setembro 2006 Archives

Porque hoje é sexta

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É impressionante a popularidade da Lílian Ramos, que ameaça elevar este Sítio a audiências nunca dantes alcançadas. Todo dia tem um tarado de algum lugar do globo dando com os costados neste humilde canto, só porque já falei da impudibunda moça, posts atrás.
Daí que fiquei muito tentado a reproduzir aqui, também, uma foto da Juliana Paes que, não sei porque motivações, me mandaram por e-mail. Talvez porque penso ser o único que notou e foi capaz de apreciar um torturante band-aid na canela da moça, fartos centímetros abaixo do ponto focal do flagrante a la Marilyn Monroe.
Resisti e resistirei bravamente a publicar a foto neste Sítio, que, afinal, não é sério mas tem uma reputação a lazer. Mas, sem renunicar aos meus altos princípios morais e aaspirações intelectuais, resolvi fazer uma homenagem ao corpo fenimino, na figura da nunca suficientemente louvada Simone de Beauvoir. Grande Simone.
Afinal, a dois dias das eleições, é só nisso que o povo consegue pensar mesmo.

Quando a verdade vem à tona, nua e crua


Quem pensa que só um José Dirceu tem sangue frio para viver durante anos mentindo sobre a própria identidade para a esposa não conhecia Paul Van Valkenbourgh. Por causa dele, a imprensa mundial divulgou ontem a morte de Paul Vance, autor do clássico "Biquini de Bolinha Amarelinha" _ que eu não sabia, mas em inglês tinha o nome cabalístico de "Itsy bitsy teenie weenie yellow polka dot bikini".

Vale a pena ler sobre a história inteira, AQUI.

Diferentemente de Dirceu, que o fez por cálculo político, Paul Van sempre pode alegar que mentiu à mulher por amor _ fingir-se de Paul Vance lhe valeu um longo matrimônio, e a longeva admiração da esposinha. Se o defunto fosse candidato à presidente, e a viúva seu eleitorado petista, provavelmente estaria agora culpando o complô da midia sórdida pela enganação bem bolada do marido esperto.

Lula ganhou por W.O. . Dele.

É quase meia-noite, acompanho pelo rádio o chatíssimo debate entre os presidenciáveis (menos o Lula, que me parece até agora, o grande vencedor). A esmagadora maioria da população eleitoral deve estar dormindo, para pegar no batente amanhã cedo. Heloísa Helena, neste momento, fala no desenvolvimento do córtex cerebral do nenenzinho.

Decididamente, estão perdidos, Lula deve ganhar no primeiro turno.

Evidentemente, para o bem da democracia, Lula teria de ir ao debate. Obviamente, do ponto de vista do candidato, Lula marcou um golaço ao fugir do confronto. Se estivesse lá, estaria torcendo as mãos, olhando para os lados e provavelmente gaguejando ou usando muletas verbais para explicar o inexplicável: porque sua política econômica contraria tudo o que disse na vida política; qual a origem do dinheiro que apareceu nas mãos de seus correligionários; como pode conviver com tanta gente envolvida em situações escusas... Não foi, e a coisa ficou modorrenta, uma versão radiofônica (mesmo na TV) dos programas no horário obrigatório do TSE.

Lula sempre teria algumas respostas. Poderia dizer que nem Heloísa Helena conseguiu controlar seu minúsculo gabinete, do qual seu principal assessor usou indevidamente recursos públicos, aproveitando a estrutura do Congresso, ilegalmente, para fazer campanha. Do Alkimin bastaria lembrar a tragicômica atuação do secretário de Segurança, o Saulo Carandiru. E o Christóvam... bem, o Christóvam é café-com-leite, está fazendo campanha para ministro da Educação, quem sabe para bancar o Ciro Gomes num improvável governo Alkimin.

Alguém acreditava mesmo em debate sério na base da resposta em dois minutos, réplica em um minuto e meio e tréplica também telegráfica? Hoje os militantes pró-Lula já devem comentar o debate, só para dizer que a oposição se juntou ao complô da midia contra o único líder verdadeiramente popular na história desse país.

Anauê.

Tom afinado


Não consigo me lembrar de nenhuma música do Tom Zé, que é meu cantor favorito. Como personagem. Agora fizeram um documentário sobre ele, que adorou, mas pretende processar o diretor. Tudo porque não se conforma com a mania de se incluir o Caetano e o Gil em tudo que se diz sobre música no Brasil.

A ameaça, noticiada AQUI, parece factóide, mas, de fato, pelo menos nessas eleições, entre ouvir o que têm a dizer o Gil e o Caetano, fico com o Tom Zé:

“Não digo uma palavra sobre esa eleição. Porque quando se diz algo, se emite uma opinião, que pode influenciar alguém. E como não tem opinião que preste numa eleição como essa, prefiro ficar calado”
“Tenho uma canção que diz: ‘os operários que se calem, que,que procurem seu lugar, com sua ignorância, porque Tom Zé e seus amigos estão falando no dia que virá e na felicidade dos operários’. Em outra, digo que “o povo há de sobreviver a seus benfeitores, ás canções e à nossa bondade” . Parece que o povo não faz parte da vida nacional. Aliás a palavra “povo” já perdeu completamente o sentido, só é ouvida na retórica de políticos. E numa sociedade em que as palavras perderam o sentido, não há o que dizer”.


Pode haver quem diga que isso é populismo. Haverá que chame de sapiência. Eu digo que essa é uma das razões de minha dificuldade em encontrar um candidato para votar nessas eleições: nenhum dos que está aí entenderia o que Tom Zé está tentando dizer.


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Sobra as eleições, aliás, quem tem algo a dizer mito da blogosfera, o Inagaki, que o diz muito bem AQUI. Embora eu considere bem consistente a argumentação de quem vem defendendo o voto nulo como manifestação de protesto contra a falta de boas opções para a Presidência da República. Pela reforma política, já.

A culpa é do pobre. Especialmente preto.

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Racismo, como disse um amigo meu, é preciso ter a pele preta, para sentir. Como mestiço, branco no Brasil, jeito meio de árabe no primeiro mundo (mais pela herança ibérica paterna que pella afrodescendencia em algum ramo da família materna), sou o primeiro a me dizer incompetente para afirmar qualquer coisa profunda sobre o tema. Mas confesso aqui meu inconformismo com a campanha cerrada que venho sofrendo de um outro amigo meu, que vê traços racistas no meu falar carioca:

_ Neguinho está na maior dúvida sobre quem votar...
_ Neguinho e branquinho também _ me corta, crítico, o amigo militante.
_ Pô, mas nego usa esse termo como genérico...
_ Nego e branco também _ insiste, já irritado.

Eu, se negro fosse, insisitiria no uso do termo neguinho como indicativo de ser humano. Faria até campanha para a incorporação, com orgulho, da palavra crioulo, no falar nacional, avacalhando, pelo uso positivo, a conotação pejorativa do termo. E pensar que muita mulher no mundo dos brancos reclama do uso da palavra Homem como genérico para raça humana...

Não condeno, porém, a militãncia negra, nem pelos excessos. Discordo com freqüência, mas respeito a ira da turma. Talvez algum excesso seja necessário para podar o racismo daninho, que se esconde em comentários aparentemente humorísticos, ou aparentemente científicos no Brasil.

Já reclamei das "estatísticas" mistificantes como esses rankings de competitividade, de que falo no post abaixo. Mas meu amigo Franklin Martins (nego bão tá aí) comenta um uso ainda mais calhorda da estatística, e a propósito do racismo distraído que assola o país. Bela história, essa do Franklin. AQUI.


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Mudando de assunto, falei da Chauí, em texto visto de relance pelo amigo Idelber, que passou calado por este Sítio hoje. Vi uma interessante entrevista com a moça, em que fala dos problemas do PT. Pena que ela mantenha a babaquice de que intelectual de esquerda deve fugir da midia burguesa. Mas vale a leitura. AQUI.

Em jornalismo, nariz-de-cera é a expressão usada para aquele recurso títpico de texto antigo, ou contemporâneo de má qualidade, em que o autor se perde em considerações paralelas antes de entrar no que interessa, na notícia propriamente dita, o lead, no jargão das redações. O termo deve ter alguma relação com a idéia de penduricalho, acréscimo dispensável.

O pior nariz-de-cera, embora muito comum, é exatamente este, que você está lendo, que antepõe ao nariz-de-cera um parágrafo com justificativas para usá-lo. É o nariz-de-cera do nariz-de-cera. Uma meleca, enfim.

Como este Sítio não é jornal, peço então licença aos freqüentadores para começar com meu nariz-de-cera: acho uma babaquice (no mínimo ingenuidade; no limite um sinal de cinismo) essas teses sobre "complô de midia" para explicar as denúncias contra o governo. Qualquer um capaz de imaginar uma conspiração tramada em grupo pelos Civita, os Frias, os Marinho e os Mesquita deve ser capaz de acreditar na fusão entre a Igreja católica e os aiatolás, ou na fusão amigável da Microsoft com a Apple.

O nariz-de-cera não acabou, espere mais um tantinho. Devo dizer também que respeito muito a Miriam Leitão, embora discorde profundamente dela, com freqüência. Ela é séria, competente, intelectualmente, trabalha duro, acredita no que diz, e estuda, ainda que, ultimamente, tenha dad0 para comentar política externa sem se aprofundar muito em conhecer o que fala. Ela foi minha editora no JB, e, no Globo, eu fazia, às segundas-feiras, a coluna dela. Posso dizer que a Míriam me permitiu realizar minha vocação, de colunista de segunda, função que exerço hoje galhardamente em um respeitável jornal econômico.

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Pensava eu nessas coisas, quando, agora há pouco, vi a Míriam comentando esse ranking de competitividade em que o Brasil caiu 9 posições. Não é que a Leitão falou exatamente o que penso (e já comentei aqui)? Não dá para levar muito a sério um ranking de competitividade em que o Brasil está lá, bem atrás da Letônia. Minha opinião: definem-se algumas variáveis, de acordo com a crença de um grupo de economistas, e por essas variáveis se diz se o país é competitivo ou não. Não importa se o mundo real, os investidores, consumidores e turistas ignoram essas regrinhas de livro texto e ridicularizam, na prática, as conclusões desses rankings. Já falei disso aqui. Num deles, a Venezuela e o paraguai estavam á frente do Brasil. Muito à frente. Costumo ler esses rankings como o que são: proselitismo embrulhado em estatística.

Mas, como disse, costumo discordar bastante da Míriam. E desliguei a tv quando ela começou a dizer que a corrupção é um grande problema, está afastando investimentos, coisa e tal. Ora, bobagem tão grande quanto a do complô de midia, só a afirmação de que nunca houve corrupção como esa no Brasil. A diferença é que saíram profissionais e entraram uns amadores pés-de-chinelo, sem visão de país, tão afobados em roubar as galinhas que nem se dedicam a estudar o funcionamento da granja. No governo Collor foi pior, além de incompetentes, os bandidos tentaram cartelizar a corrupa, e deu no que deu.

Me lembro de um influente deputado, ex-ministro, sempre conselheiro do governo, qualquer governo, com quem eu comentava que um amigo meu tinha decidido a se tornar lobista, mas sério, no estilo estadunidense. "Sério?", me comentou o político, com um risinho irônico. "Eu é que sei como, no regime militar, tivemos de levar um pacote de dinheiro para um senador americano parar de criar encrenca e liberarem nossas exportações de café". Ou açúcar, já não me lembro.

O problema com esse governo não é a existência de corrupção, e nem é exatamente isso o que afugenta investidores (eles põem a propina na planilha de custos, e costumam ir em frente: não gostam é de incerteza. Corrupa, desde que organizada, faz parte do jogo). O problema, grave, é a leniência com a corrupa, o afagar a cabeça dos companheiros. O PFL, que é profissional, degola imediatamente quem for pego com a mão na lama. Não dá lugar a incompetente.

De fato, como dizem os filósofos Paulo Betti e Gilberto Gil, não há como evitar corrupção na política e nos negócios. Mas isso não significa que devamos nos acostumar, e aceitar a existência das irregularidades, como, às vezes, fazem parecer os intelectuais do PT. Essa é a diferença entre o primeiro mundo e o Paraguai, por exemplo. No momento em que o governo e os cidadãos deixam de se escandalizar com os casos de corrupção que vêm à luz, o país caminha para o atoleiro, para a generalização da propina, do gabinete do assessor no Planalto ao guarda da esquina. Não foi para isso que votaram no PT. Nem era isso que eu esperava a essa altura da carreira da Marilena Chauí.

Jogo pesado

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Já vendem no Rio, por cinco real, o baralho do mensalão, com fotos dos indigitados e pequena biografia. Os coringas são "o povo brasileiro" e "próximo presidente". Informação do mestre Maurício Santoro, que, inspirado, criou até um jogo de tabuleiro baseado na cena política contemporânea. É de fazer a Grow torcer-se de inveja. Algumas das casas:

• Seu churrasqueiro foi pego num escândalo de corrupção. Vá discursar sobre a fome na Assembléia Geral da ONU e fique uma rodada sem jogar.

• Você nomeou metade do STF. Ganhe uma carta Saída Livre da Prisão.

• Um ex-presidente corrupto escreve uma carta para se queixar da corrupção e da apatia da oposição. Avance duas casas.

• Você distribuiu dinheiro para os pobres. Eles gostaram. Ganhe o Nordeste.

Mais jogo, AQUI.

O horror, o horror

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Tive um pesadelo terrível. Sonhei que assistia, do plenário da Câmara, o processo de impeachment do presidente da República, em 2007. E ouvia o seguinte diálogo:

_ Como vota o senador Fernando Collor?
_ Sim, pela ética, presidente!

Estou suando, e tremendo, até agora.

A última da Zicarelli

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Não tem pra ninguém. A notícia mais procurada nesta quarta-feira era sobre o vídeo em que Daniela Cicarelli patolava e era patolada pelo namorado, que, agora, corre o risco de perder o emprego bem remunerado na Merril Lynch.

Vamos recapitular: depois do que fez com o pobre _ digo, milionário _ Ronaldo Fenômeno, a moça pode ser um tropeço (prazeiroso, admitamos) na carreira de um bem-sucedido yuppie do mercado de capitais.

O nome disso, no meu tempo, era chave de cadeia. Ô zica tem essa menina, sô.


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Segundo clichê: Vi, finalmente, o famoso vídeo. Imagem tremida, péssima qualidade.
Nisso que dá filmar com uma mão só.

Chávez, o come-quieto

No Peru, ele se deu mal, e viu eleito o rival Alan Garcia, depois de intervenções trapalhonas no país vizinho. Agora, Hugo Chávez atua discretamente no Equador, e o primeiro colocado nas pesquisas é exatamente o candidato apoiado pelo venezuelano, o preferido das esquerda, Rafael Correa. AQUI.

O sapo sem barba e a filosofia.

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O Lula já foi comparado a um sapo barbudo, por uma velha raposa política, que Deus a tenha. Virou presidente, aparou a hirsuta figura, e, hoje, deve ter posto as ditas barbas de molho. Como a situação extrapola minha capacidade analística, peço emprestado ao doutor Cláudio Costa um belo texto filosófico, com as análises cabíveis à atual conjuntura, sob todos os pontos de vista possíveis:

Por que o sapo não lava o pé?

Olavo de Carvalho: O sapo não lava o pé. Não lava porque não quer. Elemora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer e ainda culpa osistema, quando a culpa é da PREGUIÇA. Este tipo de atitude é queinfesta o Brasil e o Mundo, um tipo de atitude oriundo de uma complexaconspiração moscovita contra a livre-iniciativa e os valores humanosda educação e da higiene!

Marx: A lavagem do pé, enquanto atividade vital do anfíbio,encontra-se profundamente alterada no panorama capitalista. O sapo,obviamente um proletário, tendo que vender sua força de trabalho paraum sistema de produção baseado na detenção da propriedade privadapelas classes dominantes, gasta em atividade produtiva alienada otempo que deveria ter para si próprio. Em conseqüência, a misériadomina os campos, e o sapo não tem acesso à própria lagoa, que emtempos imemoriais fazia parte do sistema comum de produção.

Engels: isso mesmo.

Foucault : Em primeiro lugar, creio que deveríamos começar a análise dopoder a partir de suas extremidades menos visíveis, a partir dosdiscursos médicos de saúde, por exemplo. Por que deveria o sapo lavaro pé? Se analisarmos os hábitos higiênicos e sanitários da Europa noséculo XII, veremos que os sapos possuíam uma menor preocupação emrelação à higiene do pé - bem como de outras áreas do corpo. Somentecom a preocupação burguesa em relação às disciplinas - domesticação docorpo do indivíduo, sem a qual o sistema capitalista jamais seriapossível - é que surge a preocupação com a lavagem do pé. Portanto,temos o discurso da lavagem do pé como sinal sintomático da sociedadedisciplinar.

Weber: A conduta do sapo só poderá ser compreendida em termos de ação social racional orientada por valores. A crescente racionalização e odesencantamento do mundo provocaram, no pensamento ocidental, umapreocupação excessiva na orientação racional com relação a fins. Eisque, portanto, parece absurdo à maior parte das pessoas o sapo nãolavar o pé. Entretanto, é fundamental que seja compreendido que, se osapo não lava o pé, é porque tal atitude encontra-se perfeitamentecoerente com seu sistema valorativo - a vida na lagoa.

Nietzsche: Um espírito astucioso e camuflado, um gosto anfíbio peladissimulação - herança de povos mediterrâneos, certamente - umaincisividade de espírito ainda não encontrada nas mais ermasredondezas de quaisquer lagoas do mundo dito civilizado. Um animalque, livrando-se de qualquer metafísica, e que, aprimorando seuinstinto de realidade, com a dolcezza audaciosa já perdida peloeuropeu moderno, nega o ato supremo, o ato cuja negação configura amais nítida - e difícil - fronteira entre o Sapo e aquele que está porvir, o Além- do-Sapo: a lavagem do pé.

Kant: O sapo age moralmente, pois, ao deixar de lavar seu pé, nada fazalém de agir segundo sua lei moral universal apriorística, queprescreve atitudes consoantes com o que o sujeito cognoscente possaquerer que se torne uma ação universal.Nota de Freud: Kant jamais lavou seus pés.

Freud: Um superego exacerbado pode ser a causa da falta de higiene dosapo. Quando analisava o caso de Dora, há vinte anos, pude perceberalguns dos traços deste problema. De fato, em meus numerosos estudosposteriores, pude constatar que a aversão pela limpeza, do mesmo modoque a obsessão por ela, podem constituir-se num desejo de autopunição. A causa disso encontra-se, sem dúvida, na construção do superego apartir das figuras perdidas dos pais, que antes representavam a fontede todo conteúdo moral do girino.

Jung: O mito do sapo do deserto, presente no imaginário semita, vem acalhar para a compreensão do fenômeno. O inconsciente coletivo dosapo, em outras épocas desenvolvido, guardou em sua composição maisíntima a idéia da seca, da privação, da necessidade. Por isso, mesmoquando colocado frente a uma lagoa, em época de abundância, o sapo não lava o pé.

Kierkegaard: O sapo lavando o pé ou não, o que importa é a existência.

Hegel: podemos observar na lavagem do pé a manifestação da Dialética. Observando a História, constatamos uma evolução gradativa daignorância absoluta do sapo - em relação à higiene - para uma preocupação maior em relação a esta. Ao longo da evolução do Espírito da História, vemos os sapos se aproximando cada vez mais das lagoas, cada vez mais comprando esponjas e sabões. O que falta agora é, tão somente, lavar o pé, coisa que, quando concluída, representará o fimda História e o ápice do progresso.

Comte: O sapo deve lavar o pé, posto que a higiene é imprescindível. A lavagem do pé deve ser submetida a procedimentos científicos universal e atemporalmente válidos. Só assim poder-se-á obter um conhecimento verdadeiro a respeito.

Schopenhauer: O sapo cujo pé vejo lavar é nada mais que uma representação, um fenômeno, oriundo da ilusão fundamental que é o meu princípio de razão, parte componente do principio individuationis, a que a sabedoria vedanta chamou "véu de Maya". A Vontade, que o velho e grande filósofo de Königsberg chamou de Coisa-em si, e que Platão localizava no mundo das idéias, essa força cega que está por trás dequalquer fenômeno, jamais poderá ser capturada por nós, seres individuados, através do princípio da razão, conforme já demonstrado por mim em uma série de trabalhos, entre os quais o que considero omaior livro de filosofia já escrito no passado, no presente e no futuro: "O mundo como vontade e representação".

Aristóteles: O [sapo] lava de acordo com sua natureza! Se imitasse, estaria fazendo arte . Como [a arte] é digna somente do homem, é forçoso reconhecer que o sapo lava segundo sua natureza de sapo,passando da potência ao ato. O sapo que não lava o pé é o ser que nãoconsegue realizar [essa] transição da potência ao ato.

Platão:
Górgias: Por Zeus, Sócrates, os sapos não lavam os seus pés porque não gostam da água!
Sócrates: Pensemos um pouco, ó Górgias. Tu assumiste, quando há poucodialogava com Filebo, que o sapo é um ser vivo, correto?
Górgias: Sou forçado a admitir que sim.
Sócrates: Pois bem, e se o sapo é um ser vivo, deve forçosamente fazerparte de uma categoria determinada de seres vivos, posto que estesdividem-se em categorias segundo seu modo de vida e sua forma corporal; os cavalos são diferentes das hidras e estas dos falcões, eassim por diante, correto?
Górgias: Sim, tu estás novamente correto.
Sócrates: A característica dos sapos é a de ser habitante da água e daterra, pois é isso que os antigos queriam dizer quando afirmaram queeste animal era anfíbio, como, aliás, Homero e Hesíodo já nos atestam.Tu pensas que seria possível um sapo viver somente no deserto, tendoele necessidade de duas vidas por natureza,ó Górgias?
Górgias: Jamais ouvi qualquer notícia a respeito.
Sócrates: Pois isto se dá porque os sapos vivem nas lagoas, nos lagose nas poças, vistos que são animais, pertencem e uma categoria, e esta categoria é dada segundo a característica dos sapos serem anfíbios.
Górgias: É verdade.
Sócrates: precisando da lagoa, ó Górgias meu caro, tu achas que seriao sapo insano o suficiente para não gostar de água?
Górgias: não, não, não, mil vezes não, Ó Sócrates!
Sócrates: Então somos forçados a concluir que o sapo não lava o pé poroutro motivo, que não a repulsa à água
Górgias: de acordo

Diógenes, o Cínico: Dane-se o sapo, eu só quero tomar meu sol.

Parmênides de Eléia: Como poderia o sapo lavar os pés, ó deuses, se o movimento não existe?

Heráclito de Éfeso: Quando o sapo lava o pé, nem ele nem o pé são mais os mesmos, pois ambos se modificam na lavagem, devido à impermanênciadas coisas.

Epicuro: O sapo deve alcançar o prazer, que é o Bem supremo, mas sem excessos. Que lave ou não o pé, decida-se de acordo com acircunstância. O vital é que mantenha a serenidade de espírito e fujada dor.

Estóicos: O sapo deve lavar seu pé de acordo com as estações do ano. No inverno, mantenha-o sujo, que é de acordo com a natureza. No verão, lave-o delicadamente à beira das fontes, mas sem exageros. E que parede comer tantas moscas, a comida só serve para o sustento do corpo.

Descartes: nada distingo na lavagem do pé senão figura, movimento eextensão. O sapo é nada mais que um autômato, um mecanismo. Deve lavarseus pés para promover a autoconservação, como um relógio precisa decorda. Diria, até: lavo o pé, logo sou.

Maquiavel: A lavagem do pé deve ser exigida sem rigor excessivo, o quepoderia causar ódio ao Príncipe, mas com força tal que traga a este orespeito e o temor dos súditos. Luís da França, ao imperar na Itália,atraído pela ambição dos venezianos, mal agiu ao exigir que os saposda Lombardia tivessem os pés cortados e os lagos tomados caso nãoaquiescessem à sua vontade. Como se vê, pagou integralmente o preço detal crueldade, pois os sapos esquecem mais facilmente um paiassassinado que um pé cortado e uma lagoa confiscada.

O texto prossegue, interminável, com Rousseau, Gramsci, Adorno et caterva. Se te interessou, o Cláudio Costa botou tudo, AQUI. O que me obriga a terminar, com a lapidar explicação do próprio Dr. Cláudio:

Cláudio Costa: o sapo não lava os pés. Ele não tem pés, tem patas.

(foto do atento Daniel Conzi)

"E aí, Berzoini, posso botar a batata do Serra para assar?"
"Pára com isso, idiota! Está é queimando a candidatura do Lula!!"

Naquele dia, acordou cedo, ligou o computador, conectou-se à Internet, consultou as trezentas mensagens que lotavam sua caixa postal e, inspirado nelas, decidiu mudar de vida. Para começar, aceitou aquela proposta do nigeriano que dizia ter como compartilhar com ele uma pequena fortuna ganha em negócios escusos.

Ainda que o novo sócio lhe garantisse um futuro sem preocupações, aceitou também as dicas de ações “quentes” na Bolsa de Nova York, que lhe propunham em quinze dos e-meios. Guardou, para o futuro, os incontáveis currículos que lhe mandavam (vai que decide abrir uma empresa). E pediu o manual para otimizar as vendas, ainda que não pretendesse comercializar coisa nenhuma.

Desprezou os cinco e-mails de remetentes que se diziam “amigos” e lhe ofereciam “fotos da traição” _ estava separado há algum tempo, o passado não lhe interessava mais. Mas, advertido por uma ex-namorada de que o tamanho importa, sim, porque pode dificultar pelo menos metade das posições do Kama Sutra que encomendara (e até algumas mais cotidianas), comprou o kit que lhe permitiria agregar uma nova dimensão à sua anatomia.

Excitado com as perspectivas, resolveu também corresponder às cantadas das vinte americanas que se diziam casadas mas calientes, e dispostas a propiciar-lhe momentos inesquecíveis de prazer. Por via das dúvidas, aceitou comprar o Viagra propagandeado por duas das quarenta mensagens sobre o assunto, e topou testar os métodos infalíveis que lhe ofereciam para emgrecer dormindo, perder peso comendo e ganhar forma física sem fazer força (se não servissem para ele, alguma das americanas casadas decerto se interessaria).

Mandou três e-mails aceitando a proposta imperdível para comprar relógios Rolex . E, curioso, baixou as fotos das cinco moças de quem não se lembrava, mas diziam ter estudado com ele no passado e estar morrendo de saudade.

Mais não fez, porque, inexplicavelmente, o computador travou.

A profecia de Paulo Betti

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Recebo dois releases, um dos tucanos, dizendo que golpe contra Serra se volta contra o PT; outro da campanha de Lula falando em golpe e tapetão. Tudo a respeito do escândalo da suposta tentativa de compra de um dossiê envolvendo Serra no escândalo dos sanguessugas. Lamento não concordar com a tese golpista (me lembra muito o complô da midia, que o governo vê em todo material crítico publicado na imprensa, e a esquerda religiosa insiste em enxergar no noticiário sobre a corrupção no governo).
Essa encrenca toda, envolvendo um segurança de nome Freud, me faz lembrar a lambança do Palocci com o caseiro _ também classificada por muita genter, na época, de intriga midiática, e confirmada como trapalhada pelo próprio Lula, em entrevista na Folha.
(botei nos links acima matérias de dois jornalistas sérios, ambos ex-integrantes do círculo de Lula _ ainda que como profissionais, não como militantes, nem petistas. Se conspiração há, é do Universo contra Lula, então).

Existe uma ameaça real de que o governo Lula, consagrado nas urnas, tropece na Justiça. E vão dizer que é golpe, tapetão, como já estão dizendo. É muito triste ver como nasce uma grave crise institucional.

E pensar que, há dois dias, eu estava com pena dos bolivianos.


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E ainda temos de enfrentar os previsíveis trocadilhos com o freudiano assessor da campanha de Lula. Já vi em pelo menos quatro lugares (entre eles uma manchete de jornal) o inescapável Freud explica (e o pior é que não explica). Tentei bolar uma complicada tese ligando os comentários dos artistas aliados ao governo à tese freduinada sobre as etapas da sexualidade infantil. Mas vou poupar os frequentadores deste Sítio.

Aliás, reproduzo sem permissão prévia (e, por isso, sem menção a fonte), informação de um amigo que conhece bem o interior do PT (e meus amigos petistas haverão de concordar com a descrição):

Esse Freud é o cara da Abin do PT. Da informação e contra informação. Já era em 1994 mas naquela altura afunção era desarmar bombas contra o Lula. Agora expandiu as funções.

É, esse Freud merece que lhe façam a biografia.

A mordaça das Alterosas

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O atento Idelber Avelar conta histórias de censura em Minas Gerais, de um governador que, de fato, aparece raríssimas vezes em má situação na imprensa brasileira. Coisa estranha. Esquisita mesmo. AQUI.
Eu, que sempre pensei que a falta de notícias desfavoráveis sobre o Aécio Neves se devia a certa simpatia do reportariado com o trepidante governador mineiro. Chocante, cenas de coronelismo explícito.

Diz o Idelber:

"vítimas testemunharam que seus veículos de comunicação sofreram intensa pressão do governo do estado, especialmente na pessoa da capanga-mor Andréia Neves. Também testemunharam que depois de suas demissões ninguém em Minas Gerais aceitava dar-lhes emprego, nem mesmo, como disse um deles, de “jornalista de sindicato do interior.”
Toda essa história está contada com detalhes nesse
imperdível vídeo-documentário intitulado Liberdade, essa palavra".

Que trem, sô.

O bode na sala. De Cinema

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Vamos combinar. Não votaria nele para presidente, mas Vargas Llosa é um gênio. Só agora descobri que filmaram a Festa do Bode, que li em má tradução (péssima tradução: resolvi devorar a obra no original, em espanhol). O fio condutor da história é a volta de uma mulher à República Dominicana , para acertar contas com o passado _ que, no caso, inclui o estupro dela, mas não vou contar o detalhe disso, vai que alguém resolve ler o livro. Acho que o filme começou a ser distribuído recentemente, não sei se chegou ao Brasil.

Não sei se vou ter coragem de ver esse filme. Por medo de que avacalhem um dos livros mais espetaculares que já li. E também por medo de que sejam fiéis a ele, e isso me provoque a mesma perturbação, náusea e avassalamento que senti ao ler a obra.

Vargas Llosa descreve o país do ditador Trujillo, e escreve sobre a violência. Costumo esbarrar com duas formas essenciais de tratar da violência, na literatura (e nessa categoria incluio a indústria cultural, cinema, tv, essas paradas todas). Uma é o uso abjeto, comercial, daquilo que Freud chamou de pulsão de morte, nosso fascínio pela morte e pela destruição, que se desdobra na atração pela ação violenta e pela ruptura dos códigos de conduta. Mostra-se a violência como espetáculo, de preferência com requintes estéticos que amortecem nossa capacidade humana de também sentir repugnância pelo que ela tem de desumanização. Boto Sim City nessa categoria, com a catadupa de filmes de assassinos em série de adolescentes e o humor politicamente incorreto de certos grupos de classe média abastada. Suspeito que Kill Bill está aí também, mas não me interessei em conferir.

A outra forma de lidar com a violência nada tem de estetização. Pode receber um tratamento literário, teatral ou cinematográfico, mas só para melhor ferir nossa sensibilidade e nossa compaixão legítima; para alertar a consciência, pela repugnância e terror. Dogville estaria nessa categoria. E A Festa do Bode certamente também está. Vargas Llosa mostra a violência da ditadura, em sua brutal corrupção da vontade dos indivíduos, na decomposição dos valores éticos que tornam os humanos superiores aos outros animais.

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Estou moralista hoje. Mas quando vejo, em volta, a transformação da prostituta em modelo homogêneo de feminilidade, a celebração do egoísmo como a atitude racional da modernidade e a eterna adolescência como ideal de vida, me sinto um exilado no mundo, irremediavelmente pária.

Deve ter sido aquele vinho boliviano que tomei.

Evo não vê as vaias

E não é que o ministro caiu? Não consigo parar de falar em Bolívia. Mas essa é curtinha. Uma é para comentar o editorial do estadão. Eles criticam a frouxidão do governo e dizem que se Lula fosse macho teria mandado o embaixador brasileiro sair de La Paz e voltar ao Brasil, em sinal de protesto. Aí fica difícil. O embaixador que estava lá foi designado a outro posto e já tinha voltado ao Brasil dias antes de toda a encrenca com a Bolívia. O substituto ainda nem arrumou as malas para ir a La Paz.

Aproveito para explicar um ponto do texto aí embaixo, quando digo que torço pelo sucesso do governo Evo Morales. Torço para que a racionalidade tome conta do governo Morales, e eles amadureçam, e consertem as barbeiragens cometidas até agora, no decreto de nacionalização, na gestão das empresas do governo, e _ principalmente _ na política, onde a coisa lá ameaça virar uma guerra civil de pequenas proporções.

À direita de Morales, não há ninguém em condições de governar a Bolívia, caso caia o sujeito. À esquerda tampouco. A queda do Evo e a radicalização política lá só poderia provocar uma imprevisível convulsão social. Com risco de algum índio maluco decidir tascar fogo no gasoduto, sei lá.

Se acham que está ruim com o Evo, saibam que seria muito pior sem ele.

Mais uma razão para manter a boca fechada

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Ó tempos, ó costumes. Saudades da época em que a gente fechava a boca para não entrar mosca. Não, cansei de falar da Bolívia. Estou falando dessa notícia AQUI.

E o Estadão tem mais:


Ciúme de freira é fogo

Saudades do tempo em que mulher do padre era só quem chegava por último...

Esse Dom Carmelo, grande safardana.


Isso tudo porque acho que matei a charada do bando de tarados que agora, todo dia, entre no meu Sítio pela porteira do Google, catando coisa sobre a serelepe Lílian Ramos.
Devem estar tentando burlar a censura dessa página AQUI. Francamente.

Prendendo a respiração, fora da Bolívia

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Bom, só digo o seguinte: quem anunciou o pacto Brasil-Bolívia foi o Álvaro Linera, o vice. O mesmo que foi negociar nos Estados Unidos um acordo e teve de ouvir o Evo Morales xingando os gringos, daqui. E que, ao chegar, teve de garantir à imprensa que não está em choque com o presidente.
Por essas e outras, os itamaratecas e o resto do governo estão numa ansiedade danada para saber o que dirá o Evo Morales nesta sexta-feira.

Sexta em que estarei, nas asas da Aerosur, voltando a Brasília. Hasta la vista, amigos!

Adios, Bolivia


Para o Fernando, que me cobra mais posts sobre a Bolívia (tinha de escolher entre ganhar o pão _ digo, a marraqueta _ ou abastecer o Sítio): nesse momento, estão reunidos, para decidir que resposta dar ao Brasil e Petrobras, o vice-presidente boliviano, Alvaro Garcia Linera, o ministro de Hidrocarburos, Andrés Soliz-Rada, e uma penca de autoridades bolivianas. Para quem não acompanha a novela: o Soliz-Rada, esse moço bonito aí da foto, baixou uma resolução que a Petobrás acusa de ser um virtual confisco das refinarias da estatal na Bolívia, a empresa brasileira publicou uma nota descendo a lenha na decisão do governo boliviano e cancelou a viagem que faria a La Paz, nesta sexta.

Parem as máquinas! Parem as máquinas! Os caras recuaram mesmo!!! Mais detalhes, na edição de amanhã, de nosso noticiário!!!! Que papelão, hein, ministro? E nem dá para dizer que morreu pela boca.

Bom, Fernando, este Sítio quer apenas dar uma versão mais divertida, irônica ou crítica sobre os fatos que outros blogues mais competentes divulgam em tempo real. E fornecer um pouco de petite histoire (tem gente que acha que isso é nome de biscoito), com relatos sobre o trabalho do jornalista. A versão séria dessa história toda você pode ler no Valor. Por isso quem não entendeu esse resumo confuso e cansado aí em cima, pode encontrar catadupas de explicações bem feitas sobre a bagunça, no tio GoogleNews.

Quando marquei a viagem para La Paz, não sabia da vinda do ministro e do presidente da Petrobrás para cá na sexta. E programei minha volta ao Brasil.... para sexta de manhã. Tentei como louco mudar o vôo, para o sábado, mas não tinha vaga. Benditos vôos lotados. Parto amanhã cedo, com saudades da simpatia do povo boliviano e tristeza nenhuma por deixar esse imbroglio para trás. Pena dos bolivianos, que não merecem. Nem o Evo merece o pântano em que pode estar afundando o país.

Bom, leiam amanhã no valor on line as coisas sérias. Vamos ao que interessa.

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Lia quatro jornais bolivianos por dia, cedo, nessa temporada que acaba amanhã temprano. Como quem tem a consciência limpa não teme a maledicência, posso informar que, por absoluta casualidade, me deparei, no La Prensa, com uma página de moças oferecendo seus serviços ... bem, amorosos. Em letras garrafais, o preço: 35 bolivianos. Algo em torno de US$ 4,00, oito real. Na TV, o noticiário da noite fala da história de uma proxeneta presa hoje pela polícia. Era cubana emigrada.

Nisso que dá não terem nacionalizado a cafiolagem.


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Sou, como o Noblat, tarado por bloquinhos de anotações. A Embaixada dos Estados Unidos, quando chama o reportariado para entrevistas, oferece uns bloquinhos ótimos, no tamanho, que só têm um probleminha: uma bruta bandeira dos EUA e o dístico "U.S. Mission in Brazil". Sempre levo o bloquinho para casa.
Problema porque foi esse o bloquinho que eu saquei do bolso, na entrevista coletiva com o Evo Morales, assim que cheguei aqui. Foi aquela em que ele acusou os EUA de armar um complô contra ele e de fomentar a cizânia entre Bolívia e Paraguai.
A ginástica que fiz para que ele não visse a capa do bloquinho me deu um jeito da coluna que dói até agora.

Banho turco, não: agora é ducha boliviana

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Decretaram na Bolivia que a marraqueta é patrimônio nacional. Antes que meu leitorado pense besteira, explico: marraqueta é um produto comestível feito de farinha, gordura e fermento, com outros ingredientes que desconheço, levado ao forno onde ganha um formato oblongo e uma casca crocante.
Em resumo, os bolivianos nacionalizaram o pão francês!

Ninguém segura esse país.

Decretar patrimônio nacional é uma espécie de mania nesse país andino; até o presidente decretou como patrimônio a casa onde nasceu.


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Evo Morales, em uma semana na qual acusou os Estados Unidos até de estimnular uma guerra entre Bolívia e Paraguai, mandou ao Congresso mensagem para dar ao embaixador dos EUA a máxima condecoração nacional, o Condor de Los Andes. Quando a oposição fez o escarcéu devido, explicaram que é praxe, sempre se faz isso com embaixadores de saída do país, etc e tal. Lembraram que vão condecorar também (merecidamente) o ex-embaixador do Brasil, Antonino Mena Gonçalves, que zarpou de La Paz na sexta-feira passada, e dizem tê-lo visto dando cambalhotas e pulinhos eufóricos no corredor do avião.

Mas condecorar o embaixador do país que o presidente acusa de tramar um complô contra a Bolívia??? Que pása?

Quase adio minha volta ao Brasil, e fico em La Paz para comparecer à cerimônia.


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O Wilson Tosta (já foram no blogue dele? É imperdível, e AQUI) me acusa de tramar contra o Brasil e fazer a cabeça do Morales. É a segunda vez que venho ao país neste ano. Da outra, o presidente decretou a nacionalização do gás e do petróleo, afetando investimentos da Petrobrás e desmoralizando os gestos de aproximação, de Lula.
Desta vez, baixaram uma resolução dizendo que a Petrobras teve lucros indevidos porque não foi corrigido o decreto que fixava a margem de lucro da empresa (a empresa nega, e diz que eles é que tinham poder de mudar o decreto, mas deixa pra lá). E agora querem descontar esses "lucros" do preço a pagar pelas refinarias da estatal brasileira. Pelas contas que anunciaram, a Petrobras vai ter de entregar as refinarias e ainda dar um troco.
O pior é que a Bolívia tem toda a razão de querer maior controle sobre suas reservas naturais, e de tirar os privilégios da elite racista e rica do país. Mas a forma agressiva como o governo está fazendo isso é vista por muita gente como o caminho do precipício. E não vai haver Condor de los Andes para tirar ninguém do buraco.

(o pior é que torço pelo sucesso do governo Morales, o que é pior que ser corintiano, até porque o fracasso terá consequencias dramáticas para a Bolívia. E para o Brasil, com quem o país tem a fronteira mais extensa. Mas quando converso com amigos bolivianos, e ouço o que dizem, me lembro dos amigos argentinos na época em que me garantiam que não havia razão para desvalorizar o peso. Desvalorizaram, passaram por cinco presidentes num período de meses e têm até hoje índices recordes de pobreza por lá).
(Pensando na provocação do Tosta, lembro que a única reunião da OMC nos últimos anos em que se conseguiu algum acordo foi a de Doha, a única para a qual não fui. Tal como o japones de Hiroshima que apertou a descarga quando jogaram a bomba na cidade, começo a pensar se não sou um tremendo pé frio para a diplomacia nacional)

Gás, quero gás

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Adivinhem quem voltou a La Paz? Da última vez em que estive na capital boliviana, há uns 130 dias, para descobrir o que havia de novo na relação Brasil-Bolívia, o Evo Morales decretou a nacionalização do setor de gás e petróleo, botou tropas nas refinarias da Petrobrás, e semeou a ilusão de que, finalmente, o povo boliviano tomaria conta de suas próprias reservas de riqueza, abrindo caminho para um brilhante porvenir.

O que está havendo é uma queda brutal nos investimentos, e radicalização na luta política. Nesta segunda-feira, quatro meses depois, um dia após minha chegada em La Paz, Evo apenas falou com a imprensa estrangeira, admitiu que a inexperiência administrativa fez com que o governo não tenha executado nem um terço do orçamento, denunciou complôs da oposição contra ele e reclamou da cobertura jornalística do repórter da Telesur.

Opa, da Telesur? Essa é a tv criada com impulso de Hugo Chávez, hoje um dos maiores aliados (a oposição diz mentor) do governo Morales. É como ver o Lula brigar com a repórter da Carta Maior. Essa bronca de Morales no sujeito que trabalha para uma tv mais que simpática a ele dá uma idéia da encrenca em que está a Bolívia.

Evo Morales vai à reunião dos países não alinhados, que, se fosse um nome conferido ao grupo por alguma editora de moda, poderia ter ganho o nome devido aos ternos amarfanhados e certos trajes típicos usados pelos integrantes. Mas é um fantasma dos tempos da Guerra Fria, hoje mais um entre dezenas de grupos que reúnem os países da Terra com pouca gente de olhos azuis.

Depois ele vai à Nova York, para a Assembléia das Nações Unidas. Perguntaram a ele se iria falar com o Bush. Disse que o Bush não pediu encontro (boa resposta de presidente, juro que gostei). E falou que, se Bush pedisse, teria prazer em falar com ele de abusos dos direitos humanos.

O curioso é que, naquele (e nesse) momento, o vice-presidente Álvaro Gracia Linera, em viagem aos Estados Unidos, tentava (e tenta) convencer assessores de Bush e congressistas americanos a não acabar com a redução de impostos especial que beneficia exportações bolivianas aos EUA.

Mas já me descobriram aqui, e suspeito que complô inclui a fuga das autoridades contra o trabalho do jornalista. Na sexta-feira, o embaixador brasileiro voltou ao Brasil. No domingo, Linera foi a Washington e nesta segunda, Morales partiu para a Costa Rica. Até o diretor local da Petrobras viajou. Amanhã recomeçam os trabalhos da Constituinte, que prometem continuar empacados.

Aguardem meus relatos emocionantes sobre o dia de ontem, Dia da Incontinência Urinária, na Bolívia. Até nisso as coisas estão degringolando. Na última vez em que estive aqui, o que havia no hotel em que me hospedei era um Congresso de Sexologia.



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A verdade é que é grande a aposta das elites contra Evo Morales, e as atrapalhações do governo não ajudam muito no anunciado projeto de fazer mudanças históricas no país.
O racismo na Bolívia é uma coisa nojenta; os empresários já tiveram um dirigente que defendia abertamente a exterminação de indígenas como única forma de garantir o desenvolvimento nacional. No fim de semana, brigadas de jovens ligados à classe média alta e aos empresários atacaram sem-teto em uma cidade do país, incendiaram coisas e cabanas e acabaram matando um garotinho.
Essa história ainda vai chegar aos jornais brasileiros. Com o atraso habitual, afinal, os países andinos, como se sabe, estão a anos luz de distância do Brasil.

P.S. Olha o problema da ligeireza dos blogues: dizem agora que o incendio pode ter sido causado por acidente, vela acesa na barraca, essas coisas. Não era o que diziam os jornais e tvs locais, mas a coisa aqui é muito radicalizada, e o racismo de que falo é palpável. Se for confirmada a versão do acidente, perdão leitores.

A volta dos que não foram

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Os talibãs, atacados como bode expiatório por causa do atentado às torres gêmeas do World Trade Center, já dominam de novo a parte sul do Afeganistão. Alimentam-se da fome, da miséria em que ficou a população a quem supostamente se levou a democracia. Não vi isso nos jornais, mas fui avisado pelo Idelber em uma ácida contabilidade dos resultados da luta dos EUA contra o terror, AQUI.

A foto acima é da Kelly Dougherty, co-fundadora do Iraq Veterans against the War, que também copiei do idelber só porque me pareceu uma transição necessária, num texto logo a seguir de meu memento à Lílian Ramos. E não, não temos o telefone dela.

Nunca houve mulher como Lílian

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Eu já pensava em escrever sobre essa manifestação intrigante na blogosfera, o fã clube oculto da Lilian Ramos, a exibida que mostrou-se num palanque com o então presidente Itamar Franco, no saudoso carnaval de 93. Ela tem, hoje, até portal próprio, um legítimo official website, no qual dá para se ver que os cirurgiões plásticos andaram ganhando dinheiro ali.

Mas não há dia em que este Sítio não seja visitado por um ou dois sujeitos (muitos vêm da Itália, terra do erotômano Flávio Prada, onde a moça senta praça, atualmente), que cataram o nome dela no Google e foram bater com os costados aqui. Só porque eu já fiz dois textinhos com fotinhas inocentes dela, AQUI e AQUI . Confesso que fiz uma provocação, no título desse último post, o que levou até o finado Smart Shade me ameaçar com o procon.

Hoje, porém, a tara pela Lilian veio bater no Sítio com uma volúpia assustadora. No período de uns trinta minutos, uns quarenta fãs da rapariga clicaram neste Sítio, à procura sei lá do quê. Que terá acontecido com a Lílian hoje? Cartas na seção de comentários, aí embaixo.

O caso é que, se eu voltar a falar da moça, é desespero de causa, para aumentar a audiência do blogue. Impressionante a popularidade; o que não faz um palanque bem usado.

Viva a Pátria!

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Um sucesso o modelo da primeira dama, na parada de 7 de setembro.

Louro José com Catapora, foi o apelido criado pelos repórteres. O must desse verão.

"Sem dúvida", assegura o auriverde homenageado.

Liberdade para Lygia Clark!!

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Uma das mais importantes e geniais artistas brasileiras foi sequestrada e é mantida em cativeiro. A artista é Lygia Clark _ morta para vocês, filhos ingratos, em 1988 _ e os sequestradores estão organizados em uma tal "Associação Cultural o Mundo de Lygia Clark".

A última gracinha dos moços foi criar tal dificuldade para "certificar" as obras da Lygia que uma exposição de obras dedicada a ela, na reabertura do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, teve de começar com peças cobertas, censuradas. Quem contou foi a Mônica Bérgamo na Folha, em nota reproduzida AQUI.

Criada em 2001 como "entidade sem fins lucrativos", pelos herdeiros, para cuidar da obra da moça, vem funcionando como um cartório responsável pela ocultação da obra de uma artista que deveria ser conhecida, falada, copiada e manipulada por todo brasileiro. Ainda antes da criação dessa associação, me lembro de ter ido a uma exposição de obras da Lygia, no MAM, e descoberto, chocado, que não tinha nem catálogo disponível, porque os herdeiros, urubus da criatividade alheia, impediam a publicação de obras sobre a artista.

Só em 2004 a Associação publicou um minguado livrinho sobre a carreira da Lygia, obra nanica perto de outro livrinho sobre ela editado anos antes pela Funarte e nunca republicado, por causa da associação que se diz encarregada de zelar pela divulgação da obra dela.

Nesse ano, aliás, o colecionador Armando Mattos quase foi impedido de vender (por US$ 120 mil) uma obra dela, Casulo, por objeções burocráticas da tal associação. A atividade desse grupo pode ser medida pela quantidade de vezes em que essa associação aparece quando buscada no Google. Mal vêm duas páginas. A Associação de Criadores de Avestruz do Brasil tem cinco vezes mais registros.

A página dos caras, aliás, é de uma aridez medonha. Traz uma foto da moça e um mísero texto (em inglês, espanhol inglês e francês) para dizer que estão certificando as obras da artista e que a coisa é gratuita só até o dia 16 de outubro. Nenhuma foto de obra, nenhuma biografiazinha, nenhum textinho crítico. Melhor divulgação que essa só a do assessor que permitiu fotografarem o Bush em um porta-aviões no Iraque com a faixa "missão cumprida".

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Como podem ver nos comentários, a pressão contra a divulgação da obra da Lygia é grande. E o controle sobre o acesso a imagens da sua obra também. Neste blogue sem fins comerciais, e sem pretensão de fazer dinheiro, a jornalista Fátima Pombo me ameaça e cobra pelo uso de uma imagem da ampla divulgação que captei na Internet sem qualquer indicação de autoria, reproduzida aqui com mero fim ilustrativo, jornalístico. Está no seu direito em queixar-se, se, de fato, acredita que é sua a foto que cheguei a publicar neste pouco freqüentado Sítio _ e que, na intenção de respeitar direitos de outros, para evitar uso inadvertido de imagens sobre um trabalho de divulgação tão reprimida, jamais voltará a publicar imagens da pobre Lygia. . Peço desculpas se a levei a acreditar no uso indevido de alguma imagem feita por ela, e aviso aos meus parcos leitores que, se estiverem interessados em ver imagens da obra magnífica desta artista ímpar do cenário brasileiro, vejam livremente, AQUI.

O Imortal de Bigode e a Dona Moderna com Aquilo Roxo


Daria um belíssimo cordel, a história mais fascinante do noticiário político, que ainda não chegou aos jornais impressos, que eu tenha notado. O ex-presidente Sarney (que me tratou com uma cortesia e respeito sem jaça quando era chefe de Estado e eu um foca no Jornal do Brasil, devo reconhecer) decidiu reprimir uma moça blogueira no Amapá, por comentários indesejados (por ele) em um blogue no território anárquico (mas não tanto) da Internet. Feio, feio. Com atraso, ponho aqui minha adesão à campanha.
Como resultado da ação sarneyista, a moça teve de mudar de endereço (DAQUI, onde ela conta o imbrólho) e está ameaçada por um processo judicial que pede mais de R$ 600 mil de indenização. E a história está se espalhando na blogosfera, com adesão de uma pancada de gente à campanha contra o autor de Brejal dos Guajás (de que o Millor odiou e eu gostei muito, na ficção é muito engraçado, o Sarney).
Se te interessa, como muita gente já falou do assunto, só indico aqui os textos, a começar pelo bom resumo do Inagaki, AQUI, e meus amigos Milton Ribeiro, Denise Arcoverde, hermenauta (com novidades). Ih, tem muita gente. Nesses há link para a turma toda, que, aliás, está sendo recenseada no próprio blogue da Alcinéia, a amapaense em questão. Ah, o blogue da moça da foto é esse AQUI.

Vale a pena ler o post do Idelber que detalha também outra encrenca estranhíssima contra o blogue Imprensa Marrom, processado por um comentário aplicado de forma esquisitíssima.

P.S. Assunto sobre o qual o Marcus Pessoa tem dicas interessantes AQUI.

O líquido sucesso do politicamente correto

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A guerra dos sexos deve terminar por WO. Pela dificuldade de definir quem irá para que lado. Em Washington, as águas do rio Potomac já se encarregaram de traçar o futuro fim do feminismo e do machismo, numa tacada só. A coisa só começou. E pelos peixes. AQUI.

A tortura dos números

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Argentina e Venezuela têm indústrias decadentes, infra-estrutura precária, presidentes que odeiam o mercado e controlam tarifas e preços. Suas exportações são, principalmente, de comoditties; petróleo e derivados no caso venezuelano e alimentos (sem a tecnologia de uma Embrapa) no caso argentino. Você acreditaria que são países mais competitivos que o Brasil?

A Fiesp diz que sim, nessa pesquisa AQUI, divulgada hoje pelos jornais, que levaram esse peixe fedorento da maneira como foi vendido, sem questionar nem por um momento como o Brasil pode constar numa tabela de países competitivos abaixo da Argentina (que recebeu no ano passado um terço dos investimentos diretos externos recebidos pelo Brsail) e a Venezuela (essa recebeu menos de 20% da grana aplicada pelos investidores na produção brasileira). Os números estão AQUI.

Ora, está na cara que essa "pesquisa" da Fiesp está na categoria das "malditas estatísticas" do Disraeli, aquela arrumação de números disciplinadamente disposta em tabelas para defender uma tese qualquer preconcebida. O truque é simples: define-se uma coleção de exigências (entre elas algumas arbitrárias e outras ideológicas) para classificar os países numa lista qualquer. E ganha-se, assim, um número para encantar as platéias ao se defender as teses que já se vinha defendendo.

É evidente que os portos no Brasil são mais burocráticos que na Argentina, que os juros e tributos brasileiros são os mais altos do continente, que o dólar subvalorizado atrapalha as exportações. Mas somadas todas as condições do mercado brasileiro, não dá para dizer que, olhando para a vizinhança, os investidores, na maior parte dos casos, acham que tem lugar melhor para botar seu dinheirinho.

Já dizia o sábio Nélson Torreão que o problema do jornalismo econômico nem é a economia, é a matemática. Desconfiem sempre, amiguinhos, quando virem títulos bombásticos, citando estatísticas fornecidas por grupos de pressão. Grupo de pressão, explico, é lobby, em português.


P.S.: Tô dizendo? Hoje, um dia depois deste texto aí em cima, sai uma pesquisa do Banco Mundial em que o Brasil aparece entre os piores países do mundo para se fazer negócio. Nenhuma dúvida de que é verdade. Mas o Paraguai aparece umas dez posições acima do Brasil (!!!). Deve ser por isso que o setor informal paraguaio é tão pequenininho.

Onde fica a esquerda?

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Noam Chomsky, o sociólogo Michael Lowy, o filósofo Slavoj Zizek e outros intelectuais que respeito muito lançaram manifesto de apoio à candidatura da Heloísa Helena. Bacana. Espero ansioso o compromisso de se mudarem para o Brasil, para viver no país durante os quatro anos de gestão da moça, se eleita, e nos dez anos seguintes, para usufruir das conseqüências. Para o bem e para o mal.

O Clóvis Rossi, também na Folha de hoje (AQUI, para assinantes), diz que ficou impressionado por nunca ter visto uma comitiva tão minguada quanto a que acompanhou a aguerrida HH no debate promovido pelo jornal, ontem. Ele teoriza sobre o refluxo da militância e comenta reportagem que flagrou "militantes" contratados para acompanhar o Aloyzio Mercadante sem nem conhece o candidato.

O comentrário do Rossi toca, de leve, em um problema que é, de fato, a maior deficiência da esquerda (e um brevê contra as utopias do Piçol, o partido da senadora): esquerdista que prometa chegar ao poder para fazer um governo diferente dos comandados por políticos tradicionais só tem chance de cumprir a promessa se for eleito a partir de um amplo, consistente e consciente movimento de massas.

Por enquanto, as massas ameaçam eleger o Lula, para continuar recebendo o Bolsa Família, e gente como Joaquim Roriz, no Distrito Federal.

Juro que não tenho nada com isso

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Ora, ora, descobri que tenho _não aqui no Sítio, mas no Valor _ um eLeitor importante...

AQUI

Senta que o leão é manso

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E adivinhe quem é o palhaço.


(copiado, da foto à legenda, do Hermenauta)



sitio do sergio leo

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