O sapo sem barba e a filosofia.

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O Lula já foi comparado a um sapo barbudo, por uma velha raposa política, que Deus a tenha. Virou presidente, aparou a hirsuta figura, e, hoje, deve ter posto as ditas barbas de molho. Como a situação extrapola minha capacidade analística, peço emprestado ao doutor Cláudio Costa um belo texto filosófico, com as análises cabíveis à atual conjuntura, sob todos os pontos de vista possíveis:

Por que o sapo não lava o pé?

Olavo de Carvalho: O sapo não lava o pé. Não lava porque não quer. Elemora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer e ainda culpa osistema, quando a culpa é da PREGUIÇA. Este tipo de atitude é queinfesta o Brasil e o Mundo, um tipo de atitude oriundo de uma complexaconspiração moscovita contra a livre-iniciativa e os valores humanosda educação e da higiene!

Marx: A lavagem do pé, enquanto atividade vital do anfíbio,encontra-se profundamente alterada no panorama capitalista. O sapo,obviamente um proletário, tendo que vender sua força de trabalho paraum sistema de produção baseado na detenção da propriedade privadapelas classes dominantes, gasta em atividade produtiva alienada otempo que deveria ter para si próprio. Em conseqüência, a misériadomina os campos, e o sapo não tem acesso à própria lagoa, que emtempos imemoriais fazia parte do sistema comum de produção.

Engels: isso mesmo.

Foucault : Em primeiro lugar, creio que deveríamos começar a análise dopoder a partir de suas extremidades menos visíveis, a partir dosdiscursos médicos de saúde, por exemplo. Por que deveria o sapo lavaro pé? Se analisarmos os hábitos higiênicos e sanitários da Europa noséculo XII, veremos que os sapos possuíam uma menor preocupação emrelação à higiene do pé - bem como de outras áreas do corpo. Somentecom a preocupação burguesa em relação às disciplinas - domesticação docorpo do indivíduo, sem a qual o sistema capitalista jamais seriapossível - é que surge a preocupação com a lavagem do pé. Portanto,temos o discurso da lavagem do pé como sinal sintomático da sociedadedisciplinar.

Weber: A conduta do sapo só poderá ser compreendida em termos de ação social racional orientada por valores. A crescente racionalização e odesencantamento do mundo provocaram, no pensamento ocidental, umapreocupação excessiva na orientação racional com relação a fins. Eisque, portanto, parece absurdo à maior parte das pessoas o sapo nãolavar o pé. Entretanto, é fundamental que seja compreendido que, se osapo não lava o pé, é porque tal atitude encontra-se perfeitamentecoerente com seu sistema valorativo - a vida na lagoa.

Nietzsche: Um espírito astucioso e camuflado, um gosto anfíbio peladissimulação - herança de povos mediterrâneos, certamente - umaincisividade de espírito ainda não encontrada nas mais ermasredondezas de quaisquer lagoas do mundo dito civilizado. Um animalque, livrando-se de qualquer metafísica, e que, aprimorando seuinstinto de realidade, com a dolcezza audaciosa já perdida peloeuropeu moderno, nega o ato supremo, o ato cuja negação configura amais nítida - e difícil - fronteira entre o Sapo e aquele que está porvir, o Além- do-Sapo: a lavagem do pé.

Kant: O sapo age moralmente, pois, ao deixar de lavar seu pé, nada fazalém de agir segundo sua lei moral universal apriorística, queprescreve atitudes consoantes com o que o sujeito cognoscente possaquerer que se torne uma ação universal.Nota de Freud: Kant jamais lavou seus pés.

Freud: Um superego exacerbado pode ser a causa da falta de higiene dosapo. Quando analisava o caso de Dora, há vinte anos, pude perceberalguns dos traços deste problema. De fato, em meus numerosos estudosposteriores, pude constatar que a aversão pela limpeza, do mesmo modoque a obsessão por ela, podem constituir-se num desejo de autopunição. A causa disso encontra-se, sem dúvida, na construção do superego apartir das figuras perdidas dos pais, que antes representavam a fontede todo conteúdo moral do girino.

Jung: O mito do sapo do deserto, presente no imaginário semita, vem acalhar para a compreensão do fenômeno. O inconsciente coletivo dosapo, em outras épocas desenvolvido, guardou em sua composição maisíntima a idéia da seca, da privação, da necessidade. Por isso, mesmoquando colocado frente a uma lagoa, em época de abundância, o sapo não lava o pé.

Kierkegaard: O sapo lavando o pé ou não, o que importa é a existência.

Hegel: podemos observar na lavagem do pé a manifestação da Dialética. Observando a História, constatamos uma evolução gradativa daignorância absoluta do sapo - em relação à higiene - para uma preocupação maior em relação a esta. Ao longo da evolução do Espírito da História, vemos os sapos se aproximando cada vez mais das lagoas, cada vez mais comprando esponjas e sabões. O que falta agora é, tão somente, lavar o pé, coisa que, quando concluída, representará o fimda História e o ápice do progresso.

Comte: O sapo deve lavar o pé, posto que a higiene é imprescindível. A lavagem do pé deve ser submetida a procedimentos científicos universal e atemporalmente válidos. Só assim poder-se-á obter um conhecimento verdadeiro a respeito.

Schopenhauer: O sapo cujo pé vejo lavar é nada mais que uma representação, um fenômeno, oriundo da ilusão fundamental que é o meu princípio de razão, parte componente do principio individuationis, a que a sabedoria vedanta chamou "véu de Maya". A Vontade, que o velho e grande filósofo de Königsberg chamou de Coisa-em si, e que Platão localizava no mundo das idéias, essa força cega que está por trás dequalquer fenômeno, jamais poderá ser capturada por nós, seres individuados, através do princípio da razão, conforme já demonstrado por mim em uma série de trabalhos, entre os quais o que considero omaior livro de filosofia já escrito no passado, no presente e no futuro: "O mundo como vontade e representação".

Aristóteles: O [sapo] lava de acordo com sua natureza! Se imitasse, estaria fazendo arte . Como [a arte] é digna somente do homem, é forçoso reconhecer que o sapo lava segundo sua natureza de sapo,passando da potência ao ato. O sapo que não lava o pé é o ser que nãoconsegue realizar [essa] transição da potência ao ato.

Platão:
Górgias: Por Zeus, Sócrates, os sapos não lavam os seus pés porque não gostam da água!
Sócrates: Pensemos um pouco, ó Górgias. Tu assumiste, quando há poucodialogava com Filebo, que o sapo é um ser vivo, correto?
Górgias: Sou forçado a admitir que sim.
Sócrates: Pois bem, e se o sapo é um ser vivo, deve forçosamente fazerparte de uma categoria determinada de seres vivos, posto que estesdividem-se em categorias segundo seu modo de vida e sua forma corporal; os cavalos são diferentes das hidras e estas dos falcões, eassim por diante, correto?
Górgias: Sim, tu estás novamente correto.
Sócrates: A característica dos sapos é a de ser habitante da água e daterra, pois é isso que os antigos queriam dizer quando afirmaram queeste animal era anfíbio, como, aliás, Homero e Hesíodo já nos atestam.Tu pensas que seria possível um sapo viver somente no deserto, tendoele necessidade de duas vidas por natureza,ó Górgias?
Górgias: Jamais ouvi qualquer notícia a respeito.
Sócrates: Pois isto se dá porque os sapos vivem nas lagoas, nos lagose nas poças, vistos que são animais, pertencem e uma categoria, e esta categoria é dada segundo a característica dos sapos serem anfíbios.
Górgias: É verdade.
Sócrates: precisando da lagoa, ó Górgias meu caro, tu achas que seriao sapo insano o suficiente para não gostar de água?
Górgias: não, não, não, mil vezes não, Ó Sócrates!
Sócrates: Então somos forçados a concluir que o sapo não lava o pé poroutro motivo, que não a repulsa à água
Górgias: de acordo

Diógenes, o Cínico: Dane-se o sapo, eu só quero tomar meu sol.

Parmênides de Eléia: Como poderia o sapo lavar os pés, ó deuses, se o movimento não existe?

Heráclito de Éfeso: Quando o sapo lava o pé, nem ele nem o pé são mais os mesmos, pois ambos se modificam na lavagem, devido à impermanênciadas coisas.

Epicuro: O sapo deve alcançar o prazer, que é o Bem supremo, mas sem excessos. Que lave ou não o pé, decida-se de acordo com acircunstância. O vital é que mantenha a serenidade de espírito e fujada dor.

Estóicos: O sapo deve lavar seu pé de acordo com as estações do ano. No inverno, mantenha-o sujo, que é de acordo com a natureza. No verão, lave-o delicadamente à beira das fontes, mas sem exageros. E que parede comer tantas moscas, a comida só serve para o sustento do corpo.

Descartes: nada distingo na lavagem do pé senão figura, movimento eextensão. O sapo é nada mais que um autômato, um mecanismo. Deve lavarseus pés para promover a autoconservação, como um relógio precisa decorda. Diria, até: lavo o pé, logo sou.

Maquiavel: A lavagem do pé deve ser exigida sem rigor excessivo, o quepoderia causar ódio ao Príncipe, mas com força tal que traga a este orespeito e o temor dos súditos. Luís da França, ao imperar na Itália,atraído pela ambição dos venezianos, mal agiu ao exigir que os saposda Lombardia tivessem os pés cortados e os lagos tomados caso nãoaquiescessem à sua vontade. Como se vê, pagou integralmente o preço detal crueldade, pois os sapos esquecem mais facilmente um paiassassinado que um pé cortado e uma lagoa confiscada.

O texto prossegue, interminável, com Rousseau, Gramsci, Adorno et caterva. Se te interessou, o Cláudio Costa botou tudo, AQUI. O que me obriga a terminar, com a lapidar explicação do próprio Dr. Cláudio:

Cláudio Costa: o sapo não lava os pés. Ele não tem pés, tem patas.

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Hahahahahahahaha. Brilhante o texto. Vou lá parabenizar o Cláudio.

eu já vi isso em outro site,rsrsrs,mais é legal...gostei



sitio do sergio leo

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