abril 2006 Archives

Vamos acabar com a pesporrência, aí!

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Pesporrência. É a mais nova aquisição do meu vocabulário, graças à leitura atenta do Estadão de hoje pela filósofa da redação, que adorou o termo. O vetusto periódico dos Mesquita pespega essa esdrúxula pérola vocabular para acusar de pesporrento (essa palavra acabo de inventar) o presidente da Venezuela Hugo Chávez.

Corri para o Aurélio, que me explicou: Pesporrência, substantivo feminino: Exibição de autoridade; arrogância, pedantismo. Rapaz, esbarro em pesporrência o tempo todo, e nem percebia o perigo!

(A filósofa nota brilhantemente, também, como os jornalistas de economia aderem a certas palavras, um jargão meio traduzido do inglês que, como todos sabem, é a língua dos economistas . Sempre falam em contas "robustas". Quando comentam uma questão difícil, dizem que ela "não é trivial". Mas isso é tema para um próximo texto neste Sítio).


Pesporrentando


É, o Chávez é meio chegado a uma pesporrência. Já atiçou os ânimos dos sem-terra, no Fórum Social Mundial, para depois ligar ao Lula e dizer que estava lá defendendo o governo. Tem um projeto de poder de apar~encia populista, e comanda um governo com fortes traços de autoritarismo. Pouco a pouco, vai ganhando influência no continente, ainda que menor do que se diz, porque o estilo atropelador do venezuelano incomoda os vizinhos, Kirchner adorou ter vendido a ele bônus da dívida argentina. E detestou vê-lo no Uruguai, com o governo uruguaio e paraguaio pontificando sobre o Mercosul.

Há muita pesporrência na imprensa e no mundos dos blogs, este pesporrento incorrigível aqui pede desculpa aos leitores por minhas pesporrentices. Mas considero de uma pesporrência colossal a campanha que tenta descrever a política externa do governo como uma homogênea coleção de fracassos e equívocos. Pode ser um bom mote para as eleições que vêm aí, mas não é verdade, nem jornalismo.

É, mesmo, incompreensível a insistência do governo na campanha por um etéreo assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Há, de fato, falta de ações mais eficazes para aproximação comercial com os Estados Unidos, e um tom excessivamente ufanista quando se atribui o excelente desempenho das exportações brasileiras exclusivamente à política oficial de aproximação com os países emergentes.

Só que, com pesporrência, tem gente aí fazendo de conta que a participação do Brasil não foi importantíssima para resolver a crise provocada pelo golpe fracassado contra Chávez na Venezuela, que Lula, com todos seus defeitos (e pavorosos discursos) é visto como referência de estabilidade e moderação para as esquerdas no continente, que o G-20 criado pelo Brasil foi uma das maiores novidades positivas no terreno das negociações internacionais de comércio, que, por seu peso econômico, tamanho e geografia, o Brasil tem, sim, de ter paciência com as maluquices de vizinhos (recomendação, aliás, do tucano Celso Lafer, quando comandava o Itamaraty) e agir discretamente, no limite da diplomacia. O Brasil está longe do sucesso que o Planalto gosta de apregoar, mas também não chegou ao fiasco que a oposição, os intelectuais anti-Lula (alguns muito respeitáveis) e os surfistas do senso comum pretendem vender.

Aliás, não é verdade o refrão de que o Brasil cedeu tudo para a Argentina. Voltarei a falar disso aqui. Em breve.

Governo auto-suficiente

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Leio no Meio&Mensagem que a Petrobrás vai gastar R$ 37 milhões na propaganda sobre a auto-suficiência em petróleo alcançada pelo país. Me convenceram que foi barato o passeio do comandante Marcos Pontes à Estação Espacial Internacional: com essa grana dá para mandar nosso astronauta auriverde dar outra voltinha pelo espaço exterior.

As agências agraciadas com essa verba estratosférica da Petrobrás foram Quê Comunicação, F/Nazca e a Duda Propaganda. Epa, peraí, essa última não do Duda Mendonça, que estava outro dia na CPI depondo sobre desvio de dinheiro e remessa ilegal ao exterior?



Isso é a propósito da escolha, hoje, do padrão japonês para a TV Digital brasileira.
(As garotas, a propósito, são coreanas. Aguarde a invasão dos chineses na Internet).

Para ver melhor o vídeo, clique na tecla de play, e, no canto direito inferior da imagem, clique em pause até a faixinha cinza chegar à extremidade esquerda. o vídeo estará carregado, e é só clicar no play de novo. coisas da vida digital em baixa velocidade de transmissão.

Estrela brasileira, no céu azul

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Oliveira, o canalha da redação, costuma freqüentar festas de criança. Sua explicação: todos os homens nesses eventos estão acompanhados das esposas, de quem se afastam para conversar em grupo sobre assuntos como futebol, enquanto ele, Oliveira, flana, lépido, por entre as mães solteiras e separadas, a quem mostra sua surpreendente a apaixonante faceta de homem maduro paternal e livre. Está namorando uma moça que se derreteu toda ao vê-lo cuidando do joelho machucado do filho. Filho dela, bem entendido.

Pois o Oliveira ficou comovido com as fotos das tripulações em protesto pela sobrevivência da Varig, especialmente esta AQUI da Folha. O canalha lançou a campanha: "ajude os órfãos da Varig, adote uma aeromoça". Já ganhou aderentes em uma das salas de imprensa da Esplanada dos Ministérios.

Com as redações cada vez mais cheias e sob o comando de mulheres, a primeira reação á proposta do canalha foi um movimento pela adoção de comissários de bordo. Mas, por algum motivo, não teve o mesmo sucesso.

Lá, no céu de Judas

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È curioso que, nesses tempos de facadas nas costas nos gabinetes e corredores de Brasília, a descoberta de um evangelho segundo Judas seja destaque nos jornais. Judas não teria traído Cristo, mas sido, sim, seu mais próximo discípulo, escolhido para ajudar o filho de Deus a cumprir sua missão na Terra. Fez o verdadeiro sacrifício por Jesus, caindo em desgraça e sujeitando-se a ser malhado pelo resto dos tempos nos Sábados de Aleluia para atender aos desígnios divinos. Grande Judas. É como descobrir que a Ângela Guadagnin deu aquela dançadinha não por desfaçatez, mas para alertar altruísticamente os eleitores sobre a necessidade de renovar profundamente o Congresso, com os votos da próxima eleição.

O Idelber Avelar, grande e inestimável professor, foi o primeiro a lembrar que o Jorge Luíz Borges, viva ele, já tinha se antecipado a essa história, com sua genialidade de sempre. Para quem lê espanhol, o Idelber aponta o texto AQUI..

Quem quiser saber, em português, como a Igreja recebe a notícia (com desdém), vale a pena ler esse bem elaborado texto AQUI.

O Globo foi o único a ter a sensibilidade de dar a notícia em alto de página, com estardalhaço. Garanto que, em alguns meses, vai ter mais gente se lembrando dessa história que dos assuntos das manchetes, ligados à decisão do Congresso de absolver deputados confessadamente envolvidos no esquema corruptor do publicitário Marcos Valério. Decisão parlamentar, aliás, que foi uma tremenda traição com o eleitor.

(na imagem acima, como conta o evangelho de Mateus, Judas beija Jesus que diz: "o que tens a fazer, faze-o depressa". Judas traiu, recebeu suas trinta moedas e enforcou-se. Nesse meio tempo, deve ter escrito o tal evangelho que acabam de encontrar).

A sementinha do astronauta

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"Já plantou a semente? Já utilizou a clorofila?"

Assim o presidente Lula, numa ligação interespacial perguntou ao astronauta brasileiro como andavam as experiências que o sujeito foi fazer no espaço. Para sofisticar a coisa, o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, emendou, em seguida: "e a nuvem de interação protéica, está dando resultados interessantes?".

("caceta, que diabos mesmo era essa nuvem de interação protéica?" deve ter se perguntado nosso primeiro bauruense espacial)

O Pontes deu uma resposta que pode ser resumida assim: olha ministro, a coisa está andando nos conformes, acho que deu certo como queriam os cienttisas. O que está acontecendo e que diabos é essa tal nuvem de interação protéica só consultando a Wikipedia, ou a Lucia Malla, a cientista de plantão aqui do blog (ela aparece aqui a cada solstício de inverno e corrige as batatadas que eu escrevo em matéria científica).

Juro que admiro o coronel Pontes, sujeito de origem humilde, boa praça, inteligentíssimo, uma cabeça. O tipo de cara de quem o Brasil deve se orgulhar. Mas pelo que fez da vida, pela dedicação aos estudos, pela simpatia. Tá bom, vá lá, pela divulgação da ciência que a viagem dele vem fazendo entre as crianças. Já imagino as futuras gerações, eletrizadas pelo pioneirismo Pontiano, iluminadas pelo diálogo entre Brasília e o espaço, trocando cumprimentos do século XXI: "já plantou a semente? Já utilizou a clorofila?"


Tim tim, Tovarich


Inesquecível (para mim) foi minha participação marginal nessa promissora aproximação russo-brasileira. Convidado ao jantar para o primeiro-ministro russo, sentei ao lado do presidente da Agência Espacial Brasileira, que, pelo sotaque, é pernambucano, e também muito simpático. Tivemos de ouvir um looooongo discurso do vice-presidente José Alencar, que, como não falou em juros, foi de uma mornidão estupefaciente. Na hora do brinde é que veio à surpresa. Na taça, á frente, o que era aquela bebida de cor amarelada, aroma amadeirado, e sabor flamejante? O Itamaraty havia providenciado, para o brinde, legítima cachaça de Salinas!!!
O cardápio só falava em vinho da casa Valduga, a aguardente foi surpresa para todo mundo. Especialmente, creio, para a russa à minha frente, na mesa, uma senhora de ar marcial que deu uma golada e quase engasgou, vi brotarem lágrimas nos surpresos olhos da camarada.
What the hell is this? acho que falaria ela se soubesse inglês. As palavras que pronunciou baixinho, em russo castiço, boa coisa não diziam sobre as mães dos brasileiros presentes.
Deve ser o tal de biocombustível. Da próxima vez, é capaz de o bauruense espacial chegar à estratosfera para utilizar a clorofila impulsionado à base de pinga.

A importância do sigilo

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Ontem, no meio do reportariado que entrevistou os advogados do Palocci, a tinhosa Marta Salomon, sempre fora do script, perguntou quem estava pagando os causídicos, se o próprio ex-ministro, ou o PT (ou, quem sabe, o Paulo Okamoto). Recebeu como resposta, do José Fernandes Leal de Carvalho (como o Batochio, ex-advogado do Paulo Maluf): "Não sou obrigado a dizer quem paga a defesa, posso dizer que foram várias pessoas, sua mãe, seu pai; isso faz parte do sigilo".

Bom, isso é notícia velha, o Cláudio Humberto já deu no site dele. Mas vai acabar me causando problema em casa. Hoje cedo já ligou um parente, para dizer à Marta que estava sem advogado e perguntar se meu sogro não poderia pagar um para ele.

O divertido nessa história toda é a alegação de sigilo profissional. Pena que o Palocci já saiu do ministério. Poderia contratar esses caras para trabalhar na Caixa Econômica.

Primeiro, vazam para a Mônica Bérgamo que o ex-assessor de imprensa e otras cosas do Palocci, Marcelo Netto, está disposto a detonar o governo. Nos bastidores, espalharam a história de que ele quer uma "blindagem" para não sofrer as conseqüências de sua participação na quebra de sigilo do caseiro que denunciou a Casa das Alegrias da turma de Ribeirão Preto. Fala-se em dois anos de cana.

Agora convocaram uma entrevista coletiva do Batocchio, ex-presidente da OAB, e, ao chegarem, os jornalistas foram informados que falará o Marcelo Netto, de quem Batocchio seria advogado.

Uma multidão de repórteres está num saguão de hotel de Brasília, à espera da tal entrevista que tarda, sem sinal de que vai começar.

Cheira muito mal isto tudo. Se ninguém aparecer, ou se aparecer o sujeito e não disser nada, cabe perguntar com quem ele andou conversando, e o que saiu ganhando com a conversa.

segundo clichê: como dizia o Barão de Itararé: de onde se espera, daí é que não sai nada mesmo. após horas de espera, Batocchio informou que é advogado mas do patrão de Marcelo Netto. E falou do depoimento de Palocci à Polícia Federal. Nada que vá ficar na história.

Esperava-se o homem bomba. Nem traque saiu.

Justiça cansa

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Na sexta é feriado e, advinhem só: não haverá expediente no Supremo Tribunal federal, nem no Superior Tribunal de Justiça durante toda a semana. Consultei o Fernando e o Juliano, os especialistas em Judiciário do Valor, e eles investigaram, no calendário, as possíveis causas da extensa folha dos magistrados.

_ Bom, quinta-feira é dia do office boy _ descobriu o Fernando. E quarta é o dia do ginecologista; quem sabe querem poupar a presidenta Ellen Gracie de ouvir discursos como o do senador Mozarildo Cavalcanti na sabatina dela no Senado.

Na segunda, ninguém trabalha mesmo nos gabinetes importantes dos tribunais superiores. Não faria sentido obrigar o pessoal a comparecer para um expediente só na terça-feira, não é mesmo?

Me pareceu convincente. Até que descobri que o dia do ginecologista é em outubro. Bom, mas a essa altura fica difícil avisar à turma.



sitio do sergio leo

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