O jardineiro e o seu jardim

A vida na verdade não é de nada complicado; o ser humano, sim.

A nossa capacidade de tornar tudo maior do que é se manifesta segundo nossas expectativas sobre o que queremos que ela seja. É assim. A realidade está nos olhos de quem vê. A relatividade é o limite. Ganhamos sempre pouco em relação ao queremos ter; nosso salário sempre é menor do que precisamos para viver; Quando temos amores, não aproveitamos; quando não temos, desejamos ardentemente. Podemos ter melhor das vidas, mas ficamos amargurados e melancólicos depois de assistir ao noticiário. É assim.

Sempre quis ter um jardim. Como ser urbano por natureza, sempre estive rodeado por prédios e asfaltos, imaginando ao transpor as avenidas mais altas da cidade como seria esse diminuto "monte" em tempos remotos. Florestas habitadas por animais selvagens, flores e frutos em abundância para os seres viventes de ocasião, chuva e sol se alternando como o dia e a noite ao estabelecer as condições ideais ao desenvolvimento da vida.

A vida em sua pequena beleza é extraordinária. Sem qualquer aviso, planejamento ou esquema, se manifesta de diversas formas, lugares e sabores. Quando criança ficávamos maravilhados com a visão de uma pequenas plantinha - muitas vezes uma samambaia (se bem que já vi neste contexto plantas BEM maiores) - crescendo espremida por entre muros de concreto como uma gota verde no oceano cinza das cidades.

Eu, pelo menos, era assim. Sempre buscava esses pequenos afloramentos, das grandes praças até pequenos terrenos baldios que se transformam em grande selva na aventura imaginária. A adrenalina derramada na corrente sanguínea era proporcional à velocidade com que o papelão descia a ladeira de grama; assim como o mistério das ruínas nos escombros de demolições ou construções abandonadas rodeada de mato por todos os lados.

Uma vez, estava em uma dessas aventuras imaginárias quando de sobressalto, no meio de densos arbustos, surge um pequeno ninho de beija-flor em um galho baixo de um Ipê-bebê. Com um assombro, os meninos aventureiros ficam estasiados e estagnados diante de tamanha beleza: filhotinhos, ovinhos, penas espalhadas e pais assustados rodopiando em torno de nossas cabeças. Está certo que filhote de beija-flor é a coisisnha mais horrenda desse mundo - típico monstrinho de filme de horror - mas a beleza que adimirávamos era a excentricidade da natureza de ter colocado essas pequenas vidas em nosso caminho de aventuras.

Neste momento, um naturalista nasceu em mim.

Apesar de ter seguido a caminho ambientalista, O que ainda mais me deixa admirado é encontrar as pequenas manifestações da vida espalhadas por aí. E um jardim é a melhor forma de Vê-las. Seja um pequeno vaso de orquídeas em cima da mesa da sala ou a floresta amazônica em todo o seu contexto, o jardim será quela janela que nos conectará com a maravilha da vida em suas manifestações mais simples.

Quanto ao meu jardim? Ainda o terei, sem dúvida. Ao cuidar das minhas plantas, imagino todas as pessoas do mundo cuidando das suas... e assim meu jardim cresce cada vez mais.

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This page contains a single entry by Ricardo Ribeiro published on fevereiro 27, 2009 2:46 AM.

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