uma catarata estrepiosa se dissipam como pó com a rapidez de um raio; mas o arco-íris, do qual elas são como que o suporte, está fixo em tranqüilidade inabalável, completamente intacto a essa mudança ininterrupta; do mesmo modo, cada idéia, isto é, cada espécie de ser vivente, persiste por completo intocada pela sucessão contínua dos indivíduos que ela encerra. A idéia, ou a espécie, é a raiz, o lugar onde se manifesta a vontade de vida: é o único elemento cuja duração importa verdadeiramente à vontade. Os leões, por exemplo, nascerão e morrerão; eles são como as gotas da cascata, mas a leonitas, a idéia ou a forma do leão, é equivalente ao arco-íris imutável que está acima da queda d'agua. Por isso para Platão somente as idéias, isto é, as species, têm como atributo uma existência verdadeira; quanto aos indivíduos, cabe-lhes apenas um nascer e perecer incessante. Dessa consciência mais íntima e profunda de sua natureza imperecível, deriva também a segurança e a tranqüilidade de ânimo com a qual todo indivíduo, animal ou mesmo humano, caminha sem inquietação por entre mil perigos capazes de destruí-lo a todo momento, e que, ademais, o levam ao encontro da morte. No entanto, em seus olhos brilha a calma da espécie, à qual o desaparecimento do ser não afeta nem importa. Nem os dogmas incertos e mutáveis poderiam dar essa calma ao homem.
Li esse texto ("Da morte e sua relação com a indestrutibilidade do nosso ser-em-si") pela primeira vez uns 3 anos atrás e julgo-o sensacional.
Porque tenho pensando excessivamente nessas coisas, a ponto de me sentir freqüentemente atormentado por elas. A releitura, antes de trazer qualquer resposta, me bombardeia de outras tantas perguntas e amplia o horizonte do questionamento. É bom.
A convicção profunda da indestrutibilidade de nosso ser pela morte, que cada um traz no fundo de seu coração, como atestam os escrúpulos de consciência sempre invitáveis quando se aproxima o derradeiro instante, essa convicção, como disse, depende fortemente da consciência de nossa natureza primitiva e eterna. (...) Com efeito, por se acreditar imperecível, o homem dotado de razão se crê como se não tivesse tido começo, como eterno; em uma palavra: independente do tempo. Quem, ao contrário, se toma por um ser que surgiu do nada, tem de pensar também que retornará ao nada; pois imaginar que uma infinidade de tempo tivesse transcorrido antes que ele fosse, mas, depois, uma segunda infinidade tenha começado, durante a qual ele não cessará jamais de ser, é um pensamento monstruoso. (...) Mas para quem considera o nascimento do homem como o seu começo absoluto, a morte tem de ser o fim absoluto; pois os dois são aquilo que são no mesmo sentido: por conseqüência, só se pode pensar em si mesmo como imortal, se se pensar como não-nascido, e no mesmo sentido. O que é o nascimento, é isso também o que é a morte, na sua natureza e no seu significado; é a mesma linha traçada em duas direções. O primeiro é um real surgir do nada, e a segunda é também uma efetiva aniquilação. Mas, na verdade, a eternidade do nosso ser é o único modo de pensar a imutabilidade; esta, portanto, não é temporal. A hipótese de que o homem é criado do nada conduz necessariamente à de que a morte será seu fim absoluto.
A metáfora do arco-íris é genial. O texto todo, aliás, que é um suplemento ao livro quatro da obra "O mundo como vontade e representação", é repleto delas. Eu costumo recomendá-lo acompanhado de vários e vários adjetivos. Mas acho que já deu pra entender.