categoria ~ Meu Reino por um Cavalo

3 de dezembro, 22h05, termino um cigarro sentado numa das incontáveis cadeiras vermelhas alinhadas cartesianamente naquela rodoviária circular de grande raio e jardim com presépio no meio. Na borda da circunferência, ônibus e mais ônibus tentando penetrar a 45 graus neste imenso óvulo concretáceo - não conseguem, claro, e a coisa toda fica com o aspecto de uma gigantesca engrenagem com vários dentes faltando.

Então ouço: "jovem, conhece aquele frase de Shakespeare: meu reino por um cavalo?" Era um velho com um uma mala nos ombros e um cigarro apagado na boca. Dei-lhe a brasa. "Olhei em volta," ele foi dizendo, "e pensei: será que sou o único fumante?"

Desejamos boas viagens e natais felizes.

É importante ter um porto-seguro quando o sol azimutal racha e castiga quem se aventura a buscar comida logo após o despertar. Ter um refúgio à sombra enquanto o asfalto queima ao lado é um bom sinal em qualquer cultura que se preze. Alimentar-se com frituras, assados e sorver uns miligramas de açúcares invertidos faz parte da finalização de um ritual iniciado horas antes - quando a noite era jovem e os sorrisos eram fáceis. Poder sentar-se de qualquer jeito para renascer menos miserável e com algo na barriga - tudo isso é muito importante.

Entender o balcão como altar também é parte crucial do interminável processo de sorver etílicos e ver duplos, e algo inerente à redenção de quem se ajoelha, empunha um pastelzinho frio às 14h23 e jura que tais coisas jamais irão se repetir - mas às 21h37, todos sabem, a terceira garrafa é vencida sem remorso algum. É inevitável.

No Engenho, compra-se uma nova vida por cerca de R$3,75. Um cigarro avulso, R$0,25.

É justo.

Um quis morrer pelo rock, o outro morreu de aneurisma e o terceiro é uma mistura de caju, leite condensado e vodka. Para encontrar os três, bastava seguir até uma praça, achar uma porta, descer escadas e ganhar um carimbo no braço por cinco reais. O amigo caju custava três, David era o nome e Sidney, anônimo, ecoou duas vezes. Cantei alto, aí. Poderia acrescentar que passava das três da manhã, mas não tenho certeza. Em fins da década de 80, boates GLS eram o único palco para quem arriscasse um pós-punk sem floreios ou qualquer coisa mais diferente. Do mesmo modo, nos metemos ali pra ouvir essas coisas no lugar certo - mas em gravações.

Não gastei nada com o caju: as pessoas que tinham dinheiros e copos plásticos com canudos iam nos oferecendo, dizendo que era bom. Realmente era. A vodka parecia escondida demais, no entanto. Bebi e fumei tudo o que me deram. As pessoas são boas.

Fiquei sabendo por três vezes em dez minutos da existência de punks 77 na XV. As mesmas frases, três vezes. Sujeito politizado, ele. Fui concordando. (Ofereceu caju - todo mundo comprou a porra do caju - e voltamos pra dentro, nós todos.) Faltavam umas garotas ali. Dentro e fora; naquela região toda. Elas dormiam ou dançavam em outros lugares. Mas atrás do balcão, aquela mestiça de vinte e tantos anos sentada sobre a mesa, cabelos bem pretos pouco abaixo do queixo, com uma saia jeans curta, exibia suas pernas gratuitamente. Ela, sozinha, compensava a ausência das outras. Goles da última cerveja e partimos pra nunca mais.

Aprendi com esta garota, sem que ela soubesse ou sequer desconfiasse, que jogar bem é menos importante do que saber COMO jogar. Isto quer dizer: uma vitória com as bolas está abaixo do sucesso com o taco, pois curvar-se o bastante para tacar e atrair olhares, bater forte e não sorrir após o acerto é algo que, se não vale uns pontos, te dá vantagens. Em verdade, não saberia dizer se ela de fato tinha a destreza necessária para meter as bolas nos buracos - tanto fazia - ou se suas colegas, invisíveis, dominavam o jogo: ia caminhando sobre elas e desfilando com o pedaço de madeira. E vencia.

Óbvio que numa mesa de mulheres o constante debruçar de um corpo delgado sobre o pano verde é algo que, na maioria dos casos, passa praticamente despercebido e por mais que ela dançasse com aquele objeto, só desarmava a nós, ébrios espectadores, que acompanhávamos de longe não a disputa, mas este baile todo, e com dificuldade para evitar suspiros.

Mas as mesas da madrugada seguinte não eram tão interessantes. Saímos depois de uma garrafa e no caminho fui dizendo que eu queria uma garota - rangendo os dentes e batendo com força os dedos na testa - "que tenha algo aqui dentro." Daí uma ligeira catarse e um bom conselho.

Polegares pra cima no meio-fio de sexta-feira e saltamos no terceiro ou quarto carro que resolveu reduzir e destravar a porta, extravasando para aquela manhã um compacto de '91 em volume suficiente para que tomássemos "sob um céu de blues" por "super sad blues" - o que fazia todo o sentido, também. Impossível prever que dali a 21 ou 22 horas eu despertaria num banheiro. Ou que veria o Sábado reazular o céu que já era azul e foi mudando. Mas vi.

Sobre esta memória que não tenho: travesseiro ovalado de porcelana branca usado a noite inteira para outros fins; o mundo que gira num colchão, não gira ali. Ombro amigo sanitário, por suposto. Cito o mestre: "My head is spinning round, my heart is in my shoes, yeah." Corta. Avança para: "Well I said anywhere, anywhere, anywhere I lay my head, boys, I gonna call my home." E estamos explicados - desde então, é minha música tema. Toda ela.

Sobre memórias soltas que tenho: sujeito se apresenta como "maloqueiro profissional" e me pede um cigarro - depois outro - e agradece; A Ass Pocket of Whiskey praticamente no repeat; a polícia passa devagar por nós, duas vezes; cinco minutos de jazz por R$5,00; Jimi Hendrix tocando numa república no fim da madrugada; arco-íris ao entardecer quando fui comprar cigarros e descobrir que ônibus tomaria; colherada de brigadeiro; todo o sketch da árvore de natal da peça; um milhão de baratas no muro e na calçada do cemitério; as garotas de saia curta (várias); cigarro que acendi pelo filtro; a baixista do Sonic Youth que trabalhava no bar; avenida Higienópolis; última garrafa de cerveja, rumo à rodoviária.

Quando notei, havia amanhecido. E eu estava em casa.

Primeiros passos em chão vermelho e uma ligeira celebração, à trote, entornando ruivas devassas e tomando atalhos por ruas centrais a fim de esquivar-nos do sol poente a nos cegar em sua retirada escarlate. Carros resmungam, pessoas buzinam e ninguém mais empunha garrafas e lança cigarros ao chão: o faço porque posso.

Há sangue nos trilhos: 1975 de volta na sua (minha) cara sem riscos ou rasgos que lhe revelem a idade - releva-se, isso sim, o constante amarelar da capa e o diâmetro avantajado da mídia. Dez dinheiros para sentir ranhuras e ondas sonoras que estão ali de fato - e não na sua cabeça. Pelo mesmo preço, noutro lugar, tem-se um salgado gorduroso, duas cervejas e o pau marcado pelo batom da dona Norma. Tudo ao mesmo tempo.

Preferi a música.

Antes, morri com R$3,50 num isqueiro azul, elétrico, na tabacaria da rodoviária. A mulher me convenceu de que era o mais barato. Sete dias depois, me vi arremessando aquela merda numa encruzilhada. Aí comprei fósforos - uns quarenta deles - e fui feliz. O que diz muito.

Terça-feira, por volta das 3 AM: B.B. King a escorrer das caixas de som ladeadas por garrafas de destilados, nós ao balcão, bebendo mil copos e fumando mil cigarros. Garotas jogam sinuca. O Rei, então, diz:

You need meat, go to the market
You need bread, try the bakery
If you need love, baby
Don't go no further
I got just what you need.

Quarta-feira, por volta das 2 AM: Cyndi Lauper a ecoar pelos espaços deste mesmo bar, sim. Nós numa mesa, uns poucos copos, outro milhar de cigarros. Garotas riem, garotas sinucam, garotas encaçapam, garotas se beijam.

Oh, girls just want to have fun.

Não há nada mais natural que a colagem. Não há nada mais belo que uma colagem.

Tente parir algo do zero ou meter a mão na cabeça em busca de novidades e isto será um fracasso. Agora disponha de diversas idéias que lhe dizem algo, de coisas entreouvidas, de sons e sensações que você, de algum modo, assimilou e guardou contigo. Se há algo que só você pode fazer, é misturar tudo isso: recortar e colar versos sobre outras estrofes, colorir espaços e criar pontes, brincar com perspectivas e alterar velocidades. Meter a mão na cabeça e utilizar tudo o que você puder agarrar: talvez não haja nada tão original quanto lançar tua subjetividade sobre um todo comum e dizer o que vê. Mostrar o que vê. Cantar o que vê. Ou o que sente. Ou o que finge sentir.

Até mesmo uma mentira pode ser uma expressão sincera e nova. Basta juntar tudo e ver o que te parece.

Feito isso (ou antes disso), mete a mão nas prateleiras e alinha teus destilados. Serve um pouco de tudo nos copos pequenos. Serve os amigos. Ri com eles. Entorna, repete e cola.

Posto que não nascemos adultos, todo homem é criança. Posto que somos artistas, todo freezer vermelho é um palco. Posto que a lógica nos endireita, tudo que é orgânico nos cativa ou nos assusta, mas invariavelmente nos atrai. Torna-se adulto aquele que resolve empunhar uma garrafa diante de uma briga - seja para bebê-la ou para quebrá-la, seja para lutar consigo ou com os outros. Torna-se maior quem ri de si mesmo e lança todos ao inferno. Torna-se melhor quem se levanta sozinho e segue em frente.

Outra: quem dança, vence. Sozinho ou acompanhado, de olhos abertos ou fechados, sem jeito nenhum ou com toda a beleza daquela garota magra de cabelos pretos a esticar os braços para cima e rebolar os quadris com a barriga a mostra - blusa curtinha, bege, sem mangas -, num jeans com lycra azul escuro; sorriso no rosto, olhos fechados e uma caneca de metal na mão esquerda, meio cheia de cerveja ou qualquer coisa; ela a dançar e a lançar os cabelos meio curtos também numa dança sobre a própria face, no meio de todos e de frente para a banda que toca qualquer coisa que ela sabe cantar. E dançar. Pós-punk sujo, gritado, caótico, manjado.

Ou Madonna sobre um freezer de cerveja.

Ninguém tem epifanias pela manhã. Nem à tarde. Alguns as têm à noite, quando as coisas vão se acalmando ou enquanto a água quente do chuveiro lhes escorre pelos corpos cansados com alguma particularidade. Mas quando o dia vira, o relógio zera e quase todo mundo dorme, as chances de tropeçar em algo invisível, seja um paralelepídedo fora de lugar ou uma raiz que emerge do concreto, e ter suas sinapses reordenadas, alteradas, CRIADAS em cadeia e num instante, são bem maiores.

Ou então você se senta diante de uma gigantesca concha sem pérolas e encaixa seus neurônios manualmente, uns nos outros, com um cigarro prestes a apagar entre os dedos da mão direita e uma cantilena ruidosa entre dentes a anunciar as novas ligações e expansões do teu espectro horizontal, que te permitem, por alguns segundos que sejam, ver tua vida de cima e compreender algumas coisas.

E, na madrugada seguinte, você lança socos contra todas as árvores da curvilínea JK, sempre sorrindo, como quem acaba de descobrir alguma grande verdade sobre si mesmo.

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