
Ligo a CBN e ouço o ministro Waldir Pires relatando as providência do governo para lidar com o apagão aéreo . Aprendi em Brasília: quando as autoridades começam a listar as providências que tomaram para resolver um problema é porque não conseguiram imaginar solução para ele.
Lembro da matéria excelente da Leila Swwan, na Folha, dizendo que menos de 3% dos controladores de vôo no espaço aéreo nacional falam inglês direito. Aprendem um básico, tipo the airplane is on the table, e mandam ficha nos ares azuis de anil da nossa pátria querida. Em casos extremos, o controle de vôo deve ficar parecido com diálogo de tele-atendimento: saiu do roteiro, a conversa resvala para o surrealismo.
"Hello control, hello control, we have an emergency here, I guess the crew is dead! The whole crew! The whole crew!!
"O que esse cara está dizendo, tenente Peixoto?"
"Parece que é uma emergência, alguém comeu algo cru. O cara parece em pânico"
"Deve ter dado um piriri na tripulação. Diz pro piloto se acalmar que a gente deixa o pessoal da limpeza a postos, na aterrissagem".
"Não vai dar, major. Como é pessoal da limpeza em inglês?"
O inglês é a língua franca das aerovias, o que permite a um piloto nicaraguense sobrevoar a China e pousar sem problemas no Casaquistão, trocando informações com as torres de controle no caminho. Se aqui enrolam no raudoiudu, fico imaginando como deve ser em Hong Kong, por exemplo, onde teoricamente todos falam inglês, mas os recepcionistas recomendam que a gente saia com o nome do hotel em chinês, num papelzinho, para que o taxista entenda o endereço de volta. Eu, que nunca tive medo de avião, agora não consigo mais desgurdar os olhos da janelinha.
_O que é aquilo???
_ É uma nuvem, relaxa.
_ Nuvem? Com luzinhas piscando??
_ Isso é um reflexo no vidro da janela.
_ E aquela sombra se aproximando à esquerda?
_ É a escada. Quer fazer o favor de se acalmar? Já pousamos há vinte minutos!
Saudades do tempo em que a única coisa que me dava calafrios era a comida de bordo.

Isso é grave. Deviam exigir inglês fluente, perfeito, dos controladores de vôo.Eu também noto que vários comissários de bordo brasileiros têm uma pronúncia horrível. Mas nesse caso não é tão crítico quanto no dos controladores de vôo.
Sabem o problema não é a pronúncia das palavras propriamente. Se o grande problema em falar uma língua estrangeira fosse a pronúncia, bastaria treinar um pouco a pronúncia das palavras. E pronto estava tudo resolvido. A questão é sempre a entonação, pois ninguém fala por palavras, mas sim por frases, juntando palavras. A entonação, que é o marcador musical do ritmo da frase, é que diz ao cérebro do ouvinte onde está começando e terminando um palavra em meio a frase, fazendo com que o cérebro decifre tanto as palavras quanto o significado da frase. É a entonação absolutamente diversa que nos torna incompreensíveis os lusitanos "carregados", por exemplo, não a pronúncia. É também, por não serem - por enquanto ao menos - capazes de perceber entonação que os computadores não conversam com ninguém. A entonação dessa pessoal das companhias áereas é atrozmente errada, logo o que dizem é via de regra incompreensível.a) Joaquim Dantas.