O bode na sala. De Cinema

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Vamos combinar. Não votaria nele para presidente, mas Vargas Llosa é um gênio. Só agora descobri que filmaram a Festa do Bode, que li em má tradução (péssima tradução: resolvi devorar a obra no original, em espanhol). O fio condutor da história é a volta de uma mulher à República Dominicana , para acertar contas com o passado _ que, no caso, inclui o estupro dela, mas não vou contar o detalhe disso, vai que alguém resolve ler o livro. Acho que o filme começou a ser distribuído recentemente, não sei se chegou ao Brasil.

Não sei se vou ter coragem de ver esse filme. Por medo de que avacalhem um dos livros mais espetaculares que já li. E também por medo de que sejam fiéis a ele, e isso me provoque a mesma perturbação, náusea e avassalamento que senti ao ler a obra.

Vargas Llosa descreve o país do ditador Trujillo, e escreve sobre a violência. Costumo esbarrar com duas formas essenciais de tratar da violência, na literatura (e nessa categoria incluio a indústria cultural, cinema, tv, essas paradas todas). Uma é o uso abjeto, comercial, daquilo que Freud chamou de pulsão de morte, nosso fascínio pela morte e pela destruição, que se desdobra na atração pela ação violenta e pela ruptura dos códigos de conduta. Mostra-se a violência como espetáculo, de preferência com requintes estéticos que amortecem nossa capacidade humana de também sentir repugnância pelo que ela tem de desumanização. Boto Sim City nessa categoria, com a catadupa de filmes de assassinos em série de adolescentes e o humor politicamente incorreto de certos grupos de classe média abastada. Suspeito que Kill Bill está aí também, mas não me interessei em conferir.

A outra forma de lidar com a violência nada tem de estetização. Pode receber um tratamento literário, teatral ou cinematográfico, mas só para melhor ferir nossa sensibilidade e nossa compaixão legítima; para alertar a consciência, pela repugnância e terror. Dogville estaria nessa categoria. E A Festa do Bode certamente também está. Vargas Llosa mostra a violência da ditadura, em sua brutal corrupção da vontade dos indivíduos, na decomposição dos valores éticos que tornam os humanos superiores aos outros animais.

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Estou moralista hoje. Mas quando vejo, em volta, a transformação da prostituta em modelo homogêneo de feminilidade, a celebração do egoísmo como a atitude racional da modernidade e a eterna adolescência como ideal de vida, me sinto um exilado no mundo, irremediavelmente pária.

Deve ter sido aquele vinho boliviano que tomei.

5 comentários

Caro Sérgio,Creia que, assim como você, tem muita gente que se sente também exilada desse mundinho furreca.Troque o vinho boliviano pela boa e velha água de côco.Abraços Baianos.

Concordo com tudo, inclusive com o exílio, mas acho que você foi parcial com Sin City... Abração.

Não só fui parcial, como grafei, correndo, com "m", caro Artur. É curioso, gostei muito da versão em quadrinhos. Porque talvez a apresentação gráfica convide ao distanciamento, e o evidente caráter alegórico dos quadrinhos permitam uma leitura distanciada, mais crítica. Já o filme tem todos os recursos de empatia da técnica cinematográfica, extingue o distaneciamento entre espectador e obra, convida a uma fruição absolutamente perversa, amortece os sentidos e a consciência crítica. Funde-se à multidão de filmes violentos, que só acostumam a população a um mundo de desumanização dos indivíduos.(olha que nem estou mais bebendo vinho boliviano)

Bem vinda ao exílio, leticia, volte sempre! Tim tim, com água de coco, de Quissamã (http://www.cocoemcasa.com.br/)...

Caramba, filmaram a Festa do Bode e o filme nem chegou ao festival do Rio! Bem, mas está correndo o boato de que o Nobel de Literatura deste ano vai para o Vargas Llosa. A conferir.Abraços



sitio do sergio leo

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