Se eu fosse acadêmico, inventaria um termo que descrevesse bem obras como O livro das emoções de João Almino: ROLA. Isso mesmo, um livro ROLA. Aí você diz, ainda bem, Daniel, que você abandonou todas as universidades em que pisou, suas definições seriam um constrangimento para qualquer instituição; ainda bem que você não passa de um intelectual de rede. (Sim, é verdade, e também um intelectual de cadeira de espaguete.)
ROLA significa Romance para Ler e Aprender. Não refere-se, claro, aos romances ruins. Nem aos apenas bons. Nem mesmo a todos os excelentes. O ROLA é aquele romance excelente que, além de te marcar profunda e irreversivelmente, ainda te ensina o que é, verdadeiramente, a escritura ficcional levada aos extremos da qualidade.
Até pouco mais da metade, O livro das emoções é um ótimo romance. Quando não por outra, por revezar a narração em primeira pessoa de um Cadu fotógrafo no auge da potência sexual no início do século 21, com o a narração em primeira pessoa do mesmo Cadu, agora cego e à beira da morte na Brasília do ano de 2022.
Em 2022, Brasília tem índices de violência equiparáveis aos do Rio de Janeiro. No Brasil de 2022, a degradação social, ambiental e política continua. No mundo de 2022, o complicado quebra-cabeça geopolítico continua gerando guerras. Mas esses eventos são secundários no Livro das emoções.
Até começar a perder a visão em 2006, Cadu é um bon vivant. Bebe, consome outras drogas, vai do Rio a Brasília, monta base na capital federal e fotografa tudo o que vê pela frente, inclusive políticos e os "triângulos" das diversas mulheres que ama. Cadu não é um exibicionista. Ele realmente tem prazer em estar com cada umas das mulheres com quem transa. Apenas não consegue demorar muito tempo seguido exclusivamente com uma. Elas não entendem, ou entendem. Entendendo ou não, caem nos e saem dos seus braços com facilidade ou dificuldade, mais cedo ou mais tarde. E Cadu realmente vê beleza na variedade de formas e cores dos "triângulos" que fotografa - a ponto de montar uma exposição com eles, embora não no Centro Cultural Banco do Brasil, como desejara de início...
Uma colega, Aída, insiste para que ele fotografe os pobres, a desigualdade social, a miséria, a realidade. Cadu insiste que seus triângulos também são parte da realidade.
Cada capítulo das memórias de Cadu leva o título de uma das inúmeras fotos que tirou no passado, fotos que - ao retratarem mulheres, crianças, ruas, árvores, flores, animais, objetos variados, céus etc. - vão compondo a história de Cadu. (As descrições dessas fotos são verdadeiras aulas de João Almino.)
Mas como a fotografia nunca engloba todo o real (mesmo o de um ínfimo momento), e como a fotografia na verdade às vezes trai o real, não só de descrições de fotos sobrevive O livro das emoções. Há narração convencional.
Do pouco-mais-da-metade em diante, o livro se eleva a patamares sublimes. Nestas páginas, fui arrebatado como o fora ao ler Disgrace do Coetzee, ou Dois irmãos do Hatoum, ou o Paisagem com neblina do Eustáquio Gomes, ou El túnel do Sabato. Sim, é na companhia desses autores que o potiguar do mundo João Almino se insere. Quando Cadu se aquieta ao lado de Aída, mulher de um catolicismo eclético, separada do marido e mãe de Maurício; quando se reencontra ao relacionar-se com este filho que não gosta da companhia do próprio pai; quando enfim resolve pedir Aída em casamento, esta chega do médico com a notícia de que tem um câncer já em estado avançado e que lhe restam apenas mais uns poucos meses de vida.
O Livro das emoções toma um tom mais cinzento. As fotografias que Cadu fez do período dessa revelação até a morte de Aída, de paisagens principalmente, são mais lúgubres; é inverno em Brasília. Com a sensibilidade mais desperta, Cadu pensa sobre a vida. Volta a relacionar-se com várias mulheres, mas agora ele não apenas as ama, ele as venera e adora. Não se acha merecedor das mulheres que conquista, mas as quer, sempre e mais. Passa a dar mais valor aos fatos prosaicos da existência, sem nunca apelar a Deus (não acredita em vida após a morte). Cadu vai atingindo uma serenidade cada vez mais profunda, e aprofundada é sua paixão pela fotografia. Mas aí Cadu começa a perder a visão.


quer ler esse livro. e ver se ele é tão bom quanto o seu comentário :)
o bicho é bão. aliás, ia te mandar um e-mail sobre ele. fica aí a dica imperdível pra única leitora do razbliuto em Brasília :-p
Pow, demais. Adorei essa de ROLA, muito boa definição. Gostei do texto!
bj
Sue