aproveitando o embalo temático & algumas horas livres que tive nos últimos dias, resolvi montar um set com as músicas mais apologéticas que encontrei por aqui. um junky set. na verdade, não fui atrás de nada que já não tivesse, simplesmente fui buscando e ordenando - o que justifica ausências do tipo, hm, planet hemp, por exemplo. na real, acho que é uma playlist mais engraçada que qualquer outra coisa.
curitiba, março de 2006: me mudei para um kitnet com cama e mais nada. nem mesa, nem cadeiras, nem fogão - quer dizer: fogão, geladeira, pia e armário num pequeno móvel/amálgama metálico de uns vinte anos; usava uma prateleira do guarda-roupas sobre as duas bocas do fogão pra improvisar uma mesa e fazia o contrapeso com caixas de leite ou garrafas. comia de joelhos ou na cama. hm. aí umas semanas depois arranjei uma televisão, 14 polegas, porque não dava pra ficar lendo o tempo todo - até tentei. troca-se facilmente a dignidade para se livrar do tédio.
depois de muita tv aberta, apareceu um sujeito da NET pra instalar OPÇÕES e numa noite vi esse O SIGNO DO CAOS, do Sganzerla, começando no Canal Brasil - "o anti filme" (sem hífen), segundo os créditos iniciais. e enquanto DOUTOR AMNÉSIO & seus capangas fazem de tudo para censurar um filme, e entre vários bons diálogos, o que COME ao fundo é o jazz caótico de Charles Mingus. não sabia que porra era aquela, mas precisava ouvir de novo - e ouvir melhor. esperei pelos créditos finais e anotei o nome no canto do caderno.
[ são as únicas músicas do filme. ]
então hoje, no finzinho da tarde e sob um céu azul-escuro, me cai o Track A - Solo Dancer, primeira faixa do disco, e me vejo girando o botão do volume - devagar e indefinidamente. muito tempo sem ouvir e novamente surpreendido por aqueles metais que se lamentam, e suspiram, e vão chorando e GRITAM e depois aceleram pra correr cada um pro seu lado, mas mais ou menos na mesma direção. várias vezes.
lembro que assisti ao filme outras três vezes no espaço de uns meses - e a segunda foi naquela mesma semana, numa reprise. e não só isso: the black saint and the sinner lady deve ter sido um dos primeiros discos de jazz que escutei.
caralho, faz três anos e parece que faz bem mais.
[ é a camila pitanga. uma pena que minha cópia seja uma merda. ]
deal out jacks or better on a blanket by the stairs
I tell you all my secrets, but I lie about my past
so send me off to bed
forever more.
[continua aqui, por mais uns dois minutos, com Time. 1986.]
posto não só pela referência temporal ali no início, mas por tê-la bradado um bocado por aí. naquelas. "just make sure they play my theme song." e é bem isso.
da lista que fiz no meio do ano, sobrou pouco. e nos últimos seis meses vi agigantar-se de tal maneira a OFERTA de discos que, depois de um tempo, resolvi ignorá-los e ficar fuçando na minha própria coleção. ouvi poucos que saíram neste período.
em ordem decrescente da quantidade de vezes que escutei, acrescento estes três: À Espera de Tom, do Carlos Careqa (muitas vezes); Roll With You, do "Paperboy"; One Kind Favor, do B.B. King.
há também o volume 8 do Bootleg Series do Dylan, Tell Tale Signs, disquinho duplo (ou triplo, numa edição limitada), que é uma coisa linda. disputaria a cabeça da lista se eu fosse tentar ordená-la.
se não contei errado, deu um top 5 - ou top 9, acrescentando os outros que citei; bah, fica então um top 10 se somar o dylanesco Shallow Grave.
e feito. 10 discos: uma lista mais honesta que a outra, já que todos eles rodaram umas duas ou três vezes aqui nas caixas.
talvez faça um ano ou dois desde a primeira vez que trombei com o Flags of the Sacred Harp, disco de 2005 do JACKIE-O MOTHERFUCKER, e fui, de certa forma, seduzido pela primeira faixa. por várias vezes procurei vídeos, mas sem sucesso. aí depois de vários meses sem procurar nem ouvir nada, escutei uns dois ou três discos de ontem pra hoje, arrisquei uma nova busca e finalmente encontrei um registro da música NICE ONE, que vocês vêem aí em cima.
os caras precisaram ir pra TÓQUIO até que alguém resolvesse filmar um pedaço do show, em especial essa música, e postar no youtube. essa versão é bem inferior a do disco, mas achei ótimo poder vê-la sendo executada.
não há muita informação sobre eles por aí, mas a banda surgiu em Portland, 1994, com Tom Greenwood nas guitarras e percussão e Nester Bucket com um saxofone. então foi inchando e hoje é mais ou menos um coletivo de umas vinte pessoas (já foram QUARENTA) que se revezam entre discos e performances - o que explica tanto uma discografia grande para pouco mais de uma década de existência quanto as sonoridades diferentes de cada lançamento ou apresentação.
mas, antes de tudo isso e o motivo deste post, o que me incomodava era escutar NICE ONE sem saber quem era a garota que fazia aqueles vocais tão limpos e CERTOS. o vídeo, no entanto, lhe dá forma e uma guitarra, mas ainda falta um rosto e um nome. sei que dos comentários no youtube veio o nome de Inca Ore (aka Eva Saelens) que, apesar de uma boasurpresa, apareceu apenas no Valley of Fire e numa turnê européia. o nome de Honey Owens surgiu de uma pesquisa e depois de algumas fotografias, fez sentido - ela canta no Flags e no vídeo, portanto.
acabei encontrando, também, uma matéria com ela que tem umas informações interessantes, ainda que fale essencialmente do Valet e apenas mencione Jackie-O de passagem.
JOMF não é, na verdade, uma grande banda. mas tem seus bons momentos e acaba me agradando na maioria deles.
e chega a ser engraçado que toda a informação possível sobre eles esteja condensada numa massa de texto sem quebra de linha no detestável myspace. uma boa maneira de expor sua banda sem tirá-la do subsolo...
escutar discos por causa da capa costuma ser uma boa surpresa ou grande decepção. esta acima não diz quase nada sobre a música, mas fala muitas das coisas para as quais costumo ter ouvidos. destilá-la, aqui, é desnecessário - você que o faça aí - e o importante é apenas que Sonny Criss é um hard-bopper com bom fôlego pra investidas rápidas e longas e animadas, e inspirado o bastante pra fazer escorrer das caixas o feeling certo nas faixas mais lentas e intensas. o sax nunca pára, às vezes chora, resmunga, mas depois grita e corre e discorre apressadamente sobre tudo - não diz mais nem menos, mas te rouba a atenção. simplesmente vai. eis aí um belo acerto.