
Empoderar. Difícil um verbo mais repulsivo na língua portuguesa. Por enquanto, só existe na língua falada da militância de organizações em defesa de minorias. Ainda não foi dicionarizado, e, queira Deus e São Machado de Assis que nunca venha a ser. Afinal, é mais uma macaquice mal-traduzida, que, provavelmente revela também conceitos e políticas trazidos assim, de trambolhão, sem análise nem crítica, de outras realidades para a terra onde se plantando tudo dá.
Converse com uma ativista social, leia um release ou reportagem sobre movimentos pelas minorias e a praga está lá, verdejante: vão empoderar as mulheres, o povo, o diabo. É o jargão universitário que dá a mão ao gosto acadêmico pelas palávras gongóricas para popularizar aberrações como "disponibilizar" _ em lugar de oferecer, permitir, divulgar, apresentar. Falam difícil e mal provavelmente para se diferenciar da malta a quem querem ajudar. Para mim, empoderar não soa a boa coisa.
"Ai, Deus, e agora? Fiquei toda empoderada!"
"Fui me meter com aquelazinha, acabei me empoderando..."
Imagino o feminista (ou o sociólogo, ou o ativista) declarando à D. Neuma, lá no morro da Mangueira: "vou fazer tudo para empoderar a senhora". Leva uma bolsa na cara, joelhada na virilha, e deveria dar graças aos céus se o deixarem sair vivo da comunidade; isso não é coisa que se diga a uma avó.
Power, em português, de fato é poder. Mas também é força, em vários sentidos. Força Jovem. Força Negra. Companhia de Força. E... quem diria, a língua portuguesa tem as expressões "fortalecer" e "fortalecimento". Empowerement/fortalecimento É o que querem fazer com os pobres, as mulheres, os negros, os índios, várias minorias: dar força a elas, fortalecer sua capacidade de intervir na sociedade e garantir seus direitos.
Cheios de boas intenções, os copistas de manual importado querem fortalecer a sociedade; e acabam se empoderando todos.
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2º clichê- O hermê, nos comentários, fala que andam estressando coisa que deveriam forçar (usando a palavra inglesa stress no sentido de testar a resistência, ou levar a resistência ao limite). Aliás, sou do tempo em que as pessoas tinham estafa. De repente, os estafados se estressaram todos, não deu nem para registrar quando houve a mudança. Mas isso não chega a me incomodar, nunca tivemos uma boa palavra portuguesa (e, suspeito, nem indígena ou africana) para estafa ou estresse, essa coisa de primeiro mundo mesmo. Pobre não se estressa, sofre. Enlouquece logo, ou dá chilique.
Mas minha memória seletiva havia deixado para trás outro neologismo tão hediondo quanto bem-sucedido: o maldito "customizar". No tempo em que se falava português nesse país, dizia-se que uma mercadoria qualquer adaptada ao gosto do consumidor era "personalizada". Podia-se personalizar um carro, um escritório, um eletrodoméstico... Coisa relativamente fácil, e clara para o freguês.
Vieram os publicitários que se alfabetizaram em inglês e, pelo jeito, acharam desnecessário aprender a língua local _ afinal, o material que copiam vêm dos países anglo-saxões. Adolescente virou teen, jogo transformou-se em game e o verbo to custom levou uma guaribada tropical para enganar os trouxas que se encantam com traquitanas "customizadas".
O Alex Ribeiro, por comentários assim, me chama de Policarpo Quaresma. Mas aceito e até gosto do verbo deletar, por exemplo. Prático, claro (afinal, como bem lembrou o professor Pasquale, delete é parente de indelével, ambos netos do latim delere, da família lusa, portanto).
Mas essa turma da customização, só tratando a cascudo. Fico mesmo empoderado com essas saliências.
novembro 2006 Archives
Eu pensava que drama de jornalista é imaginar que, finalmente, está livre de seu suplício dos anos 80, saber qual será o pacote do novo governo para acabar com a inflação... e ser pautado para descobrir como será o pacote fiscal do Lula. O repórter é um Sísifo da contemporaneidade; mal resolveu o que achava ser a última dúvida do leitor, e seu alívio rola ladeira abaixo ao descobrir o que lhe reserva a pauta do dia. Mas nenhuma missão supera essa do Bicarato, que ele compartilha com os leitores do blogue que ele mantém AQUI. : a chefe dele quer saber a origem da expressão "necas de pitibiriba".
É uma pauta sem fim. Tenho certeza de que, caso ele consiga atendê-la, vai receber a missão de descobrir a origem etimológica da palavra "bulhufas". E aí, babau. Digo, vão lhe perguntar de onde veio essa palavra, "babau".
Tentei ajudar, até bolei uma explicação etimológica para a coisa:
Necas é fácil. Mas realmente Pitibiriba é de amargar. Seguramente tem alguma raiz tupi. Esse negócio de piti e biriba não esconde as origens.
O tupi tem peti´ar, de onde vem pitar, que significa tomar o tabaco. Biriba, também segundo meu velho dicionário etimológico de José Pedro Machado, vem do tupi mbirib (imbiriba, em Alagoas), que é o mesmo que porrete. Em algum momento algum matuto comentou que não tinha fumo nem a cacete, necas de pitimbiriba. E daí veio o necas de pitibiriba, segundo a etimologia que acabo de inventar. Mas, peraí, Bica, também temos (ou tivemos), em tupi, pitía, que significa peito.
Peito de porrete. Hummm, daí é que não vai sair necas de pitibiriba.Bulhufas mesmo.
Qaulquer leitor sensato, como o são todos deste Sítio, vai achar que não cola (aliás, de onde vem essa expressão, "não cola"?). Mas me façam, o favor, repitam, republiquem-na, reproduzam a pobrezinha. Com o tempo, vai acabar fazendo parte do saber convencional. Mais ou menos como os que querem nos fazer acreditar que o PMDB quer participar do ministério do Lula por patriotismo, só porque concorda com o programa do governo. Repetindo muito, quem sabe passam a acreditar.

"Reclamam que os sertanejos de meus livros são falsos, que o sertanejo não é assim. Esses críticos pensam que todo sertanejo é como o Fabiano, de Graciliano Ramos, aquele sujeito calado, tristonho. ora, o Fabiano é o sertanejo de Graciliano; os meus são os de Ariano Suassuna. O sertanejo real não é nem um nem outro; mas posso levar quem quiser para o sertão, e mostrar uns seis iguaizinhos ao Chicó".
"Graciliano era aquilo lá, quando abria a janela de casa, tinha de cortar uma cortina de chumbo, para ver o horizonte; essa cortina era a angústia dele. Uma vez vinha o Zé Lins do Rego, com o Álvaro Moreyra. Álvaro, homem muito animado, levantou os braços ao ver o Graciliano, e tiveram o seguinte diálogo:
'Bom dia Graciliano'
'Bom dia por que, Álvaro?'
'É, tem razão, Graça, do jeito que as coisas vão, vamos acabar por aí pedindo esmola'
'Pedindo esmola para quem, Álvaro? Para quem?'"
Essa é uma das histórias do Ariano Suassuna, contadas por ele na aula espetáculo desta semana lá na Câmara. Como blogue não tem horário de fechamento, mas o jornal tem, conto o resto depois, quando fechar a coluna para a semana que vem.
Só adianto que, desculpando-se por falar mal da arquitetura de Brasília (coisa que não chega a incomodar nenhum brasiliense), o Suassuna, em sua cruzada neo-barroca, cometeu, sem perceber uma gafe tremenda: falou mal do rock.
Logo na cidade de Renato Russo, da Cassia Eller, do Capital Inicial, e onde, dizem, vive, sob identidade falsa, o Elvis Presley, que aderiu à União do Vegetal e de vez em quando toca violão de sete cordas no Clube do Choro...

Saiu na coluna da excelente Flávia Oliveira, dO Globo: a Ambev baixou em Maués, no Amazonas, e decidiu comprar toda a produção de guaraná, 290 toneladas até janeiro, 76% a mais do que foi comprado no ano passado. A Ambev pagará R$ 9,33 por quilo, mais que o preço do mercado, R$5,65.
O que a Flávia não sabia é que, muito provavelmente (ah, como é bom escrever em blogue... o doce veneno da suspeita irresponsável!) a tacada da Ambev mirou bem na virilha de uma das estrelas da Bienal de S. Paulo, o grupo Superflex, que há anos vem atazanando a multinacional belgauriverde.
O Superflex tentou trazer para a Bienal seu trabalho Guaranápower, que consiste na produção de um guaraná alternativo, com mais cafeína, de sementes compradas em... Maués.
O mercado para os produtores de Maués é o que os livros textos classificam como oligopsônico, poucos compradores para muitos produtores _ aliás, acho que um só comprador, a própria Ambev (chama-se, nesses casos, monopsônico, se alguém quiser saber ou estiver à procura de um bom nome para seu animalzinho de estimação). É claro que a fabricante de bebida estava com a chapinha e a garrafa na mão para decidir quanto pagar aos manauaras plantadores de guaraná.
O pessoal do Superflex, ao descobrir a exploração dos guarana farmers, decidiu comprar a semente dos caras, por até três vezes o preço do mercado, e produzir a bebida lá na terra deles, a Dinamarca _ onde fazem a beberagem desde 2003, pelo menos, e vendem para gente descolada que gosta de se meter com campanhas humanitárias.
Acontece que, além de um rótulo do tal guaranapower ser uma tarja negra sobre um design claramente identificável como o do guaraná Antártica, a marca Guaranapower já tem dono no Brasil, e é usada na comercialização de um desses energéticos bebidos pela garotada que ainda não descobriu as drogas, em noite de balada. Resultado: depois de meses de negociação, censuraram o guaranapower em sua apresentação paulista.
O que seriam cartazes do guaraná estão lá, na parede do terceiro andar, mas parecem agora posters com figurinhas pixadas, de aparência morandiana. E a idéia de vender a bebida pelos salões da Bienal foi abortada. (Matérias sobre o caso, nesse link AQUI, caso já não tenha clicado nele lá em cima). O pessoal da Galeria Vermelho, lá em Sampa, chegou a trazer umas latinhas, cujo conteúdo tem um gosto mais azedinho que o adocicado similar nacional.
Pelo jeito, a Ambev açambarcou o guaraná de Maués, comprando antecipadamente a safra dos caras. Estou curioso para saber o que aconteceu com a microindústria dos artistas dinamarqueses.

Como se aluga uma bicicleta, em Nova York? Essa era a dúvida do Cadão, fotógrafo do Estadão, de compleição avantajada e condições físicas que o impediriam de acompanhar o então recém-eleito presidente Fernando Collor na corrida que, sabia, o homem certamente faria no Central Park. Cadão, com seus quase 1,80 de circunferência, tinha a saída ideal para não perder as fotos do atlético e performático presidente: alugaria uma bicicleta, poderia até passar à frente dos outros fotógrafos, e garantiria imagens exclusivas do caçador de marajás, de cooper feito em pleno coração de Manhattan.
Eu trabalhava no jornal concorrente, e convalescia de uma hepatite, proibido de fazer exercícios pesados por um bom tempo. A idéia da bicicleta me pareceu bem aproveitável. No dia seguinte, instalados no Plaza, mesmo hotel do presidente (bons tempos, em que os jornais não eram tão mãos-de-vaca com o reportariado), conseguimos alugar nossas magrelas, com a ajudinha do correspondente do Estado, o Moisés Rabinovich, que nos emprestou o cartão de crédito (cartão internacional, nós? naquela época?). E nos postamos, desde cedo, à porta do hotel, à espera do Fenômeno. Logo, todos os outros fotógrafos também haviam alugado sua bicicleta.
Collor acordou tarde. Ao lado das bicicletas, começaram a se postar as charretes que fazem ponto no Central Park e foram alugadas pelas equipes de TV, na época compostas de pelo menos três pessoas, além do repórter (câmera, operador do VT, que era um trambolho externo à câmera, e assistente, ou pau-de-luz). Começava a se montar uma certa muvuca à porta de um dos hotéis mais afamados de NY. Ao meu lado, um sujeito simpaticíssimo, barriga um pouco proeminente, ar irônico e roupas de magazine popular, fazia comentários ácidos sobre a situação. Parecia uma versão extremamente inteligente de um dos inumeráveis repórteres de rádio free-lancers, sempre aparecidos não se sabe de onde nessas ocasiões. Até que percebi, quando Paulo Henrique Amorim se dirigiu ao cara, que eu estava ao lado de uma lenda andante, o tal Élio Gaspari. Naquela época também conhecido pelo respeitoso apelido de Deus.
Ainda sob o impacto daquela epifania, ouço um bafafá atordoante, uma agitação semi-histérica à volta e era ele. Collor, o poderoso, cercado de seguranças, todos de moleton, em disparada para a pista de corrida no Central Park, no saudoso ano de 1990 (ou seria 1991?). Entre as macaquices que faria na corrida estaria a deposição de uma flor no monumento a John Lennon, gesto acompanhado por uma gafe linguística, dita em tom solene: "give a piece a chance" . Os jornais, no dia seguinte, explicariam que "a piece", dita por Collor em vez de peace (paz), era uma gíria para órgão sexual feminino. Ou isso ou coisa parecida, minha memória não é lá essas coisas.
Mas estávamos no início da epopéia: sai o homem, e, atrás dele, corre o Mário Rosa, do JB, de terno e gravata, repórteres bufam em mangas de camisa (onde foi parar o Gaspari?), acompanhamos eu e a turma de bicicleta, as charretes, cavalos relinchando; o trânsito pára, um circo. Firme no pedal, ainda tive tempo de ouvir uma novaiorquina estupefata perguntar, a quem pudesse responder: "What is this? Who is he? (que é isso, quem é ele?).
Foi o Paulo Henrique Amorim quem salvou a honra nacional, gritando, por cima do ombro, para a moça:
"HE IS THE PRESIDENT! THE PRESIDENT OF ARGENTINA!"
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Tudo isso só para começar a contar algo que aconteceu ontem à noite aqui em Brasília, a palestra do nunca suficientemente louvado Ariano Suassuna, que revelou como decidiu criar cabras depois que um vizinho disse ser inútil essa coisa de literatura. E contou histórias hilárias de um alagoano muito mais interessante, o ex-prefeito de Palmeira dos Índios, Graciliano Ramos.
Mas o prólogo desviou-se, perdeu-se pela memória, ficou grande demais; depois volto, com o Suassuna.

O Idelber, no blogue dele, AQUI, levanta uma boa discussão, sobre a perda de qualidade dos cadernos culturais brasileiros, que o Hermenauta acredita ser decorrente da crise financeira dos jornais. Embora a economia possa estar por trás da decisão de cancelar, por exemplo, a publicação de a colunas como a do Slavoj Zizek, eu discordo do hermê, acho que a crise é de cultura mesmo, as redações se tornaram ambientes anti-intelectuais, onde impera o pragmatismo para publicar decisões que estarão em poucos dias no Diário Oficial; e as editorias de cultura cada vez mais se rendem a um jornalismo de lazer que reduz a diversão aos produtos da indústria cultural, no sentido apocalíptico do termo, se é que me entendem.
Os jornais, com algumas exceções, abdicaram da pretensão de formar os leitores, e, quando muito, querem empurrar mercadorias neles. Há, sempre exceções, como certas edições do caderno cultural do Estadão, alguns momentos da Folha e raras reportagens do Globo.
Mas discordo do Idelber e de alguns dos comentaristas, que lamentam não termos gente escrevendo hoje como tínhamos, por exemplo, no JB do Drummond, do Carlinhos Oliveira, do Rubem Braga. Discordo também sobre a tese de direitização da Folha nesse campo. Uma das melhores coisas do jornal é a coluna do Ferreira Gullar, comunista velho de guerra. O Veríssimo, há muito, deixou de ser apenas um humorista, e é um despretensioso filósofo do cotidiano, sem dever em nada aos colunistas do velho JB. Os velhos jornalistas do Estadão de domingo são leitura leve e rica. São poucas as cabeças, reconheço, mas estão lá, e por aí.
O mercado para um jornalismo cultural existe, como vejo, com espanto, pela quantidade de revistas dedicadas a História, a Filosofia e à Literatura. Mas ainda predominam acadêmicos, de textos empolados e pouco jornalísticos, de perorações herméticas por medo de fazer concessões à vulgaridade. São raros os jornalistas dedicados à cultura, com conhecimento e verve. No Correio Braziliense tem uma moça, a Nahima Maciel, que parece ser uma das raras jornalistas a falar com desembaraço e clareza sobre artes plásticas. Não temos no Brasil uma revista decente de arte; a Bravo belisca muito de mau jeito esse terreno.
Penso que a blogosfera seria um belo campo para a colheita de bons colaboradores da imprensa cultural, gente que escreve bem direitinho, com substância e humor _ coisa essencial para falar de cultura (pitada fundamental em textos de gente como Freud, Marx, Nietzche, Barthes, e que neuróticos como Foucault e Deleuze esmigalharam na academia, armados de textos gongóricos para seus noviciados). Além dos dois acima citados, por exemplo, fosse eu editor de Cultura, contrataria o Alex Castro. Se não por outros motivos, pela excelente resenha que fez de um livro do Silviano Santiago, que agora me sinto na obrigação de ler (qual? clique no nome dele, aí acima). Maldito Alex Castro; como se minha cabeceira já não estivesse lotada.
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Aliás, por falar no hermenauta, ele foi o único a reparar que, no recém-divulgado retrato de Jack, o estripador, a face do indigitado tem traços inconfundivelmente árabes. Troço esquisito mesmo. Vale ler o que ele comenta, LÁ.

Ligo a CBN e ouço o ministro Waldir Pires relatando as providência do governo para lidar com o apagão aéreo . Aprendi em Brasília: quando as autoridades começam a listar as providências que tomaram para resolver um problema é porque não conseguiram imaginar solução para ele.
Lembro da matéria excelente da Leila Swwan, na Folha, dizendo que menos de 3% dos controladores de vôo no espaço aéreo nacional falam inglês direito. Aprendem um básico, tipo the airplane is on the table, e mandam ficha nos ares azuis de anil da nossa pátria querida. Em casos extremos, o controle de vôo deve ficar parecido com diálogo de tele-atendimento: saiu do roteiro, a conversa resvala para o surrealismo.
"Hello control, hello control, we have an emergency here, I guess the crew is dead! The whole crew! The whole crew!!
"O que esse cara está dizendo, tenente Peixoto?"
"Parece que é uma emergência, alguém comeu algo cru. O cara parece em pânico"
"Deve ter dado um piriri na tripulação. Diz pro piloto se acalmar que a gente deixa o pessoal da limpeza a postos, na aterrissagem".
"Não vai dar, major. Como é pessoal da limpeza em inglês?"
O inglês é a língua franca das aerovias, o que permite a um piloto nicaraguense sobrevoar a China e pousar sem problemas no Casaquistão, trocando informações com as torres de controle no caminho. Se aqui enrolam no raudoiudu, fico imaginando como deve ser em Hong Kong, por exemplo, onde teoricamente todos falam inglês, mas os recepcionistas recomendam que a gente saia com o nome do hotel em chinês, num papelzinho, para que o taxista entenda o endereço de volta. Eu, que nunca tive medo de avião, agora não consigo mais desgurdar os olhos da janelinha.
_O que é aquilo???
_ É uma nuvem, relaxa.
_ Nuvem? Com luzinhas piscando??
_ Isso é um reflexo no vidro da janela.
_ E aquela sombra se aproximando à esquerda?
_ É a escada. Quer fazer o favor de se acalmar? Já pousamos há vinte minutos!
Saudades do tempo em que a única coisa que me dava calafrios era a comida de bordo.

Quando ter cabelo no peito deixou de ser um invejável sinal de masculinidade e passou a ser nojento? Não falo de exageros da natureza, como a florescente hiléia capilar no peito de um Tony Ramos, mas queria que alguém me explicasse para onde foram os heróis de tórax hirsuto, como o Sean Connery, que enfrentava perigos de peito aberto e vaidosamente cabeludo.
O atual James Bond, suspeito, não tem pelos nem nas axilas.
Na minha adolescência, um primo chegou a aparar as pontas de cabelo e colar no peito (dele, claro), na esperança de enganar o porteiro do cinema e ingressar no universo proibido a menores de 18 anos. Naquele século em que vivíamos, um dos primeiros sinais de maturidade emergia dos bulbos capilares espalhados pelo peitoral dos jovens varões.
Agora, quem está prestes a completar os 18 é meu filho, que não se conforma com os pelos espalhados pelo corpo, parte integrante da herança genética dele. Com dificuldade, aceita a idéia de que a pilosidade que lhe transmiti com meus gametas não vai se limitar às pernas _ as dele, aliás, já bem cobertas há alguns anos por espessa proteção contra os raios solares. Admito que os das minhas costas não são lá muito agradáveis de se ver, mas, para quem não pretende entrar em nenhum campeonato de natação, não vejo por que ele se precipitou tanto, e chegou ao extremo de se depilar, meses atrás. Todos os amigos estão se depilando, garante.
Bem feito, ficou todo empolado, coisa muito mais esquisita.
Decidido a não mais usar barba, e confirmado em ver a progressiva debandada dos cabelos que trago cada vez mais ralos na cabeça, eu pensava que, em alguns anos, poderia inspirar respeito pelos meus cabelos brancos desabotoando ligeiramente a camisa. Vejo, pelo pavor do meu filho, que logo só vou provocar caretas, por esse traços corporais que só me fazem sentir, cada vez mais, um homem de outro século, elo perdido na cadeia evolutiva da espécie a qual já pertenci.
É evidente que essa cruzada contra os pelos masculinos é mais um ataque da globalização neoliberal aos valores fundamentais da pessoa. Comércio é o nome da coisa. Tudo começou com o poder absoluto concedido aos estilistas, essa figuras estranhas que ditam a moda e, invariavelmente, se vestem como fugitivos de um manicômio para daltônicos. Como já havia identificado o Paulo Francis, esses senhores, dotados de produnda aversão pela figura feminina, se esmeraram, a princípio, por transformar todas as modelos em efebos, pessoas ligeiramente assexuadas e assemelhadas a rapazotes imberbes.
A fixação pela magreza, que vem matando moças desorientadas, começou como parte de uma estratégia de androginização da mulher, pela extirpação do que ela teria de mais característico, os seios e a bunda. (minha implicância contra a Gisele Bundchen vem daí: embora ela tenha vencido galhardamente a sanha anti-peitos dos figurinistas, só com uma pronunciada lordose consegue mostrar alguma proeminência nos glúteos; deve ter cavalares dores nas costas). Da conquista e anulação do corpo feminino ao aniquilamento dos caracteres sexuais secundários mais fortemente ligados à masculinidade foi um pulo. Ou alguns pulinhos, sei lá. O fato é que decretaram a obsolescência do homem peludo.
Por mim tudo bem, minha mulher não me autoriza nem a depilar as costas. Mas não podiam ter feito isso com meu filho.
2º Clichê: o bom Bicarato descobriu, e conta aí nos comentários, que, de alguma maneira, eu e o Gianni Carta estávamos conectados, e chegamos a lugares parecidos por vias diferentes. Ó o que ele diz na Carta Capital:
"Neste mundo globalizado, no qual o politicamente correto manda e desmanda, James Bond não é mais o mesmo: deixou de ser mulherengo, apaixona-se perdidamente, perdeu o mordaz british sense of humour. Pior: a cena principal de Casino Royale, filme já em cartaz aqui em Londres, não é nada comparável àquela de Ursula Andress emergindo de biquíni do mar, em 007 Contra o Satânico Dr. No. E nem àquela de Halle Berry num remake da mesma cena, em Um Novo Dia para Morrer. Desta feita, é o próprio recém-inaugurado 007, o ator Daniel Craig, de 38 anos, quem encarna Ursula. Fortão, torso depilado, ele é... a moça do filme. "
Não que eu assistisse os antigos 007 para ver o peito peludo do Connery. Bom, o resto do artigo, AQUI.

Foi o Bicarato quem garimpou esse troço, no site da revista da Língua Portuguesa. Um texto em que a palavra "coisa" aparece 114 vezes, negócio saborosissimo, que eu pretendia cortar e colar aqui neste Sítio mas fui impedido por algum programa do UOL. Conta como a palavra coisa é um "bombril" do idioma, que pode servir de adjetivo, substantivo, adverbio e até verbo, e significar coisas tão diferentes quanto os órgãos sexuais e um cigarro de maconha. Coisa de louco.
Fico aliviado em saber que a Marta não é a única pessoa a encarregar os interlocutores _ preferencialmente o marido, no caso eu _ de tarefas tantalizantes como "coisar essa coisa aí".
O autor do delicioso texto, que está nesse link AQUI, chama-se Franciscarlos Diniz.
Que coisa, sô.

Ainda o caso dos senadores que querem botar tabuleta e canga nos internautas: nesta semana, no Observatório da Imprensa, na TV Educativa, o senador Eduardo Azeredo se dispôs a defender o malsinado projeto. Abriram para perguntas dos telespectadores. Um amigo meu ligou em seguida, e, com base no que apontou o sempre indispensável Idelber Avelar, AQUI, perguntou:
_ Se era verdade que o projeto iria aumentar o mercado das empresas certificadoras digitais.
_ Se uma dessas empresas não seria a Scorpus, onde o senador já trabalhou, e que financiou a campanha dele, com R$ 150 mil.
No vídeo, alguns minutos depois, citaram meu amigo, e repetiram a pergunta. Só que beeem censurada; caparam as referências à Scorpus, aos R$ 150 mil, e só botaram a bola no montinho do artilheiro para o senador chutar: "senador, o que diz das acusações de que seu proejto atende ao lobby das certificadoras digitais?".
"Isso é um absurdo, blablablabla", respondeu, tranquilo, o senador. Tranquilo como quem sabe que não vão lhe fazer nenhuma pergunta embaraçosa...

Da minha coluna, hoje, no Valor:
É mais que precipitado afirmar que os Estados Unidos saíram mais protecionistas das eleições da semana passada, em que os democratas ganharam maioria no Senado e na Câmara, carregados pela onda de impopularidade do governo George Bush e de denúncias contra os republicanos. A política comercial dos Estados Unidos, tal como vem sendo executada, é fruto de forças além dos partidos, ou, como disse a própria representante comercial da Casa Branca, Susan Schwab, em conversa telefônica, na sexta-feira, com o ministro Celso Amorim: é "bipartidária".
Schwab, na prática a ministra de Comércio Exterior dos EUA, não disse uma novidade. Ela própria, na última visita ao Brasil, já havia antecipado que, fosse qual fosse o resultado eleitoral, pouca coisa mudaria na política comercial americana. Por isso os radares em Brasília captaram sem muita emoção a manifestação das urnas nos EUA, concentrados que estão em identificar outro movimento muito mais relevante: a discussão para a nova Lei Agrícola americana, a Farm Bill, a ser apresentada e votada no Congresso no início de 2007. O lobby agrícola é que preocupa o governo brasileiro, e com razão.
Nesse campo, as notícias das últimas eleições não são nada promissoras. É do setor rural que sai a maior pressão contra maior abertura comercial americana e esse lobby não tem partido, como reconhece implicitamente o Executivo dos EUA.
O resto está AQUI.

Saiu no Estadão:
08 de novembro de 2006 - 16:52
Mantega cancela participação em reunião do G-20
O ministro da Fazenda não explicou o motivo do cancelamento
Adriana Fernandes
BRASÍLIA - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, informou nesta quarta-feira que decidiu cancelar sua participação na reunião do G-20, que seria realizada na próxima semana em Melbourne, na Austrália. Mantega, no entanto, não explicou o motivo do cancelamento. O ministro deixou na tarde desta quarta o Ministério da Fazenda para participar, no Senado, de reunião com os líderes sobre a Lei Geral da Pequena e Média empresa. Alegando estar atrasado para a reunião, o ministro não quis dar entrevistas.
A autorização do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o ministro Mantega viajar à Austrália foi publicada na edição desta quarta do Diário Oficial da União. Ele participaria da reunião de ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais dos países do G-20 (grupo de 20 países em desenvolvimento que inclui o Brasil).
E tem mais:
segundo apurou este blogue, o ministro já mandou buscar uma comadre. não pretende levantar da cadeira de jeito e por motivo nenhum, até fevereiro do ano que vem.

"É, vamos ter de chamar outro senador para tocar essa pauta pra frente".
Considerando que o aumento da criminalidade se beneficia da incapacidade da polícia em diferenciar cidadãos de bem dos marginais, nas ruas;
Considerando que a liberdade para as pessoas irem e virem anonimamente dificulta ainda mais o trabalho policial, e, portanto, abre portas ao crime;
Considerando que é precária a habilidade investigativa da polícia;
Decreta-se:
1)De hoje, em diante, antes de entrar em banco, trocar mensagens na rua,andar por vias de grande movimento ou freqüentar lugares onde outras pessoas possam portar valores, cada cidadão brasileiro estará obrigado a informar, à delegacia policial mais próxima, sua saída de casa e seu destino, e a portar uma tabuleta que permita à polícia acompanhar seu trajeto.
2)Os que quiserem reduzir o incômodo da comunicação diária poderão obter certificados em cartório, por preço módico.
3)Os pobres ou incapacitados de fazer a comunicação em tempo hábil ou de obter o certificado acima mencionado serão probidos de circular, a não ser em locais previamente determinados.
4)Essas regras não valerão para pessoas portando passaportes estrangeiros, ou vinculados a Embaixada de outro país.
Revogam-se as disposições em contrário, à exceção das que aumentem a burocracia no trânsito dos cidadãos, pelo bem da segurança.
Troque "embaixada" e "passaporte" por provedor, e é mais ou menos ISSO que certos esclerossauros pensam em fazer com a Internet brasileira, nesse momento, no Senado.
Cartas para o senador Eduardo Azeredo , o entusiasta dessa contribuição cibernética ao bestialógico nacional.
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Segundo clichê: o projeto lazarento seria votado nesta quarta-feira e foi retirado de pauta a pedido dos senadores Patrícia Sabóia e... Antônio Carlos Magalhães. O PSDB poderia ter passado sem essa.
TERCEIRA EDIÇÃO: Como indica o João, nos comentários aqui embaixo, já criaram até um portal contra o projeto. É esse AQUI. O projeto saiu de pauta, mas, já dizia Emir Sader, o preço da liberdade é a eterna vigilância.
Com a greve dos controladores de vôo, está claro que há algo de podre no ar, que ameaça os aviões de carreira. Mas coube à intrépida Eliane Cantanhede a revelação de que os pilotos que abateram o Boeing da Gol estavam na altura em que estavam por ordem das torres de controle de tráfego aéreo do Brasil. NOSSAS torres de controle, do NOSSO Brasil.
Em minha recente adesão ao jornalismo insinuativo, ia eu comentar que essa greve dos controladores parece menos uma ação reivindicatória e mais uma forma de pressionar o governo para livrar a cara dos pobres colegas que podem ter colaborado para o maior acidente de aviação da História do Brasil. Mas alguém disse isso antes.
Uma coisa só é certa: acho que tem muita gente aí devendo pedido de desculpas ao Joe Sharkey .

