maio 2006 Archives
Para quem pensa que abocanhar os ganhos das empresas privadas com reservas de petróleo e gás virou moda de latino-americano (Venezuela, Bolívia, Equador), o Daniel Dresner , economista e cientista social americano cita o Financial Times para contar o que vem fazendo a Rússia: deu um pontapé na Exxon e Shell, e decidiu rever os contratos dos principais projetos de petróleo assinado com essas empresas no país.
Quem lamenta os 1,5 bilhão postos pela Petrobrás no pouco confiável solo boliviano, pode se consolar com os US$ 20 bi que a Shell já investiu no projeto russo, agora sob revisão.
Mas o Dresner vai além, e busca, na imprensa dos EUA, o mais novo membro do clube dos países decididos a reescrever contratos firmados com multinacionais. É, eles mesmos, os Estados Unidos.
Os americanos descobriram que contratos assinados com firmas privadas entre 1998 e 1999 davam isenção de taxas independentemente dos preços do petróleo, o que anda enchendo as burras das empresas (que, perdão, de burras não têm nada). Solução? Foi do Congresso: emendar à força os contratinhos, para beliscar uns US$ 10 bilhões das pobres companhias. Deve ser terrível operar em um país com tamanha insegurança regulatória.

Se, no Brasil, a patuléia entendesse tanto sobre a Argentina quanto conhece o futebol do país, quem sabe sentisse, por Néstor Kirchner, o alarme que se costuma manifestar com os gestos autoritários de Hugo Chavez, na Venezuela. É impressionante o silêncio, do lado de cá, em relação ao controle patagônico que o homem tem sobre a imprensa, e até sobre os empresários. Pelo nariz adunco, apelidaram Kirchner de pingüim, mas a censura que ele exerce sobre a Argentina tem a força de um abraço de urso polar.
E ninguém fala disso por aqui. Só noticiamos a crescente popularidade do cara.
Converso com um jornalista de um grande jornal argentino. Ele me conta que a turma da Casa Rosada telefona para editores com freqüência para reclamar de notícias desfavoráveis, ameaça jornais de asfixia financeira, persegue e faz escutas telefônicas. Para esse último ponto, aliás, o Pedro Dória foi o primeiro a chamar a atenção aqui, aliás, acho eu.
Falo com um acadêmico renomado, ex-integrante do governo, e ele me conta a mesma coisa: os argentinos em visita ao Brasil ficam impressionados com o clima de debate, denúncias e discussão no Brasil. Não que não tenham lá farto material para alarido semelhante. Mas a imprensa tem medo de Kirchner, e a UIA, a Fiesp de lá, nem morde nem late. Parece que os peronistas de Kirchner não tem muito escrúpulo em lembrar aos empresários das pendências da turma com o fisco, com a previdência, com o diablo a quatro.
Pense nisso da próxima vez em que lamentar o noticiário sobre corrupção e desmandos por aqui. Juro que foi involuntário: mas, com esse texto e o sobre o peru, abaixo, acho que inaugurei a campanha: "Acha que está ruim? Olhe para a vizinhança".

Se você olha a renitente subida do presidente Lula nas pesquisas de opinião, enquanto, mui eticamente, nega ser candidato para aproveitar melhor a máquina pública; contempla as alternativas na oposição (como o cucurbitáceo Alkimin, que implodiu o Carandiru para que São Paulo possa experimentar a chacina ao ar livre) e pensa, com lágrimas nos olhos, em quem votar nas próximas eleições, este Sítio traz um conselho: olhe para o Peru.
Não, para aí, não! Estou falando do país, o vizinho Peru, onde disputam o poder o neo-integralista Ollanta Humala e o velho populista Alan Garcia. Viu? Poderia ser bem pior, você poderia ser um eleitor peruano.
Penso nisso, enquanto preparo minha coluna, folheando um estudo interessante do instituto Konrad Adenauer. Interessante menos pelo conteúdo, que ainda não li, que pelo título, corajoso:
"Peru e sua inserção em um mundo global".
É um mundo complicado este, e perigoso. Vou ler o estudo, mas já imagino que ele deve mostrar os cuidados a se tomar, antes de inserir o Peru por aí.
O estudante que fui apontaria um sério defeito nas matérias assinadas por mim como jornalista em passagem pela encrenca boliviana. O velho hábito dessa imprensa burguesa, imperialista e conservadora, que só dá a palavra a autoridades, dirigentes, empresários. Cadê o povo, brada o estudante que se esconde em alguma dobra de minhas entranhas. Nem uma entrevistinha, com uma daquelas "cholas"? Com um velhinho mascante de coca? Um honesto boliviano das calles de La Paz?
Ora, tento argumentar com esse estudante visceralmente instatisfeito, não entrevistei, nem entrevistarei, por um motivo simples.
Já na escola, aprendi sobre a falsa neutralidade das enquetes sociológicas, menos neutras ainda quando são esse tipo de entrevista no susto, que jornalista faz com meia dúzia de passantes no meio da rua. Concluí, já com carteira de trabalho assinada, que repórter usa o seguinte método epistemológico para aproveitar o material humano que lhe cai no bloquinho de anotações: busca-se o óbvio, o saber convencional, o que de alguma forma o repórter já tem em sua cabeça, como explicação para o que escreve.
Transforma-se o entrevistado em ilustração aspeada do que o jornalista já diria de qualquer forma. O/A homem/mulher comum vira refém do texto noticioso.
Se o entrevistado diz algo bizarro, ou surpreendente, ou contraditório com o que se imagina, essa opinião é descartada, sem arranhão na consciência, porque o jornalista SABE que a palavra de um habitante isolado de uma capital dificilmente pode representar a opinião média de uma população.
Daí aproveito essas entrevistas para formar a minha opinião, mas me falta convicção para conduzir o entrevistado, amarrado entre aspas, ao texto publicado. Não me convenci a botar os taxistas que, invariavelmente, se queixavam da excessiva influência do Hugo Chávez sobre Evo Morales. Nem passantes que acusavam a Petrobrás de roubar o patrimônio gasífero boliviano, como havia feito Simon Patiño com o estanho.
O Chico Octávio até encontrou uma forma bacana de botar, lá no Globo, o povo falando: foi a uma praça que funciona como local de debates, beletrismo e desabafo do populacho, e entrevistou o sujeito que, naquela hora, mais atraía audiência. Alguma representatividade o cara havia de ter.
Um dia faço lá uma grande pesquisa de opinião. Una encuesta, digo. Enquanto isso, o estudante que fui me provoca umas azias.

Almoço no Itamaraty, com a ministra de Relações Exteriores da Tanzânia, mulher pequena, elegante, com ar inteligente. O cerimonial diplomático estabelece, nessas ocasiões, uma escala de hierarquia: quanto mais longe do centro da mesa, menor sua importância. Jornalistas ficam ali, entre o antepenúltimo lugar e a cabeceira, com assessores do terceiro escalão, diplomatas menos graduados, autoridades sem muito trânsito no mundo do Barão do Rio Branco. Para o convescote para a Tanzânia, estava até alto meu status, a duas cadeiras da ministra.
E eu lá, à espera da sobremesa, para tentar falar de Bolívia com o chanceler.
Longe das pessoas a minha frente a ponto de ter de levantar demais a voz para ensaiar alguma conversa, sento ao lado de um sujeito da embaixada tanzaniana e um jornalista do maior jornal do país, do qual esqueci o nome (ele certamente também esqueceu o meu). O velho drama de encontrar assunto.
O jornalista se queixa da incapacidade tanzaniana de vender ao mundo sua exuberante riqueza natural, enquanto o vizinho Quênia atrai centenas de milhares de amantes de aventuras, participantes de safaris, adeptos de programas de índio em floresta equatorial. As reservas tanzanianas são maiores e mais ricas que as do Quênia, as leoas que ali rugem não tonitruam como lá, me argumenta o tanzaniano, simpático, convincente. Me deu dois CDs com informações e imagens sobre o paraíuso natural tanzaniano, capas coloridas, uma bela produção.
Almoço no Itamaraty também, claro, é cultura. Multicultura. Você sabia que o Kilimanjaro, o maior pico da África, fica lá, em terra tanzaniana?
"Pois é, se você olhar o mapa, há um pequeno dente, na fronteira com o Quênia, um pedaço da Tanzânia, onde fica o Kilimajaro", me diz o orgulhoso jornalista africano. "Mas as companhias aéreas do Quênia, quando sobrevoam o local, só indicam, 'aqui é o Quênia', e 'ali, o Kilinajaro', e todo mundo pensa que o monte é queniano".
Jurei que nunca tinha pensado nisso (o que era verdade). E faço minha parte, aqui, com meus 300 leitores, em denunciar essa indevida apropriação queniana.
Mais não posso contar. Os CDs com que ele me presenteoou não abriram, nem a pau, em nenhum computador.

Chamar Leonardo como Da Vinci é o mesmo que rezar para o De Nazaré, pensando em Jesus?
Esse debate anda correndo pelas vias da Internet, levantado por inimigos figadais do romance do Dan Brown, que juro ler algum dia, quando terminar a edição completa da Imago com as obras do Freud e alguns milhares de outros livros mais absorventes. Nós, a exemplo de muitos, chamamos Da Vinci de Da Vinci desde criancinha, e, por isso, consideramos esse debate uma coisa bizantina (e isso, como sabem, faz com que ele, o debate,sendo bizantino, ocorra na Idade Média, e, portanto anteceda o Renascimento, tornando a discussão impossível porque o Da Vinci nem tinha nascido nessa época).
Como toda a discussão bizantina, portanto, é uma discussão adorável. Só não é melhor que o clássico do Freud (já que falei do velho) sobre o Da Vinci, em que ele toma cuidados de cirurgião para contar à sociedade vienense do início do século que suspeita de homossexualidade enrustida no artista. Uma das provas é a lista de compras para o enterro da mãe natural do Leonardo, pista que Dan Brown nem farejaria.
Nesse texto, como todos sabem, Freud, esse tarado, chega a dizer que o famoso quadro de Sant'Anna com a Madona e a criança (o de Nazaré acima citado) esconde, no manto da avó de Cristo, um abutre (ou milhafre, não se sabe, os tradutores até hoje se desentendem em relação a esse pássaro).
O bico está lá, abaixo do braço direito da santa, e o rabo do milhafre (ou abutre, acho que já falei disso) pára na boca do menino, o que, segundo Freud, faz referência a um estranho sonho anotado por Da Vinci em seu diário, sobre um pássaro (abutre ou milhafre, sei lá) que teria enfiado o rabo na boca do Leonardo criança. Fantasias de felação, concluiria Freud, incorrigível detrator da fama alheia, e da própria.
Mas estava eu na discussão bizantina. Bom, o debate sobre se Leonardo pode ser Da Vinci está, infelizmente em inglês, neste sítio interessantíssimo AQUI, aonde fui levado pelo Smart. Argumento decisivo: se Da Vinci é errado, não poderíamos chamar Vincent de Van Gogh. Ou citar o Alexis como de Toqueville.
AQUI e AQUI..

Como sabem bem os caricaturistas, todos nós, com um traço aqui e outro lá, parecemos com algum bicho. Estava eu numa discussão sobre a cara de um conhecido personagem da diplomacia brasileira, que um amigo meu diz ter rosto de certo pássaro. Para mim, trata-se, evidentemente de uma face cunicular, é só conto isso só para conferir com a impressão dos leitores.
É evidente, também, que poucos que me lêem saberão que diabos é cunicular. Eu também não sabia, e buscava o adjetivo na Internet quando encontrei o prestativo doutor Dilson Catarino, AQUI. Ou todos sabem que hircino é relativo a bode? Coriáceo, de couro? E acrídeo? Não é de uma clareza hialina?
É, a busca incessante pelas arredias notícias mais uma vez deixou o mato crescer neste Sítio. Prometo voltar hoje à noite, com um pequeno rescaldo da passada na Bolívia e considerações importantíssimas para o destino da humanidade,m entre elas uma solução inovadora para o teorema de Fermat, uma foto da Gisele Bundchen em situação constrangedora no gabinete do Cláudio lembo (ele de cuecas) e os planos do Hugo Chávez para a conquista de Roraima, contando com o desconhecimento brasileiro a respeito daquela parte remota da anatomia brasileira.
Enquanto isso, divirta-se com o Flávio Prada, contando o que acontece quando um brasileiro radicado na Itália resolve aderir à campanha de economia de água na Europa. AQUI.

Nem as relações Brasil-Bolívia estão essa maravilha que o governo gostaria de mostrar, nem o governo brasileiro abriu as pernas como gritam os jornais brasileiros de hoje. Continua imprevisível a ação do presidente Evo Morales, que, em casa, é pressionado pela população para cumprir as inflamadas promessas de campanha e cobrado pela oposição caso não o faça. Morales precisa ganhar tempo, aproveitar a euforia causada com a nacionalização para garantir a maioria na Assembléia Nacional Constituinte, com que tenta conseguir consolidar seu poder na Bolívia, e garantir a moldura legal para seu plano de governo. Até julho, não tem muita margem de manobra.
Depois de julho, e no tempo que há até a eleição no Brasil... muito gás vai correr pelos dutos da Petrobras.
Não me pareceu que as declarações de Lula desautorizaram a declaração do presidente da Petrbras, de que poderia interromper investimentos na Bolívia. Lula não contestou a afirmação do Gabrielli, apenas deu um formato na melíflua linguagem diplomática, às condições que a Petrobras impõe para botar mais dinheiro em território boliviano. Investir, só se houver acordos satisfatórios para a empresa, o que inclui menos impostos do que os determinados provisoriamente pelo decreto de nacionalização (que, aliás, não estão sendo pagos porque não se regulammentou o tal decreto até agora).
Muita gente no Brasil e aqui na Bolívia (todos os empresários com que falei, acadêmicos apartidários, políticos da oposição) dizem que esses recados diplomáticos de Lula não são entendidos por aqui, pelo contrário: reforçam a impressão de que o Brasil está de joelhos, dependente do gás boliviano. Só há uma coisa capaz de mostrar à equipe de Evo que não tem liberdade total de ação: alguma patada uma ação dura, é a única linguagem que seu grupo entenderia, dizem. Parece ser o que querem diplomatas experientes no Brasil e os editoriais da maioria dos jornais.
Bom, de joelhos está só a campanha eleitoral de Lula, que depende de que não haja aumento do gás para evitar turbulências. E Lula também não quer dar força à oposição boliviana, por acreditar ainda que Evo é um companheiro do lado bom da Força, e achar que isso só convulsionaria ainda mais um país frágil, na vizinhança.
Eu apostaria que, na reunião a quatro paredes, em Puerto Iguazu, não houve os risinhos que os presidentes mostraram para as câmeras de tv, nem tapinhas nas costas. Quem sabe, Lula deu o recado duro que o país esperava dele.
Isso só vai se ver com as próximas ações do governo boliviano. Logo, logo.
(em breve, comento sobre o Hugo Chávez, esse craque que ajudou na campanha do EWvo e agora, na cara de pau, diz que a Bolívia vai participar no gasoduto planejado por ele, que...vai criar competição no Cone Sul para o gás da Bolívia. A verdade é que muito pouca gente acredita que ess gasoduto saia do papel).
Se v. não entendue nada do que estou comentando, dê uma olhadinha no que se passa no universo, nos jornais clipados AQUI.

Só reproduzindo minha coluna no Valor, em dezembro de 2005:
Interesses na Bolívia de Morales
26/12/2005
Luiz Inácio Lula da Silva receberá, no dia 13, em Brasília, a mais nova incógnita sul-americana, o recém-eleito presidente boliviano Evo Morales. Pretende conversar sobre gás natural, narcotráfico, infra-estrutura e investimentos brasileiros. A incerteza sobre possíveis desapropriações deixou no limbo planos de bilhões de dólares no país com o qual o Brasil tem a maior fronteira, mais de 3 mil quilômetros.
Lula também conversará sobre a incorporação da Bolívia como membro pleno do Mercosul, bloco ao qual o país já é associado - sem participação nas negociações internacionais, hoje feitas conjuntamente por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
A adesão integral da Bolívia ao Mercosul foi sugerida pelo novo presidente da Comissão de Representantes Permanentes do Mercosul, o polêmico argentino Carlos Chacho Álvarez. É vista com simpatia no Planalto, segundo o assessor internacional de Lula, Marco Aurélio Garcia. O tema será tratado, no Planalto também por outros dois astros da constelação sul-americana de presidentes de esquerda. No dia 18, Néstor Kirchner, da Argentina, faz sua primeira visita de Estado ao Brasil. Aqui, terá encontro tripartite, no dia 19, com Lula e o venezuelano Hugo Chávez.
O governo brasileiro quer saber de Morales seus verdadeiros planos para o gás boliviano, alvo de de empresas estrangeiras - a maior delas, a Petrobras, responsável por 19% do PIB do país. Não se pode acusar o boliviano de enganar investidores; a última comitiva brasileira que o indagou sobre o assunto, ainda antes da eleição, recebeu um "vamos ver" como resposta. "Si gañamos, vamos a ver entonces lo que hacer", dizia o candidato.
A maior parte da cocaína vendida no Brasil vem da Bolívia. Morales, ex-plantador de coca, quer proteger os agricultores da erva para usos legítimos, tradicionais e não alucinógenos, sob a forma das folhas para mascar ou fazer chá. Interessa ao Brasil ajudá-lo a cumprir a promessa, sem dar guarida ao narcotráfico. Não se sabe ainda como. Lula vai falar em "cooperação" no combate ao tráfico da droga. Duas outras razões também recomendam atenção especial ao novo governo vizinho. Tem crescido a migração de bolivianos ao Brasil, e o gás da Bolívia está solidamente integrado à matriz energética brasileira.
Brasil quer conhecer os planos para o gás boliviano
Lula recebeu Morales, em novembro, durante a campanha, num encontro apenas protocolar. Agora será um encontro de trabalho. O governo brasileiro quer estimulá-lo a fazer um governo de alianças, moderado, sem rompimento abrupto de contratos. Segundo Garcia, Lula falará de ajuda brasileira à Bolívia, de financiamento do BNDES para projetos de infra-estrutura, programas de compra de mercadorias de fornecedores bolivianos (a chamada substituição competitiva de importações) e, claro, a necessidade de se criar um clima de estabilidade para investimentos no país.
É forte a pressão na Bolívia por nova mudança na legislação sobre o uso do gás. Em julho, o país elege uma Assembléia Constituinte. Morales ainda não deu pistas do que fará. Com US$ 1 bilhão em investimentos, a Petrobras tem óbvias apostas lá, onde, além da operação do gasoduto Brasil-Bolívia, controla as duas maiores refinarias, tem uma rede de postos de combustível e campos de exploração de gás. Mas é uma empresa privada, a Brasken, que promete elevar o patamar produtivo boliviano, com uma fábrica de insumos para produção de plásticos, em que quer investir até US$ 1 bilhão e gerar 40 mil empregos diretos e indiretos.
Em novembro, o presidente da empresa, José Carlos Grubisich, esteve com Morales e os outros candidatos. Alertou que a indefinição sobre o ambiente de negócios pode levar a Bolívia a se alijar do novo ciclo de investimentos no setor. A fábrica, com gás boliviano, é considerada "estratégica" para a Brasken.
Morales, líder dos militantes indígenas que paralisaram o país e derrubaram os presidentes Sanchez de Losada e Carlos Mesa, moderou o discurso fortemente nacionalista, desde a eleição. Tem recebido sinais dos adversários de que há espaço para negociações políticas. Apesar da retórica, ele tem necessidade de acertar com os EUA um acordo comercial, para substituir o atual tratado de preferências que permite a venda de produtos bolivianos sem tarifas aos EUA, mas que se extinguirá em 2006.
Ao mesmo tempo, é forte a influência de Chávez sobre o boliviano, o que pode até levar a maior expansão da estatal petroleira venezuelana no vizinho. Ouviremos falar muito da Bolívia, neste ano que vai nascer.
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Adendo pós-nacionalização boliviana: parece que a fábrica da Brasken será construída. Em Trinidad e Tobago.

Todo jornalista que faz cobertura internacional deve carregar consigo um disquete ou um pen drive, e assegurar-se de que o hotel onde está tem um business center razoável, que fique aberto nos horários improváveis dos jornalistas (surpreendente: a melhor infra-estrutura que já encontrei no mundo foi no Paraguai, e, agora, na Bolívia). Tudo parte do manual de sobrevivência, para enfrentar o exu que costuma baixar nos palm tops do jornal fazendo morrer na praia muita reportagem escrita sob a pressão do horário de fechamento dos jornais. No tempo do telex, o manual incluía subornar a operadora, para enviar nossa matéria antes da concorrência.
Sigo esse manual religiosamente, mas nada me adiantou ontem, quando, com poucos minutos para entregar o que escrevia, o cursor do editor de texto começou a correr pela tela como se estivesse com overdose de folhas de coca. Os computadores do business center eram daqueles que não têm acento para palavras em português. Acho que nunca fui tão xingado pelos editores quanto ontem. Problemas no teclado, hoje já resolvidos: os acentos que faltarem aqui podem ser atribuídos à ignorância e pressa do proprietário deste Sítio.
Tudo isso para dizer que hoje prefiro deixar para os outros comentarem de longe o que se passou entre Brasil e Bolívia. E apresentar para quem ainda não conhece, o sítio do Itamaraty com as resenhas de imprensa, que permite contornar essa mania dos jornais de exigirem senha para a leitura dos artigos. Vamos lá.
A Míriam Leitão convocou o Ricupero para dizer o que acha dos cuidados de Lula com o Morales, AQUI
O Nassif baixa a bola do apedrejamento contra os bolivianos, AQUI.
E o Adriano Pires dá um contexto ppouco favorável ao governo Lula AQUI
Para uma opinião que eu não entendi direito onde quer chegar (li muito rápido), AQUI
E, para uma excelente _ como sempre _ informação sobre o papel de Hugo Chávez nesse rolo todo, o Clóvis Rossi, AQUI.
E, se você freqüenta este Sítio dirigindo num computador Itautec velho com conexão discada e ficou frustrado e irritado com esse monte de links para outras páginas, deixe um comentário para a gerência na caixa aí embaixo. Ela é pra isso mesmo, queremos só agradar aos visitantes.

Enviado pelo Valor para a Bolívia, viajei no fim de semana rezando para encontrar algum gancho novo para a crise entre o Brasil e os andinos. Cheguei no domingo à noite, parto para a manifestação de primeiro de maio, driblo as centenas de mulheres pequenininhas e gordinhas mascando coca com aquele chapéu coco estranhíssimo e ouço, na praça onde, até a década de 50, os índios eram proibidos de entrar, que o governo boliviano introduziria uma naba amazônica na Petrobrás. A manchete tupiniquim do dia seguinte.
Nisso que dá ateu rezar. São Sarapião.
Apelem a ele, caros leitores, é batata. Mas cuidado que o santo é dado a exageros.
Bolívia muda, Evo cumpre
Não se proíbe o personalismo na propaganda oficial da Bolívia, ao contrário do que salutarmente se faz no Brasil. Evo Morales, que luta para reverter a queda de popularidade dos últimos meses e põe como prioridade eleger uma maioria na futura assembléia nacional constituinte do país, está faturando adoidado a euforia nacional com o confisco das propriedades das multinacionais estrangeiras. No caso, a principal multinacional que os bolivianos acusam de saquear os recursos do país é a Petrobrás. provocou orgasmo coletivo a cobertura do logotipo da empresa por uma fiaxa com a palavra "nacionalizada", em postos e campos de petróleo.
Nacionalizar era promessa de campanha de Evo, e um analista boliviano com quem conversei acha difícil de acreditar que o governo Lula tenha sido pego de surpresa. Os sinais estavam todos aí. E na entrevista para o Roda Viva, que a tv oficial da Bolívia reprisa neste momento (sem nem traduzir as perguntas dos brasileiros), Morales disse com todos os fonemas que o sistema de pagar só 18% de imposto e ficar com 82% das receitas do gás era um "saqueo" da Petrobrás.
Para entender como o anúncio de Morales toca uma corda agudíssima na sensibilidade nacional, é preciso conhecer a história da Bolívia, a drenagem secular das ricas minas de Potosí para financiar o luxo europeu (e a industrialização da Inglaterra), a cegueira da plutocracia local, que diz sem pudor que o país se salvaria no dia em que matassem todos os índios.
Até anunciar a nacionalização (uma reivindicação histórica dos bolivianos, que só se uniram mesmo, na história, em momentos como esse), Evo Morales só tinha uma coisa para divulgar no comício convocado por ele no 1º de maio: um aumento frustrante, de uns US$ 12,00, no salário mínimo e uma incerta decretação da estabilidade no emprego. A nacionalização o transformou num herói do povo. Aliás a propaganda oficial enfatiza essa mitologia, comparando a decisão de ontem à luta dos soldados que morreram lutando na Guerra do Chaco, contra o Paraguai, por uma região rica em petróleo. Minha opinião é que, com as melhores das intenções, Evo Morales acaba de enterrar a possibilidade de iniciar um ciclo de industrialização na Bolívia sustentado pela alta do petróleo.
É verdade que a Bolívia foi o país que mais perdeu território para os vizinhos. O Brasil, aliás, foi o que levou o maior naco, hoje atendendo sob o nome de Acre. Os bolivianos acusam o Brasil de ter-lhes roubado o Acre. A uma autoridade brasileira que lembrou a uma autoridade boliviana que o Barão do Rio Branco comprou o Acre da Bolívia, o boliviano respondeu: "esse dinheiro foi para as elites, e nunca chegou ao povo boliviano".
Perdi a chance de comprar ações da Petrobrás quando permitiram o uso da grana do FGTS, e, por isso, fui sacaneado por meses pelo Ribamar Oliveira, até que ele saiu do jornal e parou de me encontrar todo dia. Minha distração me pôs em La Paz sem nenhum interesse individual na empresa. Mas a freqüência com que as autoridades aqui falam da cobiça das empresas estrangeiras e da exploração dos estrangeiros se esforçam para me convencer que sou um legítimo representante de um país imperialista. Agora sei como se sente o Larry Rother. Mas resistirei bravamente a fazer matéria sobre a atribulada vida pessoal do presidente local.

