Segunda-feira é dia de pensar na vida, avaliar os erros do passado e pensar no futuro. Na verdade, o dia e momento de fazer isso é domingo à tarde, quando a voz do Faustão, vinda da cozinha, provoca uma depressão brutal e impulsos de suicídio, afogados em mais um golinho de Marques de Casa Concha, safra 2003, comprado baratinho no supermercado próximo. Por falar em filosofia, e bebida, o Almirante Nélson preparou o post mais apropriado para esta segunda em que as seqüelas do efeito estufa nublaram os céus das capitais brasileiras até ontem assoladas por uma seca insuportável. Vamos a ele:
BANQUETE, DE PLATÃO, TIVESSE CARDÁPIO
Entrada
– Pães, figos frescos de Corfu, mel da Tessalônica e, claro, a entrada principal: a de Fedro, que espalhafatosamente arreganha as portas e anuncia a todos que vai começar um discurso em homenagem a Eros, provando que a divindade é responsável pelo princípio e fim de todas as coisas.
Bebidas– Vinho de Tebas, principalmente na cabeça de Pausânias que, totalmente ébrio, aproveita o discurso de Fedro para também louvar Eros e o amor entre iguais – e já passando uma cantada em Agatão, o anfitrião. Todos fingem ignorar.
– Água, que Erixímaco, o médico, recomenda a Aristófanes para curar um insistente soluço, com toda a certeza oriundo da abundante ingestão do vinho de Tebas.
O resto é para ler AQUI.
julho 2006 Archives

Ser carioca, às vezes, é uma merda. Me desculpe o termo, neste Sítio (que, insisto, é de família), mas é que sou carioca, sabe? O carioca, como se sabe, destesta convenções, é chegado a uma provocaçãozinha politicamente incorreta, adora andar na contra-mão da opinião geral, em suma, é, não raro, um chato. Mas com freqüência, um chato engraçado, por isso continua contrariando desse jeito. E pode se meter em encrenca.
(pausa para uma lembrança que me veio escrevendo esse texto. A Leila me conta que vão dar o nome de Bussunda a uma rua da Barra. É a piada que nem ele inventaria. Imagine o sujeito perdido no Recreio dos Bandeirantes:
_Moço, pode me dizer como pegar a Bussunda?
_A que altura?
_ É muito grande, essa Bussunda?
_ Bom, o senhor segue em frente, dobra à direita no terceiro sinal, vai dar de cara com a Bussunda. Mas tome cuidado, que lá pelo meio está cheia de buraco.)
Bom, essa papagaiada toda é a propósito de um amigo meu, que temo estar se atolando na própria carioquice. Chama-se Paulo Kramer, respeitado cientista político, boa praça que, dias atrás, ao traduzir livremente uma expressão de um texto que falava sobre o fracasso de políticas de assistência social nos EUA, usou o termo "crioulada" para traduzir "blak under class" em uma aula. Um aluno, negro, reclamou, Kramer se dwsculpou por e-mail, mas, na aula seguinte, fez um discurso irado e irônico contra as patrulhas ideológicas e a macaqueação que se vem fazendo do programa de ação do multiculturalismo estadunidense. Aí foi metade da turma quem se enfezou, e estão tentando expulsar o Kramer da UnB.
A coisa vem crescendo, ainda vai virar notícia no Jornal Nacional. O Kramer, indignado, ameaça procesar os alunos, mas andou fazendo deboche com os caras.
Daí eu dizer que carioca é uma merda. Fosse paulista, ou pernambucano, e ele já teria partido para um compêndio sociopolítico com argumentos sobre como a legítima batalha contra o racismo está ameaçando se acompanhar de uma catadupa de ações histéricas, mal focadas, mal assentadas na realidade nacional. O legítimo direito de defesa transformado em assédio vernacular. Em estrada para oportunistas (me lembro do Fogueira das Vaidades, do Tom Wolfe, recomendo a leitura. Bom, o Wolfe é um elitista esnobe; deixa pra lá).
Estou resistindo a falar de cotas. Falo rapidinho: o Brasil, racista, precisa de ações afirmativas para desbloquear a entrada para os negros, em lugares onde são barrados pela cor da pele, pelo preconceito. Nunca soube de Universidade que tenha barrado a entrada de um negro, por ser negro. E tenho refletido sobre um intelectual que vem vociferando contra a forma como uma elite (a que consegue alcançar a universidade pública) transformou as cotas em supra-sumo da política de inclusão social, desobrigando-se, assim, de discutir mais a fundo políticas eficazes de fato para tirar da miséria a espessa maioria pobre e negra que não consegue sequer terminar o ensino médio.
Mas, como me disse um grande líder (foto acima), depois que o Gil tinha me feito verter lágrimas na África, interpretando, à capela, a Île de Goré, "racismo é como dor de barriga, só quem sentiu é que sabe como é".
Parece que estou fazendo gozação, mas é que sou carioca. Ele, metáfora intestina à parte, está coberto de razão. Eu que, sempre criei meus filhos alertando para a covardia das piadinhas racistas, me sinto à vontade para dizer que sou contra cotas, e que vejo muito exagero em certas reações como a batalha contra o irado Kramer.
Mas nunca senti racismo na pele (revista no aeroporto de Miami não vale). Não me sinto no direito de condenar ninguém por histeria contra o racismo. Só me solidarizo com o professor da UnB, que ainda pode acabar vítima do próprio livre-pensar nada racista. E da maldita, debochada, irresponsável e irrefreável carioquice.
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Agradeço ao PJ e Patrick, que discordam de tudo isso aí em cima, nos comentários abaixo. Inauguram o debate que eu gostaria de provocar aqui neste Sítio.

Uma de minhas maiores surpresas quando comecei a conhecer a Argentina foi descobrir que o Itamaraty deles se chama MInistério de Relaciones Exteriores Y Culto. Culto, no caso, é aquele com hóstia e sinal da cruz mesmo: as relações externas do governo, nos países ex-colônias espanholas, se estendem aos domínios do Todo-Poderoso. Assim é no Chile, Paraguai, Bolívia...
Bom, na Bolívia essa coisa está dando galho. O Evo Morales começa a perder popularidade por lá porque, sempre porra-louca, cometeu a barbaridade de querer reduzir a influência da padrecada no sistema escolar. Além de pecado, isso é, como se sabe, um perigo para as tenras criancinhas que ficarão privadas da benéfica influência sacerdotal.
A questã é que, na Assembléia Nacional Constituinte, o Evo quer fazer o que faz qualquer presidente civilizado, e declarar que o ensino público é laico, leigo, sem vinculação com a Igreja Católica ou qualquer outra crença ou crendice. E a turba dos papa-hóstias e áulicos diversos o está crucificando por isso. Não se fala dessa história no Brasil. Afinal, para todos os efeitos, na imprensa brasileira, o atrasado, irracional, retrógrado é ele, o Morales.

Quando os jornais publicaram, outros foram atrás e chegaram a noticiar que o governo tinha tirado o site do ar. Mas o bravo e queridíssimo amigo Cristiano Romero, sério demais para tratar do tema em sua coluna, recebeu a informação e a ofereceu aos leitores deste sítio aqui: em tempo de Bruna Surfistinha nas livrarias e de sanguessugas no Congresso, piranha que é piranha continua a ter regulamento oficial, com páginas de Internet abrigadas no Ministério do Trabalho.
Está lá, ou melhor, AQUI. Bem no nº 5198 da Classificação Brasileira de Ocupações. Atenção para a definição:
Profissional do sexo - Garota de programa , Garoto de programa , Meretriz , Messalina , Michê , Mulher da vida , Prostituta , Puta , Quenga , Rapariga , Trabalhador do sexo , Transexual (profissionais do sexo) , Travesti (profissionais do sexo) .
E o que fazem?
"Batalham programas sexuais em locais privados, vias públicas e garimpos; atendem e acompanham clientes homens e mulheres, de orientações sexuais diversas; administram orçamentos individuais e familiares; promovem a organização da categoria. Realizam ações educativas no campo da sexualidade; propagandeiam os serviços prestados. As atividades são exercidas seguindo normas e procedimentos que minimizam as vulnerabilidades da profissão."
Opa, peraí! Profissionais do sexo são os que "administram orçamentos individuais e familiares"? Deve ser contrabando de algum técnico do ministério. Uma queixa de que, com o salário que pagam a alguns bagrinhos do funcionalismo, fazer orçamento doméstico virou mesmo uma safadeza.
O link sobre competências profissionais, detalhadas pelo ministério é criativo, e surpreendentemente detalhado. Já reproduzo aqui, porque, quem sabe, pode ser útil a outras profissões:
1 Demonstrar capacidade de persuasão
2 Demonstrar capacidade de expressão gestual
3 Demonstrar capacidade de realizar fantasias eróticas
4 Agir com honestidade
5 Demonstrar paciência
6 Planejar o futuro
7 Prestar solidariedade aos companheiros
8 Ouvir atentamente (saber ouvir)
9 Demonstrar capacidade lúdica
10 Respeitar o silêncio do cliente
11 Demonstrar capacidade de comunicação em língua estrangeira
12 Demonstrar ética profissional
13 Manter sigilo profissional
14 Respeitar código de não cortejar companheiros de colegas de trabalho
15 Proporcionar prazer
16 Cuidar da higiene pessoal
17 Conquistar o cliente
18 Demonstrar sensualidade
Cafetina para ser respeitada no mercado, deve checar todos esses pontos com a(o) futura(o) funcionária(o). Item 9, por exemplo. Sem capacidade lúdica,não tem jogo. Embora a profissão não seja brincadeira.
Quem estiver em dúvida tem, ainda uma impagável "Tabela de Atividades". Reproduzo para os freqüentadores deste Sítio (que, insisto, é de família), uma amostra do que prepararam os consultores do governo:
Agendar a batalha
Produzir-se visualmente
Aguardar no ponto (esperar por quem não ficou
de vir)
Seduzir com o olhar
Abordar o cliente
Encantar com a voz
Seduzir com apelidos carinhosos
Conquistar com o tato
Envolver com o perfume
Oferecer especialidades ao cliente
Reconhecer o potencial do cliente
Esses últimos dois ítens podem gerar até coleção de livros de auto-ajuda para a messalina prós-moderna. Fico imaginando o enorme potencial das profissionais do sexo, após cursos de expansão de especialidades, como agentes de saúde para exames médicos preventivos. Vejo, nas livrarias, o best-seller: "Reconhecendo o potencial do bofe - As lições do Wall Mart traduzidas para o supermercado do sexo".
Mas, repito, o tema é sério. Não é qualquer atividade que é catalogada por ministério e regulamentada ao ponto de trazer orientações oficiais sobre o uso de lubrificantes à base de água. Por isso, recomendo fortemente atenção à análise dos técnicos:
O acesso à profissão é livre aos maiores de dezoito anos; a escolaridade média está na faixa de quarta a sétima séries do ensino fundamental. O pleno desempenho das atividades ocorre após dois anos de experiência.
Ou seja, para aquele(a) que necessita dos serviços dos operosos profissionais da vida fácil (que o ministério, noutra página, mostra não ser mesmo tão fácil assim), recomenda-se pedir currículo e verificar o tempo de serviço. Antes de dois anos, não se deve esperar o "pleno desempenho das atividades", não importa o que diga o classificado no jornal.

Passei pelo blogue da Elenara (belo texto, aquele sobre a encrenca no Líbano, pena que em espanhol) e fiquei muito impressionado com esse retrato acima.
O Brasil precisa mesmo de alguém que seja capaz de fazer milagre. Vou votar nesse tal de Photoshop.
Mato para todo lado, galinhas à solta, este pobre Sítio corre o risco de ser invadido por uma turba do MSLT, descuidado como o deixei. Perdão leitores. Assuntos para posts aqui voejam sobre minha cabeça semi-calva como mosquitos ameaçadores, me picam, me compelem ao teclado, mas o massacrante cotidiano do ganhã-pão jornalístico me acorrenta a outras paragens.
É tempo de seca em Brasília, onde, nessa época pré-eleitoral, os repórteres de economia carregam às costas gigantescos umidificadores para, com jorros de cachoeira, fazer vicejar as frágeis pautinhas que brotam das reuniões de redação.
Folheio as páginas. Se não fosse a Varig, a Perdigão e o Hugo Chávez, teriam de preencher com palavras cruzadas as seções de economia dos últimos dias. Mas agora, como lembra o professor Santoro, eis que se esboroa em Genebra a falada Rodada do Milênio da OMC, que iria trazer a felicidade à terra sob a forma de uma gigantesca liberalização comercial. Aliás, ja começou se esboroando: eu estava em Seattle, padecendo de uma estranha artrite auto-imune, quando milhares de ongueiros viraram de cabeça para baixo a primeira tentativa de lançar a rodada, sob a complacência do Bill Clinton (àquela altura já às voltas com uma gulosa Lewinski).
A explicação, caro Santoro, você sabe muito bem: os países ricos teriam de ceder mais do que ganhar, desta vez; e, desse jeito, a brincadeira não tem graça. Que não joguem bombas no Irã para desviar a atenção desse enorme fracasso da retórica liberal. Faça o que digo, não faça o que faço, disseram os europeus e estaduinidenses à canalha terceiro mundista. Mas falarei disso em breve. Assim que garantir o leite de soja das crianças.
Antes, botarei nesse Sítio uma interessante descoberta do Cristiano Romero, sobre as condições do governo Lula para o exercício da prostituição. O Sítio é de família, e abordarei o tema, como o fez meu querido Romero, pelo ângulo trabalhista. É iluminador. Não percam. Voltem em breve, que agora tenho de limpar o mato, azeitar os gonzos das portas e catar as galinhas.

Leio em um grande e respeitado jornal, de dois repórteres que aprecio, que Chávez pretendia vir ao Brasil para azucrinar o Lula bancando o advogado do Uruguai e do Paraguai, em seu novo papel de paladino das esquerdas no Mercosul. Fiquei interessado, isso seria um belo furo de reportagem. Na quarta-feira, havia sido cancelado, na última hora, um almoço entre Chávez e Lula, no Planalto, marcado para tratar de "colaboração no setor de energia e entre a Petrobras e PDVSA".
Me admirava com o jornal, que descobriu um bastidor apimentado, e invejava a apuração, quando li, no parágrafo seguinte:
"Segundo informações extra-oficiais, o cancelamento do encontro foi causado pela suposta irritação do presidente brasileiro com o crescente protagonismo do novo sócio nos problemas preexistentes do bloco."
Opa, opa. Peraí. Então o Lula teria marcado um almoço com o Chávez, anunciado isso publicamente, com antecedência, e, na manhã do convescote, decidido que não queria ver o cara por causa do "protagonismo" do bolivariano nos "problemas preexistentes do bloco"? Mas, se estava irritado com o sujeito, por que teria marcado o almoço? Sei não, comecei a desconfiar dessas "fontes extra-oficiais".
Bom, pode até ser que Lula teria lido no jornal duras verdades sobre Hugo Chávez, e, numa tardia epifania, trocado de mal com o venezuelano. Muito temperamentais, esses latinos.
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Chega de Mercosul neste mês. Neste fim de semana, juro que mudarei de assunto.

O professor Paulo Roberto de Almeida mandou, corro a atender: estava eu na Venezuela...
... e quando cheguei ao Hotel Hilton, em Caracas, descubro que se encerrava, naquele dia, um Congresso de Sexologia. Nada a ver com os prognósticos dos analistas para a relação futura entre Hugo Chávez, recém-ingressado no Mercosul, e seus novos parceiros, Lula, Kirchner, Tabaré Vasquez, Nicanor Duarte Frutos. Entendi como uma espécie de tentação para povoar de trocadilhos e comparações infames este Sítio, que é de família e passará ao largo. Vade Retro Satana. Fiquemos com nosso contemporâneao demônio de salão, o interessante e intrigante Hugo Chávez Frias.
O motorista de taxi que me leva do aeroporto ao hotel me diz que era prestador de serviços na PDVSA, a poderosa petroleira venezuelana, e que perdeu emprego com as paralisações promovidas pelos opositores de Chávez. Diz que o governo chavista lhe deu condições de frequentar universidade, alimentar a família e sonhar com o futuro. Já o motorista que, no fim da viagem, me levou do hotel ao aeroporto, acusava Chávez de fazer política no continente esquecendo-se dos venezuelanos, imprecava contra as milícias bolivarianas estimuladas pelo presidente, a quem chamava , não sei por quê, de "anormal". A pluralidade impera na praça venezuelana. Melhor do que em São Paulo, onde a unanimidade malufista se manifestava ao clique dos taxímetros.
As pessoas falam abertamente contra Chávez, os jornais o criticam, sem excessos e com certo temor, as livrarias trazem obras descendo a lenha no líder bolivariano. Não é um país de perseguição cruenta às vozes dissonantes, penso eu. Já falar com o governo é uma aventura de resultados geralmente infrutíferos. Ineficiência ou centralismo excessivo? Uma mistura dos dois, parece. Grande polêmica local: o preidente mandou ou não distribuir fuzis a civis? É uma rima, mas nem de longe solução. Ao deixar o país, leio nos jornais que não.
No Dia da Independência, Chávez desfila seus milhares de soldados, com fuzis que pretende fabricar em território venezuelano, e discursa em favor de um Exército do Mercosul (cruz credo). O presidente paraguaio pede socorro a Chávez na briga que vem travando com Lula, para renegociar a dívida da Itaipu binacional com o Brasil. Chávez promete um grupo de trabalho e diz que tem de pedir benção antes a Lula. No Paraguai, membros do partido Colorado, o mesmo do presidente Duarte Frutos, o acusam de querer usar a grana de Itaipu para fazer campanha eleitoral. Lula insinua isso, quando lhe perguntam sobre as demandas paraguaias e os estrilos bolivianos de Evo Morales.
Kirchner, que detesta cerimônias presidenciais e já fez forfait em algumas promovidas por Lula, fica em Caracas opor dois dias, põe flores em monumentos, asiste à parada. E vende uns titulozinhos da dívida a Chávez. Argentinos me informam que, dos quase US$ 3 bi comprados pelo venezuelano em bônus da dívida argentina, só restaram uns US$ 200 milhões em Caracas: o resto foi vendido com lucro no mercado secundário, até por venezuelanos proibidos de movimentar livremente seu dinheiro, como no passado.
Os preços são congelados, para a cesta básica, na Venezuela. Os jornais noticiam que a inflação vai pasar dos dois dígitos neste ano, e os maiores aumentos são em itens que deveriam estar sob controle rígido do governo.
Acostumados com as delícias do mundo neoliberal, brasileiros tentam pagar a conta do hotel em dólar. Não pode. O câmbio é controlado na Venezuela. Sabe-se lá se os mercados já não teriam posto Chávez de joelhos, não fosse esse controle esdrúxulo.
Ah, pode-se comprar dólar nas casas de câmbio. É feriado, estão fechadas? Bom, nesse caso, tem um sujeito no hotel que te leva para uma salinha escondida e te troca quanto quiser, em moeda sonante americana. Câmbio negro, já tinha até me esquecido de como era isso. Tremenda nostalgia, me dá essa Venezuela. Todos temos em nós um bolivariano doido para desfraldar bandeiras na primeira parada.
Na ida e na volta, passamos por enorme engarrafamento, da ponte de ligação na estrada entre a cidade e o aeroporto. Que desmoronou, de podre. Resultado de décadas de oligarquias corruptas, me diz o taxista que me pegou no aeroporto. Demonstração da incompetência de Chávez, que distribui dinheiro pelo continente mas deixa acontecer um troço desses na própria capital, me diz o taxista que me deixou no aeroporto.
Compro o El Nacional, no embarque e vejo uma notícia de que há "vaginas e penes toxicos". Esqueci o jornal no avião, jamais saberei do que se tratava. Belo encerramento para uma viagem que começou com um congresso de sexologia.
Será divertido, esse Mercosul com a Venezuela de sócio.
São raríssimos os jornalistas, no Brasil, que se dedicam a acompanhar e avaliar sistematicamente as políticas públicas, ações do governo feitas com o meu, o seu, o nosso dinheiro. Tenho o privilégio de acompanhar de perto o trabalho de um desses repórteres, a Marta Salomon, que, há pouco mais de 20 anos, cometeu a grande besteira de casar comigo. Por isso podem dizer que sou suspeito ao dizer que não consigo entender a razão de acusarem a Folha _ e só a Folha _ de irresponsabilidade na cobertura jornalística. E é freqüente ouvir essa acusação (outro disclosure: a Folha é sócia do Valor, jornal que me paga o salário).
Mas, me explico: embora sempre tenha trabalhado em jornais sérios, nunca vi ou trabalhei em um jornal com tantos controles internos, tantas repreensões por eventuais erros, tanta preocupação com respostas ao leitor, ou satisfações da redação ao ombudsman (o atual Marcelo Beraba, ex-presidente de sindicato, é um jornalista famoso e respeitado pela seriedade e independência). Daí que vejo estultices e desonestidades em todos os jornais, propositais ou involuntárias, e ouço condenações generalizadas à Folha. Não entendo.
Contra a Folha pode-se dizer que é o jornal com maior parcela de jornalistas (e não-jornalistas) jovens, com pouca experiência, alçados a cargos de chefia. Mas também tem alguns dos mais brilhantes e experientes repórteres do país, na cobertura e no controle da redação.
A crítica deve ser por cochilos como o da página A12, uma entrevista com o candidato a vice-presidente tucano, que reproduz, sem aspas, como se fosse título do jornal, uma declaração do José Jorge: "Governo Lula só se compara ao de Collor em corrupção". Que há demasiada corrupção no governo as CPIs já mostraram. Já a afirmação de que governos passados não se possam comparar a este, velhas gravações se encarregam de desmentir. E, do jeito que fizeram o título parece ser o jornal, e não o opositor, quem diz isso. Bem, se fosse noutro periódico, não haveria ombudsman para que quiser reclamar disso...

Sei, estou devendo um relato da venezuela, e outros dez posts que comecei a escrever masi não tive tempo de terminar. Ossos do duro ofício. Mas permitam-me apenas tranquilizar a população, com uma análise sobre a crise de segurança pública em São Paulo, do ponto de vista de um macroeconomista:
_ É apenas uma externalidade negativa. Já está precificada.
Como se sabe, o problema do país é o déficit nas contas do governo e a necessidade de cobrar mensalidades pela universidde pública.
Bienvenidos a Caracas! Depois de pegar um vôo às 4h30 de segunda (maldita falência da Varig), fazer escala no Panamá, evitar uma salada com cheiro estranho no avião da Copa airlines e quase perder o vôo para a venezuela, acompanhei, in loco, a momentosa adesão da Venezuela ao Mercosul. Cobertura que durou até a madrugada de quarta, depois de flagrar Evo Morales saindo de um encontro com Lula. Sim, caro leitor obstinado deste blogue amador, terei histórias para contar.
Mas antes tenho de justificar o leite das crianças e até uma matéria para o acderno de fim de semana me aguarda, nesta temporada bolivariana. Volte mais tarde, nesta quarta. Ou, quem sabe, na quinta de manhã.
O que fazer? Ainda necessito de pelo menos três horas de sono por dia.
Duro, nessas reuniões, é ter de ouvir piadinhas sobre futebol, que provocam gargalhadas de todosl, como se originais fossem. Chávez lembrou que, levado por GFidel castro até um estádio de basebol, onde disputariam as equipes da venezuela e de Cuba, avisou: "aqui, acaba a hospitalidade cubana, de agora em diante é cada um por si". Pretexto do comandante venezuelano para avisar que espera ver a Venezuela campeã na Copa América _ que, pelo que pude entender, vai se passar em Caracas, ou perto. A Copa acabou e meu esforço para acompanhar o futebol esgotou-se com ela. Volto à minha filosofia: esporte, como o sexo, é coisa para ser praticada, embora possa até dar algum prazer só assistindo.
