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para C.
Ela. Deitado na cama de bruços eu escuto. Se virar a cabeça, eu vejo, através da porta entreaberta, do box fumê. Mas não viro. Escuto. A água que cai nela e escorre até mim. Cheirosa. Suave. Há certa cadência aqui. Uma regularidade de mentira. Alguns segundos de um som seco, água molhando o piso. Depois o som da água no corpo. Suave. Ela saindo do jato pra se ensaboar. Voltando para o jato pra se desensaboar. Mesma quantidade de segundos em um momento e outro. Parado, eu conto. Ontem à noite ouvi seus passos. Mais altos que a chuva na janela. Eu na cama de barriga pra cima, vendo tevê. A fechadura da porta do apartamento girando. Eu sem saber quem poderia ser. Despreocupado. Vencido. O que for, será. Quem seria? Passos pela sala, até a cozinha, pelo corredor, até a porta do meu quarto, que tinha lâmpadas apagadas, tevê ligada sem som, sua luz saindo pela fresta da porta. Me vi encontrado. Pelo quê? Vencido. A porta que abriu e eu não acreditei. Quem diria. Passos na tevê sem som que eu escutava, cada vez mais próximos. Agora mais longes. A tevê já desligada e os passos voltando até mim. Ela. Dizendo. Que estava visitando um amigo naquele prédio. Que ao receber o convite do amigo, lembrou que era lá que eu morava, ainda e sempre. Perguntando. Como eu estava. O que eu fazia da vida. Como estava minha mãe. Se eu ainda gostava de gatos. Dizendo. Que nunca tivera coragem de se desfazer da cópia da chave do meu apartamento. Que quando estava só às vezes ficava com a chave nas mãos, passando da direita pra esquerda, como quem segura uma concha mas não tem coragem de levar ao ouvido. Eu que não acreditava. Porque era muito bom pra ser. Eu me desculpando que não tinha nada de novo pra dizer a ela. Ela dizendo que tudo bem. Tirando. A blusa muito branca. Brilhando sob os relâmpagos. O tênis branco com detalhes amarelos e cadarços postos com perfeição. A calça jeans apertada. Minha bermuda, o sutiã dela. A chuva diminuiu, depois voltou a ter ritmo. Um ritmo fabricado, que depois se perdeu, e ficou apenas a violência da água açoitando o vidro, para quebrá-lo, para dilapidá-lo, ela que chegara inesperadamente, depois de uns poucos trovões. A violência me trouxe cheiros que relembrei. A violência me deixou um salgado na boca. Toquei em líquidos. Se virar a cabeça, eu vejo, através da porta entreaberta, do box fumê. Mas não viro. Prefiro esperar o que vem depois que o chuveiro desligar. Prefiro acreditar no retorno de ontem. Prefiro ouvir os passos novamente, descalços, no silêncio da manhã. E os ouço. Vêm até mim. Roupas do chão e do criado-mudo para um corpo. Sinto um peso morto ao meu lado. Impossível que não saiba que já estou acordado, até de olhos abertos, com as costas subindo e descendo muito e muito rápido, por causa do cheiro que não pode escapar. Apenas estou com o rosto para o outro lado. Se calçando. O peso morto ganha vida. Agora os mesmos passos de ontem. Indo de mim até a janela, correndo o vidro para o lado, cerrando as duas folhas de madeira. Agora um quarto sem claridade, mas com um ar novo que passa pelas frestas da janela. Agora os mesmos passos de ontem vão da janela até a tevê. Agora um quarto com claridade mas sem som. Os mesmo passos de ontem vão da tevê até a porta e para o lado de fora. A porta fecha e eu não escuto mais os passos. Será possível que tenham simplesmente sumido? Mais um minuto e nada. Levando a cabeça aos poucos, com medo de provar daquela tontura que me acompanha. Ainda assim, a cama solta um rangido. Quero escutar melhor. Mas não escuto. Mais um minuto passa e agora sim. Os passos, do lado de fora do quarto. Sim, os mesmos passos ontem, cada vez mais baixos.
(da 7ª temporada)
One of the cruelest remarks in the language is: Those who can, do; those who can't, teach. The parallel must be: Those who meet experience, learn to live; those who don't, write.
Quando resolveu submeter seu primeiro romance às editoras, Norman Mailer, que já havia publicado alguns contos em revistas acadêmicas, diz ter pensado: "My literary reputation is more likely to survive than be enhanced by this novel."
Ainda assim, submeteu o livro, que acabou publicado.
Como Mailer resolveu esse constrangimento? Simples. Em um volume de memórias publicado aos 80 anos, falou sobre o livro como se fosse de outro autor.
Ora bolas.
Dance of Days -- Essa música me diz tanto que nem sei como não tem meu nome
Dance of Days -- Sigo o coração que diz que não sabe, mas é segredo
O STF acabou de votar a favor do exercício do jornalismo para quem não tem diploma. 8 a 1.
Apóio a decisão. Sempre relutei em escrever sobre o tema, em parte porque abandonei o curso de jornalismo e receio ser visto como o sujeito que não peida e nem deixa ninguém peidar.
Mas acho estranho que no Brasil ainda se exija esse treco de quem queira atuar no ramo. Sindicatos e a maioria dos acadêmicos e profissionais são terminantemente contra o fim da obrigatoriedade. Aqui está um poster bolado pela Federação Nacional dos Jornalistas:

Comovente...
Agora a pouco, na tevê, um âncora local disse indignado: "Vá um jornalista querer ser médico ou dentista, pra ver se deixam."
Ele deve pensar que fazer uma cirurgia no cérebro e cobrir uma vaquejada são atividades que se equiparam no nível de exigência de conhecimento específico. Esse senhor, formado em jornalismo, é uma das provas de que diploma não é garantia para se ter um jornalista com raciocínio sequer mediano. Ele disse também que muita besteira se escreve e se diz na mídia, por pseudo-jornalistas. Interessante. Será que ele pesquisou pra saber se a merda sai mais da boca ou da pena de quem não tem diploma? Acredito ser bem o contrário.
Um fato é inegável: no Brasil se faz um dos piores jornalismos do planeta. Não precisa pegar um jornal da França para comparar com os Estadões e Folhões. Pegue um jornal mediano do Chile. Pegue o caderno cultural de qualquer diário argentino. E não vamos falar das TVs e revistas, pelamordideus.
Segundo texto recente do Observatório da Imprensa, os únicos países que, como o Brasil, ainda tratam o diploma como indispensável para o exercício do jornalismo são: África do Sul, Arábia Saudita, Colômbia, Congo, Costa do Marfim, Croácia, Equador, Honduras, Indonésia, Síria, Tunísia, Turquia e Ucrânia. Em pelo menos 5 desses, o objetivo da obrigatoriedade é o mesmo que foi mirado no Brasil da Ditabranda (que belo termo cunhado por um dos maiores expoentes do jornalismo diplomado!): dificultar ou eliminar a produção e divulgação de informação independente e de qualidade (desculpa, Fenaj).
Alguns países que NÃO fazem essa exigência: Alemanha, Espanha, EUA, França, Inglaterra, Irlanda, Itália, Japão e Suiça.
A queda da obrigatoriedade do diploma será mais um passo do Brasil rumo ao século 20. Oxalá.
Estou vendendo meu exemplar de A primeira mulher. Nas livrarias, custa 40 contos. Vendo seminovo por 20 reais frete incluso e é isso aí.
Pulley - blindfold
sitting in the backyard on a sunday in the morning
touched by you and all your curls that sucked me in
I can hear you when you're screaming
I hear you when you're talking to me
laughing at the jokes, laughing at the jokes I've said before
it's only over when you've given up on me
you held it in for so long detaching yourself from everything I gave
now you're on your own there's nobody else
so happy on the outside with your conscience coming home
blindfold me a role, blindfold me a role you play so well
there's one thing left to say
those words I said to you were never true
justified everything I gave to you
I won't ever look at you the same
step aside you always walk away
Desde que minha vida de preguiçoso esforçado e intelectual passivo e pesquisador sem método e foco começou, alegadamente em 2003, poucos dias foram tão proveitosos quanto os das últimas semanas. Em casa, peguei alguns pacotes e levei-os para o mosteiro. Estou aprendendo muito sobre história da religião. Voltei a descobrir bons ficcionistas contemporâneos de língua portuguesa. Confirmei que Norman Mailer é o melhor ensaísta dentre os piores romancistas; que o lobby israelense é mesmo o que dizem que é; que Freud quase certamente não é isso tudo que pregam que é; e, claro, que só quero ir pro céu se for pra encontrar Carl Sagan -- qualquer outra atividade, como ver coelhos trepando e beija-flores enfiando o bico nas violetas, não me atrairá. Consegui pegar uns livros por 10 reais cada e sem frete no Submarino. Eis parte do recheio dos pacotes:

Obrigado, Camila, por traficar alguns dos USA. Obrigado, Annna, por sempre se fartar na minha estante (envio sexta-feira, agradece a gerência). Obrigado a vocês que compram no Submarino via banner do Amálgama. Obrigado a vocês que desistiram de me cobrar por puro cansaço. Obrigado a você que eu andei atrás para pagar o que devia e não encontrei.
E de repente, vejam só, quem diria, aos 25 anos eu passei a gostar de estudar matemática. Será que devo dar uma passada no curso de Computação da UFPI na próxima década? A Federal do Pioaí tem um laboratório chibata -- e o curso tem duas matérias de engenharia de software...
Vejamos.
(Trecho de um lindo livro do Carl Sagan que estou lendo.
É uma leitura que cai bem neste Ano Internacional da Astronomia.)

Muitas religiões tentam fazer estátuas muito grandes de seus deuses, e a ideia, suponho, é nos fazer sentir pequenos. Mas se este é seu propósito, elas podem ficar com seus ícones insignificantes. Precisamos apenas olhar para cima se quisermos nos sentir pequenos. É após um exercício como esse que muita gente conclui que uma sensibilidade religiosa é inevitável. Edward Young, no século 18, disse, "Um astrônomo não-devoto é louco", do que eu suponho ser essencial que todos declaremos nossa devoção, sob risco de sermos classificados como loucos. Mas, devoção a quê?
Tudo que vimos [nas páginas anteriores, fotos de galáxias] é algo pertencente a um vasto e intricado e encantador universo. Não há qualquer conclusão teológica particular que derive de um exercício como o que acabamos de praticar. E mais, quando aprendemos ago da dinâmica astronômica, da evolução dos mundos, reconhecemos que esses mundos morrem, eles tem um tempo de vida exatamente como os humanos tem, e portanto que há uma boa porção de sofrimento e morte no cosmos, se nele houver uma boa porção de vida. Por exemplo, nós acabamos de falar sobre estrelas nos últimos estágios de sua evolução. Falamos de explosões de supernovas. E existem explosões ainda mais vastas. Há explosões nos centros das galáxias a partir do que chamamos quasares. Há outras explosões, talvez quasares menores. De fato, a própria galáxia Via Láctea teve uma série de explosões em seu centro há aproximadamente trinta mil anos-luz. E se, como especularei adiante [nos capítulos seguintes do livro], a vida, talvez mesmo vida inteligente, é um lugar-comum cósmico, então concluiremos que destruição massiva, obliteração de planetas inteiros ocorre rotineira e frequentemente por todo o universo.
Pois bem. Essa é uma visão bem diferente do tradicional pensamento ocidental de uma deidade cuidadosamente promovendo o bem-estar de criaturas inteligentes. A astronomia moderna sugere um tipo bem diferente de conclusão. Uns versos de Tennyson me vem à mente: "I found Him in the shining os the stars, / I mark'd Him in the flowering of His fields". Até aí normal. "But", continua Tennyson, "in His ways with men I find Him not... Why is all around us here / As if some lesser god had made the world, / but had not force to shape it as he could...?"
Pra mim, pessoalmente, a primeira linha, "I found Him in the shining of the stars", não é aparente de todo. Depende de quem o Him [Ele] é. Mas certamente há uma mensagem nos céus: a de que a finitude não só da vida, mas de mundos inteiros, na verdade de galáxias inteiras, é um pouquinho contrária às visões teológicas tradicionais do Ocidente, embora não do Oriente. E isso, então, sugere uma conclusão mais ampla. E esta é a ideia de um Criador imortal. Por definição, como Ann Druyan observou, um Criador imortal é um deus cruel, porque Ele, nunca tendo que encarar o medo da morte, cria inúmeras criaturas que o fazem. Por que Ele faria isso? Se é onisciente, Ele poderia ser mais amigável e criar seres imortais, livres do perigo da morte. Ele ocupa-se em criar um universo em que pelo menos muitas de suas partes, e talvez o universo como um todo, morrem. E em muitos mitos a possibilidade que mais deixa os deuses ansiosos é de que os humanos descubram algum segredo da imortalidade ou mesmo, como no mito da Torre de Babel, por exemplo, de que tentem atingir os céus. Há um claro imperativo na religião ocidental: os humanos devem permanecer criaturas pequenas e mortais. Por quê? Lembra um pouco o rico impondo pobreza aos pobres e lhes pedindo para serem amáveis por causa desse fato. E outros desafios às religiões tradicionais surgem mesmo da mais casual olhada no tipo de cosmos que habitamos.
Permita-me ler uma passagem de Thomas Paine, em A idade da razão. Paine foi um inglês que teve grande papel tanto nas revoluções americana e francesa. "From whence, then, could arise the solitary and strange conceit that the Almighty, who had millions of worlds equally dependent on his protection, should quit the care of all the rest, and come to die in our world because, they say, one man and one woman ate an apple? And, on the other hand, are we to suppose that every world in the boundless creations had an Eve, an apple, a serpent, and a redeemer?"
Paine está dizendo que nós temos uma teologia centrada na Terra e que envolve apenas uma minúscula parte do espaço (...). E, de fato, um problema geral com da teologia ocidental, na minha opinião, é que o Deus retratado é muito pequeno. É o deus de um pequeno mundo e não o deus de uma galáxia, muito menos de um universo.
Podemos dizer, "Mas isso é apenas porque as palavras certas não estavam disponíveis quando os primeiros livros sagrados do judaísmo, do cristianismo e do islamismo foram escritos". Mas é claro que o problema não é esse; seria inteiramente possível que as belas metáforas desses livros descrevessem algo como a galáxia e o universo, e isso nós não encontramos neles. É o deus de um mundo pequeno - um problema, acredito, a que os teólogos ainda não se dedicaram adequadamente.
Não proponho que seja uma virtude revelar nossas limitações. Mas é importante entender o quanto não sabemos. Há uma enorme quantidade de coisas que não sabemos. Mas o que entendemos nos coloca frente-a-frente com um cosmos impressionante, muito diferente do cosmos de nossos devotos ancestrais.
Será que tentar entender o universo revela uma falta de humildade? Concordo que a humildade é a única resposta justa em uma confrontação com o universo, mas não uma humildade que nos previna de almejar entender a natureza do universo que admiramos. Se almejarmos esse entendimento, então o amor pode ser baseado na verdade, ao invés de na ignorância e no auto-engano. Se um Deus Criador existe, preferiria Ele ou Ela ou essa Coisa um rematado estúpido que cultua ao mesmo tempo que não entende nada? Ou Ele preferiria que suas criaturas admirassem o universo em toda sua intrincância? Eu diria que a ciência é, pelo menos em parte, um culto informado. Minha profunda crença é de que se existe um deus que lembre sua forma tradicional, nossa curiosidade e nossa inteligência foram providas por tal deus. Nós não estaríamos apreciando esta dádiva se suprimimos nossa paixão por explorar o universo e nós mesmos. Por outro lado, se tal deus tradicional não existe, então nossa curiosidade e inteligência são ferramentas essenciais para administrar nossa sobrevivência em tempos perigosos. Em qualquer dos casos, o empreendimento do conhecer é consistente com a ciência; deveria ser também com a religião, e é um empreendimento essencial para o bem-estar da espécie humana.
A personal view of the search for god
(tradução livre minha)
Se eu fosse acadêmico, inventaria um termo que descrevesse bem obras como O livro das emoções de João Almino: ROLA. Isso mesmo, um livro ROLA. Aí você diz, ainda bem, Daniel, que você abandonou todas as universidades em que pisou, suas definições seriam um constrangimento para qualquer instituição; ainda bem que você não passa de um intelectual de rede. (Sim, é verdade, e também um intelectual de cadeira de espaguete.)
ROLA significa Romance para Ler e Aprender. Não refere-se, claro, aos romances ruins. Nem aos apenas bons. Nem mesmo a todos os excelentes. O ROLA é aquele romance excelente que, além de te marcar profunda e irreversivelmente, ainda te ensina o que é, verdadeiramente, a escritura ficcional levada aos extremos da qualidade.
Até pouco mais da metade, O livro das emoções é um ótimo romance. Quando não por outra, por revezar a narração em primeira pessoa de um Cadu fotógrafo no auge da potência sexual no início do século 21, com o a narração em primeira pessoa do mesmo Cadu, agora cego e à beira da morte na Brasília do ano de 2022.
Em 2022, Brasília tem índices de violência equiparáveis aos do Rio de Janeiro. No Brasil de 2022, a degradação social, ambiental e política continua. No mundo de 2022, o complicado quebra-cabeça geopolítico continua gerando guerras. Mas esses eventos são secundários no Livro das emoções.
Até começar a perder a visão em 2006, Cadu é um bon vivant. Bebe, consome outras drogas, vai do Rio a Brasília, monta base na capital federal e fotografa tudo o que vê pela frente, inclusive políticos e os "triângulos" das diversas mulheres que ama. Cadu não é um exibicionista. Ele realmente tem prazer em estar com cada umas das mulheres com quem transa. Apenas não consegue demorar muito tempo seguido exclusivamente com uma. Elas não entendem, ou entendem. Entendendo ou não, caem nos e saem dos seus braços com facilidade ou dificuldade, mais cedo ou mais tarde. E Cadu realmente vê beleza na variedade de formas e cores dos "triângulos" que fotografa - a ponto de montar uma exposição com eles, embora não no Centro Cultural Banco do Brasil, como desejara de início...
Uma colega, Aída, insiste para que ele fotografe os pobres, a desigualdade social, a miséria, a realidade. Cadu insiste que seus triângulos também são parte da realidade.
Cada capítulo das memórias de Cadu leva o título de uma das inúmeras fotos que tirou no passado, fotos que - ao retratarem mulheres, crianças, ruas, árvores, flores, animais, objetos variados, céus etc. - vão compondo a história de Cadu. (As descrições dessas fotos são verdadeiras aulas de João Almino.)
Mas como a fotografia nunca engloba todo o real (mesmo o de um ínfimo momento), e como a fotografia na verdade às vezes trai o real, não só de descrições de fotos sobrevive O livro das emoções. Há narração convencional.
Do pouco-mais-da-metade em diante, o livro se eleva a patamares sublimes. Nestas páginas, fui arrebatado como o fora ao ler Disgrace do Coetzee, ou Dois irmãos do Hatoum, ou o Paisagem com neblina do Eustáquio Gomes, ou El túnel do Sabato. Sim, é na companhia desses autores que o potiguar do mundo João Almino se insere. Quando Cadu se aquieta ao lado de Aída, mulher de um catolicismo eclético, separada do marido e mãe de Maurício; quando se reencontra ao relacionar-se com este filho que não gosta da companhia do próprio pai; quando enfim resolve pedir Aída em casamento, esta chega do médico com a notícia de que tem um câncer já em estado avançado e que lhe restam apenas mais uns poucos meses de vida.
O Livro das emoções toma um tom mais cinzento. As fotografias que Cadu fez do período dessa revelação até a morte de Aída, de paisagens principalmente, são mais lúgubres; é inverno em Brasília. Com a sensibilidade mais desperta, Cadu pensa sobre a vida. Volta a relacionar-se com várias mulheres, mas agora ele não apenas as ama, ele as venera e adora. Não se acha merecedor das mulheres que conquista, mas as quer, sempre e mais. Passa a dar mais valor aos fatos prosaicos da existência, sem nunca apelar a Deus (não acredita em vida após a morte). Cadu vai atingindo uma serenidade cada vez mais profunda, e aprofundada é sua paixão pela fotografia. Mas aí Cadu começa a perder a visão.






















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