em 31 de março de 1979, Jamie Livingston -- que virou até verbete na wikipedia -- resolveu que ia tirar uma foto por dia. e foi o que fez até o dia 25 de outubro de 1997, quando morreu num leito de hospital.
os pouco mais de 18 anos de fotografias (na verdade, pelas minhas contas, faltam 86 fotos, mas ei) podem ser encontrados nesse site, criado por dois amigos dele.
o sujeito desse blog aqui, que encontrou o site e descobriu a história toda em maio passado (porque não há uma linha de texto junto com as polaroids), encadeia algumas fotos e conta a história do Jamie e tal. é bastante interessante. cliquem.
a que está aí em cima é a primeira foto tirada para o PROJETO. e a de baixo, a última.
Foi no começo de 2006, num cineclube que rolava no 8º andar da reitoria da UFPR, que tive meu horizonte cinematográfico consideravelmente expandido, especialmente por conta dos vários curtas concebidos pelo controverso CINEMA OF TRANSGRESSION, que emergiu da cena pós-punk novaiorquina circa 1984 até esgotar-se no início dos 1990; com a proposta de chocar, violentar o espectador ao transgredir tabus (a lista é grande) com câmeras baratas, orçamento baixíssimo e muito humor negro. Pornografia & violência totalmente THRASH.
Dos artistas envolvidos nessas transgressões, um dos nomes mais conhecidos é Richard Kern, que ingressou no campo artístico através da fotografia e que se meteu de cabeça no MOVIMENTO, tendo produzido mais de uma dezena curtas sob o estandarte erguido por Nick Zedd, com quem, aliás, divide a direção do emblemático THRUST IN ME (1985).
Em meados de 90, após o fim do COT, Kern ainda produziu alguns videoclipes, como Lunchbox -- e nessa época o Marilyn Manson era um tanto menos ANDRÓGINO -- e o sensacional Detachable Penis (vídeo acima), da banda King Missile. Também filmou, em 1985, o primeiro clipe do Sonic Youth, Death Valley '69 -- e a capa do disco EVOL (1986), vale dizer, é uma cena de You Killed Me First (1985), um dos primeiros filmes de Kern.
Feita a devida introdução, o que motivou este texto foram algumas polaroids até então não-publicadas, tiradas entre 1986-96, que são uma mostra interessante do trabalho de Kern, que abandonou o cinema e retornou à fotografia, cujo principal tema são nus feminos, bondage e fetiches diversos, mantendo um estilo derivado de seus filmes. Um aspecto importante na fotografia de Kern é que as modelos nunca são perfeitas, nunca são aquelas garotas sem defeitos que costumam ser as personagens da grande maioria de ensaios desse tipo. As garotas de Kern são garotas QUAISQUER, daquelas que te chamam a atenção na fila do supermercado ou na rua mas que não necessariamente te deixam embasbacado (ou pelo menos não nesses ambientes).
Mais recentemente, a Vice Magazine promoveu uma série de pequenos vídeos (entre 3 e 5 minutos), intitulada SHOT BY KERN, que contam com depoimentos dele e de suas modelos, antes, depois e durante os ensaios. Cada vídeo conta com uma garota (ou uma bela DUPLA) e cobre rapidamente os motivos que as levaram até lá, suas impressões sobre o trabalho e alguns comentários do fotógrafo. Afirmo que é um MUST-SEE para qualquer um que tem o mínimo de SIMPATIA por soft-core & stuff.
E digo mais: gotta love Sophie.
Behold the S-curve!
(Talvez o feed não mostre o vídeo da Sophie. Nesse caso, veja aqui.)
De volta à programação normal, devo dizer que minha fotógrafa preferia é, sem dúvida, a Ellen von Unwerth. Também devo dizer que desconfio não conhecer outras fotógrafas e que único nome que lembro agora é o do Raphael Class. Mas enfim, creio ser um tanto difícil rivalizá-la e mostrarei porquê -- e só o farei por causa da fotografia que vi aqui, ontem.
Foram, já há um bom tempo, algumas fotos do Revenge que me ganharam. Daquelas com as quais você tromba em todo lugar e custa a descobrir de quem e de onde são.
Aqui, servirão como único argumento:
"I love all the old pictures--of spanking and Bettie Page and corsets. But you can't do spanking in fashion, so I wanted to do a project where I could really let go and get girls who also love those things."
"I'm just trying to make beautiful pictures. I don't see my works as exploitative. They're just cheeky, they're fun, and the models aren't complaining."
Não leva muito tempo para familiarizar-se com as sombras, ângulos, temáticas e expressões, e se torna bastante interessante a tentativa de intuir a autoria de fotos espalhadas internet afora, pois há algo muito particular que todos esses punhados de pixel (& negativos) compartilham. Não porque os trabalhos sejam todos iguais -- não são --, mas pelo ESTILO. Há muito aí, acreditem.
De nada.
...
E aproveitando essa introdução não-intencional, modulada em R-rated (para que eu possa ir em direção ao X-rated, ainda que VERBAL), fiz meu priemiro post no Impop sobre a Karen Finley, cantora/atriz que me foi recomendada pelo Tiago dia desses. Vejam lá.
Sei que há ALGO aí, mas não poderia dizer o que é. Sei também que imagens costumam ter entrelinhas -- milhares delas --, coisas implícitas ou SUGERIDAS aqui e ali, e é por isso que, dizem, valem mais que um bocado de palavras.
O que vejo, e os psicanalistas de plantão que concluam o que quiserem, é apenas a mulher. Demorei, confesso, para notar o sujeito ao lado e para perceber que ele sorria um tanto envergonhado. Não vi o filme, pouco me importa o motivo do desconforto. Pois é o sorriso dela, sutil, um pouco forçado, aquele sorriso de compreensão, que me prende a atenção.
Porque, veja você, ela não está nem aí para os motivos também. Está pensando em outras coisas. E ouvindo. Não sei se tem segundas intenções, digamos, mais carnais, embora haja uma tensão sexual tão evidente e ao mesmo tempo tão repreendida que causa certo incômodo. Parece-me que está arquitetando alguma coisa, manipulando o sujeito, ou pensando em fazê-lo. Parece que quer se aproveitar da fragilidade emocional e o conforta, com a indiferença de quem não está dando muita atenção ao que é dito, passando-lhe a mão no ombro -- e a outra, perceba, está em repouso, mas pronta para tocá-lo no joelho ou envolver-lhe a mão direita, cobrindo o anel. Ou talvez ela vá pegar o papel que ele segura. Não sei.
A vontade de ver o filme diminui sempre que dou mais uma olhada nessa imagem. Vê-la em movimento, acontecendo, eliminará boa parte das minhas dúvidas, suponho, e a coisa que me intriga desaparecerá junto -- é algo como perguntar o nome de uma pessoa que é mais completa sem nome nenhum, querer saber mais do que é visível no INSTANTE e, geralmente, frustrar-se. Pois mesmo que a imagem seja apenas um quadro do filme, é uma bela fotografia.
Demorei um bom tempo para vir com o título do post anterior e isso é algo que sempre acontece comigo. No entanto, desta vez a dificuldade me fez lembrar de algo completamente diferente, de um fotógrafo que eu realmente gosto, e que intitula as fotos usando a palavra title no lugar de outras palavras, como "it's a title statement", "don't you title from there" ou "at the foot of the title". E, vejam, é tão simples e tão genial e tão VASTO. Mas esta é uma das últimas coisas nas quais você irá reparar, acredite, pois só estou dizendo isso uns 3 anos depois de ter conhecido o trabalho do Raphael Class. Você vai entender.
Nesse site há uma relação de 42 fotos que mostram o estilo de vida dos "vagabundos americanos", como sugere o título. Não dá pra saber muito muito mais do que isso, mas as imagens falam por si só.
Essa ponte da foto acima me lembrou aquela que aparece no início do filme Gummo...