Um quis morrer pelo rock, o outro morreu de aneurisma e o terceiro é uma mistura de caju, leite condensado e vodka. Para encontrar os três, bastava seguir até uma praça, achar uma porta, descer escadas e ganhar um carimbo no braço por cinco reais. O amigo caju custava três, David era o nome e Sidney, anônimo, ecoou duas vezes. Cantei alto, aí. Poderia acrescentar que passava das três da manhã, mas não tenho certeza. Em fins da década de 80, boates GLS eram o único palco para quem arriscasse um pós-punk sem floreios ou qualquer coisa mais diferente. Do mesmo modo, nos metemos ali pra ouvir essas coisas no lugar certo - mas em gravações.
Não gastei nada com o caju: as pessoas que tinham dinheiros e copos plásticos com canudos iam nos oferecendo, dizendo que era bom. Realmente era. A vodka parecia escondida demais, no entanto. Bebi e fumei tudo o que me deram. As pessoas são boas.
Fiquei sabendo por três vezes em dez minutos da existência de punks 77 na XV. As mesmas frases, três vezes. Sujeito politizado, ele. Fui concordando. (Ofereceu caju - todo mundo comprou a porra do caju - e voltamos pra dentro, nós todos.) Faltavam umas garotas ali. Dentro e fora; naquela região toda. Elas dormiam ou dançavam em outros lugares. Mas atrás do balcão, aquela mestiça de vinte e tantos anos sentada sobre a mesa, cabelos bem pretos pouco abaixo do queixo, com uma saia jeans curta, exibia suas pernas gratuitamente. Ela, sozinha, compensava a ausência das outras. Goles da última cerveja e partimos pra nunca mais.